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Margarida Cepêda, A forma é o invólucro da pulsação
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O bebé chorava, de forma desesperada, pela ausência da aura materna, enquanto o adolescente exultava, ainda que de modo incipiente, pelas mesmas razões. Um não se queria desligar, o outro começava a dar os primeiros passos para se desconectar. Ambos por necessidade.
A Rita subia, apressada, as escadas que a levariam ao miradouro, impelida pela vontade de ver e sentir quem esperava por ela. O João, num escritório dum 12.ª andar, tentava iludir os avanços da chefe. A Sílvia, enquanto abraçava a filha, pensava na melhor forma de lhe arranjar a roupa de que ela tanto carecia. O António sentava-se, quase conformado, perante os infrutíferos esforços para arranjar um novo emprego. A Eva, na casa de banho, socorria-se da maquilhagem para tentar ocultar as olheiras dum sono incerto. O Carlos, cabisbaixo, sentia que tinha que fazer o que não queria: incomodar os pais para o pagamento da prestação que se aproximava. A Nocas, entediada na espreguiçadeira, suspirava pelas festas com os amigos.
A Florbela e o Jacinto viviam no mesmo Lar, mas não se conheciam. Partilhavam, contudo, o mesmo sentir: a ausência da família, a falta de liberdade e, acima de tudo, sentiam que já não contavam. Sem se darem conta, as memórias dum ser único, a mãe, começou a povoar-lhes os dias, amaciando-os, qual porto de abrigo para os preservar daquela realidade. Mas não chegava. E o Jacinto, de tempos a tempos, com o olhar cada vez mais apagado, lembrava-se das palavras do poeta José Gomes Ferreira: viver sempre também cansa. Duma forma mais profunda, estava na hora de voltar, como canta Abrunhosa, para os braços da sua mãe.
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