quarta-feira, 29 de setembro de 2010

QUANDO CHEGASTE

.Luís Videira, Zorbas na Torre de Hamburgo
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Quando chegaste
Ao entardecer
Já as gaivotas tinham partido
Ainda falaste
Baixinho
Da frescura das madrugadas
Mas parte de mim
Em voo planante
Tinha ido com as aves
E a outra
Cúmplice
Iniciara o desatar dos nós.
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Quando chegaste
Ao fim da tarde
Só restava a minha ausência.
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domingo, 26 de setembro de 2010

QUANDO AS COISAS TINHAM NOME...

.Imagem tirada da Net
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Saltitava nas pedras
Pé ante pé
Para lá do ribeiro
E o canto do melro
Apelo irresistível
Conduzia os anseios
Do pequeno potro
Na descoberta genuína
Da vida em harmonia
Temperada em odores
De giesta e rosmaninho.
Não havia temores
Nas esguias veredas
Que levavam ao pinhal
E o mundo lá longe
Era aqui tão perto
Num fervilhar de vida
Em vão escondida
Em pleno céu aberto.
Sentia a voz da mãe
Inquieta com a cria
Mas os dias eram seguros
Na pacatez do lugar
Num mundo natural
Encostado às montanhas
Em que o nome das coisas
Forjado pelos deuses
Em feitiço profundo
Ainda era o mesmo
Das palavras ditas
No primórdio dos dias
Da criação do mundo.
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Reedição
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

OS AMANTES ETERNOS

.Hélio Cunha, Os Amantes Eternos
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Descobriram-se na solidão de cada um. Aproximou-os a distância que sentiam em relação aos outros, a impossibilidade de serem um entre tantos. Uniu-os a simplicidade de serem o que eram.
À medida que caminhavam, reforçando laços e utopias, impressionava-os a grandeza das coisas. Quanto mais viam mais se sentiam partícula ínfima. Mas tinham-se um ao outro, frágeis actores dum universo em expansão. Apesar da grandeza que os rodeava, sentiam o calor das mãos. E, na imensidão da beleza inexplicável, era quanto lhes bastava.
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sábado, 18 de setembro de 2010

TRAILER DE UM FILME ANUNCIADO

.Victor Lages, Anjo Adormecido
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Cansado de tanto labor, o anjo da terra adormeceu, soltando as amarras onde fora tecido o ténue fio do equilíbrio.
E dorme tão profundamente que, quando despertar, não irá reconhecer o mundo. Apesar de uma ou outra ilha de esperança, aguarda-o um enorme pesadelo.
Em exibição, muito em breve, no planeta Terra.
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O PESCADOR DE PÉROLAS

.Hélio Cunha, O Pescador de Pérolas
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Quando descobriu a sua primeira pérola, a sensação foi de júbilo. Fruiu-a por uns tempos, e partiu em busca de mais.
À medida que as ia descobrindo, sentiu a necessidade de entender a sua formação. E começou a olhar as pérolas com outros olhos.
Diziam-lhe que se deveria contentar com o facto de as ir descobrindo, de agradecer a dádiva, de viver o presente. Mas, apesar de agradecer, não era essa a sua forma de o viver. Queria entender, perceber por inteiro. Queria ter acesso à melhor flor da criação: conhecer, ainda que num vislumbre, os fios com que fora tecida. Então sim, faria sentido dar corpo à cabana num qualquer lago, numa qualquer floresta imaginária, onde as estrelas o tratariam por tu.
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Normalmente, quando confecciono este tipo de textos, a escrita surge de um só fôlego. São cinco minutos em frente do computador em que, após abrir a porta, as palavras saem conforme a circunstância. São textos, pois, em estado bruto, sem qualquer preocupação de coerência. Daí colocar-lhes a etiqueta "bloco de notas".
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domingo, 12 de setembro de 2010

ARGUMENTO PARA UM INTERVALO DIFERENTE

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Na escola vive-se a azáfama do intervalo. Num cantinho do recinto do recreio, resguardado de outras brincadeiras, o Pedro escava na terra. De repente, após um gesto mais convicto, do buraco sai um pequeno raio de luz. Curioso, o Pedro escava com mais força. Mais um, dois, três golpes, e o brilho alastra a todo o recinto.
As brincadeiras param. Lentamente, num misto de curiosidade e desconfiança, os pequenos figurantes dirigem-se para o local da fonte luminosa. Então, qual filme animado, sete sorridentes formigas saltam do buraco e, a um sinal da líder, a do meio, iniciam uma coreografia hilliwoodesca, entoando em simultâneo:
..........É tempo de parar!
..........É tempo de folgar!
..........Vamos lá meninos
..........Não parem de saltar!
Depois, após um solo de sapateado da chefe, entoam em uníssono, de antenas em riste:
..........E quem não salta, não é da malta!
..........E quem não salta, não é da malta!
E toda a gente saltou, transformando o recreio numa festa ainda maior que o habitual.
A Teresa, a auxiliar, esfrega os olhos para acreditar no que está a ver. Estaria a sonhar?
Quando volta a olhar, os pequenos continuam a brincar como sempre fizeram: uns saltam à corda, outros jogam às apanhadas, outros à bola... Só o Pedro, no seu cantinho, continua a escavar o buraco, à procura não se sabe bem do quê.
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Reedição
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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

EM BUSCA DO FUTURO

.Hélio Cunha, Viagem
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Eram nómadas por convicção.
Traziam consigo, coladas no dorso, conchas de outras eras, medalhas naturais adquiridas no seu viajar.
Vislumbraram há muito o padrão das estrelas, mas continuavam sem encontrar a correspondência nos seus passos. O claro-escuro continuava a intrigá-los, por mais profundo que fosse o seu mergulho.
Tentaram de todas as formas geométricas, mas o brilho total, sem eclipse, teimava em não se revelar.
Na sua tentativa de resgatar o futuro, ser nómada estava a tornar-se fado. E condição.
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

REBUSCAR

.Norberto Conti, Um Mergulho no País das Maravilhas
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Se há coisas que não podemos escolher, uma delas é a competência genética com que chegamos ao mundo.
Contudo, esse aspecto é apenas o início da grande viagem, a matéria primeira da nossa construção. A família pode envolver-nos, ou não, numa capa protectora, zelando para que os nossos primeiros olhares sobre a vida não sejam sujeitos a grandes intempéries, e a forma como (não) sorrimos é uma evidência disso. Mas há algo para lá do óbvio. A matéria de que somos feitos, as energias que por aí cirandam, as influências astrais.., isso dificilmente é perceptível ao nosso rudimentar entendimento. Tentamos perceber tacteando, muitas vezes pisando o que poderá, ou não, ser importante.
Por norma, só mais tarde nos apercebemos que passámos ao lado das coisas, pois, em matéria de conhecimento, a cegueira ainda é a nossa condição. E, como qualquer pessoa que (se) procura, sujeitos à intermitência dos caminhos.
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Às vezes
Quando o cinzento se perpetua
Apetece
Procurar a luz
A claridade
Dos dias prometidos
No calcorrear da velha calçada
Um letreiro velho
Mas sempre novo
Sinaliza
Nas subtilezas do tempo
O graal de todas as demandas
Insinua-se
Um vislumbre de promessa
A centelha do golpe de asa
Mas os olhos carecem de rumo
Porque toldados
Pela visão de mil profetas
Às vezes
Com a luz na mão
Apenas olhamos
Para o mistério da sombra.
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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

GRANDE IRMÃO

.Imagem tirada da Net
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Olha para o mundo
Em filtro de números
Mapas
Grelhas
Planos
Instrumentos infalíveis
Na projecção de resultados
Fabricados
Em função dos objectivos
Delineados
Em gabinetes inspirados
Não gosta da cor
Mas é sonhador
Dum pesadelo geral
Imagina o mundo
Em plano de fundo
Uma enorme aldeia
Simulacro de colmeia
De robôs operários
Sem qualquer paragem
Na cadeia de montagem
Se saísse à rua
Como simples mortal
Talvez a verdade
Nua e crua
Tomasse de assalto
O que restasse
Do seu coração
E fizesse tremer
(Ainda que de leve)
O alicerce
Da sua convicção
Mas está protegido
Na torre envidraçada
Encoberto
Em cortina fumada
E a sua alma
Há muito sem perdão
Ficou abandonada
Perdida e rejeitada
No cesto de papéis
Dum qualquer saguão.
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O poema já foi reformulado desde que foi publicado. E pode não ficar por aqui.
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

COM A MÃE NO BOLSO

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Todos os anos se repete o ritual. À escola chega uma vintena de novos alunos, passaritos de asas curtas em busca da carta de alforria no voo. A professora, ao recebê-los, tem como preocupação que façam daquele o seu espaço, que criem laços afectivos e cumplicidades, ao mesmo tempo que lhes vai incutindo regras e formas de estar, fundamento básico para lhes começar a introduzir, paulatinamente, os rudimentos da interpretação dos diversos códigos que lhes proporcionem a melhor ligação possível com o mundo que os espera lá fora: na língua materna, na matemática, no conhecimento do meio envolvente, ao mesmo tempo que lhes vai estimulando a solidariedade, a civilidade, a amizade e outras ade.
Os olhos da maioria não escondem o entusiasmo. Parecem potrinhos sem freio, ávidos de galopes intermináveis por territórios bem delineados no sonho, apenas apaziguados por sono retemperador.
Mas há sempre um ou dois que não trazem as defesas necessárias para conviver harmoniosamente num grupo com tanta energia à solta, ávido de se manifestar e de deixar marca de si. Sentem demasiado a mudança de território, e o desconforto fá-los recordar, constantemente, a segurança das mãos da mãe, o seu cheiro, a sua protecção...
O Tiago é um desses casos. A vivacidade dos colegas não o tranquiliza, e cada gesto mais exuberante é uma ameaça para o precário equilíbrio do seu pequeno mundo. A professora, percebendo-lhe a insegurança, tenta apaziguar-lhe as angústias e, após ouvir-lhe a invocação da progenitora pela enésima vez, sugere-lhe que traga para a sala a fotografia da mãe.
No dia seguinte, com um esboço de sorriso nos lábios, o Tiago apareceu na escola com uma moldura com a fotografia da mãe, e mostrou-a à professora. Esta, com a cumplicidade estampada no olhar, elogiou-lhe a beleza, e encorajou-o a colocá-la em cima da mesa de trabalho.
Embora recorrendo a frequentes olhares para a fotografia, o Tiago começou a encarar a escola de forma mais tranquila. As tarefas deixaram de ser penosas, as caras dos colegas começaram a ter contorno de amigos, ousou aventurar-se nas movimentações do recreio...
O pior era quando chegava a hora do almoço. O miúdo, que até aí continuava a trepar degraus na sua integração, quando chegava o meio-dia não conseguia evitar o aparecimento dos seus fantasmas. Apavorava-o o ambiente do refeitório, sem a presença da professora, não conseguindo lidar com a exuberância dos colegas mais velhos, com outro traquejo na arte de lidar com os outros.
Quando a angústia da hora do almoço ameaçava tornar-se um hábito, foi o próprio Tiago a encontrar a solução. Um dia destes, ao chegar a temida hora, aproximou-se da professora e pediu-lhe, baixinho:
- Professora, posso levar a minha mãe comigo?
Perante o acenar positivo, o pequenote pegou na moldura, meteu-a no bolso com todo o cuidado e lá partiu, mais confiante, em direcção ao refeitório.
Nesse dia, na reconfortante companhia da mãe, o Tiago comeu a sopa toda.
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Reedição
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