sábado, 12 de maio de 2012

RESPIRARES DA LUA NOVA - 3

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Aproximou-se do centro da praça. O dia tinha sido intenso, a plantação de novos legumes mobilizara toda o acampamento. Ana sentia-se um pouco cansada, uma sensação comum a todos, mas era um cansaço agradável, de quem se sentia bem com a vida. Era por isso que, em noite amena, e apesar do árduo dos dias, o centro do acampamento se encontrava pleno de rostos sorridentes, disponíveis para a partilha duma causa comum.
Aguarela de Miguel Levy
Durante a noite conversou-se, soltaram-se risadas, absorveram-se os aromas de Maio. Os poemas, em manifestação quase espontânea, funcionaram como alimento daquilo que os unia. Que parecia pouco, mas era muito. E cantaram. Por fim, qual discreto convite ao recolher, o saxofone do músico poeta encarregou-se de distribuir harmonia enquanto unia as pontas das emoções.
Ana gostava daquela partilha, daquele sentir de quem sabia que dificilmente teriam uma nova oportunidade. E isso unia-os, fazia com que se soltasse o melhor de cada um. Às vezes sentia saudades das quatro paredes do seu antigo quarto, cenário de mil e uma divagações em que apenas existia ela em confronto com a vida, mas sabia que eram resquícios da liberdade condicionada da fera acossada. Ali libertara-se a pouco e pouco, aprendera que estamos muito longe de ser únicos, mas que há marcas que, apesar das novas navegações, perduram para sempre. O que não é, necessariamente, um mal. É bom que existam sentinelas que nos alertem para aquilo que não queremos, o caminho a percorrer torna-se mais claro. E ainda havia tanto a palmilhar!
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73 comentários:

  1. conter as emoções para melhor as desfrutar...
    gostei do texto.

    (a ficção imita a realidade rss)

    abraço

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    1. Pois, parece que certas realidades se desenham com uma incrível velocidade.
      Obrigado.

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  2. Quando entendemos que as subjetividades são compreendidas a partir de tudo o que nos revela, no sentido próprio do que nos compõem, realizamos um encontro com nossa própria essência e isto nos remete ao que acreditamos que somos ou ao que achamos de nós mesmos...

    [amei demais tua escrita]

    Abraço

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    1. Um conceito muito interessante, Margot. Obrigado pelo contributo.

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  3. Procurar entender os sinais do caminho...Lindo!Sempre assim aqui! beijos,chica

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    1. Chica,
      Gosto sempre de a ver por aqui, com a sua simpatia a tiracolo.

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  4. Palmilhar o caminho presente, como um pouco do que passou..."...não é,necessariamente, um mal..."

    Bom domingo! Beijos,
    da Lúcia

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    1. Lúcia,
      Quem passar pela sua Cadeirinha de Arruar entenderá, de imediato, o seu comentário.
      Grato pela presença.

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  5. Olá, amigo AC!
    Conto espetacular!
    Pintas sempre uma paisagens magnífica por onde desenvolve a bela narrativa.
    A Lua é-nos sempre companheira e inspiradora.

    Parabéns pela obra de arte!

    Abraços do amigo de além-mar e ótimo fim de semana para ti e família!

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    1. Bento,
      Fico sempre sensibilizado com a adjectivação. Obrigado pela contínua presença, o coração agradece.

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  6. O aroma e os versos são cúplices em todas as histórias... Lindo demais...

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    1. Suzana,
      Obrigado por, também, trazer o seu aroma.

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  7. Contos assim, não têm fim
    Não tem fim também o caminhar
    que é o da própria humanidade
    nesse ou noutro lugar
    com ou sem luar

    A lua ilumina-nos por dentro
    mas é mais calorosa se a vemos, formosa

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    1. Caminhar é o nosso destino, Rogério, e a insatisfação é a nossa sina.
      (Um dia quebra-se o encantamento)

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  8. "É bom que existam sentinelas que nos alertem para aquilo que não queremos, o caminho a percorrer torna-se mais claro."
    Concordo, mesmo quando o alerta é duro, é necessário!

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    1. Isa,
      Um alerta é um alerta.
      Os seus comentários são sempre pertinentes. Obrigado

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  9. quando respiro esta lua nova

    o acampamento também é meu, algures num tempo de calções e botas all star

    e

    sentinela é um pássaro que canta na noite

    um abraço, AC

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    1. É um acampamento de respirares intensos, Manuela.
      Grato.

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  10. Oi AC
    sentinelas necessárias,às vezes chegam pra nos desviar de algum atalho que o coração nos levou.
    Sempre bom "respirar" contigo sob o luar.
    um abraço

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    1. lis,
      Quando se trata de causas, o coração sabe sempre qual é o caminho certo.

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  11. Caminhos a percorrer! Sejam os mesmos ou outros que surjam será sempre com emoção e esperança iluminados pelo brilho da lua.
    Bom domingo meu amigo.

    beijinhop e uma flor

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    1. Adélia,
      A esperança é um dos mais valiosos atributos do nosso espólio. Sem ela, pouco ou nada há a fazer.

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  12. Ao percorremos novos caminhos, carregamos junto a velha e antiga sabedoria já adquirida.
    Ficando sempre atenta a qualquer sinal.
    Muito bom seu texto!
    Abraços
    Mariangela

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    1. Tem razão, Mariangela, temos que estar atentos aos sinais.

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  13. Há sempre novos caminhos....
    Há coisas que ficam guardadas em nós e nos ajudam a enfrentar o mistério do novo...
    Lindo...
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. Marta,
      Muitas vezes, no mistério do novo, é a própria sobrevivência que está em causa. Se conseguirmos chegar a um patamar em que o façamos com harmonia, isso seria muito bom sinal.

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  14. Bonito o texto.
    É impressão minha ou a imagem mudou?É linda a pintura.
    Um abraço

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    1. Na verdade, Isabel, a imagem já mudou três vezes. E não há qualquer garantia que não volte a mudar. :)

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  15. tão suave escrita sobre caminhos árduos sem tirar o ardor. unir as pontas das emoções e compartilhar harmonia... tão belo começo, tão belo fim.

    um lindo domingo, AC!
    beijinho.

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    1. Sempre tão bom vê-la por aqui, Luciana. Obrigado.

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  16. Parece-me que a satisfação de dever cumprido e sobretudo solidário é que foi responsável pela harmonia interior da personagem.Talvez a verdadeira felicidade nós encontramos na união de ideais comuns porque segundo dizem nenhum homem é uma ilha.Um abraço

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  17. Guaraciaba,
    As causas comuns têm essa virtude, desde que acreditemos nelas. A grande questão é colocá-las em movimento.

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  18. Gostei do texto. Recordou-me outros tempos, outras vivências, e aquela Ana, que muitos trazemos dentro de nós e que por contigências da vida abandonamos no passado.
    Um abraço

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  19. Elvira,
    Será que a vida funciona por ciclos?
    Grato.

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  20. Tanto a palmilhar, é verdade. Não podemos emparedar a possibilidade de construir novas histórias, de as partilhar.
    Um abraço. Uma boa semana!

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    1. Sara,
      Emparedar novas possibilidades é definhar.
      Uma boa semana!

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  21. Um desaguar nos cantos como quem palmilha muito além da palma da mão, dos cantos de sala, das paredes que guardam e aguam recordações. Um caminho traçado, sem talvez ou nãos.

    Meu beijo AC,
    Sam

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  22. Agostinhamigo

    Releio-te e escolho o final de um texto que tem de ser mastigado lentamente para lhe colher todo o sabor. E não resisto a transcrevê-lo: «É bom que existam sentinelas que nos alertem para aquilo que não queremos, o caminho a percorrer torna-se mais claro. E ainda havia tanto a palmilhar!»

    Há, realmente, tanto a palmilhar, para se chegar a bom porto. Se é que lá chegaremos...

    Abç
    .

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  23. ...entrei sem pedir licença, neste harmonioso acampamento... enquanto lia...ouvia a poesia saída da melodia do saxofone...senti vontade de mexer na terra que nos alimenta - plantando
    alguns legumes :) e, com um clima tão propício
    à partilha de sentimentos, deixo os meus parabéns
    a quem consegue "soltar" o que de melhor existe
    no outro...
    Beijinho, AC!

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  24. AC, hoje acampei aqui, ao som do saxofone e por pouco pensei chamar-me Ana...

    Gostei muito deste seu respirares!

    Beijo
    Sónia

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  25. ficção? quase lembrei a minha infância e os acampamentos
    saio como que hipnotizada

    beijo

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  26. palmilhar: eis um verbo com de conjugação,


    abraço

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  27. AC,

    Às vezes, a fera acossada que há em nós não nos permite ver que há tanta vida lá fora e, que caminhar é o nosso destino.

    O tempo, só ele é capaz de nos mostrar o caminho da liberdade, mas por esperarmos tanto, pagamos o preço do "ah,se!" E a vida segue escorrendo entre os dedos feito areia da praia.

    Gosto de vir aqui. Sempre aprendo!

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  28. Muito bom texto. A poesia e a partilha como algo que faz descobrir e talvez agentes de mudança.

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  29. Um conto com o sabor doce da partilha.

    Lamento deixar esta "mensagem" que explica minimamente a razão pela qual o faço e me ausento por algum tempo, que espero ser muito curto.
    Estou em preparação para uma intervenção simples aos meus olhos.
    Volto logo, verá.
    Beijinhos

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  30. Sempre um prazer vir aqui!Que delícia de texto, que passeio gostoso eu fiz! Difícil nos libertar de certos lugares que nos trazem lembranças que marcaram nossa vida. Descreveu uma Ana que se encanta com o que vive, e disposta a continuar vivendo e apreciando as alegrias que a vida tem lhe proporcionado. Muito bonito! Um grande abraço, e obrigada pela sua visita, pelas suas palavras tão bem colocadas sobre meu artigo. Uma ótima semana, um abraço!

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  31. AC, não sei como consegue inspiração para contos tão diversos e sempre tão bons!!!
    Beijinhos, boa semana!
    Madalena

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  32. AC,
    Alguma tristeza pela oportunidade que se perdera... o que se deixara e não se aproveitara.
    Talvez a saudade e o vazio...

    Beijinho.

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  33. Olá, AC!

    Espírito de partilha, música, noite amena e um acampamento. Que melhor cenário poderá haver para unir gente diferente...?

    Bonito texto, como sempre.
    Abraço
    Vitor

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  34. sempre há tanta partilha por aqui e de ótima qualidade. Sempre há o que partilhar quando é possível nos doar.

    Grande beijo!

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  35. Nem sempre temos o poder da escolha...
    Abraço Lisette.

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  36. Uma suave escrita para emoções partilhadas. Belo texto meu amigo. Abraços e boa semana. Suzana.

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  37. Imaginei sendo eu a Ana entre as quatro paredes daquele quarto.

    Há ainda muito a palmilhar.
    Espero conseguir.

    Beijos, querido AC.

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  38. Muuuito a palmilhar!

    É bom esse sentimento q nos acalanta e impulsiona. Essa coisa de saber q msm tendo vivido muitas coisas (boas ou más) ainda podemos vivenciar tantas outras...
    E são muitas emoções, sentimentos, suavidades...

    Bjs
    Amei!!

    Saudds!

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  39. Nada pode ser mais belo na vida do que esse cenário de partilha, de bons momentos,,,de paz interior...abraços de bom dia pra ti amigo.

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  40. E como há a palmilhar, a trilhar e aprender!!Lindo! abraços,chica

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  41. Apesar do gostoso cansaço do fim do dia, da missão cumprida, ainda o desabrochar espontâneo das emoções divididas...Bonito, AC. Beijos!

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  42. Um belo texto! a satisfação da realização, e um verde que se respira cheio de aventura e liberdade.
    Um abraço gramde e uma rosa hasta la hermosa Portugal.

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  43. Meu querido Poeta

    Nada melhor para alimentar a alma, que essa partilha plena de sentimentos.
    Como sempre adorei ler-te.

    Deixo um beijinho com carinho
    Sonhadora

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  44. Palmilhar as emoções... gosto disso!
    Bj grande, meu poeta-amigo

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  45. O velho senhor dizia:
    Tenha em mente aquilo que não queres para a sua vida e solte sua alma para o caminho que deves seguir.
    Guardei isso comigo, foi bom.
    bjs nossos

    espero teu verso - http://cozinhadosvurdons.blogspot.com.br/2012/05/cozinha-convida-combata-o-crime-de-odio.html

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  46. Respira-se poesia neste texto feito de luares, de amigos e caminhos que sempre se desejam iluminados.

    L.B.

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  47. E se não formos nós os caminhantes alguém caminhará por nós!

    Abraço

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  48. "Ana gostava daquela partilha, daquele sentir de quem sabia que dificilmente teriam uma nova oportunidade".

    Gosto disso, gosto de viver como se cada instante fosse o último.

    Beijo grande!

    E obrigada pelo carinho!

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  49. Saudades daqui. Estou aqui! Leitura ótima. Beijos meu querido. Até.

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  50. Excelentes de temas de partilha: poesia, música.

    E ainda o 'cansaço agradável' de momentos ao ar livre que convida a um saudável desprendimento.

    Abraço

    Olinda

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  51. Uma bela tarde pra ti meu amigo...abraços.

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  52. Até ao fim há sempre muito caminho a palmilhar .
    E fazêmo - lo conduzidos por aquela mão que mesmo nos tropeços está a ajudar .

    Um beijo AC ,
    Maria

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  53. Estou gostando muito desse contista :)
    Muito!
    beijoss

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  54. Eu penso que quando a vida nos empurra para situações diferentes das que estamos habituados... é preciso nos adaptarmos às diferentes condicionantes e ver sempre o lado positivo da vida...não pretendo adivinhar o que tens aqui escrito... ...desejo apenas ...se possível, ser uma abertura...mais uma das muitas que aqui estão...

    Beijo:)

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  55. É essa a grande riqueza da partilha. Acrescentarmo-nos de momentos únicos, escolher caminhos, sentir diferenças, ficar de bem com a vida porque se deu e se recebeu. Perceber, enfim, que a solidão é apenas um ponto de partida e de chegada, onde recolhemos a riqueza da viagem.

    Um abraço, AC

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