sábado, 28 de novembro de 2015

(A)BORDAGENS

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Fotografia de AC
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Chegaste, ao fim da tarde, quando me debatia com o arrumar de algumas palavras, quase sempre esquivas. 
O sol, já muito inclinado, resistia ao ocaso, naquele período em que a luz, quase mortiça,  e ainda que por breves instantes, realça os recantos mais tímidos da alma.
Trazias palavras de indagação, bordadas em sorrisos, mas os teus olhos eram mais fiáveis. Querias saber, questionar, embora de forma delicada. Sabias que, em lugares onde esvoaçam os pássaros, a harmonia não é palavra vã.
Queria mostrar-te as abelhas, em contramão, no afã das nespereiras, mas o astro, quase de inverno, esgueirava-se. Na abordagem das estações, num outono prestes a passar testemunho, já poucas palavras respiram, a maioria está em pousio. Os pássaros continuam a esvoaçar, é verdade, mas apenas os guardiões dos ínfimos pormenores, a preparar terreno para os anunciadores da primavera.
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Margarida Cepêda, Chegada e partida
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sábado, 21 de novembro de 2015

A MINHA ILHA

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Margarida Cepêda, Ela, o violino e vagas
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Gosto de ilhas. Com pontes, com boas pontes, daquelas que, por mais robustas, saibam respeitar o sentido de ser. Só assim as ilhas fazem sentido. 
O mar, por vezes, dando correspondência à agitada movimentação das nuvens, cada vez mais carregadas, agita-se desmesuradamente. E ameaça, galga, esforça-se por dar sinais. 
A minha ilha não é diferente das outras: nela vive-se, chora-se, canta-se, morre-se. Na minha ilha, contudo, há algo que se solta, que emerge, que apazigua as nuvens que nos ensombram. São pequenas coisas, tecidas em dádivas, em crenças, em partilhas. É pouco, eu sei, é apenas o revisitar da génese de algo que se deseja, mas na minha ilha, por mais que o mar se zangue, o justo nunca paga pelo pecador. 
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sábado, 14 de novembro de 2015

EM BUSCA DO FUTURO

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Margarida Cepêda, Berço
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Eram nómadas por convicção. Traziam consigo, coladas no dorso, conchas de outras eras, medalhas naturais adquiridas no seu deambular.
Vislumbraram há muito o padrão das estrelas, mas continuavam sem encontrar correspondência nos seus passos. Sabiam dos limites da explicação do claro-escuro, perpetuadora de fronteiras, e percorriam os caminhos em busca de novas tonalidades. Tentavam de todas as formas geométricas, mas o brilho almejado, sem eclipse, teimava em não se revelar.
Na sua tentativa de descobrir o futuro, ser nómada tornara-se condição. E, por entre as carícias do vento, a música e a dança tendiam a suavizar o caminho.
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Dezembro de 2011
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sábado, 7 de novembro de 2015

PRESSAS

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Hélio Cunha,Táxi
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Caminhava, apressado, contornando as pessoas com a ligeireza própria dum desesperado. Estava atrasado, mais uma vez, lutando contra relógios, guarda-chuvas, buzinas, semáforos, polícias, carros, vendedores ambulantes, turistas, pombos... tudo quanto lhe aparecesse pela frente. 
Não era sina, era apenas a consequência de tudo querer, quase sem regra, como se o mundo se fosse desintegrar a qualquer momento. Levava demasiado a peito a ideia de falência do sistema, esperança era palavra ofuscada do seu vocabulário. E corria, corria muito, em prol de se satisfazer, às tantas nem sabia bem do quê. Apenas queria viver, tentar viver tudo num instante, com urgência, mas sem procura, sem filtragem, sem aprendizagem...
Corria, interpelava, clamava por um táxi. Com tanto frenesim, nem descortinava que era ele que, rapidamente, se começava a desintegrar.
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