sábado, 29 de outubro de 2011

NUVENS - II

.Margarida Cepêda, Pedestal de Solidão e Luz
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Sim, eu sei quanto é reconfortante a ideia do alastrar da terra segura enquanto complemento às nuvens. Nestas navegamos com o sonho por lastro, nela plantamos as conquistas resultantes do enfrentar dos medos.
Precisamos de nuvens, precisamos de terra. Sem amarras nem fronteiras. Então, com as pontes da solidão a tiracolo, talvez o cavalgar das nuvens seja o mais nobre dos destinos.
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sábado, 22 de outubro de 2011

ETERNA CONSTRUÇÃO

.Hélio Cunha, As diversas formas da matéria
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As tuas palavras ganham vida em contornos, esboços de abraço em construção poética, música forjada em nuvens imunes ao ruído. O choro é, em simultâneo, sal e mel, a solidão tem a dualidade fotográfica do positivo negativo. Mas não te basta, não nos basta, queremos respirar por inteiro. Rebobinamos memórias, recordamos babel, o labor da formiga, a beleza fria da estátua. E, dentro da incerteza, uma convicção é possível: queremos calor, queremos horizontes sem muros.
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QUINTAL DA SAUDADE

.Hélio Cunha, Bodas de Sombra
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Uma nova arrumação das palavras, após sugestão da Isabel Fidalgo, do Frutos de Mim e Mar.
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Há sol
muito sol
mas os olhares
teimam em fixar-se
na sombra.
Respiram-se memórias
algumas delas bolorentas
mas não se descobre
o segredo da seiva renovadora.
O meu país
é um sonho permanentemente adiado
tecido em oportunidades perdidas
consumidas em balofas vaidades.
Há sol
muito sol
mas a tristeza
mora no coração das pessoas.
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O meu país teima em ser o quintal da saudade
embalado em lendas de manhãs de nevoeiro.
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sábado, 15 de outubro de 2011

MURMÚRIOS

.Paul Klee, Jardim de rosas
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Chamei-te. Queria partilhar contigo o voo das borboletas. Cansado de esperar que viesses, segui o rumo alado, efémera quimera de fim de tarde. No regresso, já feito lua, senti o perfume das rosas que levava ao teu quintal. Foi então que percebi a promessa do teu voo, enquanto murmuravas as palavras que encantavam a noite.
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Reedição
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sábado, 8 de outubro de 2011

ACERCA DA CUMPLICIDADE

.Hélio Cunha, Illuminata
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Questionam-te acerca da partilha, e tu sabes qual a resposta a dar. Afinal, pormaior inatacável, tens o sustentáculo da leitura dos clássicos, é-te fácil encantar a plateia.
Mas não basta. Os clássicos fornecem-te pistas, testemunhos, mas há algo que, para fazer parte do teu edifício, terás que ser tu a trilhar, a descobrir a química apropriada.
Olho-te nos olhos e sinto que não te libertas para lá das palavras. Falta-te a chama, o brilho da convicção profunda. E essa só é possível nos andarilhos, naqueles que ousam partir em busca das suas convicções. Muitas vezes, é certo, elas esfumam-se nas pedras do caminho, mas se souberes de que matéria é tecida a coragem irás descobrir que a reformulação é condição dos humildes. Talvez seja, vá lá saber-se, a altura em que descubras que o equilíbrio é sempre coisa ínfima e que, quanto mais souberes, mais estreito ele se torna. Mas a partir daqui já estás noutro patamar. E, apesar de nalguns momentos se insinuar o fel, cada cumplicidade que conseguires almejar terá o sabor da terra do leite e do mel.
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sábado, 1 de outubro de 2011

ECLIPSE

.Hélio Cunha, Eclipse
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Sente-se a inquietação que devasta o respirar de vales e montanhas, perturbando buscas de equilíbrio há muito escritas no livro dos assentos. Socorro-me das memórias do vento, e este sopra-me, como se houvesse forma definitiva, que a verdade vem sempre à tona d'água. Revisitam-me as histórias de serão, onde se cultivava o respeito pelas eólicas barbas brancas, mas as águas são mais de mil, tornando labiríntico o canto da conformidade.
Na ágora, cujo respirar ecoa muito para lá das colinas, vigora a apreensão. Sentem-se movimentos de barata tonta, incapazes de lidar com a desdita, mas há quem, munido de sete chaves, aproveite para aprovisionar o bunker.
Adivinha-se o apelo da rua, legítimo fôlego dos despojados. Implodido o pombal, mais não resta à pomba que enfrentar as garras do gavião e redescobrir-se em permanente partilha.
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