sábado, 9 de junho de 2012

O REGRESSO

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Chegou ao cume do pequeno outeiro e parou, deixando-se invadir pela sinfonia de cores e aromas. Era uma zona xistosa, propícia a estevas e giestas, com o rosmaninho, aqui e ali, a impor a sua presença, amaciando o ar mais agreste das suas vizinhas.
À medida que descia a encosta sentia que, naquele ermo, tudo parecia ter o tempo certo. A passarada era abundante, mas esquiva, como que a estranhar a visita. Sorriu. Apesar de se integrar, de imediato, naquela corrente de energia, ainda não fazia parte da paisagem. Tinha tempo.
Mais abaixo corria a ribeira, ladeada de salgueiros, com água suficiente para aliviar as agruras do pó do caminho. Uma lontra, curiosa, levantou o olhar, mas depressa se enfiou na sua toca. Um estranho é um estranho, seja em que recanto for.
Quando chegou junto da velha casa, rodeada de silvas, viu que havia ali muito que fazer. A marca dos antigos habitantes há muito que se escondera, escorraçada por políticas de gabinete sem qualquer nexo. Ainda se viam assomar, no meio da alta vegetação, meia dúzia de árvores de fruto de tronco já carcomido, memórias de outras eras, mas pouco mais parecia indiciar, à primeira vista, que por ali já houvera uma fértil quinta, que respirara azáfama ao ritmo das estações. Isso fora há muito, num tempo em que aprendera como ninguém a descobrir ninhos de pintassilgo. Entretanto outros ritmos se impuseram.
Aproximou-se dum enorme bloco de granito e elegeu o seu reduto para primeiro poiso. Limpou a área circundante e, com vagar, começou a montar a tenda. A seguir foi explorar o local. À medida que avançava foi reconhecendo uma parede aqui, uma rocha ali. E às tantas, quase sem se dar conta e com a ansiedade de permeio, viu-se a procurar vestígios de antigos recantos.
O fim da tarde aproximava-se. Sentou-se no bloco de granito e olhou em volta, pensativo, enquanto roía uma maçã. Tinha uma semana para preparar o local para a chegada dos outros. Viriam munidos de ferramentas e sementes, risos e esperança. Talvez reencontrassem ali o seu lugar.
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sábado, 2 de junho de 2012

RESPIRAR PALAVRAS EM TOADA LENTA

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Van Gogh, A sesta
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Passados os primeiros entusiasmos do blogue, e quase sem me dar conta, escrever é algo que se foi instalando em suave rotina. E suave porque se traduz em doses mínimas e sem qualquer planificação. O sábado, após uma semana de árduo trabalho, tem sido o dia preferencial. E a receita é simples: sento-me em frente ao computador e sai o que sai, num exercício em que, por norma, não se ultrapassa a meia hora. É quase como ir até às traseiras da casa e respirar as árvores e a horta, deixar que toda a energia contida se liberte naquela comunhão.
Por este cantinho têm passado muitas e diferentes pessoas, com algumas a deixar pegadas de amizade. Umas demoram-se, outras partem. Como na vida. E a memória dos versos de Eugénio chega com a naturalidade dos dias.
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.
Às vezes penso no que seria se escrevesse também à segunda, à terça, e por aí fora, de uma forma disciplinada. Mas são apenas momentos. Escrever, tal como o concebo, tem que ser mister exercido como quem respira, ainda que a espaços, de braço dado com a partilha. E hoje, ainda que ao de leve, é dia de respirar.
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sábado, 26 de maio de 2012

RODOPIO EM SEMI-NOTA

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Margarida Cepêda, Vigília e sono
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Dentro de mim algo se debate, dentro de mim algo te reclama.
Não sei se a discreta música do vento no impelir das velas do moinho, se o apelo da terra, a sedução das estrelas, a tentação do aconchego no crepitar da fogueira. Pode ser tudo, poderá não ser nada. Sei apenas que dentro de mim algo revolteia, grita fundo, clamando por dias de sol. E que eles, quando chegam, me desafiam com dias de sede.
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sábado, 19 de maio de 2012

O INSUSTENTÁVEL TENTÁCULO DOS MODERNOS JARDINEIROS

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Gustav Klimt, Jardim com girassóis
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Gosto de flores. Dos seus aromas, das suas formas, das suas variedades.
As flores são seres sensíveis de forma singular, mas que precisam de quem cuide delas, de quem tire o melhor partido das suas características. São únicas, mas dependentes. Depois há as espontâneas, as mais preciosas. Gostam de ver o jardineiro à distância, apenas carecem de compreensão e respeito pela sua forma única de viver.
Um bom jardineiro gosta de partilhar, de sentir prazer na sua lida, de se identificar com a sua causa. De certa forma todos somos jardineiros, falta-nos é descobrir, ainda, uma causa comum. Nessa impossibilidade, e perante a necessidade de sentir a ramificação, cada um limita-se ao seu jardim. E fecha-se.
As verdadeiras razões das flores, contudo, não são preocupação geral. O observar do seu frenesim pressupõe caminhos vários, e a tentação de produzir flores num só sentido é demasiado premente. É assim que, na sombra, se forjam os novos jardineiros, modernos predadores de quem ninguém conhece o rosto, mas sente o aroma e a opressão. Na forma de poder.
Longos são os seus braços, que nos amordaçam e estrangulam sem nos darmos conta. Longe anda D. Quixote, em eterno entretenimento com moinhos de vento.
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sábado, 12 de maio de 2012

RESPIRARES DA LUA NOVA - 3

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Aproximou-se do centro da praça. O dia tinha sido intenso, a plantação de novos legumes mobilizara toda o acampamento. Ana sentia-se um pouco cansada, uma sensação comum a todos, mas era um cansaço agradável, de quem se sentia bem com a vida. Era por isso que, em noite amena, e apesar do árduo dos dias, o centro do acampamento se encontrava pleno de rostos sorridentes, disponíveis para a partilha duma causa comum.
Aguarela de Miguel Levy
Durante a noite conversou-se, soltaram-se risadas, absorveram-se os aromas de Maio. Os poemas, em manifestação quase espontânea, funcionaram como alimento daquilo que os unia. Que parecia pouco, mas era muito. E cantaram. Por fim, qual discreto convite ao recolher, o saxofone do músico poeta encarregou-se de distribuir harmonia enquanto unia as pontas das emoções.
Ana gostava daquela partilha, daquele sentir de quem sabia que dificilmente teriam uma nova oportunidade. E isso unia-os, fazia com que se soltasse o melhor de cada um. Às vezes sentia saudades das quatro paredes do seu antigo quarto, cenário de mil e uma divagações em que apenas existia ela em confronto com a vida, mas sabia que eram resquícios da liberdade condicionada da fera acossada. Ali libertara-se a pouco e pouco, aprendera que estamos muito longe de ser únicos, mas que há marcas que, apesar das novas navegações, perduram para sempre. O que não é, necessariamente, um mal. É bom que existam sentinelas que nos alertem para aquilo que não queremos, o caminho a percorrer torna-se mais claro. E ainda havia tanto a palmilhar!
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sábado, 5 de maio de 2012

NAVEGAR À VISTA A DESENHAR HORIZONTES

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Hélio Cunha, O anjo e a musa diante das ruínas da Europa
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- Gosto do teu jeito de sorrir, gosto do teu jeito de amainar tempestades. Mas, haja o que houver, o horizonte é sempre horizonte, o seu apelo será sempre irresistível. E ainda bem. É dessa massa que somos feitos, é essa capacidade de olhar que nos fará, sempre, ultrapassar qualquer tormenta.
- E o crescer das plantas? E o aroma das flores? Não gostas dessa harmonia?
- Claro, mas, se fosse apenas isso, ela esgotava-se em si mesma. A lição da harmonia surge a cada canto, mas o que a determina tem longos braços. Tão longos, tão susceptíveis, que a sua amplitude continua por determinar.
- Mas há muitos exemplos de gente que conseguiu alcançar a harmonia…
- As tuas palavras estão certas. Há muitos exemplos de harmonia, é verdade, mas todos eles são individuais. Eu falo de uma outra ideia, a harmonia colectiva.
- Espera lá! Mas não é o somatório das atitudes individuais que faz o colectivo?
- Essa é uma velha questão, para a qual não tenho resposta. Sinto apenas que as flores têm que ter o aroma das flores, as águias precisam de voar alto, as marés não se fazem por decreto. Mas só consegue ser sensível a isso quem não sentir a falta duma tigela de arroz.
- Creio que te entendo. Gostarias que, em tempo de trevas, houvesse a perspectiva duma qualquer luz. Mas para todos.
- Esse teu navegar alegra-me, pois estamos todos no mesmo barco. Difícil é que, apesar das naturais diferenças, todos o façam na mesma direcção.
- Difícil tarefa, essa!
- Tremenda, pois ninguém quer prescindir da sua forma de respirar, ainda por cima quando todos os ventos parecem soprar em direcção contrária. Mas o teu sorriso faz milagres, sabias? Anda cá. Hoje é hoje, amanhã será um novo dia.
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sábado, 28 de abril de 2012

VOO EM BUSCA DE POISO

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Ontem falaste-me de desconcertos, da impossibilidade de abraçar o que se adivinha, mas não se entende. E que isso pode dar origem aos medos.
Disse-te que os medos fazem parte do nosso percurso, que sem ousar afrontar o seu desafio nunca passaremos de seres acossados, privados de liberdade, mas nem me ouvias, estavas demasiado ocupada em forjar um cenário que desse cor aos teus receios.
Não insisti, as convicções carecem de tempo para fermentar. Mas continuaste a falar de tal forma que tudo parecia resumir-se às tuas palavras.
Tens muita energia, admiti, e admirei a força que emanava da tua caixa negra, uma espécie de convicção a debater-se em busca da casa certa.
Não te digo mais palavras, pois tu não aceitas dessa forma, mas sinto que essa determinação vai levar-te ao encontro da verdadeira dimensão do teu voo. Só espero que, quando passares por mim, entendas a linguagem dos meus olhos. Nessa altura a cumplicidade poderá acontecer.
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sábado, 21 de abril de 2012

O LAVRAR DO POETA

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No lavrar do poeta a noite é infinita, o sono é caldo de infusões metafóricas.
No lavrar do poeta a palavra - canto, choro, partilha - alimenta-se dos devaneios do sol.
No lavrar do poeta não há nome, não há forma, não há tamanho. As palavras adquirem a tonalidade dos elementos, pulsam quando captam um veio com memórias do tempo inicial. E tudo se reinventa.
No lavrar do poeta as nuvens podem ter todas as formas, mas há sempre uma a sugerir o sussurro dos teus lábios.
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domingo, 15 de abril de 2012

DÈJÁ VU

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Hélio Cunha, Estranha Melodia
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a terra é mãe a terra é linda a terra é abundante a terra tem gente a terra tem muita gente toda a gente quer o melhor a terra não tem comida para todos uns tudo podem outros tudo sabem do nada a terra estrebucha a terra grita toda a gente grita uns riem outros choram isto vai rebentar onde estás sai da frente estou aqui espera por mim não vás adeus espeeeeeraaaaaaaa
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(Porque será que, apesar de tudo, um novo despertar implica sempre o vislumbre duma flor?)
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segunda-feira, 9 de abril de 2012

INTERROGAÇÕES EM NOITE DE LUA CHEIA

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Tela de Margarida Cepêda
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Dúvidas, inquietações, receios. Para quê tentar construir pontes? Para quê escrever? A resposta é dúbia, pouco clara, mas há sempre algo a impelir a gravidade da ampulheta. Talvez seja a desejável incapacidade de abraçar uma verdade feita, talvez seja a necessidade de dizer que tudo estará sempre por dizer. Será um gesto? Um despoletar de palavras? Por mais que diga nunca será o suficiente, o ritmo das coisas exige  que não haja paragens. Então, será o quê? O canto dos pássaros?  A sinfonia do ciclo lunar? A força das marés? Desses nós temos algumas certezas, só não sabemos da inconstância dos homens. E eles, mais que ninguém, obrigam-nos a exercícios do tudo ou nada.
Quando tudo parece à deriva, eis a dependência dum gesto arrebatador, a procura dum sinal de esperança. Quem resiste a este eterno faz de conta?
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