sexta-feira, 6 de outubro de 2017

ESTAVA MADURA NO RAMO, MAS NÃO A COLHI

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AC, Romãzeira
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Sempre que posso desvio-me dos caminhos principais, apesar de, aparentemente, eles terem largueza, bom piso, luzes, sinais, câmaras, holofotes... Curiosamente é por eles que toda a gente quer passar, sempre cheia de pressa, condicionada por um qualquer chip, como se a vida se resumisse ao momento efémero da sua passagem. E como eles correm!
Eu, mortal em contramão, cada vez tenho menos pressa, confesso. Aprendi que a maturação, para se exprimir da melhor forma, requer a pacificação do tempo, ou seja, muito suor interior. 
Um destes dias, porque sim, passei junto duma velha quinta, quase abandonada. Os muros, sinal de sabedoria do construtor, mantêm uma postura digna, sem quebras, adornados com heras alimentadas pelo tempo. Espreitei. Uma romãzeira, apesar do desprezo a que parecia votada, continuava a pintalgar aquela espécie de refúgio onde, quero crer, outrora alguém descia as escadas, tranquilamente, de cesta na mão, para levar para casa aquela flor outonal.
Mudam-se os tempos e as vestes, mas a espiral das vontades parece a mesma. A minha, num primeiro impulso, foi subir o muro e colher uma romã, mas algo me prendeu. É que, cada vez o sinto mais, não é a romã que temos na mão que importa. O que faz sorrir, interiormente, é a que levamos dentro de nós.
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19 comentários:

  1. Lindo te ler e ver teus pensamentos...Realmente, nem sei se ter a romã em mãos te faria mais feliz... ADOREI! BJS, CHICA

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  2. Fizeste bem em não ter colhido a romã, A.C. Na árvore será muito mais útil e benfazeja, alegrando o olhar dos caminhantes e saciando a sede dos pardais.

    Um beijinho com votos de bom fim de semana.

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  3. É assim com as romãs e com tantas outras coisas que encontramos nos caminhos. [Raramente as colho. Só em fotografia.] O melhor de tudo é esse poder que temos de as deixar lá e ao mesmo tempo as trazermos dentro de nós. :)

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  4. Por aqui se diz que há pessoas que não sabem mais viver se não estiverem ligadas a alguma coisa - e, por "coisa", deve-se entender algum aparelho, algum fruto da tecnologia de última geração. Surpreende que gente assim não tenha olhar algum para as romãs, em seu lento processo de maturação ditado pela natureza?

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  5. Olá, PN!
    Bem bonito a gente perceber que o interior é o que conta em tudo na vida...
    Seja feliz e abençoada!
    Bjm de paz e bem

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    1. PN? Não se enganou no comentário, Roselia?

      Abraço

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  6. Fala a voz de um homem maduro, que sabe que a vida é muito mais mais que uma mão cheia de corpo.
    Muito bonito AC.
    Beijinho com estima e carinho.

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  7. A pressa vertiginosa em que andam as pessoas e principalmente os que ainda se encontram em "maturação" é de os fazer travar a tempo e com tempo mostrar-lhes as "romãs" e não só. Já apanhei fruta com as netas que uma delas queria à fina força ir para casa ver uns bonecos televisivos e com isso deixei-lhe a sementinha que já germinou...a pressa é inimiga do que de melhor há na vida: saber viver!

    Gostei muito!

    Beijocas

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  8. E como deve ser boa a sensação desse teu olhar, a sensatez de escolha de caminhos!
    Adorei cada frase do teu sentir.

    Boa semana AC e um beijinho com muito carinho.

    Adélia

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  9. Que engraçado, por onde andei este fim de semana havia imensas romãzeiras e tantas foram as vezes que quis parar para colher uma como foram as vezes que não parei nem colhi, inconscientemente julgo eu :)

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  10. Uma romã já marchava!
    Aquele abraço, boa semana

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  11. Uma pessoa que gosta de percorrer os carreiros sabe que a pressa devora os momentos que maravilham o olhar... Por isso deixou a romã na árvore porque tudo quanto viu lhe enfeitou o coração...
    Magnífico texto!
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  12. Verdade! Nesse caso, aquela romã não colhida... será sempre especial e mais lembrada...
    Sempre uma maravilha, passar por aqui... por caminhos tão especiais... a que nos conduz esta maravilhosa prosa poética!
    Beijinho! Feliz semana!
    Ana

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  13. Quando não se colhem
    secam nos ramos
    Abraço

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  14. Aqui pelos meus lados as romãs só se encontram nos supermercados... ou talvez no quintal de algum vizinho que as tenha trazido de algures para tornar mais seu, e mais rico, o seu pedacinho de terra.
    Mas nos passeios que faço no meu Algarve passo também por uma quinta, de altos muros de pedra, que à laia de sebe tem uma imensidade de romãzeiras, que lançam os seus ramos para a estrada (uma daquelas bem secundária e sossegada). Quando por lá passo os frutos estão ainda verdes, e longe da sua cor rubra e da sua doce suculência.
    Às vezes é isso que me afasta da tentação de colher o fruto... o desencontro dos timings... Num encontro feliz, com uma doce romã madura, que te cativou no meio do nada... não vejo porque não colhe-la.
    Mas podia ser amarga, ou estar apodrecida... assim permaneceu doce, idealizada, e imortalizada nas tuas amáveis palavras.

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  15. Ver a vida em toda sua beleza natural é poesia para os olhos e para a alma. A romã já fazia parte do seu "Eu"
    Um abraço

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  16. Muito desejei saber teu nome para dizer-te: Maria, que linda poesia em prosa carregada de lirismo, mais que a romãzeira carregada de romãs! Que seriam as iniciais "Antes de Cristo"? Ana Cláudia?... Se o vinho é bom não importa a procedência, assim como à beleza deste texto, pouco importa o autor. Ele está divino, AC! Parabéns!

    "Pois o que no faz sorrir,
    É o que há dentro de nós!"
    Dissestes com terna voz
    Qual ternura de um vizir

    Rico que vê o porvir
    Não como um segredo atroz,
    Mas como um sonho veloz
    Que passa e deixa o sentir.

    O teu poema sem verso
    Traz-nos o segredo inverso
    Que esconde a poesia

    Que por caminho transverso
    Conduz-nos ao universo
    Da beleza e da magia.

    Grande abraço. Laerte.


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  17. Caro AC,

    Este teu belo caminhar poético, espelha uma filosofia
    sábia sobre a vida na sua manifestação mais sublime,
    na transcendência, interiormente.

    Voando nos espaços dos amigos para deixar um feliz
    final de semana!
    Beijo.

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