domingo, 28 de junho de 2015

PAISAGEM COM CEREJAS AO FUNDO

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Subia a encosta, sem bordão, à mercê do que lhe oferecia o caminho, mudando, a cada passo, de indumentária. Aqui o verde escuro dos pinheiros, mais além o verde vivo dos castanheiros, em harmonioso enlace com a alternança alquímica de fetos e carvalhos. Para trás ficava o piscar de olho das cerejeiras, eterno canto de sereia para qualquer viajante. E quantos se deixavam prender! Mas continuava, a percepção das coisas assim o exigia.
Às vezes, quando chegava ao cume, parecia que tudo se encaixava. O mundo, visto dali, parecia um enorme puzzle com as peças no devido lugar. Bastava saber olhar. Outras, vá lá saber-se o porquê, tudo parecia desarrumado, em convulsão, sem fio condutor. Era quando precisava de mais tempo, de apaziguar alguma cicatriz mais renitente. Iniciava, então, o ritual. Olhava em volta, à procura do melhor ângulo, e escolhia um local para se sentar, normalmente talhado em granito. Depois olhava, à distância, à espera que fosse tomado pela envolvência. Quando se dava conta, depois de imerso na imensidão, o tempo sorria. Dele e para ele.
Na descida, e já sem canto de sereia, o sabor das cerejas era doce e reconfortante brisa.
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sábado, 13 de junho de 2015

DAS RARAS AURAS

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Olho para ti, deslumbrado, eterno poema de pássaros com ninhos em permanente construção.
O teu olhar, forjado em inquieta vivacidade, não se compadece com lamentos, aprendeu que a luz caminha sempre de braço dado com a sombra. Tal como as poldras na travessia do rio, vais deixando um ânimo aqui, outro mais além, sementeira de afectos irrigadora do que de melhor há nos outros.
Olho para ti, deslumbrado, e deixo que, por momentos, minh'alma se aquiete. Vás para onde fores, a luz e a sombra far-te-ão sempre justiça.
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Poldras - Pedras dispostas de modo a permitirem atravessar correntes de água a pé enxuto. 
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quarta-feira, 10 de junho de 2015

FILOSOFICES EM DIA DE CAMÕES

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Alguns correm, outros navegam, muitos nem uma coisa nem outra. O desejável ponto comum, se o houver, é que cada um, no meio de tantos, saiba qual o seu lugar. Mesmo com as promoções do Pingo Doce e do Continente.
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domingo, 7 de junho de 2015

(IN)CERTEZAS

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AC, Nascente
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Lá em baixo, em pleno turbilhão, moldam-se cabeças, mestres de cerimónia decidem o que comer, o que vestir, o que não ouvir, o que dizer.
Cá em cima a água corre, molda a pedra, nada a parece deter. Mas basta a chuva folgar para tudo, aparentemente, se reconverter. Mas só até voltar a chover. Então tudo se recompõe, tudo se harmoniza, só os homens teimam em não ver, em inventar sem sentir.
Nas andanças da percepção, um pé lá, outro cá.
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