sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A MORTE ANUNCIADA

.Fotografia de João Sargo
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Sentado em frente ao lume, Felismino ouvia o silêncio. Do curral vinha o eco quase imperceptível de meia dúzia de cabras que, para além da companhia, proporcionavam ao velho o leite necessário para fazer um ou outro queijo.
Às vezes sentia a falta de dois dedos de conversa, mas habituara-se à solidão dos montes e à companhia dos animais. Os últimos habitantes da aldeia tinham partido ia já para cinco anos, e desde então vivia ali sozinho. Queriam à viva força que fosse com eles, que havia de se arranjar jeito de ficar num lar, mas ali era a sua casa. Ali nascera e ali haveria de morrer. Nunca chegara a casar, e não havia nada fora daquele mundo que chamasse por ele.
Tirou da panela o caldo acabadinho de fazer, encheu uma tigela e esperou que arrefecesse um pouco. Lá fora ouvia-se agora o ladrar dos cães, mas não ligou. Era bicho, com certeza, pois por ali não passava vivalma, a não ser um ou outro caçador de tempos a tempos.
Bastava-se da horta e não precisava de muito. Uma vez por mês ia à vila para receber a parca reforma e, entre dois copos na tasca do Pinto, aproveitava para se abastecer de arroz, açúcar, sabão, umas latitas de conserva e pouco mais.
Há dois anos chegara a ter a companhia duns alamães que para ali vieram viver, à espera de encontrarem não se sabe bem o quê. No princípio pareciam entusiasmados, mas fora sol de pouca dura. Conforme chegaram, assim partiram. Não estavam preparados para aquilo, o bicho homem precisa da companhia de outros homens.
Acabou de comer e foi até lá fora. A noite estava fria e adivinhava-se geada. Apertou melhor o casaco e foi espreitar as cabras, aninhadas no curral. Estavam sossegadas. Depois puxou da onça e começou a enrolar um cigarrito, companhia solitária de todas as noites.
A morte não o preocupava. Sabia que tinha que ir um dia, e já tinha vivido o suficiente para aceitar o inevitável. Queria deixar os ossos naquele ermo, onde os animais nasciam e morriam respeitando a ordem natural das coisas. Era assim que entendia o mundo.
No céu via-se o brilho dalgumas estrelas. Apagava o cigarro quando os cães, sentindo algo no ar, começaram a emitir um uivar desassossegado. Tinha chegado a hora de, na rua deserta, as sombras dos antigos habitantes ensaiarem a sua dança lúgubre.
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Reedição
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63 comentários:

  1. AC, que narrativa primorosa! Adorei seu conto. Senti o cheirinho do caldo e o vapor que emanava.[rs] Só fiquei com um pouquinho de medo quando os cães ladraram, deu arrepios com a provável aproximmação dos antigos habitantes.
    Por outro lado, a calma e a resignação de Felismino , que me parece "feliz" de ter permanecido na solidão, me tranquilizou. Há pessoas que se sentem bem vivendo desprendidas da civilização. Devem ter seus motivos, não é AC? Viajei no seu conto.
    Parabéns, amigo talentoso.
    Um beijo de boa noite!

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  2. adorei esse texto..
    a gente pode sentir e visualizar tudo descrito aqui..
    perfeição...
    bjok

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  3. final transcendente! escreves muito bem também contos, além de poesia. Que maravilha!

    Bjs!

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  4. Oi AC....
    Que viagem...adorei...como vc descreve!

    Adorei o personagem...

    Bjos!!!

    Zil

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  5. Perdoe-me a ironia, mas que bem faria ao Felismino ter um blog ;)
    Muito bom conto, tenho de passar cá mais vezes!
    Abraço,
    Madalena

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  6. É "o destino" deste nosso interior desertificado que, políticas erradas e maldosas, fazem deste pequeno rectângulo uma assimetria que mais parece um condomínio de luxo fechado, a viver paredes-meias com um bairro de lata.
    Que se há.de fazer. Cada povo tem os governantes que merece. Se calhar é o que merecemos, pelo menos os Felisminos deste País.
    Um abraço amigo.
    Caldeira

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  7. AC

    O retrato de um país desertificado que a maior parte esquece ou nem sabe que existe.
    Um país esquecido, eternamente esquecido. Agora, como outrora, onde a vida sempre seguiu a ordem natural das coisas e onde, felizmente, sempre houve uma horta, um caldo a fumegar, umas cabras generosas e os cães a anunciarem, ontem as chegadas, hoje, as partidas.

    Um texto que é um documento, daqueles que nos fazem estremecer por dentro , como o uivo dos cães.

    Um beijinho

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  8. AC, no seu texto, cada frase, cada ponto, cada virgula, têm razão de ser. Estão no lugar certo, criando um novelo que ao mesmo tempo que o desenrolamos vamos nele ficando presos. É assim a sua escrita, envolvente, sedutora e apelativa.
    Obrigada por partilhar!

    Bjos
    MariaIvone

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  9. O texto tem a beleza de uma solidão contada.
    Não compreendo esta solidão mas, às vezes, dá vontade deste eremitismo.

    Possivelmente este senhor é um filósofo à sua maneira.
    Gostei. :)

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  10. Que bela prosa, o bicho homem, precisa de outros homens, mas também é o bicho que mais se adapta às situações, a solidão.
    Adorei a imagem.

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  11. Fiz um passeio no tempo... e como minha imaginação vai longe, me senti olhando tudo de perto! perfeito!

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  12. AC MEU BEM
    MUITOS AINDA FAZEM A ESCOLHA DE Felismino DE VIVER SO E EM SILENCIO, NAO SEI SE EU AGUENTARIA MAS TEM MOMENTOS QUE E BEM FICAR SO .
    A morte anunciada e o adeus não dito
    BJIM VC NOS TRATA COM MUITO CARINHO
    BOM FINAL DE SEMANA E ME VISITA SEMPRE

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  13. obrigada!

    também gostei muito dos descaminhos que encontrei por aqui.

    abraço,

    i

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  14. Nossa! Que delícia de texto, me vi nele sabe? Sempre senti essa necessidade do campo, os bichos, o silêncio nas horas, a brisa cantando sobre a noite nos dias. Necessidade de uma entrega bonita na profundidade desse paraíso, tudo me pareceu tão conhecido, como se de alguma forma eu também tivesse vivido tal beleza.
    Lindo , muito, muito lindo.
    Bjinho.

    Fernanda.

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  15. Seu texto sempre tão inspirador. Aprendo muito contigo!

    Em relação ao comentário que deixou no DIÁLOGOS lhe digo que a poesia é sempre a grande inspiração. Pessoas são meros ornamentos, pelo menos em minha poesia. Tomara que, algum dia, alguém se personifique em meus versos.

    Tenha um magnífico final de semana!!!

    Beijo grande!!!

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  16. Um conto bonito, cheio de solidão e lição de vida.

    Bjs*

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  17. Oi AC...

    Quero lhe agradecer pelo comentário no meu post...foi precioso!

    Obrigada!

    bjos!

    Zil

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  18. AC,
    este texto maravilhoso, retrata plenamente, o interioridade, do nosso pequeno retângulo. Adorei o texto!
    Beijinhos

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  19. Oi AC
    Obrigada pela passadinha e o comentário. Gostei muito dos poemas que aqui encontrei , outro arrumador de palavras , um poeta , que beleza!
    O texto merece continuação é enternecedor e interiorano , quase sinto o cheiro do caldinho e o balir das cabras .
    Volto e sigo-o, sempre que puder.
    abraços

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  20. Bastante sintetizado
    Bom final de semana!
    =)

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  21. Como uma onda quebrando, como um vento noroeste, como o sol se pondo, como as fases da lua... naturalmente. Morrer assim é apenas continuar um caminho, mudar de estação...
    Muito lindo o texto, emocionante.
    Parabéns.
    Um fds sensacional pra vc.
    Beijos.

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  22. A sensação é exatamente como alguém descreveu aqui, a de estarmos vivenciando à medida que vamos lendo o texto.

    Belíssimo!
    Bom fim de semana, beijos.

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  23. Texto belíssimo, AC!
    Como gosto desse seu jeito direto, descomplicado de narrar histórias...
    Você consegue traduzir perfeitamente o que vai na alma do personagem , penso eu, e me encanto com este fato.
    Conto lindo, lindo...
    Quero ler muitas outra vezes!
    Grande abraço, todo entremeado de gratidão pela visita que me fez...

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  24. Este texto eu já conhecia. Relê-lo é um prazer. É bom sentir este espaço já com alguma noção de familiaridade. Ainda que nem sempre comente, nunca deixo de acompanhar.

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  25. "O bicho homem"...!?
    Seria homem? Seria bicho? Um e outro? Os dois.
    Seguí tua narrativa, pé, ante-pé, devagarzinho,
    sentindo todos os cheiros, todos os ruídos. Cheguei a ver as estrelas, tão luminoso era o seu brilho, mas de repente...!?
    Um "final" que me sacudiu, que agarrou-me fortemente pelos ombros como a dizer-me: ACORDA!
    E a vida, como dizia Gonzaguinha, "e a vida, diga lá o que é, meu irmão?"!

    Beijooo

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  26. Ainda não conhecia teus contos.
    Não fiquei surpresa, porque conhecendo a tua arte de escrever poesias, no conto certamente serias genial.
    A imagem é linda, e tua narrativa é tão pungente que emociona.
    Beijos

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  27. Excelente, AC. As tonalidades sombrias do fantástico que pouco a pouco se instauram no conto, prenunciadas pelo titulo que nos remete de imediato à grande novela de Garcia Marques, remeteu-me também a outras obras-primas do gênero, como os romamces brasileiros Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, e o menos conhecido mas extraordinário "Vento do amanhecer em Macambira", de José Condé, assim como e sobretudo ao pioneiro "Pedro Páramo", do mexicano Juan Rulfo, no qual os personagens com seu linguajar e modo de vida característicos do meio rural são decerto da mesma grande família do teu Felismino.

    Um abraço

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  28. na desordem

    pouco natural das coisas

    Felismino não está só

    tem o eco perdido dos meninos no recreio da escola

    as canções e as danças dos dias da festa que não há

    o cheiro ausente do pão quente no forno da aldeia

    e tantos Felisminos

    no coração das cidades sem jovens
    nos prédios de muitos andares
    em que andar até já nem se anda

    e quem dançará connosco um dia?

    AC

    a sua morte anunciada
    faz-nos pensar

    como seria bom
    anunciar a morte de um esgotado paradigma!

    obrigada!

    um beijo

    Manuela

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  29. Bem contado e de narrativa envolvente. Parabéns. :)

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  30. Felismino existe...está aí em algum lugar desse imensa terra. Tem vida, eu conheci uma Felizmina...existem muitos sim, e você o trouxe muito real, ele e a paisagem ao seu redor. Muito boa escrita...
    Abraços,

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  31. Mergulhei inteiramente no texto.Muito bom.

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  32. Este comentário foi removido pelo autor.

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  33. Conto primoroso. Mergulha-se prazerosamente em sua atmosfera entre o real e o fantástico.

    Bjs, AC, e inté!

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  34. Conto maravilhosamente simples e real, sobre morte anunciada de tantos (demasiados!) "Felisminos" espalhados por esses ermos fora! E vão ser ainda mais, parece: com o encerramento de tantas escolas, a natalidade, já tão reduzida, irá acentuar-se!...
    Não conhecia este conto, ainda bem que reeditou.
    Abraço

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  35. Olá AC!

    Lindamente contada - até na imagem dos cães que uivam - uma realidade que aos poucos vai deixando de o ser.Os Felisminos deste país têm os dias contados, e em passo acelerado por tudo o que (não) vão fazendo estes governantes que temos tido.Uma parte do país será "deserto", só comparável ao deserto de ideias que o tem permitido e fomentado; é triste, mas é inevitável.

    Gostei muito.
    Uma abraço.
    Vitor

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  36. Poxa cade o resto????ahhhh isso e maldade rsrss justamente quando estava la dentro da historia ja, lado a lado com o Felismino...cade?cade o resto da historia??nao me deixe na mao....

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  37. querido AC,
    sempre coisas lindas por aqui
    apenas aproveitar e sentir o momento....
    um otimo final de semana com bjos meus...obrigada pelo carinho!

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  38. Triste, mas faz parte desta história.

    Lindo, deixo-te meu beijo e carinho especial

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  39. AC:
    tens algo no Em@
    volto depois para comentar. :))
    beijo

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  40. Com todos os Felisminos do interior português, se calhar dava para constituir uma aldeia bem povoada, uma vila talvez...

    Leituras sempre maravilhosas neste sítio. :)

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  41. Nossa, surpreendente, lindo demais!

    beijos, parabéns pelas palavras!

    :*

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  42. Porque as pessoas insistem em nos ensinar um modo de vida diferente do nosso ritmo onde somos felizes?

    Ele era feliz, senti.

    beijos

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  43. AC,

    Encantada pela beleza poética explícita em cada postado teu!
    (Belo blog!)

    Parabéns!

    Um conto perfeito,um final esplendoroso!
    (Às sou um pouco Felismino...)

    Um abraço, Marluce

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  44. Ola ,adorei o conto parabéns.
    Ja estou a seguirte
    Beijinho bom fim de semana

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  45. AC,

    Há um selo (desafio) no meu blogue à tua espera.

    Beijo

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  46. O luto deveria ser menos doloroso, uma vez que a morte avisou.

    bjs
    Insana

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  47. Fiquei com o coração a bater descompassado!
    Gostei do conto e do estilo...

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  48. Boa noite,
    ainda há quem viva assim, na paz do campo e com a beleza natural do pensamento.
    Bonito conto!

    Grata pela visita,
    Beijinhos,
    Ana Martins
    Ave Sem Asas

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  49. Ao ler o texto fui mergulhando na ambiencia! que pena quando cheguei ao fim...que maravilha!
    Bjs

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  50. Maravilhoso texto. Quanta expressão. Na leitura me transportei, vivi e vi quadros de então.
    Solidão, mesmo sem prosa, se enche de versos, mas sequer se desemborca nos escritos.
    Um viver de mudez e um morrer calado, como se fosse o começo o retrato do fim...

    Parabéns!

    Feliz Domingo

    Bjs

    Livinha

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  51. Nossa, excelente. Palavras bem dispostas... Adorei.

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  52. Olá AC, excelente narrativa! Infelizmente é a realidade de um país moribundo.
    Beijinhos
    Boa semana

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  53. É quase "tocável" o silêncio.
    E aqueles que são obrigados a abandonar as casas nunca mais se encontram porque, como as ervas, temos raízes e elas precisam da terra.
    A desertificação é algo assustador. Este maravilhoso texto mostra-nos uma das faces negras do problema.
    Custa ver o desinteresse dos responsáveis...

    L.B.

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  54. A tua narrativa nos faz sentir dentro do texto. Parabéns. Carinhosamente Óleo.

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  55. Oi AC,
    Que texto lindo! Realmente nos 'puxa' pra dentro a ponto de ouvirmos o ladrar dos cães!
    O texto todo me impressionou, mas esse trecho...

    'A morte não o preocupava. Sabia que tinha que ir um dia, e já tinha vivido o suficiente para aceitar o inevitável. Queria deixar os ossos naquele ermo, onde os animais nasciam e morriam respeitando a ordem natural das coisas. Era assim que entendia o mundo'.

    Ainda estou processando...
    Beijo grande e uma ótima semana!

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  56. Existem assim aldeias se não com um único ser, com muito poucos sem crianças, mas como diz o teu texto viveram aí toda a sua vida.
    Bj

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  57. Olá AC,

    Que inveja tenho do Sr. Felismino...nunca saiu dali, ali era a sua terra...
    Gostei muito da maneira como contou a história, viagei no tempo e quase senti o aroma do caldo do pote, e o cheiro fresco do orvalho...

    Bjs dos Alpes

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  58. Adorei o texto!
    Porém achei triste, a solidão sempre é algo triste!
    Fico com pena ao pensar em pessoas que vivem sem companhia...
    Obrigada por passar pelo Costurando Estrelas.

    Um beijo =*

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  59. AC, que texto maravilhoso! quando terminei de ler, precisei de uns segundos para ter certeza de que não estava lá, naquela aldeia.

    beijos

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  60. Gostei. Muito.

    Toda a descrição é tão viva que se pode ouvir a noite, cheirar o rebanho, palpar o silêncio.
    Gostei da resignação serena de ser só e saber voltar a ser pó sem metafisica.
    Gostei do final, inesperado, mas revelador de uma fronteira entre dois mundos que se tocam e se esbatem em locais como esta aldeia abandonada.

    Um beijo

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  61. Narrativa bela, triste, paupável...
    Desperta os sentidos!
    Adorei teu modo de escrever, de contar.
    Muito prazer em conhecer!
    cumprimentos,
    li

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  62. AC, querido. Reparei sim, mas quis te dar com carinho.
    Bom eu sei desculpa e... Com certeza levou mesmo, porque te gosto muito.

    Outro beijão para te

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