sábado, 25 de junho de 2016

ESTRADAS POUCAS, INSATISFAÇÕES MIL

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AC, Estrada
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há um segredo por desvendar, em cada curva
há um corpo por desnudar, em cada enlace
há uma inquietude por cuidar, por mais que turva
há uma estrada por trilhar, por mais que abrace.
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sábado, 18 de junho de 2016

(DES)FADO

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AC, Nuvem-pássaro
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Olhamos, sentimos, tentamos compreender. E, por todo o lado, correspondendo à irracionalidade do medo, irrompem fronteiras, marca simbólica do que nos separa, deixando, cada vez mais, para o fim da fila, aquilo que nos poderia unir. 
Os sonhos são matéria quase profana, em detrimento das bandeiras, os profetas do apocalipse continuam a construir igrejas, com fácil recrutamento de diáconos, os muros rivalizam com as ervas daninhas. Triste fado, o da gente adormecida, apenas reagindo a instintos, presa fácil de qualquer gavião. Fado que se faz canção, lamento que, apenas consistente, aquando de copo na mão.
Há um mundo que não quer fado, há um mundo por reconstruir. Tanto de mim que quer ficar, tanto de mim que quer partir.
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sábado, 11 de junho de 2016

JUNHO

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AC, Coimbra, margem esquerda do Mondego
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Quando Junho, exuberante de vida, descia do indomável corcel, as varandas, até aí enfeitadas de promessas, vestiam-se de certezas. Era a hora dos grilos e das cigarras, em harmonia com os pássaros, entoarem a sua sinfonia. Era a hora de tu chegares.
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sábado, 4 de junho de 2016

O ILUSIONISTA

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Hieronymus Bosch, O Ilusionista
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As vestes, bem engomadas, eram complemento de gestos precisos, elegantes, que prendiam qualquer olhar. Na rua, num gabinete, ou em qualquer outro lugar onde palpitasse coração de gente. Aprendera que as pessoas, mesmo as supostamente mais sábias e poderosas, tinham sempre uma fenda, por mais discreta, à espera de algo que as surpreendesse, que as maravilhasse.
O homem, cata-vento, em roda viva,  da sua própria ignorância, bem tenta camuflar a sua essência, mas, qual músculo involuntário, há sempre algo revelador das suas forças e fraquezas, da sua constante instabilidade. Quase sem se dar conta, é essa fragilidade que lhe mantém a chama viva para novos passos, novos olhares, novas atitudes. No fundo, depois de pisar, derrubar e reconstruir as pedras do caminho, o homem, na sua individualidade, mais não almeja que a redenção.
Alfredo pertencia a uma estirpe que se perdia na bruma dos tempos. Conhecedor das grandezas e misérias da espécie humana, mais não fazia que explorar a imperfeição de fortes e fracos, de ricos e pobres, de avarentos e filantropos, de cépticos e sonhadores. Em suma, alimentava-se da fraqueza dos outros, da capacidade em saber explorar a tal fenda, por onde, embora negados, de viva voz, até os milagres eram permitidos, quantas vezes desejados. Era por ali, no que de mais puro e ingénuo tinha o homem, que ele costumava investir.
Também Alfredo, contudo, tinha as suas fragilidades. E, à medida que o cheiro da fraqueza humana o ia inundando, de tanto a espremer, ia desenhando, cada vez com maior minúcia, cenários para a sua possível redenção. Talvez, quem sabe, conseguisse almejar a sua façanha mais gloriosa: iludir-se a si próprio.
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