sábado, 27 de maio de 2017

CANÇÃO DE DESPERTAR

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Hélio Pereira, Fraga da Pena (Serra do Açor)

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Os aromas de Maio, polinizadores, desassossegavam a alma, despertando sensações enfeitiçadas pelo mais puro instinto de vida. Surgiam canções, poemas, gestos a esboçar toques na pele, como se a vida tivesse que ser agarrada ali, no momento, como se nada mais importasse.
À tardinha, quando os aromas mais se insinuavam, mergulhava nas águas, ainda frias, e reformulava a tela, ainda por concretizar, invocando as deusas do riacho. Depois, mais apaziguado, escrevia um poema, tentando colorir aquilo que me escapava, não por entre os dedos, mas pelo desejo da pele tocada.
Assim eram os dias, no longínquo esboço de paraíso, em que tentava desenhar, no mais puro de mim, o rosto da desejável partilha.
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sábado, 20 de maio de 2017

A CARCÓDIA

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Hélio Pereira, Foz d'Égua (Arganil)
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Os alvoreceres ainda eram tenros, com as cores pouco definidas, mas já nessa altura o olhar se perdia no longe, ainda que a espaços.
Nas tardes de estio, quando o tempo sorria para todas as vontades, pegava no canivete do avô e, toscamente, esculpia um casco de barco na carcódia que subtraía dum qualquer pinheiro. Depois, com cuidado, afiava um pauzinho, perfurava uma folha de castanheiro e espetava-o no centro da minúscula nave. Faltava a mensagem, escrita numa folha do caderno da escola. Guardado o lápis, dobrava o papel e acomodava-o no barco, qual sonho a adornar o dia, e libertava-o, na corrente, como se fosse o anúncio do seu passaporte para o mundo.
Mais tarde, quando os pais o levaram, de mala a tiracolo, para o deixar num colégio, "para se fazer homem", o último olhar foi para o fio de água. Talvez, um dia, as malas da sua vida abarcassem os sonhos que enviara, em plena nudez, nos pequenos pedaços de carcódia.
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Hélio Pereira, Foz d'Égua (Arganil)
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sábado, 13 de maio de 2017

ELOGIO DAS COISAS SIMPLES

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AC, Duplo abrigo (da minha lenha e das andorinhas)
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Não sei com quem aprendeste, mas escolhias sempre as manhãs para te mostrares, em constante movimento, cuidando das coisas que embelezavam o teu dia. 
Recolhias-te, descansavas, cuidavas das pontas soltas. Regressavas à lida a meio da tarde, infatigável, e só abrandavas quando o rosmaninho e o alecrim destilavam o melhor que tinham, como que a despedir-se do sol e das cotovias. Descansavas, então, na varanda florida, enfeitada de cravos e manjericos, respirando os aromas modelados pela brisa morna com que trauteavas, sorridente, os simples acordes da vida.
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sábado, 6 de maio de 2017

PRINCESAS, PEDRAS, PÁSSAROS E LENDAS, O MARAVILHOSO PARA LÁ DAS TENDAS

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AC, Gardunha
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Em tempos que já lá vão, havia uma princesa moura, muito bonita - contavas tu, enquanto me aninhava, encantado, no calor do teu colo - que costumava passar por ali, nos fins de tarde, lamentando a ausência do alaúde e do bendir. Então, perante tão sentido carpir, toda a passarada da Gardunha se reuniu, em assembleia, para debater sobre a melhor forma de apaziguar o lamento da princesa. Decidiram cantar por turnos e, não fosse alguém esquecer o combinado, confiaram tudo às Pedras da Memória.
Melros-azuis e rouxinóis, cotovias e piscos, ferreirinhas e pintassilgos, e outros que tais, que esvoaçavam por cima das pedras, nunca mais se esqueceram do protocolo, embalando a princesa moura em naturais cantares, fazendo-a sentir como se aquela fosse a sua verdadeira casa. 
Ainda hoje, quando alguém passa por ali, e se estiver atento, as pedras parecem querer dizer-lhe algo. A passarada por lá continua, cumprindo a decisão da ancestral assembleia, apenas falta quem a ouça e sinta como a princesa moura.
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domingo, 30 de abril de 2017

PORTAL

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Fotografia de AC
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Não ia lá muitas vezes, mas quando o fazia sentia sempre necessidade do mesmo ritual.
As certezas, portadoras das pequenas vaidades, iam ficando pelo caminho. Quando chegava junto da sentinela, guardião granítico esculpido pelos elementos, já a mente se começara a misturar por ali, mergulhada em linguagens só acessíveis ao mais profundo da alma. Olhava para o anfitrião, fazia-lhe um aceno, quase reverencial, movido pelo respeito, e depois prosseguia, sem pressa, tentando decifrar o silêncio das plantas e das pedras, das melodias que entoavam à passagem do vento. 
Sentia-se longe, muito longe. Quanto mais se afastava mais se sentia perto de si, do seu âmago, da percepção das pequenas coisas, num quase vislumbre da arquitectura do universo. Por ali ficava, refém duma nova ordem das coisas, até a alma ficar saciada.
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quinta-feira, 27 de abril de 2017

25 DE ABRIL

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Imagem retirada da Internet
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Há três dias as palavras surgiram, espontâneas, com vontade de voar, mas ficaram resguardadas, partilhadas apenas com meia dúzia de amigos. Alguém, contudo, pediu que as publicasse. Tive que as soltar.
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Há uma luz que refulge, sulcando as trevas
Há um gesto que renasce, fazendo o dia
Há um canto que se ouve, quase em murmúrio
Há um despontar de vozes, quase melodia.
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sábado, 22 de abril de 2017

RIBEIRINHO

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Fotografia de AC
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Sei donde vens, não sei para onde vais. Nos dias que me vão iluminando, cada vez mais de rejeição à sombra, basta-me que te mexas, que circules, que não deixes de andar. 
Não te percas em delongas, que te fazem perder o norte, mas acaricia quem precisa. Essas são marcas que, quando sentidas, poderão mudar um desígnio. Honra, portanto, cada gesto. Se, entretanto, chegares a alguma enseada apaziguadora, que te tente a ficar, não te esqueças das tuas origens. Serão elas que, passada a euforia, te darão a sustentação e o equilíbrio necessários para perceberes se chegaste, ou não, à foz do teu destino.
Vai, não pares. A vida espera por ti.
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terça-feira, 18 de abril de 2017

SUBIDA À GARDUNHA

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AC, Gardunha
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A subida, sempre a pé, era árdua, exigindo do caminhante determinação e boa forma.
Ultrapassados os cerejais, com o fruto, recém-nascido, a irromper para lá da flor, a inclinação acentua-se. E nem os castinçais - manancial de matéria-prima para os últimos cesteiros de Alcongosta - com a folhagem a querer romper, amenizam o esforço.
O granito, austero, começa a assomar, conferindo diferentes contornos à caminhada. Para lá de um ou outro pinheiro, as giestas, pintalgando a paisagem de branco e amarelo, começam a predominar, cedendo, a pouco e pouco, o lugar à vegetação rasteira, com pacto com todo o tipo de ventos. O granito, omnipresente, mantém-se fiel, qual guardião duma outra dimensão. O horizonte alarga-se, a cada passo, numa visão panorâmica que nos convida, muito lentamente, a rodopiar, a desafiar as amarras do tempo. Uma leveza profunda, imune ao cansaço, começa a insinuar-se e, quase sem nos apercebermos, sentimos vontade de abraçar. Chegara a hora de falar com os deuses.
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AC, Gardunha, com Marateca ao fundo
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quarta-feira, 12 de abril de 2017

VERSATILIDADE

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AC, Cerejais no Vale do Alcambar, Gardunha
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Dantes havia soutos, prevalecendo a frugalidade da castanha, enquanto se consolidava o estatuto cimeiro da madeira do castanheiro, rija e durável como poucas, transversal a muitas gerações. Agora, no advento da cerejeira, as encostas de parte da Gardunha, em socalcos, ficaram mais suaves, trazendo outra cor e sabor a quem respira aqueles ares.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como cantava o poeta de um olho só, em busca de avença. As gentes locais, agora, já não se arrogam da cepa do castanheiro, apenas os possuidores de memórias de antanho teimam em lutar pela divisa. A hora é da cereja, saborosa e inspiradora, com boa cotação nos consumidores.
Com quantas varas se consolida a palavra "mercado"?
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Adenda, após vários comentários: Gosto da paisagem, aprecio o esforço daqueles que se empenham em plantar, mesmo que subtraindo, cada vez mais, ao espaço natural da serra; rejuvenesço nas cores dos cerejais nas diferentes estações: no branco floral na Primavera, logo seguido dum verde novo; no rubi dos frutos, com um sabor inigualável, pintalgando o bolo tecido em verde maduro; o multifacetado das cores outonais, em que as folhas se desafiam na procura de novas tonalidades... Não podia, contudo - e fica a dívida paga - de deixar de recordar as gerações de pessoas que conviveram com outra realidade, em que o castanheiro era primordial. É que nunca seremos nada sem as nossas memórias.
Tudo muda, é certo, e muito bom será se as coisas mudarem para melhor. Comer, à tardinha, umas cerejas colhidas da árvore continua a ser, e de que maneira, uma experiência única.


Uma Feliz Páscoa para todos!
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sábado, 8 de abril de 2017

EU, TU, NÓS

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Pintura de Barbara Issa Vagnerovà
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Trauteando uma música do Abrunhosa, eu estou aqui. Logo, tu estás aí, ou ali, ou além. Seja como for, estás.
Olhemos em volta. Estejamos onde estivermos, há sempre algo a delimitar o perímetro, a povoar a área, a preencher o volume. A dimensão dos números, a ter algum interesse, apenas depende de nós, da capacidade que tenhamos para enfrentar, ousar, redimensionar ou relativizar, toda a chuva de meteoritos informativos que invade, constantemente, a nossa órbita. E é dentro desta premissa que tudo acontece, que se consagra aquilo para que nascemos, nesta complexa amálgama química designada por vida, eterno labirinto especulativo.
Ontem, quando passei por ti, pareceste-me vagamente preocupada, receosa, desassossegada. Hoje, quando te olhei, a aura da tua convicção ameaçava o cerzir das fronteiras, sempre maleáveis, que acordámos convencionar. Cheguei a tentar-me no porquê, mas para quê? Por ora apenas interessa o que vislumbro, o que pressinto. Quando resolveres partilhar o que transportas, talvez tenhamos que alargar a linha do horizonte. Bem vistas as coisas, e por mais paradoxal que pareça, filtrando a pressa que nos tentam incutir temos todo o tempo do mundo. Para nós.
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domingo, 2 de abril de 2017

O FORJAR DAS ASAS

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Pintura de Margarida Cepêda
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Quando chegava o verão
Sentavas-te, à tardinha
Debaixo da figueira
Onde a brisa, suave
Anunciava o rumor das cotovias.
Então pegavas, delicada, na minha mão
E contavas, baixinho:
Era uma vez um potrinho
Que adormecia, feliz
A ouvir as histórias do vento...
Sentia-te perto
E o tempo
Adormecido no cantar do ribeiro
Parava, enlevado, para nos ver.
Assim eram os dias 
No tranquilo paraíso
Em que desenhavas, minuciosa
O crescer das minhas asas
E eu sentia, maravilhado
O vigor do teu voar.
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terça-feira, 28 de março de 2017

QUADRAS À SOLTA - NA RUA DA MINHA TIA

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"La poesía es algo que anda por las calles. Que se mueve, que pasa a nuestro lado. Todas las cosas tienen su misterio, y la poesía es el misterio que tienen todas las cosas. (…) Por eso yo no concibo la poesía como una abstracción, sino como una cosa real, existente, que ha pasado junto a mí."
Federico Garcia Lorca
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Tendo como pano de fundo as palavras de Lorca, o Fundão, por estes dias,  está a vestir outra roupagem. De 19 de março a 4 de abril, com o patrocínio da União Europeia, através do seu programa Europa Criativa, esta pequena cidade do interior está a colocar no terreno o evento "Poesia na Rua", que se desenrola, em simultâneo, em Guadalajara (Espanha), Grenoble (França) e em Cologno Monzese (Itália).
Instado a escrever algo para um grupo de cerca de 100 crianças levar à cena, saíram-me estas quadras, todas à solta, onde se pretende recriar uma rua fantástica, maravilhosa - os miúdos simularão mesmo uma rua, povoada pelas personagens das quadras - onde tudo pode acontecer. Oxalá eles se divirtam.
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Na rua da minha tia
Há constante descoberta
Espreitam estrelas p’la janela
Mesmo quando o sol aperta.
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Na rua da minha tia
Há um burro a ladrar
Um sapato a dizer rimas
Um caracol a sprintar.
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Na rua da minha tia
Há um leão voador
Rabisca planos de voo
Debaixo dum cobertor.
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Na rua da minha tia
Os cavalos sentam-se à mesa
Pedem um fardo de palha
Com toda a delicadeza.
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Na rua da minha tia
Há baleias a passar
Engomam as conversas todas
Sem nunca as arranhar.
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Na rua da minha tia
Há formigas d’encantar
São todas namoradeiras
Todas gostam de dançar.
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Na rua da minha tia
Há um tapete de velas no ar
A desenhar mil aventuras
Com as aves sempre a remar.
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Na rua da minha tia
Os polícias andam descalços
Os sonhos são verdadeiros
Os ladrões são todos falsos.
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Na rua da minha tia
A chuva não cai no chão
Faz piruetas nos telhados
Em forma de coração.
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Na rua da minha tia
As borboletas usam redes
Para apanhar os poemas
Que respiram nas paredes.
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Na rua da minha tia
Há um homem muito elegante
Conta memórias a toda a gente
Que herdou dum elefante.
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Na rua da minha tia
Há uma quadra em cada flor
No aroma de cada uma
Se sente a palavra amor.
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Na rua da minha tia
Há bailes de adivinhas
As respostas chegam p’lo ar
Trazidas por joaninhas.
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Na rua da minha tia
Todos passam da cepa torta
As abelhas, quando chegam
Deixam mel em cada porta.
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Na rua da minha tia
Os dragões não têm asas
Dão passinhos de balê
Enquanto pintam as casas.
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Na rua da minha tia
As janelas abrem p‘ró mundo
Quanto mais a gente a olha
Mais a rua não tem fundo.
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Adenda, pós actuação: A miudagem portou-de bem, interpretando a filosofia da coisa da melhor maneira, de tal forma que, no final da sessão, por entre efusivos parabéns, foram convidados para apresentar "Na Rua da Minha Tia" na sede do Agrupamento de Escolas, no dia aberto à população. Em finais de Maio eles lá estarão.
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sábado, 25 de março de 2017

SAUDADE

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Havia um monte. E uma árvore. E uma fonte. Vindo de longe, movido a saudade, ouvia-se um lamento. Que fazer? Pegou nas lembranças, envolveu-as num ramo de flores e foi, de coração apressado, ao encontro dela.
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terça-feira, 21 de março de 2017

LEVE BREVETA, PROFUNDA SONATA

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Pintura de Barbara Issa Vagnerovà
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Vá, dá-me a mão. De que tens medo? De parecer algo que não controlas? De te sentires fora da corrente daquilo que os outros pensam? Vá, deixa correr o que sentes, o que não dominas, não tenhas receio dos acordes profundos, que ecoam para lá das portas em que te encerraste. Não tenhas pressa. Respira, profundamente, e pensa que estás no alto de uma montanha. És só tu e os elementos, mais os elementos que tu, és apenas um ínfimo ser ao sabor do vento. Sente-o, mas espera que ele amaine. Apercebes-te agora da leve cantilena que ele deixa ao passar pelas pedras? A música é para ti, podes crer, desde que a queiras ouvir. Vá, toca-me. Eu estou, tu estás, estamos vivos. Não é maravilhosa a sinfonia da vida?
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sábado, 18 de março de 2017

MANHÃS DE SÁBADO

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Pessegueiro, Fotografia de AC
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Após uma intensa semana de trabalho na escola - em que, apesar do empenho, tentar levar a bom porto uma nau que alguns persistem em comandar à distância, no conforto dos gabinetes, esquecendo realidades díspares, não é pêra nada doce - as manhãs de sábado são sempre momento de reencontro com o que de melhor habita em nós. Hoje, porém, tal era o cansaço, não houve azáfama obreira, numa eterna tentativa de harmonizar o mundo que nos rodeia à medida da nossa respiração. Não, hoje as mãos não mexeram na terra, houve apenas disponibilidade para curtas andanças para observar o andamento da horta de inverno - alhos, favas, ervilhas, este ano com a novidade de dois chuchuzeiros - e para assistir aos progressos da floração das árvores.
Olho, ao longe, e tudo parece parado. Tranquilidade é coisa que por aqui não falta, de tal forma que até os riscos dos aviões no céu se fazem notar. Lembram-me viagens, novos destinos, alimentam-me a vontade de tudo conhecer. Desenham-se algumas metrópoles, mas o pensamento, obstinado, persiste em transportar-me até aos Andes, ao reino do condor, aliciando-me com a perspectiva de caminhar nos cumes. É apenas um simulacro, eu sei, sempre me atraíram os espaços mais ou menos livres, em que, facilmente, somos confrontados com a nossa essência. E já poucos restam.
Os gatos, guardando a distância necessária para albergarem estatuto independente, já não interferem com a horta. Procuram, aqui e ali, um ratito do campo ou um pássaro desprevenido, mas não parecem muito empenhados. Os cães da vizinhança resguardam-se, silenciosamente, do sol, como que sentindo que não é a hora deles. As borboletas, pelo contrário, esvoaçam com vivacidade, poisando, amiúde, para depositar os ovos numa qualquer planta. A passarada, após o matinal concerto, recolheu, sensatamente, a refúgio seguro. Apenas os pardais, numa azáfama constante, não se coíbem de debicar aqui, debicar ali, enquanto uma ou outra andorinha persiste na construção do ninho.
Manhãs de sábado, eterno depósito abastecedor do meu respirar.
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terça-feira, 14 de março de 2017

PRIMAVERA

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 DamasqueiroFotografia de AC
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Éramos jovens potros
Imunes ao receio
E a primavera de Vivaldi
Em harmonia vibrante
Era o primoroso retrato
Do nosso entusiasmo
No galopar sem freio.
A seara ondulava, sensual
E viajávamos no sonho
Embalados no rumor da aragem
Que escrevia
Nas folhas dos freixos
Sinfonias à nossa passagem.
A paixão das cigarras
Morava dentro de nós
E a linha do horizonte
Meta por conquistar
Era a tela
Dos planos traçados
Dum mundo por desbravar.
Adormecia nos teus braços
Em nocturno de Chopin
Terna e doce vassalagem
E só o romper da aurora
Rebate do mundo lá fora
Quebrava o feitiço da viagem.
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Pereira, Fotografia de AC
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Reedição
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sábado, 11 de março de 2017

MUROS E QUINTAIS, SERVIÇO DE MESA COM AVENTAIS

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Fotografia de AC
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Todos os dias, apesar da pressa em satisfazer compromissos, cada vez mais sobrecarregados na exigência dos outros, há algo à flor da pele que argumenta, que questiona, que reivindica, afastando para lá a ideia do acenar submisso do autómato.
Vivemos num tempo de transição. Esbatem-se, cada vez mais, os ideais humanistas, em que o progresso deveria estar ao serviço do homem. No horizonte, assomando cada vez mais às claras, insinua-se um mundo controlado, vigiado, em que cada manifestação individual, ou social, é escrutinada ao mais ínfimo pormenor. As pessoas recebem cada vez mais brinquedos, acompanhados dum diploma de modernidade, enquanto que, em paragens "sem interesse estrutural", há quem clame por água, por pão, por um qualquer lugar onde não se oiça o sibilar das balas. No fundo, dão eles a entender, deveríamos estar contentes por vivermos para cá do muro.
Vivo, por opção, num local em que todos os dias se ouve o cantar da passarada, se vêem as plantas a crescer, se observam as estrelas no firmamento, convidando a viagens para lá de nós. E sinto-me grato por isso. Mas não, por mais que me cantem loas aos ouvidos, não vivo num mundo à parte. Gosto muito do sítio onde vivo, mas não posso esquecer, nunca, que sou parte integrante dum complexo sistema em que os verdadeiros poderes, cada vez mais na sombra e, a cada dia, mais fortes e subtis, vão muito para lá do cantinho de cada um. Estamos todos no mesmo saco, à mercê de cinzentos desígnios, mas há quem teime em dourar, a todo o custo, a pílula da existência.
Todos os dias, quando me levanto, encho a alma com o canto da passarada, mas nunca me esqueço, mesmo que em modo suave, do mundo em que vivo. Com os afectos a tiracolo, sempre.
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sábado, 4 de março de 2017

OS CONSTRUTORES DE LENDAS

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Pintura de Sergei Aparin
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Não sabiam bem por que o faziam, apenas sentiam que tinham que o fazer. Eram herdeiros de mil lutas, de iguais persistências, em prol de algo que vinha do mais profundo de si. Às tantas, perante tantas pedras no caminho, duvidavam, mas acabavam por prosseguir, deixando, em cada sítio, esboços de coisas diferentes, mapas de inquietudes, incompreensíveis para quem se habituara à segurança de cada coisa no seu lugar. E prosseguiam, prosseguiam sempre, indiferentes aos olhares, aos gestos. Sentiam, há muito, a bússola que os guiava, que os impelia, a estrela que, nos seus sonhos, lhes soprava a palavra liberdade.
Quando chegaram àquele vale, longe da agitação e da cobiça, sentiram que podiam ficar. Não havia colunas, nem torres, nem palácios, apenas algumas ruínas. Era um local simples, tranquilo, desprezado pelos outros, fora do corrupio habitual em que todos se querem ver, em que todos se sentem vivos porque os outros também lá estão. Talvez, ali, conseguissem momentos de pausa, mesmo que curtos, em que pudessem respirar, profundamente, tudo o que os norteava.
Jonas, que liderava o grupo, sabia que não os deixariam ficar ali muito tempo, mas não partilhou, com os outros, os seus receios. Era apenas uma pausa, mais uma, apesar de procederem como se o melhor fosse possível. Talvez fosse desta, pensavam eles. Mas Jonas, lá no fundo, sabia que estavam demasiado habituados a olhar para as estrelas, a tê-las por companhia.
Repararam o essencial das paredes, taparam fendas, deram sentido aos telhados. Escolheram os melhores locais para cultivar, semearam, limparam o terreno circundante. Nos tempos de repouso, em que todos se olhavam, havia sempre alguém que trauteava canções antigas, quem perscrutasse o futuro, quem dançasse, quem contasse histórias...
Começavam a habituar-se, coisa rara, mas um dia chegou um jipe com homens de uniforme. Receberam-nos com o melhor que tinham, tentaram conversar, mas os rostos dos visitantes, fechados, nunca destoaram da farda. Fizeram perguntas, pediram documentos, escrevinharam num livro. À despedida, impassíveis, deixaram a sentença: tinham que partir.
No dia seguinte, bem cedo, despediram-se do vale e empreenderam nova marcha. Um ou outro do grupo ainda olhou para trás, mas por pouco tempo. A herança era pesada, mas teimavam em procurar, sem saber bem onde, um local onde a palavra liberdade fizesse todo o sentido. E, embora em tom de lamento, cantavam, dentro de si nunca deixavam de cantar.
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A MINHA AMENDOEIRA

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Fotografia de AC
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O sol, hoje, parece andar arredio, como que a lembrar aos participantes dos desfiles de carnaval que nem tudo depende da nossa vontade, exigindo alma até almeida aos adeptos de parcas roupas. Hemisfério norte oblige. As árvores, contudo, imunes aos humores de quem decide, parecem já ter nascido de sobreaviso: resplandecem perante a euforia solar, resguardam-se quando as nuvens, em concreta afirmação, se assumem como parceiro a ter em conta.
A minha amendoeira, feliz, vai registando a eterna luta dos elementos. Jovem, plena de viço, pouca importância lhes parece dar. O mundo que conhece, o circundante, presta-lhe vassalagem, sente que tudo parece ao seu alcance. E cresce, vigorosa, plena de flores, enfeitiçando as abelhas das redondezas.
Por perto, em descanso activo na pausa escolar, vou cavando aqui, fazendo um enxerto ali, plantando (um hibisco, desta vez) ali. A amendoeira, ciosa do seu papel de porteira dos assomos primaveris, teima em piscar-me o olho. E só quando, já de máquina fotográfica em riste, lhe devolvo o piscar, é que ela me concede tréguas.
A manhã, por entre naturais divagações, passa num ápice. É tempo de pausa, de banho, de uma boa refeição. No portão, em tom caloroso, o primeiro convidado já se faz sentir.
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sábado, 25 de fevereiro de 2017

GRAAL DA SENHORA DOS CAMINHANTES

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Pintura de Vladimir Kush
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Era tão grande o coração
tamanha a ilusão
que tão grande envolvimento
lhe moldava
cegamente
o pensamento.
Mas, que importava?
Quanto mais caminhava
mais se envolvia
em busca do segredo do abraço
que domasse o andar do compasso
que fizesse iludir o tempo.
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sábado, 18 de fevereiro de 2017

CLARIDADE

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Fotografia de Júlia Tigeleiro
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Há dias em que, quando a claridade chega, teimas em te enfeitar, vestindo as roupas mais claras. 
Dizes, com invejável serenidade, que cada hora tem os seus rituais, que a harmonia se alimenta de estados, de vontades, de comunhões. Se recebes claridade tens que, em humilde postura, ser elo transmissor, que a reflectir para tudo o que te envolve, te rodeia, para a diversidade do mundo que, até ao momento, conseguiste abranger. 
Ainda argumento, em exercício simulado, só para te ouvir, que a luz poderá ter mil leituras, com postos de recepção diferentes, mas tu, leitora atenta da forma e da tonalidade das nuvens, limitas-te a sorrir, persistindo em transmitir a claridade que te envolve. É assim que sentes a vida, é assim que a tentas abraçar. 
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ACERCA DA LEVEZA DA NEVE, EM MODO CONFORTÁVEL

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Fotografia de AC
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quando cai neve
nada prescreve
nada se deve
tudo parece leve
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quando neva
nada me leva
tudo me enleva
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Fotografia de AC
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TEAR

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Fotografia de AC
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Gosto do teu sorriso, sempre gostei. Lembras-te quando, em delicioso jogo de permanente descoberta, teimavas em escondê-lo, dissimuladamente, para eu o adivinhar? Era no tempo em que apenas tinhas olhos para o brilho das rosas, inebriada pelo seu perfume, deixando na sombra uma infinidade de pequenos sinais. 
Agora, quando sorris, o toque é mais discreto e profundo. Aprendeste que o dia não é só feito de alvores e ocasos, que é nesse intervalo que muito se conjuga da consistência dos passos, nem sempre embalados pelo canto das aves. Caminhaste tanto que, quando olhas para as coisas, o sorriso, mesmo em esboço, é bordado pelos mais finos teares de compreensão da vida.
Hoje, eterno cúmplice de mil estradas, já não espero pelo teu sorriso. Sei que, para lá dos humores do tempo, acabaremos por nos encontrar em qualquer parte do dia.
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sábado, 4 de fevereiro de 2017

RASTEJAR, ALEGREMENTE, NA AUSÊNCIA DA SEMENTE

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Fotografia de AC
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A semana foi intensa, com as exigências do trabalho a ofuscar qualquer olhar circundante, possível passaporte para amenizar a ditadura da obsessão produtiva. 
A escola, meu local de realização profissional, está a tornar-se, cada vez mais, epicentro único do percurso educacional, relegando a família para segundo plano. Por melhores que sejam as intenções, a verdade é que a maioria dos alunos deste país - há excepções, todos sabemos - apenas convive com os pais ao deitar e ao levantar e, quase sempre, com uma disponibilidade deficitária: à noite estão todos cansados, de manhã é o desagradável despertador a ditar leis, dando o sinal de partida para nova correria. Nas escolas, assumindo múltiplas facetas (professor, pai, psicólogo, enfermeiro, confidente...) os professores - alguns, é certo, mas creio que parte significativa - fazem o que podem, tentando que a compreensão da estrutura da vida faça sentido; lá fora os pais esforçam-se por cumprir as exigências, cada vez mais musculadas, dos horários de trabalho, moldando-se à luta pela sobrevivência, ao mesmo tempo que aconchegam, por mais discreta, a esperança dum amanhã mais desanuviador; os políticos fazem contas às metas, analisando obscuros mapas e gélidas grelhas, procurando ir ao encontro das exigências do verdadeiro poder, que se esconde na sombra, sob um imposto denominador comum: o obscurecer da essência humana; a maioria dos meios de comunicação social, adaptados ao papel de modernos necrófagos, teimam em explorar a miséria das pessoas; discute-se, na Assembleia da República, o incómodo tema da eutanásia, mas os argumentos são mais calorosos que esclarecidos; as alegrias e tristezas da tribo refugiam-se, cada vez mais, em obscuros futebóis, verdadeiro muro das lamentações...
Curiosamente, ou talvez não, e atendendo à efervescência do Facebook, toda a gente parece contente, radiante, a vida parece um mar de rosas. É preciso, acima de tudo, parecer, enquanto, paralelamente, os radicalismos se insinuam, cada vez mais, para lá das sombras.
Lá fora, enquanto escrevo, a chuva não cessa. Já ousei desafiá-la para ver a horta, devidamente protegido, embora não consiga passar por entre os pingos. As ervilhas, os alhos e as favas estão sorridentes, os tempos correm-lhes de feição. E, na mais pura candura, começam a exibir um verde claro, vivo, próprio de quem se quer criar. Sinto a energia positiva a invadir-me, rasgando o meu sorriso. Estava em défice, confesso.
Procuro uma fotografia para ilustrar o texto, mas a semana, amordaçante, não foi propícia à captura de novos olhares. Recorro ao ficheiro e detenho-me numa recente: a entrada da toca dum rastejante. Bem vistas as coisas, talvez os tempos estejam propícios a isso.
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domingo, 29 de janeiro de 2017

ENSAIOS DE RESPIRAR

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(Sandra Louçano: como tudo tem uma sequência, este vídeo foi colocado aqui para repor alguma justiça. Foi esta música que se ouviu, preferencialmente, no enquadramento do post anterior)
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As portas abrem-se, num eterno cerimonial, como se tudo acontecesse pela primeira vez. 
Um olhar, dez, mil, numa multiplicidade em constante deslumbramento. Tudo cativa, tudo parece perto e longe, a vontade de desbravar conjuga-se, em paralelo, com a de albergar. As coisas parecem ali, à mão, qual visão meteórica, criando a ilusão de que o tempo é domável, que a vida pode esperar por nós. 
Às tantas, após maratonas de inconscientes piruetas, regadas com risos de montanha russa, aceitamos a farda da normalidade, pregada por quem nos abraça, por quem nos quer bem. É preciso, incutem-nos, lutar pela zona de conforto.
Vestimos a farda, muitas vezes desconfortável, em conflito com a pele. Começamos, então, a questionar o que é a vida. Queremos agarrá-la, senti-la, descodificar-lhe o segredo, mas ela teima em esquivar-se, sorrindo e mofando, desafiando a persistência do mais abnegado. 
Há quem desista, resignado, há quem opte por não olhar, satisfeito com aquilo que tem. Deles, suprema descriminação, é feito o reino dos céus, apregoam os pastores. Mas, para aqueles para quem o sentido das coisas é tudo, pecar, não aceitando, é eterno desígnio. Descobriram, à custa de muito pó na pele, que a liberdade e a dignidade, mesmo que, aqui e ali, sorriam, não são concessão, são apenas apeadeiro de conquista permanente, sem fim à vista. Os afectos, energia imprescindível, são o verdadeiro sustentáculo de tão grande fé.
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sábado, 21 de janeiro de 2017

NO CALOR DO POUSIO

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Fotografia de AC
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A vida, em eterno jogo de escondidas, teima em acenar-nos, como que a lembrar que há sempre mais para lá daquilo que vemos, daquilo que conhecemos, daquilo que somos. 
Por vezes, aquando duma qualquer perda, não pareces convencida. E, sem te dares conta, alisas o terreno para a comoção se instalar. Eu sei, tu sabes: nada floresce, a não ser a sombra, com tal húmus.
Ontem, enquanto folheavas um livro, saí e sentei-me no alpendre. Estava frio, apesar do sol se esforçar por estender os seus braços, e ajeitei melhor a gola do casaco. Os gatos, por perto, indiferentes ao meu desagrado, teimavam em considerar como seus os terrenos recentemente plantados com ervilhas, favas e alhos, deixando rastos na terra mole. Levantei-me, esbracejando, qual proprietário de coisa nenhuma, e eles condescenderam em fazer o óbvio: levantaram-se, indolentemente, deslocando-se como reis e senhores do espaço, relativizando a importância do que quer que fosse. Acabei por sorrir.
O sol, entretanto, despedia-se num breve aceno, como que a relembrar evidências. Agradeci, mentalmente, e enchi o cesto da lenha para reforço da lareira. Faltava, apenas, escolher a música certa.
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domingo, 15 de janeiro de 2017

A ETERNA TRAVESSIA

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Fotografia de Júlia Tigeleiro
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Nas noites frias, quando os elementos, em cerco ancestral, teimam em legar-nos sinais, confrontando-nos com os limites, há algo que nos habita que tende a simplificar, a abrir fissuras que conduzam ao mais profundo de nós. Mas há portais que, por maior que seja a vontade, apenas reagem ao calor dos afectos. 
Mesmo nas tardes quentes, quando a brisa parece apaziguar, em discreto afago, o esgrimir das pontas soltas, há sempre algo adormecido na sombra, em paciente espera, em conluio com o pousio. 
Por mais que se debata, por mais que se legisle, não há horas, não há dias. O tempo, velho conhecedor do desassossego, insinua-se fora das normas dos homens, escarnecendo deles, como que a recordar-lhes que, para entenderem a vida, muito terão que trilhar para lá da sua exígua zona de conforto.
A vida, para lá dos tratados convencionais, é um enorme rio em que qualquer um se poderá perder, ou encontrar, num qualquer sucedâneo de afluente.
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sábado, 7 de janeiro de 2017

GOLIAS MULTIFACETADO, DAVID RENOVADO

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Ira Moskowitz, David e Golias
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David hesitava, na antecâmara da sala, dando livre curso aos medos. Por fim, arremetendo, cegamente, contra as amarras que lhe toldavam a razão, abriu a porta e entrou. 
O burburinho da sala, plena de sorrisos de etiqueta, atingiu-o como um raio. Ainda pensou em dar meia volta, mas algo o impelia a ficar, a olhar em frente. Avançou, combatendo o medo, esforçando-se por parecer imune às circunstâncias. Ignorou dois ou três cães rosnadores, contornou quatro ou cinco víboras, sorriu perante o papagaio de serviço, igual a tantos outros.
Quando chegou junto da mesa principal, colocada, estrategicamente, para ser vista por todos, o vice-rei fez-lhe sinal para se abeirar. Saudou-o, respeitosamente, e aguardou que o anfitrião se manifestasse.
- Sabes, David, o mundo está a transfigurar-se, prestes a viver novos paradigmas.
David ouvia, atento, esquecendo tudo o que o constrangia. Sentia que as palavras, prestes a brotar, continham algo de superlativo, fosse qual fosse o ângulo de análise. O vice-rei continuou:
- O mundo, tal como ele se nos apresenta, é como uma barca à deriva, onde todos se querem abrigar, mas poucos têm lugar. Levando esta ideia à letra, o rei, recorrendo às mais modernas tecnologias, mandou construir uma nave, à qual apenas terá acesso o que de melhor fervilha na nossa espécie em áreas essenciais: físicos, químicos, filósofos, médicos, antropólogos, agrónomos, biólogos, engenheiros, professores... 
O vice-rei fez uma pequena pausa, deixando que as palavras produzissem o seu efeito. Depois, fazendo sinal a David para se aproximar mais, segredou-lhe, quase em sussurro:
- Para além dos políticos certos, é claro - condescendeu o anfitrião, sorrindo. E continuou:
- O rei, ciente da importância desta empreitada, encarregou-me de seleccionar algumas pessoas que complementassem o saber de cada especialista. Quando alguém lhe levantou a questão das fissuras provocadas pela insatisfação da maré de candidatos, o teu nome, David, surgiu com toda a naturalidade. A nave, para que saibas, chama-se Golias. 
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