terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O VALE

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Xana Morais, Acrílico sobre tela
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O enorme vale, sulcado por duas ribeiras que se procuravam, em suave confronto, na extremidade, estava cercado de serranias. Quem quisesse horizontes, por ali, tinha que trepar as encostas, pejadas de pinheiros, com um ou outro carvalho, aqui e ali um castanheiro, a irromperem ao de leve a monotonia do verde carregado. Mas não queriam. Viviam ali por opção, tomada há muito, selada geração após geração.
No vale coabitavam algumas centenas de pessoas. Dizia-se que eram descendentes de todas as raças da terra, mas apenas o encanto da lenda o atestava. Rezava ela que, noutros tempos, representantes de todos os povos se tinham juntado para iniciar uma nova era, e aquele tinha sido o sítio escolhido. Viviam da terra, artesanavam e filosofavam, assim foram forjando o seu caminhar. O andamento do mundo, aparentemente, ultrapassara-os, mas a harmonia alcançada fortalecia-lhes a convicção. E prosseguiam.
As crianças eram instruídas na sua crença, mas ao chegar a maioridade era-lhes dada a oportunidade de a renegar. Atingidos os dezoito anos, numa espécie de rito iniciático, rapazes e raparigas saíam do vale para enfrentar o mundo dos outros. O regresso, se houvesse vontade disso, só era permitido ao fim de dois invernos, tempo mínimo considerado suficiente para se porem à prova. Mas muitos demoravam quatro, seis, dez anos, havia mesmo quem nunca regressasse. Era preciso cimentar a convicção para o fazer, e nem todos atingiam essa maturação. Deixavam-se cativar pelos aromas doutros lugares, pelos seus labirintos, mas o legado que transportavam era tão forte que, aqui e ali, iam deixando sementes, por mínimas que fossem.
Os que regressavam traziam palavras novas, diferentes olhares, a discussão era encorajada e cultivada. Com um ou outro ajuste, a harmonia acabava por se impor.
Dizia-se que eram descendentes de todas as raças da terra. E eles acreditavam.
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domingo, 10 de fevereiro de 2013

À DESCOBERTA DO FUTURO

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Imagem: ShutterStock
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Desmontaram, uma a uma, as peças do gigantesco puzzle, baseado em jogos de luz e sombra, accionado por marionetas dos mais variados semblantes. Riram-se das formas, dos trejeitos, mas depressa perceberam que continuavam no labirinto. As raízes eram fundas, envolventes, estavam arreigadas a pilares tecidos em ideologias de subserviência, sustentadas em pergaminhos do mais bolorento pó.
Um, mais afoito, mergulhou na sombra. Outro se seguiu. E outro. Desses gestos não se ouviu eco, apenas um leve murmurar propício a lendas e cautelas. Os predadores tinham raízes bem sólidas, o seu poder aliara-se a medos e temores.
Um dia, em plena acção de descoberta, uma criança acendeu uma fogueira. Outra se acendeu, duas, três. A luz afastou os fantasmas, começaram a ver mais longe, despertaram os acordes dum novo ciclo desfossilizador de vontades e convicções. E começaram a desmontar, uma a uma, as peças do gigantesco puzzle...
Desta vez não mergulhou um, mergulharam todos. A construção do futuro esperava por eles.


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domingo, 3 de fevereiro de 2013

A MARGEM

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Fim de tarde. A margem do rio, moldada desde sempre por partidas e chegadas, enverga coçado vestido, mas a luz, única, teima em conferir-lhe um toque de dignidade. 
O movimento é forjado em pressas de pão, contas por pagar, mas também em olhares em contra mão, rabiscos poéticos alicerçados em mil e uma histórias que se confundem com o tempo. Os vendedores de miudezas e de ilusões apenas ajudam a compor a paisagem de pressas várias, pintalgada, aqui e ali, com as leves impressões digitais dos turistas.
Os golfinhos partiram há muito, mas as gaivotas, adaptadas a qualquer circunstância, teimam em descobrir o alimento que tende a tornar-se mito para outras espécies, mais imunes a viscosas realidades. 
A canoa já não sulca, mas os saudosos continuam a pintá-la nas telas, desmentidos pelo vaivém dos cacilheiros. Os rostos, espelho da agrura diária, tendem a tornar-se mais contraídos. Só a noite, liberta do afã da sobrevivência, acode ao desespero apressado da margem. É então que as ninfas ressurgem, borboletas efémeras onde despertam, a prazo, os sonhos adormecidos.
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sábado, 26 de janeiro de 2013

ELOS

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Margarida Cepêda, Semente
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Despertaste-me, insuflando vida. Embalaste-me, vezes sem conta, sussurrando melodias que só os bosques, à tardinha, ainda sabiam entoar. Impeliste-me, a custo, sentindo na pele a separação das águas. Olhaste-me ao longe, contraída, com um brilho de quem nunca esquece. E parti.
Quando regressei, já com limos na demanda, quase tudo mudara. Só o canto da lareira, onde me desenhavas as mais belas histórias, se mantinha intacto, como que esperando pela sucessão natural das coisas.
Avivei o lume, aconcheguei-te na cadeira e sorri. Chegara a minha vez de te contar histórias.
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sábado, 19 de janeiro de 2013

IDIOSSINCRASIAS DO RESPIRAR E OUTRAS TOLICES

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Hélio Cunha, Cidadela
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Viver é coisa séria. Podemos pintalgar gestos, tentar abrilhantar os ecos do respirar, mas, mais tarde ou mais cedo, acabamos sempre por ser confrontados com as passadas que demos. Atitudes que, quase sem darmos conta, moldam, significativamente, todo o nosso percurso, decisões muitas vezes tomadas de acordo com cores, dissabores, odores, ou tão só de meras circunstâncias. É o tempo da rebeldia com ou sem causa, de horizontes limitados, de gritar bem alto, é o tempo de olhar para o umbigo. Que, ultrapassado, enfrenta várias bifurcações: seguir o caminho mais fácil, servindo as ideias feitas, ou enfrentar as agruras do espinhoso não, apenas baseado em convicções. A partir daqui não há loas, não há cantos de sereia, cada passo implica sentir o peso de cada movimento, de cada gesto. A cumplicidade pode ajudar, semeando violetas pelo caminho, mas não mais do que isso. É necessário ir fundo, bem fundo, passando pela caverna dos medos, para redescobrir a nossa nudez. Talvez, então, se descubra a simplicidade do brilho das estrelas, da configuração das nuvens, do desabrochar das plantas...
Viver é coisa mesmo séria. Os homens, contudo, teimam em rever-se em si próprios. Por mais tempestades que enfrentem, continuam a querer pôr cuspo no nariz do seu semelhante. Os homens teimam em ser tolos.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ADORMECERES

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Chegaste de mansinho
Quando a bruma
Asfixiante
Inundava o fundo do vale
E trazias contigo
Sem nada o prever
O aroma das madrugadas
Com o dia por resolver.
O verde das faias refulgia
Com a claridade instalada
E a cotovia
Prenúncio de sinfonia
Galgava as alturas
Em ânsia ilimitada.
Gostaste do papel
Forjado em conto de fadas
E a cantar bailaste
A sorrir adormeceste
Mas esqueceste
No sono profundo
A função primordial
(Deixaram de bater as asas).
Então o lume
Exigente na atenção
Lentamente esmoreceu
E a bruma
Expectante
Inundou de rompante
A razão do coração.
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domingo, 30 de dezembro de 2012

DESENHO DE NUVENS DO PORVIR

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Margarida Cepêda, A Ilusão
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Os versos, sempre os versos, tentam alcançar o desejo e o desespero, mas as nuvens, espelho natural de sonhos, risos e cóleras, insinuam tropéis desenfreados.
Ouso semear, ouso construir, que a terra carece de movimentos em constante sedução, mas os deuses dizem-me não ser hora de sentir o verbo. O ruído, sempiterno obstáculo, teima em permanecer, o tecer de labirintos de espera tende a tornar-se uma arte.
A noite, laboratório do piscar de olhos entre ocasos e madrugadas, é contínuo desassossego. Mas há que assumir as vestes da dignidade e teimar, teimar sempre. Por perto nunca faltará uma flor.
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domingo, 23 de dezembro de 2012

NATAIS DE ESPERANÇA, ESPERANÇA DE NOVOS NATAIS

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Frida Kahlo, Árvore da Esperança
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Por onde passava só via terra devastada. Colheitas queimadas, pilhagens, nascentes envenenadas. Teimava em prosseguir, mas os sinais não mudavam. Por todo o lado a mesma aridez, o mesmo fruto da falência das ideias. A vida é feita de ciclos, lia-se nos livros, mas os ciclos são a prova da cegueira colectiva. Sempre os mesmos erros, sempre a mesma tendência para o arrotar do estômago. E, em celeiro vazio, o músculo acabava por assomar.
Da cabana, em plena floresta, saía uma leve coluna de fumo. Aproximou-se, cauteloso, mas não via guardas nem defesas, apenas um jerico que pastava, indiferente ao que o rodeava. Espreitou. Lá dentro, como se da coisa mais natural se tratasse, duas pessoas afadigavam-se a manter vivo o lume, mexendo de quando em vez, com uma colher de pau, num caldeirão que destilava odores apetecíveis. Próximo, num berço de madeira, um bebé dormitava.
Bateu à porta. De dentro não perguntaram quem era, limitaram-se a abrir. E entrou. Dois rostos sorridentes encaminharam-no para uma tosca mesa de madeira, onde o aguardava uma tigela de caldo fumegante.
No final, já saciado, olhou em volta. Na cabana pouco ou nenhum conforto havia, mas uma prateleira de tigelas chamou-lhe a atenção. Eram para quem chegasse, disseram-lhe, um estômago reconfortado ajuda a manter a esperança. E continuavam a sorrir.
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Para todos os cúmplices de interiores odisseias,
Feliz Natal
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domingo, 16 de dezembro de 2012

APERTADAS CORRENTES, LARGOS VEIOS, ETERNOS NASCENTES

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Hélio Cunha, La Donna Immobile
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As folhas, imunes ao gatinhar do respirar, preparam a cerimónia de encerramento, baseada no cultivo do silêncio. O sono é apenas aparente, longe do olhar tudo se conjuga para o eterno renascer. E é nessa fronteira, que não vemos mas sentimos, onde são admitidos, entre outros, alguns acordes de valsa mesclados de leves tons de fado e tango, que nos permitimos, por vezes, sossegar. É um aquietar ténue, porque enfeudado ao porvir, mas ainda assim, para os avessos ao ruído, vestido com vestes de calmaria. A semente do desassossego vem depois, quando tudo brota e tudo resplandece. As fronteiras tendem a desvanecer-se, cúmplices do sonho que se desfralda, as nuvens ganham configurações em medida solta. É quando sentimos que tudo está ao nosso alcance, que tudo depende de nós. E, sem nos darmos conta, queremos mais. E mais.
De repente, imunes ao gatinhar do respirar, as folhas preparam a cerimónia de encerramento, baseada no cultivo do silêncio. O germinar do desassossego atinge o seu esplendor. 
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domingo, 9 de dezembro de 2012

(OUS)AR

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Hélio Cunha, A Praia de Sophia
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Olho as nuvens, sinto os ventos, e tudo parece conjugar-se para o baixar de braços.
Simples ilusão, dizem-me as feridas, a reformulação sempre fez parte do percurso dos homens. Não estão visíveis, podem até esconder-se, mas há por aí nichos de pessoas que urdem, que cerzem, banhadas em arquitecturas de harmonia. Não estão, aparentemente, visíveis a viveres resignados, mas fiam futuros entrelaçados no bem comum, à espera que o olhar se liberte. Parecem atitudes mínimas, mas são elas o garante de um novo olhar, de um novo respirar.
De que olhar falais? De que respiração?
Falamos das memórias, da eterna (re)construção. Não são elas o nosso eterno guia? Repara no que passaste, no que leste, no que ouviste. Que peso tem isso em ti? Que esculturas queres moldar? A vida em crescendo é um sortilégio com muitas voltas, plena de subterfúgios, mas imune a estocadas de aprendizes. Esses só estragam, não sabem o que é o equilíbrio. E o vento, mais tarde ou mais cedo, acaba por varrê-los.
Que fazer, então?
Ouve, escuta, age em conformidade. A princípio pode até parecer que o pão te falta, mas o respirar do caminho se encarregará de revelar os segredos do gatinhar dos teus filhos, dos desenhos dos seus sonhos. Quando sentires isso, deixarás de sentir opressão no teu pensar. É esse o teu caminho, por mais que doa.
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