domingo, 30 de dezembro de 2012

DESENHO DE NUVENS DO PORVIR

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Margarida Cepêda, A Ilusão
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Os versos, sempre os versos, tentam alcançar o desejo e o desespero, mas as nuvens, espelho natural de sonhos, risos e cóleras, insinuam tropéis desenfreados.
Ouso semear, ouso construir, que a terra carece de movimentos em constante sedução, mas os deuses dizem-me não ser hora de sentir o verbo. O ruído, sempiterno obstáculo, teima em permanecer, o tecer de labirintos de espera tende a tornar-se uma arte.
A noite, laboratório do piscar de olhos entre ocasos e madrugadas, é contínuo desassossego. Mas há que assumir as vestes da dignidade e teimar, teimar sempre. Por perto nunca faltará uma flor.
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domingo, 23 de dezembro de 2012

NATAIS DE ESPERANÇA, ESPERANÇA DE NOVOS NATAIS

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Frida Kahlo, Árvore da Esperança
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Por onde passava só via terra devastada. Colheitas queimadas, pilhagens, nascentes envenenadas. Teimava em prosseguir, mas os sinais não mudavam. Por todo o lado a mesma aridez, o mesmo fruto da falência das ideias. A vida é feita de ciclos, lia-se nos livros, mas os ciclos são a prova da cegueira colectiva. Sempre os mesmos erros, sempre a mesma tendência para o arrotar do estômago. E, em celeiro vazio, o músculo acabava por assomar.
Da cabana, em plena floresta, saía uma leve coluna de fumo. Aproximou-se, cauteloso, mas não via guardas nem defesas, apenas um jerico que pastava, indiferente ao que o rodeava. Espreitou. Lá dentro duas pessoas afadigavam-se a manter vivo o lume, mexendo de quando em vez, com uma colher de pau, num caldeirão que destilava odores apetecíveis. Próximo, num berço de madeira, um bebé dormitava.
Bateu à porta. De dentro não perguntaram quem era, limitaram-se a abrir. E entrou. Dois rostos sorridentes encaminharam-no para uma tosca mesa de madeira, onde o aguardava uma tigela de caldo fumegante.
No final, já saciado, olhou em volta. Na cabana pouco ou nenhum conforto havia, mas uma prateleira de tigelas chamou-lhe a atenção. Eram para quem chegasse, disseram-lhe, um estômago reconfortado ajuda a manter a esperança. E continuavam a sorrir.
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Para todos os cúmplices de interiores odisseias,
Feliz Natal
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domingo, 16 de dezembro de 2012

APERTADAS CORRENTES, LARGOS VEIOS, ETERNOS NASCENTES

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Hélio Cunha, La Donna Immobile
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As folhas, imunes ao gatinhar do respirar, preparam a cerimónia de encerramento, baseada no cultivo do silêncio. O sono é apenas aparente, longe do olhar tudo se conjuga para o eterno renascer. E é nessa fronteira, que não vemos mas sentimos, onde são admitidos, entre outros, alguns acordes de valsa mesclados de leves tons de fado e tango, que nos permitimos, por vezes, sossegar. É um aquietar ténue, porque enfeudado ao porvir, mas ainda assim, para os avessos ao ruído, vestido com vestes de calmaria. A semente do desassossego vem depois, quando tudo brota e tudo resplandece. As fronteiras tendem a desvanecer-se, cúmplices do sonho que se desfralda, as nuvens ganham configurações em medida solta. É quando sentimos que tudo está ao nosso alcance, que tudo depende de nós. E, sem nos darmos conta, queremos mais. E mais.
De repente, imunes ao gatinhar do respirar, as folhas preparam a cerimónia de encerramento, baseada no cultivo do silêncio. O germinar do desassossego atinge o seu esplendor. 
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domingo, 9 de dezembro de 2012

(OUS)AR

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Hélio Cunha, A Praia de Sophia
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Olho as nuvens, sinto os ventos, e tudo parece conjugar-se para o baixar de braços.
Simples ilusão, dizem-me as feridas, a reformulação sempre fez parte do percurso dos homens. Não estão visíveis, podem até esconder-se, mas há por aí nichos de pessoas que urdem, que cerzem, banhadas em arquitecturas de harmonia. Não estão, aparentemente, visíveis a viveres resignados, mas fiam futuros entrelaçados no bem comum, à espera que o olhar se liberte. Parecem atitudes mínimas, mas são elas o garante de um novo olhar, de um novo respirar.
De que olhar falais? De que respiração?
Falamos das memórias, da eterna (re)construção. Não são elas o nosso eterno guia? Repara no que passaste, no que leste, no que ouviste. Que peso tem isso em ti? Que esculturas queres moldar? A vida em crescendo é um sortilégio com muitas voltas, plena de subterfúgios, mas imune a estocadas de aprendizes. Esses só estragam, não sabem o que é o equilíbrio. E o vento, mais tarde ou mais cedo, acaba por varrê-los.
Que fazer, então?
Ouve, escuta, age em conformidade. A princípio pode até parecer que o pão te falta, mas o respirar do caminho se encarregará de revelar os segredos do gatinhar dos teus filhos, dos desenhos dos seus sonhos. Quando sentires isso, deixarás de sentir opressão no teu pensar. É esse o teu caminho, por mais que doa.
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sábado, 24 de novembro de 2012

AS VOLTAS DO PÃO, COM AMOR

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Pintura de Margarida Cepêda
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Envolvo-me com a farinha, a água, o fermento e o sal. O acto de amassar é cerimonioso, muito longe da aparente simplicidade, herdeiro que é de memórias profundas, plenas de significado: o esforço da sementeira, da ceifa, da moenda, etapas de um ciclo transportador de todas as esperanças, com risos, temores e cautelas. 
O acto de amassar não dispensa o fato das memórias. A pouco e pouco a massa rende-se à cadência cerimonial dos gestos, abrindo portas ao cimentar da dedicação e da perseverança. Cada gesto transporta a herança de mil gestos anteriores, ancestralidade feita sabedoria nas voltas do tempo.
Levedar é dar lugar à manifestação de alegria das carícias. E a massa, crente nas intenções, deixa-se moldar antes de entrar no forno, decisiva viagem sem retorno.
O amor, o sempiterno amor, carece das voltas do pão. Precisa ser feito, constantemente refeito, por vezes reinventado, mas sempre com delicada cerimónia.
O amor e o pão, feitos com entrega, serão sempre eterna bênção.
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sábado, 17 de novembro de 2012

ACERCA DOS HUMORES DO VENTO

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Hélio Cunha, Premonição da Morte de Ícaro
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O velho esperava-o junto da fogueira. Saudou-o, respeitosamente, e aguardou que o mandasse sentar. Quando o ancião lhe fez um leve sinal,  clareou a voz e, entre algumas hesitações, acabou por lhe falar da preocupação que sentia com o respirar do mundo.
O olhar do ancião manteve-se inalterável. Dobrou-se um pouco, ajeitou os paus do lume e, tranquilamente, as palavras começaram a brotar.
- Múltiplas facetas tem o vento. Delas todos sabemos, dele se teceram loas e memórias, mas guardou-se o baú a sete chaves.
Fez uma pequena pausa e prosseguiu.
- Quando o vento, insinuante, teima em acariciar-nos a pele, a princípio conjecturamos, mas acabamos por nos render. Aparentemente passou a ser nosso, e os afagos, com pouco esforço, parecem não ter limite. Mas, em plena festança, ele surge, rugindo, a cobrar pela lisonja.
Um pau rebelde soltou-se da fogueira numa erupção de fagulhas. O ancião, com gestos tranquilos, colocou-o no lugar. E prosseguiu.
- A lição de Constantinopla há muito ficou esquecida. Hoje os anjos têm sexo, mas o vento continua sem rosto. E ri-se, à gargalhada, de D. Quixote.
As palavras, pausadas, ecoavam no vale como se dele fizessem parte. O aprendiz, aturdido com o ardor do fumo, esforçava-se por lhes sentir o voo, mas faltava-lhe a abrangência.
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domingo, 11 de novembro de 2012

DEVANEIOS EM TONS DE PERTO E LONGE

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Hélio Cunha, O Altar da Noite
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Ecoa, tempo, ecoa...
Não olhes para o lado, não  olvides o rumor dos homens. São seres imperfeitos, é certo, amantes do seu umbigo, sempre de olho no quintal dos outros. Falam alto nos dias de sol, tagarelam, dançam, mas à noite, vasto terreno de mitos e medos, gritam, estrebucham, confrontam-se com a sua nudez. Lá bem no fundo sabem que de pouco precisam, mas é um pouco que exige muito: que entendam, que questionem, que se envolvam, que se superem, que saibam dar. Só assim poderão abranger o aroma das flores, respirar madrugadas e entardeceres tranquilos. 
A manhã, contudo, afasta os pruridos da noite, e o plástico das flores é cada vez mais perfeito.
Ecoa, tempo, faz ouvir a tua melodia. Talvez, impelidos pelas memórias, os homens se dispam de vestes alheias e ousem enfrentar o seu destino.
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sábado, 3 de novembro de 2012

RECOLHIMENTO

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Pintura de Carlos Godinho
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Hoje a chuva, imperativa,  requer espaço para melodias de uma só corda, primeiros embalos dos distantes aromas de Maio.
Recolho-me a ancestrais aconchegos. Na vizinhança da lareira há sempre pequenas feridas para lamber, há sempre terrenos de assombros por cultivar.
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sábado, 27 de outubro de 2012

VISLUMBRE EM TONS DE VIOLETA

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Deslizava, insinuante, por entre letras interiores, despertando acordes até então adormecidos. As palavras, com naturalidade, assomavam à flor da pele, criando cenários miscigenados onde sobressaía, delicadamente, o verde e o azul, com um leve toque de violeta à medida dos seus passos. Era a sua aura.
Ainda há pouco intuí o seu vislumbre, esgueirando-se por entre os dourados outonais dos carvalhos e dos castanheiros. Os homens, distraídos com o clamor da posse, não apuravam a profundidade do seu olhar. Ela, indiferente, tudo respirava  por inteiro, desenhando no ar as vestes da harmonia.
Imbuído nas palavras do poeta, guardei o vislumbre no bolso para o não perder.
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sábado, 20 de outubro de 2012

FRAGRÂNCIAS DE OUTONO

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Pintura de Margarida Cepêda
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Era um navegante da vida. 
O tempo, supremo e decisivo escultor, mostrou-lhe a inutilidade do ruído, ensinou-lhe a moldar o filtro do supérfluo. Com as plantas aprendeu a fidelidade, plena de equilíbrios, no voo das aves percebeu os contornos da liberdade. Das flores, aroma indispensável a qualquer harmonia, entrou no mundo da subtileza. O espreitar das estrelas, sempre tão longe e tão perto, acentuou-lhe a percepção da infimidade. Tudo claro, tudo natural, como que obedecendo a leis do mais puro desígnio.
Lá fora, quais eternos aprendizes de feiticeiro, os homens continuam a manipular as flores à imagem da sua sombra.
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domingo, 14 de outubro de 2012

ALGO SE PRESSENTE NO AR

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Hélio Cunha, A Queda de Ícaro
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Algo se pressente no ar. 
As aves voam sem rumo, inquietas, buscando o mais improvável abrigo. Os pinhais, renegando suaves melodias, são passadiço de todos os ventos, sem rei nem roque, uivando ao sol e à lua. Nos homens, a despertar da letargia, adivinham-se gritos tumultuosos na multidão dos ventres ao sol, despojados de tudo, até do ar que respiram.
Finda a vindima, no meu país o vinho não será néctar, será sangue em constante fermentação. Até a dignidade retomar.
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sábado, 6 de outubro de 2012

ACERCA DO INFINDÁVEL DA VIAGEM

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Hélio Cunha, A Porta do Infinito
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Tinha sido forjada em boa conjugação astral. A vida, sempre ávida de provas e testes, bem a tentava com sorrisos de néon, mas ela não cedia. Apenas lhe interessava o que respirava ao ritmo do coração.
Quando ganhou segurança ousou subir às nuvens e, qual sacrilégio, aprendeu a vogar e a pendurar-se nelas. O mundo não aplaudia, como fazia nas traquinices de infância. Depressa percebeu que percorria um caminho interior, só dela, procurando respostas para os vislumbres que, de quando em quando, assomavam à superfície. E com o quente e frio da viagem foi aprendendo a libertar palavras que, a pouco e pouco, ganhavam asas. As suas asas.
Quando as palavras, feitas poesia, chegaram aos outros, sentiu que parte do círculo se fechava. Mas não completamente. A sua solidão, tecida em delicados e imensos fios, continuava a ansiar pela palavra inicial.
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domingo, 30 de setembro de 2012

ACERCA DOS ETERNOS INÍCIOS

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Hélio Cunha, Mensagem imperial
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Olhas em volta e reconheces a beleza das flores. Levantas o olhar e prendes-te no enigma etéreo das nuvens. Rodopias e, quase de imediato, sentes a fragrância da alfazema. Contemplas o oceano e sentes a onda retemperadora do caldo inicial. Tens tanto e, no entanto, parece-te não teres nada. 
Porque duvidas? Porque desesperas?
Olhas de novo. A teu lado sentes uma multidão de pessoas como tu. Que olha, contempla,  mas pouco vê do essencial. A solidão é comum, mas ninguém prescinde da sua. Porque única.
Lá longe, mas sempre presente, Sirius continua a brilhar.
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sábado, 22 de setembro de 2012

O DESPERTAR DE ADORMECIDAS ALQUIMIAS

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Pintura de Margarida Pires de Sousa

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Respirar a vida estava-lhe na essência. Cultivava sonhos com esmero, daí a necessidade das palavras, as suas e as dos outros, com as quais pintava telas onde abundava a respiração da pele. Os órgãos serviam-lhe de cadência, mas o que verdadeiramente a embalava parecia ter todas as origens e nenhuma, não o sabia definir. Talvez por isso moldasse, escrevesse.
Certezas tinha poucas, e cada vez menos, as raras que permaneciam eram guardadas como precioso pecúlio. Mas às vezes, qual sopro de delicada mariposa, desvaneciam-se.
O padrão acentuava-se. Sabia da fidelidade da cegonha, da maquiavelice do cuco, da beleza efémera das papoilas. E, tentando o equilíbrio, continuava a rebuscar, a moldar, a criar. Tentava, tentava sempre - por vezes o papel do actor embrenhava-se no do criador - mas havia sempre algo que, com o passar do tempo, acabava por mirrar. Foi então que descobriu que, para lá da importância das memórias e das projecções, tudo se conjuga no presente. Agora.
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sábado, 15 de setembro de 2012

ADEUS, PRETINHA!

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Ela não andava bem. Ainda se tocou a rebate, mas as raízes do tumor mamário já eram demasiado fortes. E a Pretinha acabou por se apagar. 
Hoje, logo pela manhã, a enxada exercia o seu mister, compassada, activando memórias que, por si, se auto-seleccionavam na complexa combustão da razão com a emoção. A cova ia-se aprofundando, mas a facilidade inicial fora sol de pouca dura. O terreno, fiel à filosofia dum Inverno nada pluvioso, recusava-se à ideia de fundo, e estoicava-se numa coriácea resistência. É que os equilíbrios não se manuseiam de acordo com a vontade do esforçado aprendiz, são matéria sensível avessa a qualquer atalho de circunstância. Mas a causa era forte, e insistir era necessário. Por mais que doesse.
O tempo decorria, indiferente ao drama da relação da enxada com o terreno duro, e apenas uns baldes de água iam apaziguando a convivência da (im)possibilidade das coisas. As memórias, ainda em carne viva, alimentavam a convicção, e a tarefa lá se ia cumprindo. O tempo deixara de existir no desfilar de imagens da Pretinha, incondicional companheira de tantas horas. E foram tantas! Não usava turbante, aquela louca schnauzer gigante, mas era certeira na leitura de alegrias e tristezas, e para qualquer delas disponibilizava uma ternura única. Sabia seduzir, a Pretinha, socorrendo-se apenas da naturalidade das coisas. Estou aqui, conta comigo. E estava sempre.
O tocar do telemóvel desvaneceu imagens e emoções. Era da clínica, onde ela tinha passado a sua última noite de vida, e só nessa altura a ditadura do tempo se impôs. Desde que a enxada iniciara o seu ritual, o sol já tinha galgado três horas no seu galopar. Estava na hora de ir buscar a Pretinha. A terra aguardava-a.
Enquanto a enterrava – não interessa o porquê, mas tinha que ser eu, mas é duro, muito duro – alguns pensamentos, daqueles que não pedem autorização para assomar, chegavam-se à frente. Para lá do choro, momento único de expurgação, a morte, para o observador atento, é sempre uma tentativa de reconciliação com a vida. Não é ela, em si, uma forma única?
No final, flores silvestres para a Pretinha. Ela gostaria.
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

ÁRVORES E HORIZONTES

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Luiz Pinto - Encosta com árvore
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Gosto de horizontes. Gosto de árvores. Gosto de horizontes com árvores. E pessoas. E é na junção dos elementos que tudo se ganha e tudo se perde.
Diz-me o agitar das folhas que a aparente simplicidade das coisas é forjada em luta que não dispensa entranhas, temperada em tempestades e bonanças, é redescoberta constante traduzível no olhar, no andar, na forma como usamos as mãos. Mas sem garantias, sempre sem garantias, pois há algo que se perde quando as concessões se insinuam. As cores esbatem-se, os aromas esfumam-se, a palavra tende a ficar maculada. E a convicção, matéria assaz sensível, só ramifica quando tendemos a dominar o segredo de beber a naturalidade de nascentes e ocasos.
Por mais horizontes que observe, há árvores que têm o condão de motivar, de iluminar, de se tornarem eternas. Como tu.
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sábado, 25 de agosto de 2012

BALADA PARA O SOPRAR DE NOVOS VENTOS

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Van Gogh, Paisagem da colheita
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A quinta, com o passar do tempo, fora ganhando uma ambiência muito própria. Durante o dia vivia-se a constância do movimento, moldada nos elementos. A natureza tudo nos dá, mas tudo nos exige, é uma cumplicidade sem concessões, e ali havia sempre algo para fazer. Contudo, chegado o ocaso, o vislumbre da lua apaziguava o instinto físico da sobrevivência. E, de forma natural, insinuava-se a poesia, cantando-se o já feito e as pontas daquilo que os desafiava. Semeava-se apaziguando, que a esperança carece de dificuldades domáveis. Era nessas alturas que Tiago se afoitava, que as suas palavras, preservando o que de bom tinham, os transportava para o que havia para lá do horizonte, recordando-lhes que não viviam sozinhos.
Um dia, num fim de tarde, Diana regressou. O seu olhar ainda guardava rastos de inquietude, mas estava diferente de quando partira. Havia nela um entusiasmo novo, próprio de quem encontrara algo e sentia necessidade de o partilhar.
Ao jantar, feito da frugalidade do que cultivavam, Diana começou-se a soltar. E falou com alma. Reforçou a ideia que já todos tinham – a impossibilidade dum mundo sob um jugo sem regras, que apenas beneficiava uma minoria sem rosto – e começou a lançar sementes dum diferente porvir. Reclamou da necessidade da visão feminina do mundo se chegar à frente, substituindo a secular e máscula prática guerreira, e que toda e qualquer solução, para ser sustentável, teria que se basear no equilíbrio com um elemento fundamental: a terra. E disse mais. Que, para lá da necessidade de as mulheres se chegarem à frente, era uma heresia ousar falar de liberdade quando não se respeita o mais elementar da nossa origem.
Tiago ouvia, deliciado. Não pela novidade, mas pela cumplicidade que sentia. Tudo aquilo, para ele, fazia sentido. Diana precisara de sair dali para entender, mas para ele a revelação viera com a percepção da elementar arquitectura da construção de qualquer ninho. Fosse ele de pintassilgo, de melro ou de rola. E, sem se dar conta, sorria enquanto ouvia.
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sábado, 18 de agosto de 2012

PARA LÁ DO SUBSTANTIVO

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Hélio Cunha, Planaltos de cristal
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Gosto do teu sentir, gosto do teu olhar. A sua envolvência é como uma paleta, pintando telas sem parar ao ritmo de cada clique, cada vislumbre, como se de mais uma peça na solução do puzzle se tratasse. E tentas pintando, e pintas sentindo.
Das histórias sabemos que se datam, se circunscrevem no tempo. Que nome daremos, então, àquilo que começa mas que, por efeito de qualquer química, não lhe vislumbramos o fim?
Um lançar de cartas, no final do dia, apenas ajuda a adensar o mistério.
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domingo, 12 de agosto de 2012

NAVEGAÇÕES

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Margarida Cepêda, O fruto proibido e o fruto permitido
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Liberta-se um indício de cor, de palavra, de fragrância. É quanto basta para alimentar a vontade da procura, de desvendar para lá das nuvens com que adornas a tua morada.
As perguntas são inúteis - haverá sempre mais, e mais... - e as respostas, se as houver, não são para serem ditas aos quatro ventos. Chegar não é um acto único, estar é sempre um ponto de partida. E tudo recomeça.
Quando a fragrância se sobrepõe à palavra e esta, reinventada, continua a fazer sentido, então é chegada a hora de ouvir a melodia dos pássaros.
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sábado, 4 de agosto de 2012

A COR DO SONHO

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Pintura de Margarida Cepêda
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Falavas convicta
Da cor do teu sonho
Como se a alma
Movimento profundo
Fosse tela manipulável
Adaptável
Em pano de fundo
Pegavas na paleta
Objecto comum
Circunspecto
E tentavas
Num impulso inocente
Pintar o sonho
Em rosa envolvente
Como tom predominante
Duma vida deslumbrante
Mas na intimidade
Sabia-te a pouco
E rebuscavas mais cores
Para misturar odores
No equilíbrio
Da tela desejada
Tentaste com verde
Dourado e turquesa
Mas ficava a incerteza
Da falta de leveza
Do sonho sem asa
Insististe com azul
Siena, borgonha
Branco floral
Mas não descobrias
A mágica proveta
Crucial e discreta
Para almejar
O tom essencial
Ficaste sozinha
Coração na mão
E então percebeste
Que a essência do sonho
Antes da cor
Carece de alma
Na sua dimensão.
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sábado, 28 de julho de 2012

MERGULHO EM ÁGUAS DE DELICADOS AROMAS

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Pintura de Margarida Cepêda
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Sinto as tuas águas fervilhar, em constante agitação, e nada parece amainar essa necessidade de almejar praias longínquas.
Não sei como te dizer, mas areias são apenas isso, areias, é no fermentar do teu impulso que deves mergulhar.
O mesmo se passa com as montanhas. Que importa subir ao cume mais alto? Acaso não haverá sempre outra montanha ao lado? Detém-te nas veredas, na singularidade de cores e aromas. Bebe, inala, mastiga. É neles que se forja a química dos teus passos, alimento da tua alma. Se conseguires aquietar a ansiedade de domares o tempo, talvez, então, entendas a delicadeza do respirar de uma flor.
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sábado, 21 de julho de 2012

EFÉMERO

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Pintura de Margarida Cepêda
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A seara ondulava
Sensual
E as papoilas
Efémeras
Adornavam o cenário
Que embalava
O voar das borboletas
Assim eras tu
Em Maio
Na frescura dos caminhos
Radiante
Com o mundo a teus pés
Gostavas do teu brilho
E embriagavas-te
Na imagem do espelho
Que enfeitavas
Com as cores
Duma eterna primavera
Esqueceste os aromas da terra
E não viste que os deuses
Despreocupados
Em olímpico tédio
Jogavam o teu destino
Em jogo de dados
Dedilhado
Em acordes chorados
O espelho fragmentou-se
E não percebeste
A sensação de frio
Nos caminhos que te levaram
À solidão
Dum palco vazio.
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Reedição
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sábado, 14 de julho de 2012

A SUSTENTÁVEL LEVEZA DAS MANHÃS DE SÁBADO

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Fotografia de AC
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Gosto das manhãs de sábado. 
A água para o café aquece um pouco mais tarde que o costume, como que a dar espaço a que a harmonia se instale. Lá fora, imune a estéreis transcendências, a passarada dá largas à conformidade dos dias, trauteando ancestrais melodias. Por ali não há angústias de mercado, as coisas são o que sempre foram.
Saio. Nas árvores, obedecendo a sábias determinações, já se foram as cerejas. Os pêssegos e as ameixas estão quase no ponto, e as pêras, as maçãs e os figos, moldados com outro vagar, prosseguem a sua maturação. Maior é o sono de castanhas e amêndoas, que só nos matizados outonais ganharão carta de alforria. Neste desabrochar de vida não há pressas. Cores, aromas e sabores têm a sua química muito própria.
Debruço o olhar sobre as couves, os pimentos, as cebolas, a salsa, os tomates, as alfaces, as beringelas... Enquanto verifico o crescimento, pequeno milagre de todas as horas, recordo ensinamentos de avós, travestidos em memórias - olha, filho, a horta quer ver o dono todos os dias - e prossigo na comunhão. Fixo-me nas daninhas e retiro uma erva, duas, três... Parecem tantas que, no mergulhar da tarefa, o tempo deixa de contar. Mondar a horta, tal como a vida, requer paciência, tacto e uma óbvia visão de fundo: não há recompensa sem esforço. E os frutos, mais que promessa, começam a ser dádiva.
A Pretinha, uma schnauzer gigante de incondicional cumplicidade, acompanha-me no passeio. Caminha quando eu caminho, senta-se quando algo merece a minha atenção. E uma festinha naquela cabeça atenta nunca é de mais.
Um casal de andorinhas, contrariando ideias feitas - estamos em Julho, longe dos cânones de Março - insiste em fazer ninho no alpendre. Nunca é tarde para reformular, nunca é tarde para amar.
O sol começa a morder, a sombra começa a tentar. E, de bom grado, acabo por ceder.
Nas manhãs de sábado, enredado na magia das pequenas coisas, os dias domam as feras e insinuam plenitude.
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sábado, 7 de julho de 2012

DIÁLOGO COM UBÍQUO PATROCÍNIO

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Hélio Cunha, Edenbluff
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- Porque te afastas? Porque gostas de deambular por zonas sem certificação?
- Eu não me afastei, apenas fui um pouco para o lado de lá. Sabes, gosto de ver as coisas sob vários prismas, as cores dos catálogos sabem-me a pouco.
- Ouve, as pessoas trabalham tanto, que um catálogo de opiniões é preciosa ajuda. Não achas?
- Um catálogo é sempre a visão oficial de algo. Se te encostares a ele, isso significa que estás a delegar o que de mais precioso tu tens: a liberdade de pensamento.
- Mas… espera lá! Um catálogo traz-me mais tempo livre, facilita-me as opções. Ao fim e ao cabo, liberta-me.
- Liberta-te? Para quê? Para estares disponível para trabalhares cada vez mais? Para seres uma máquina produtiva? Um fazedor de opiniões apenas te condiciona, ajuda a acentuar a visão de quem o patrocina. Sabes, o trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas um meio para tentarmos concretizar sonhos, expectativas…
- O que dizes pode ser aliciante, mas preciso de trabalhar para comer.
- Tens razão, mas é com base nessa premissa que eles nos condicionam cada vez mais. Já reparaste que, através desse meio, te criam uma falsa zona de conforto, abrindo-te portas para o sentido de posse, e que, às tantas, já não queres prescindir disso? Se pensares bem, muito do que fazes nem sabes porque o fazes, mas, como toda a gente o faz, isso basta-te. A verdade é que eles condicionam as nossas reacções e comportamentos. Em suma, fazem de nós modernos escravos.
- És doido, sempre foste. Porque sorris? Que trazes aí?
- Um ramo de ervilhas-de-cheiro, que apanhei do lado de lá. São para ti. Gostas?
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sábado, 30 de junho de 2012

OLHARES

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Fotografia da Sara, do blogue Etnografia de Circunstância(s)
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De repente, a coberto da sombra, alguém carregou num botão e tudo acelerou.
O homem, eterno adolescente na compreensão das coisas, iludiu-se no canto da moderna sereia, adornada de luzes inebriantes como se o amanhã não existisse. Tudo parecia pouco, o muito que se tinha era nada. Já não bastava o recanto, o olá do vizinho. Invocando o direito de posse, renegou as memórias, arduamente construídas em tecelagem ancestral no confronto com o humor dos deuses.
Muito se foi, algo ficou. O rio continua a correr, impassível, perante o refluxo de tanto tactear.
O discreto murmurar das águas é eterna mensagem.
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sábado, 16 de junho de 2012

PÁRA-RAIOS DE DESASSOSSEGOS

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A seara ondulava, obedecendo aos caprichos do vento, salpicada aqui e ali com o vermelho das papoilas. A colheita prometia fartura, e já se adivinhava o chiar do velho moinho de água, entretanto recuperado, a debitar a farinha de todos os contentamentos.
A quinta, desde que chegaram, parecia outra. As paredes da velha casa, devidamente reparadas, sustentavam agora um sólido telhado. Não era a casa de ninguém, que o conceito de propriedade estava bem definido, era a casa de todos. Ali reuniam, ali funcionava a escola, ali estavam todos os livros que trouxeram. De dinheiro não se via rasto, todos sabiam que não era nessa base que deviam construir o seu futuro. Nas reuniões procuravam esbater as diferenças, e às vezes a discussão era acalorada. Mas acabavam sempre por se entender, pois todos respiravam o sentido de partilha. O dia a dia ensinara-os, mais que a teoria, que tudo era relativo, estavam mais interessados em encontrar pontos de encontro, por mais ínfimos, que em provocar tempestades. Conviviam bem com as diferenças.
Em volta novas edificações foram surgindo. Pedra não faltava por ali, e alguns descobriram, pela primeira vez, um particular deleite na construção das paredes de xisto. Talvez fosse a ideia arreigada de estarem a começar algo, talvez fosse a ideia do cultivar do espírito de partilha. Ou ambas em simultâneo. O certo é que, a pouco e pouco, os redutos foram surgindo. Para cozinhar, para dormir, para guardar alfaias e colheitas.
Tiago e Diana eram diferentes, a inquietação vivia neles como quem respirava. Ela acabara por partir, não resistindo às sugestões do para lá do sol-posto, mas ele ficara. Não fazia nada de especial. Ajudava a semear, mas não mondava, não moía. E falava pouco. Quando o fazia falava de angústias, de equilíbrios, de dores de alma. Estando sempre presente, o seu olhar perdia-se algures. Mas encontrava-se no voo dos pássaros. Era capaz de subir e descer montes só para acompanhar o voo de um melro, prender-se naqueles movimentos que o fascinavam. Também o contacto com as crianças o tornava mais atento, mais doce, os olhos chegavam mesmo a sorrir. Todos respeitavam aquela figura inquieta, desassossegada, sabiam que era a fronteira da sua parca segurança. Não fazendo, fazia muito, era o seu cata-vento. A sua presença lembrava-os dos limites daquele ermo, que a cadência das coisas vai muito para lá de nós. E aquele sentir, quase de forma inconsciente, irmanava-os na vontade de fazer algo por eles próprios. 
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sábado, 9 de junho de 2012

O REGRESSO

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Chegou ao cume do pequeno outeiro e parou, deixando-se invadir pela sinfonia de cores e aromas. Era uma zona xistosa, propícia a estevas e giestas, com o rosmaninho, aqui e ali, a impor a sua presença, amaciando o ar mais agreste das suas vizinhas.
À medida que descia a encosta sentia que, naquele ermo, tudo parecia ter o tempo certo. A passarada era abundante, mas esquiva, como que a estranhar a visita. Sorriu. Apesar de se integrar, de imediato, naquela corrente de energia, ainda não fazia parte da paisagem. Tinha tempo.
Mais abaixo corria a ribeira, ladeada de salgueiros, com água suficiente para aliviar as agruras do pó do caminho. Uma lontra, curiosa, levantou o olhar, mas depressa se enfiou na sua toca. Um estranho é um estranho, seja em que recanto for.
Quando chegou junto da velha casa, rodeada de silvas, viu que havia ali muito que fazer. A marca dos antigos habitantes há muito que se escondera, escorraçada por políticas de gabinete sem qualquer nexo. Ainda se viam assomar, no meio da alta vegetação, meia dúzia de árvores de fruto de tronco já carcomido, memórias de outras eras, mas pouco mais parecia indiciar, à primeira vista, que por ali já houvera uma fértil quinta, que respirara azáfama ao ritmo das estações. Isso fora há muito, num tempo em que aprendera como ninguém a descobrir ninhos de pintassilgo. Entretanto outros ritmos se impuseram.
Aproximou-se dum enorme bloco de granito e elegeu o seu reduto para primeiro poiso. Limpou a área circundante e, com vagar, começou a montar a tenda. A seguir foi explorar o local. À medida que avançava foi reconhecendo uma parede aqui, uma rocha ali. E às tantas, quase sem se dar conta e com a ansiedade de permeio, viu-se a procurar vestígios de antigos recantos.
O fim da tarde aproximava-se. Sentou-se no bloco de granito e olhou em volta, pensativo, enquanto roía uma maçã. Tinha uma semana para preparar o local para a chegada dos outros. Viriam munidos de ferramentas e sementes, risos e esperança. Talvez reencontrassem ali o seu lugar.
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sábado, 2 de junho de 2012

RESPIRAR PALAVRAS EM TOADA LENTA

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Van Gogh, A sesta
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Passados os primeiros entusiasmos do blogue, e quase sem me dar conta, escrever é algo que se foi instalando em suave rotina. E suave porque se traduz em doses mínimas e sem qualquer planificação. O sábado, após uma semana de árduo trabalho, tem sido o dia preferencial. E a receita é simples: sento-me em frente ao computador e sai o que sai, num exercício em que, por norma, não se ultrapassa a meia hora. É quase como ir até às traseiras da casa e respirar as árvores e a horta, deixar que toda a energia contida se liberte naquela comunhão.
Por este cantinho têm passado muitas e diferentes pessoas, com algumas a deixar pegadas de amizade. Umas demoram-se, outras partem. Como na vida. E a memória dos versos de Eugénio chega com a naturalidade dos dias.
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.
Às vezes penso no que seria se escrevesse também à segunda, à terça, e por aí fora, de uma forma disciplinada. Mas são apenas momentos. Escrever, tal como o concebo, tem que ser mister exercido como quem respira, ainda que a espaços, de braço dado com a partilha. E hoje, ainda que ao de leve, é dia de respirar.
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sábado, 26 de maio de 2012

RODOPIO EM SEMI-NOTA

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Margarida Cepêda, Vigília e sono
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Dentro de mim algo se debate, dentro de mim algo te reclama.
Não sei se a discreta música do vento no impelir das velas do moinho, se o apelo da terra, a sedução das estrelas, a tentação do aconchego no crepitar da fogueira. Pode ser tudo, poderá não ser nada. Sei apenas que dentro de mim algo revolteia, grita fundo, clamando por dias de sol. E que eles, quando chegam, me desafiam com dias de sede.
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sábado, 19 de maio de 2012

O INSUSTENTÁVEL TENTÁCULO DOS MODERNOS JARDINEIROS

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Gustav Klimt, Jardim com girassóis
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Gosto de flores. Dos seus aromas, das suas formas, das suas variedades.
As flores são seres sensíveis de forma singular, mas que precisam de quem cuide delas, de quem tire o melhor partido das suas características. São únicas, mas dependentes. Depois há as espontâneas, as mais preciosas. Gostam de ver o jardineiro à distância, apenas carecem de compreensão e respeito pela sua forma única de viver.
Um bom jardineiro gosta de partilhar, de sentir prazer na sua lida, de se identificar com a sua causa. De certa forma todos somos jardineiros, falta-nos é descobrir, ainda, uma causa comum. Nessa impossibilidade, e perante a necessidade de sentir a ramificação, cada um limita-se ao seu jardim. E fecha-se.
As verdadeiras razões das flores, contudo, não são preocupação geral. O observar do seu frenesim pressupõe caminhos vários, e a tentação de produzir flores num só sentido é demasiado premente. É assim que, na sombra, se forjam os novos jardineiros, modernos predadores de quem ninguém conhece o rosto, mas sente o aroma e a opressão. Na forma de poder.
Longos são os seus braços, que nos amordaçam e estrangulam sem nos darmos conta. Longe anda D. Quixote, em eterno entretenimento com moinhos de vento.
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sábado, 12 de maio de 2012

RESPIRARES DA LUA NOVA - 3

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Aproximou-se do centro da praça. O dia tinha sido intenso, a plantação de novos legumes mobilizara toda o acampamento. Ana sentia-se um pouco cansada, uma sensação comum a todos, mas era um cansaço agradável, de quem se sentia bem com a vida. Era por isso que, em noite amena, e apesar do árduo dos dias, o centro do acampamento se encontrava pleno de rostos sorridentes, disponíveis para a partilha duma causa comum.
Aguarela de Miguel Levy
Durante a noite conversou-se, soltaram-se risadas, absorveram-se os aromas de Maio. Os poemas, em manifestação quase espontânea, funcionaram como alimento daquilo que os unia. Que parecia pouco, mas era muito. E cantaram. Por fim, qual discreto convite ao recolher, o saxofone do músico poeta encarregou-se de distribuir harmonia enquanto unia as pontas das emoções.
Ana gostava daquela partilha, daquele sentir de quem sabia que dificilmente teriam uma nova oportunidade. E isso unia-os, fazia com que se soltasse o melhor de cada um. Às vezes sentia saudades das quatro paredes do seu antigo quarto, cenário de mil e uma divagações em que apenas existia ela em confronto com a vida, mas sabia que eram resquícios da liberdade condicionada da fera acossada. Ali libertara-se a pouco e pouco, aprendera que estamos muito longe de ser únicos, mas que há marcas que, apesar das novas navegações, perduram para sempre. O que não é, necessariamente, um mal. É bom que existam sentinelas que nos alertem para aquilo que não queremos, o caminho a percorrer torna-se mais claro. E ainda havia tanto a palmilhar!
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sábado, 5 de maio de 2012

NAVEGAR À VISTA A DESENHAR HORIZONTES

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Hélio Cunha, O anjo e a musa diante das ruínas da Europa
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- Gosto do teu jeito de sorrir, gosto do teu jeito de amainar tempestades. Mas, haja o que houver, o horizonte é sempre horizonte, o seu apelo será sempre irresistível. E ainda bem. É dessa massa que somos feitos, é essa capacidade de olhar que nos fará, sempre, ultrapassar qualquer tormenta.
- E o crescer das plantas? E o aroma das flores? Não gostas dessa harmonia?
- Claro, mas, se fosse apenas isso, ela esgotava-se em si mesma. A lição da harmonia surge a cada canto, mas o que a determina tem longos braços. Tão longos, tão susceptíveis, que a sua amplitude continua por determinar.
- Mas há muitos exemplos de gente que conseguiu alcançar a harmonia…
- As tuas palavras estão certas. Há muitos exemplos de harmonia, é verdade, mas todos eles são individuais. Eu falo de uma outra ideia, a harmonia colectiva.
- Espera lá! Mas não é o somatório das atitudes individuais que faz o colectivo?
- Essa é uma velha questão, para a qual não tenho resposta. Sinto apenas que as flores têm que ter o aroma das flores, as águias precisam de voar alto, as marés não se fazem por decreto. Mas só consegue ser sensível a isso quem não sentir a falta duma tigela de arroz.
- Creio que te entendo. Gostarias que, em tempo de trevas, houvesse a perspectiva duma qualquer luz. Mas para todos.
- Esse teu navegar alegra-me, pois estamos todos no mesmo barco. Difícil é que, apesar das naturais diferenças, todos o façam na mesma direcção.
- Difícil tarefa, essa!
- Tremenda, pois ninguém quer prescindir da sua forma de respirar, ainda por cima quando todos os ventos parecem soprar em direcção contrária. Mas o teu sorriso faz milagres, sabias? Anda cá. Hoje é hoje, amanhã será um novo dia.
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sábado, 28 de abril de 2012

VOO EM BUSCA DE POISO

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Ontem falaste-me de desconcertos, da impossibilidade de abraçar o que se adivinha, mas não se entende. E que isso pode dar origem aos medos.
Disse-te que os medos fazem parte do nosso percurso, que sem ousar afrontar o seu desafio nunca passaremos de seres acossados, privados de liberdade, mas nem me ouvias, estavas demasiado ocupada em forjar um cenário que desse cor aos teus receios.
Não insisti, as convicções carecem de tempo para fermentar. Mas continuaste a falar de tal forma que tudo parecia resumir-se às tuas palavras.
Tens muita energia, admiti, e admirei a força que emanava da tua caixa negra, uma espécie de convicção a debater-se em busca da casa certa.
Não te digo mais palavras, pois tu não aceitas dessa forma, mas sinto que essa determinação vai levar-te ao encontro da verdadeira dimensão do teu voo. Só espero que, quando passares por mim, entendas a linguagem dos meus olhos. Nessa altura a cumplicidade poderá acontecer.
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sábado, 21 de abril de 2012

O LAVRAR DO POETA

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No lavrar do poeta a noite é infinita, o sono é caldo de infusões metafóricas.
No lavrar do poeta a palavra - canto, choro, partilha - alimenta-se dos devaneios do sol.
No lavrar do poeta não há nome, não há forma, não há tamanho. As palavras adquirem a tonalidade dos elementos, pulsam quando captam um veio com memórias do tempo inicial. E tudo se reinventa.
No lavrar do poeta as nuvens podem ter todas as formas, mas há sempre uma a sugerir o sussurro dos teus lábios.
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domingo, 15 de abril de 2012

DÈJÁ VU

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Hélio Cunha, Estranha Melodia
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a terra é mãe a terra é linda a terra é abundante a terra tem gente a terra tem muita gente toda a gente quer o melhor a terra não tem comida para todos uns tudo podem outros tudo sabem do nada a terra estrebucha a terra grita toda a gente grita uns riem outros choram isto vai rebentar onde estás sai da frente estou aqui espera por mim não vás adeus espeeeeeraaaaaaaa
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(Porque será que, apesar de tudo, um novo despertar implica sempre o vislumbre duma flor?)
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segunda-feira, 9 de abril de 2012

INTERROGAÇÕES EM NOITE DE LUA CHEIA

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Tela de Margarida Cepêda
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Dúvidas, inquietações, receios. Para quê tentar construir pontes? Para quê escrever? A resposta é dúbia, pouco clara, mas há sempre algo a impelir a gravidade da ampulheta. Talvez seja a desejável incapacidade de abraçar uma verdade feita, talvez seja a necessidade de dizer que tudo estará sempre por dizer. Será um gesto? Um despoletar de palavras? Por mais que diga nunca será o suficiente, o ritmo das coisas exige  que não haja paragens. Então, será o quê? O canto dos pássaros?  A sinfonia do ciclo lunar? A força das marés? Desses nós temos algumas certezas, só não sabemos da inconstância dos homens. E eles, mais que ninguém, obrigam-nos a exercícios do tudo ou nada.
Quando tudo parece à deriva, eis a dependência dum gesto arrebatador, a procura dum sinal de esperança. Quem resiste a este eterno faz de conta?
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sábado, 31 de março de 2012

CONVERSAS EM SOL MENOR

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António Tapadinhas, Rhapsody in blue
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Porque te preocupas tanto em entender? O teu olhar recusa paredes, o alcance do voo da águia para ti é coisa pouca. Dizes que há sempre um novo horizonte para lá da montanha mais próxima, mas no fundo não é essa a viagem que almejas. Queres abraçar o mundo e condensá-lo nas tuas mãos, ao abrigo do resgate de ventos e marés.
É isso que pensas?
Sim, é como se quisesses levar para o teu abrigo todos os livros do mundo. Esqueces, no entanto, que só por si eles nada são.
Sim, eu sei. Eles carecem de entendimento e trabalho, muito trabalho. E isso só é possível em onda gigante, devastadora na partilha, em que o segredo almejado seja partilha colectiva.
Mas tu não querias escrever o poema definitivo?
Isso não existe, aprendi que o definitivo é feito de pequenas coisas. Ultimamente alegram-me os pequenos poemas, o canto da simplicidade.
Sabes, gosto de te ouvir, mas sinto que viver é muito mais que isso, ultrapassa as pequenas e as grandes coisas. Haverá entendimento para isto?
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sábado, 24 de março de 2012

RESPIRARES DA LUA NOVA - 2

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Pablo Picasso, O poeta
Pegou num monte de sapatos, observou-os com atenção e separou os que lhe pareciam em melhor estado. A alguns ainda se aproveitava a base, mas não durariam muito. Cada vez mais se socorria dos pneus de automóvel, em grande abundância nas redondezas, resquícios de emblemas da era dos combustíveis fósseis. Havia ali material para muito tempo.
O maior proveito via-se nas partes laterais. Os saltos, mais sujeitos ao desgaste, eram a parte que exigia maior atenção, mas ainda havia em stock muitos exemplares de salto alto, que agora já ninguém usava. A vida prática que levavam abolira por completo o supérfluo, e os saltos arranha-céus eram agora manancial para muitos outros mais adequados ao andar.
A princípio custara-lhe a entrar na morfologia do calçado, nada condizente com o antigo teclar, mas ganhou-lhe o jeito em pouco tempo. No acampamento, com o passar das luas, todos foram ganhando consciência do fundamental, e uns sapatos robustos e resistentes satisfaziam qualquer um. Mas não a ele. Tinha alma de artista, diziam, e sentia necessidade de pôr a sua marca naquilo que fazia. 
Quando lhe sobrava algum tempo começou a tentar dar vida aos sapatos. Aprendeu a gravar figuras no couro, a amaciá-lo, mas poucos ligavam aos seus devaneios, preocupados que estavam com a sobrevivência.
Ana, perfeitamente integrada no espírito do acampamento, só recorria ao sapateiro quando os sapatos que trazia já se revelavam inúteis. Chegado o momento, um acto banal tornou-se a porta de entrada na alma do artesão. Quando viu uns sapatos, mesmo à sua medida, com uma flor gravada no rosto, não hesitou: calçou-os e mirou-os como coisa preciosa. Na luta pelo sentido das coisas, aprendera por ali que muitas são as formas de fazer poesia.

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sábado, 17 de março de 2012

INSTANTÂNEO

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António Tapadinhas, Vénus
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As palavras, por vezes, são carícias a seduzir a pele, incêndios pré-nupciais anunciadores do semear da terra.
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sábado, 10 de março de 2012

PISCAR DE OLHO EM MANHÃ PRIMAVERIL

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António Tapadinhas, Sagração da Primavera
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Falas-me de superação, da contínua vertigem em navegar ondas que insinuam promessas. Não gostas que te soprem receitas, alimento de memórias circunscritas, e dizes que, na hora da chegada, as respostas devem abraçar-nos de forma discreta, apaziguadora, como que a medir os alicerces da nossa construção. Referes ainda, acalorada, que temos que transportar as raízes no bolso e ousar cavalgar as nuvens, sentir o vento na face, exercício depurativo do verdadeiro sentido das palavras. E que há umas tantas - os teus olhos dizem amor - que gostarias de capturar.
Sorrio. Uma ligeira brisa vai baloiçando, suavemente, um dente-de-leão. Queria-te dizer que as convicções, por vezes, são mais frágeis que uma flor, mas o teu entusiasmo é contagiante.
Gostaria tanto que tivesses razão!
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sábado, 3 de março de 2012

ACERCA DA ÁGUA DAS NASCENTES

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Margarida Cepêda, À porta do reino dos afectos
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Não, hoje não me fales de pássaros nem de horizontes. O frio iludiu-me a guarda e começou a desenhar, bem cá dentro, espirais numa sinfonia quase perfeita. Não gosto do gelo, mas ele canta duma forma que seduz. Deixa-me, hoje preciso de silêncio.
O gelo não passa de água, e isso é bom, mas é vida em constante espera. Se te deixares embalar por essa melodia, talvez embarques numa viagem sem retorno. Sabes, aguardar pode confundir-se, às vezes, com as flores da esperança, mas estas carecem de constante alimento. Porque teimas em aguardar?
Não sei, há momentos em que sinto um imenso frio cá dentro. Diz-me, conheces alguma lareira que aqueça a alma?
Anda cá, deixa-me dar-te um abraço. Às vezes és tão tonto...!
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sábado, 25 de fevereiro de 2012

MERGULHO EM PRAIA NÃO VIGIADA

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Pintura de Margarida Cepêda
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Cansaste-te dos muros de betão, e algo te impeliu a mergulhar nas profundezas da memória em busca do fio condutor.
Ignoraste as trombetas anunciadoras do brilho, pois do efémero já tu sabias, e ousaste penetrar nos segredos da caixa da dor. A tua segurança, forjada no cinzento dos dias, debateu-se, mas sentias que, para nela entrares em pleno, terias que abraçar os fantasmas do medo. E, nesse acto único, gritaste aos quatro ventos os contornos das brumas da fera, um grito que se transformou em sopro.
Quando regressaste, ainda combalida, sabias que as tuas vestes nunca mais seriam as mesmas. A tua nudez estava agora bem presente.
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sábado, 18 de fevereiro de 2012

RESPIRARES DA LUA NOVA - 1

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Aldeia da Luz, Alentejo
Pegou na bilha de água turva, acenou aos guardas e rumou ao acampamento. Sentia-se suja, a carecer de um banho, mas as antigas rotinas eram agora um  luxo. Umas gotas no rosto, outro tanto nos sovacos, e já estava no limite. O líquido, em constante escassez, era demasiado precioso para gastos supérfluos. Até os legumes, cuidadosamente cultivados nos terrenos contíguos, dependiam do gota-a-gota em garrafas de plástico, engenho forjado no esgravatar do apelo da boca. Poupava-se água, ganhava-se esperança.
A nascente que lhes fornecia o precioso líquido era o grande bem do grupo, mas também o seu lado mais vulnerável. Atraía toda a espécie de pessoas, bonecos errantes em busca de sobrevivência. Uns tentavam integrar-se, sabedores que eram da importância de se ligarem a objectivos comuns, mas outros, autênticos predadores, apenas desejavam a sua posse. Ter aquela fonte significava poder, e alguns tudo faziam para a ter. Estava-lhes nos genes. Era por isso que a nascente estava tão bem guardada, era o núcleo essencial da preservação do grupo.
Ana, antes da grande hecatombe, gastava os seus dias a leccionar numa universidade da capital, mas há muito que o prazer do trabalho se esgotara na rotina bafienta dos seus pares. A vida escapara-se-lhes por entre os dedos das mãos, mas teimavam em fazer de conta que eram o centro das coisas. E ganharam mofo. Entre o sair e o ficar, aconteceu o colapso que muitos previam. E viera ali parar, nem sabia bem como, a um local onde tudo se fazia para que houvesse uma nova oportunidade. Era por isso que, apesar da escassez, nunca faltava a água no canteiro, com um variado leque de flores, situado mesmo no centro do acampamento. E, em certas noites, quando o breu da lua nova irrompia, o som do saxofone dum músico poeta ajudava a atenuar os receios. Todos por ali sabiam que, por vezes, o ânimo carecia mais de alimento que o estômago.
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sábado, 11 de fevereiro de 2012

SEMENTE

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Margarida Cepêda, Semente
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As mães são conchas e mistério, elas apertam os filhos como rios sem margens no diafragma do Tempo, as mães têm braços que agarram por dentro o Amor com magnética nitidez. As mães são o regresso do mundo.
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Gisela Rosa, O Anel do Tempo,  A Matriz dos Sonhos
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Quando chegava o verão
Sentavas-te
À tardinha
Debaixo da figueira
Onde a brisa
Suave
Anunciava
O rumor das cotovias
Então pegavas
Delicada
Na minha mão
E contavas
Baixinho
Era uma vez um potrinho
Que adormecia
Feliz
A ouvir
As histórias do vento...
Sentia-te perto
E o tempo
Adormecido
No cantar do ribeiro
Parava
Enlevado
Para nos ver
Assim eram os dias
No tranquilo paraíso
Em que desenhavas
Minuciosa
O crescer das minhas asas
E eu sentia
Maravilhado
O vigor do teu voar.
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