sábado, 22 de abril de 2017

RIBEIRINHO

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Fotografia de AC
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Sei donde vens, não sei para onde vais. Nos dias que me vão iluminando, cada vez mais de rejeição à sombra, basta-me que te mexas, que circules, que não deixes de andar. 
Não te percas em delongas, que te fazem perder o norte, mas acaricia quem precisa. Essas são marcas que, quando sentidas, poderão mudar um desígnio. Honra, portanto, cada gesto. Se, entretanto, chegares a alguma enseada apaziguadora, que te tente a ficar, não te esqueças das tuas origens. Serão elas que, passada a euforia, te darão a sustentação e o equilíbrio necessários para perceberes se chegaste, ou não, à foz do teu destino.
Vai, não pares. A vida espera por ti.
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terça-feira, 18 de abril de 2017

SUBIDA À GARDUNHA

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AC, Gardunha
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A subida, sempre a pé, era árdua, exigindo do caminhante determinação e boa forma.
Ultrapassados os cerejais, com o fruto, recém-nascido, a irromper para lá da flor, a inclinação acentua-se. E nem os castinçais - manancial de matéria-prima para os últimos cesteiros de Alcongosta - com a folhagem a querer romper, amenizam o esforço.
O granito, austero, começa a assomar, conferindo diferentes contornos à caminhada. Para lá de um ou outro pinheiro, as giestas, pintalgando a paisagem de branco e amarelo, começam a predominar, cedendo, a pouco e pouco, o lugar à vegetação rasteira, com pacto com todo o tipo de ventos. O granito, omnipresente, mantém-se fiel, qual guardião duma outra dimensão. O horizonte alarga-se, a cada passo, numa visão panorâmica que nos convida, muito lentamente, a rodopiar, a desafiar as amarras do tempo. Uma leveza profunda, imune ao cansaço, começa a insinuar-se e, quase sem nos apercebermos, sentimos vontade de abraçar. Chegara a hora de falar com os deuses.
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AC, Gardunha, com Marateca ao fundo
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quarta-feira, 12 de abril de 2017

VERSATILIDADE

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AC, Cerejais no Vale do Alcambar, Gardunha
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Dantes havia soutos, prevalecendo a frugalidade da castanha, enquanto se consolidava o estatuto cimeiro da madeira do castanheiro, rija e durável como poucas, transversal a muitas gerações. Agora, no advento da cerejeira, as encostas de parte da Gardunha, em socalcos, ficaram mais suaves, trazendo outra cor e sabor a quem respira aqueles ares.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como cantava o poeta de um olho só, em busca de avença. As gentes locais, agora, já não se arrogam da cepa do castanheiro, apenas os possuidores de memórias de antanho teimam em lutar pela divisa. A hora é da cereja, saborosa e inspiradora, com boa cotação nos consumidores.
Com quantas varas se consolida a palavra "mercado"?
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Adenda, após vários comentários: Gosto da paisagem, aprecio o esforço daqueles que se empenham em plantar, mesmo que subtraindo, cada vez mais, ao espaço natural da serra; rejuvenesço nas cores dos cerejais nas diferentes estações: no branco floral na Primavera, logo seguido dum verde novo; no rubi dos frutos, com um sabor inigualável, pintalgando o bolo tecido em verde maduro; o multifacetado das cores outonais, em que as folhas se desafiam na procura de novas tonalidades... Não podia, contudo - e fica a dívida paga - de deixar de recordar as gerações de pessoas que conviveram com outra realidade, em que o castanheiro era primordial. É que nunca seremos nada sem as nossas memórias.
Tudo muda, é certo, e muito bom será se as coisas mudarem para melhor. Comer, à tardinha, umas cerejas colhidas da árvore continua a ser, e de que maneira, uma experiência única.


Uma Feliz Páscoa para todos!
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sábado, 8 de abril de 2017

EU, TU, NÓS

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Pintura de Barbara Issa Vagnerovà
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Trauteando uma música do Abrunhosa, eu estou aqui. Logo, tu estás aí, ou ali, ou além. Seja como for, estás.
Olhemos em volta. Estejamos onde estivermos, há sempre algo a delimitar o perímetro, a povoar a área, a preencher o volume. A dimensão dos números, a ter algum interesse, apenas depende de nós, da capacidade que tenhamos para enfrentar, ousar, redimensionar ou relativizar, toda a chuva de meteoritos informativos que invade, constantemente, a nossa órbita. E é dentro desta premissa que tudo acontece, que se consagra aquilo para que nascemos, nesta complexa amálgama química designada por vida, eterno labirinto especulativo.
Ontem, quando passei por ti, pareceste-me vagamente preocupada, receosa, desassossegada. Hoje, quando te olhei, a aura da tua convicção ameaçava o cerzir das fronteiras, sempre maleáveis, que acordámos convencionar. Cheguei a tentar-me no porquê, mas para quê? Por ora apenas interessa o que vislumbro, o que pressinto. Quando resolveres partilhar o que transportas, talvez tenhamos que alargar a linha do horizonte. Bem vistas as coisas, e por mais paradoxal que pareça, filtrando a pressa que nos tentam incutir temos todo o tempo do mundo. Para nós.
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domingo, 2 de abril de 2017

O FORJAR DAS ASAS

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Pintura de Margarida Cepêda
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Quando chegava o verão
Sentavas-te, à tardinha
Debaixo da figueira
Onde a brisa, suave
Anunciava o rumor das cotovias.
Então pegavas, delicada, na minha mão
E contavas, baixinho:
Era uma vez um potrinho
Que adormecia, feliz
A ouvir as histórias do vento...
Sentia-te perto
E o tempo
Adormecido no cantar do ribeiro
Parava, enlevado, para nos ver.
Assim eram os dias 
No tranquilo paraíso
Em que desenhavas, minuciosa
O crescer das minhas asas
E eu sentia, maravilhado
O vigor do teu voar.
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