sábado, 14 de julho de 2018

A DANÇA

.
Vsevolod Shvayba
.
.
Carregavam memórias ancestrais, guardadas em mil subterfúgios, como se da mais preciosa carga se tratasse. Sabiam o que a maior parte dos mortais não sabia, sobrevoavam as suas vidas, observavam as suas angústias, mas pouco ou nada lhes era permitido, a não ser deixar pequenos sinais: uma flor no sítio mais inusitado, uma moeda depositada numa gaveta, um raio de sol a ultrapassar o filtro das árvores... E seguiam, seguiam sempre, qual missão sem fim à vista, eterna tarefa em prol da harmonia.
Às vezes, cansadas do seu pedestal, eram tentadas a deter-se num qualquer pormenor do que observavam. E, qual porto de abrigo feito devaneio, assumiam as vestes  dum mero humano, como se as emoções fossem a maçã da tentação. Era só por momentos, pensavam. E, normalmente, era. Mas quando, por descuido, deixavam que as emoções lhes abraçassem o corpo e a alma, nada mais era como dantes. Talvez fosse por isso que, em pleno milheiral, quando o estio já findava, a tarde ficasse incendiada com uma luz que até tu própria desconhecias.
Partiste, tinhas que partir, na altura não sabia. Mas quando, nos longos finais de verão, as cotovias se elevam, nos céus, em busca da última luz, eu sei que a tua alma nunca chegou a partir.
.
.
 Vsevolod Shvayba, A dance
.
.

sábado, 16 de junho de 2018

INSPIRA, EXPIRA, INSPIRA...

.
Fotografia de AC
.
.
Manhã de sábado, de pretensa tranquilidade.
Toca a campainha. Não é o vizinho, não é o carteiro, não é um familiar. Apenas alguém, assumido portador da verdade, a querer conversar, como se a fé se vendesse porta a porta.
Retine o telefone. Não é o vizinho, não é um amigo. Apenas alguém, com entoação estudada, preocupado com a minha qualidade de vida.
Ligo o televisor. Verdade, verdadinha, todos os canais defendem, com maior ou menor subterfúgio, uma verdade: a de quem mais lhes paga, mas sempre em meu abono.
Vou lá para fora. Calço as botas, ponho o chapéu e irrompo pelo vasto terreno. Cruzo-me com pereiras, macieiras, nespereiras, cerejeiras. Olho para estas com um carinho especial, ou não fossem elas, no seu esplendor, fruto da enxertia de quem pouco ou nada sabe destas coisas, mas a quem sobra ousadia. Estão apetitosas, as cerejas!
Continuo de encontro às nespereiras, macieiras, oliveiras e amendoeiras, prossigo por rosmaninhos, papoilas, giestas, eu sei lá que mais. Isto para não falar de gafanhotos e formigas, borboletas e abelhas, de toda a espécie de plantas silvestres. Por mais que olhe, nada se me afigura querer chegar-se à frente, cada ser cinge-se ao seu lugar. 
A pausa, sempre a necessária pausa, com a visão a distender-se, lentamente, com ligação directa à alma. E, vá lá saber-se o porquê, às tantas dou por mim a tentar acompanhar, desajeitadamente, o concerto dum pintassilgo.
.
.
.
P.S. - Domingo, cerca das 18 horas. 
Acabei há pouco de as colher. Vai uma? :)
.
.

sábado, 9 de junho de 2018

A REFUGIADA

.
Fotografias de AC
.
.
Um dia, já lá vão uns anos - sete? oito? - alguém trouxe uma nova flor para o canteiro que ficava mesmo defronte à laranjeira. Chegou modesta, de roupagem discreta, de boas referências apenas o que se não via.
Recebeu-se bem o novo ser, em terra de habitantes bem definidos: recebia o mesmo quinhão de água, a mesma atenção, os mesmos cuidados de todos os outros.
O tempo, transformado em anos, foi passando. Todas as flores se engalanavam, na altura certa, todas cumpriam o ritual. Só a nova habitante, qual refugiada em terra alheia, teimava em não desabrochar, ficando-se pelas folhas, apesar de, ano após ano, enviar sinais de promessa. Todos os fevereiros se podavam as folhas mirradas, todas as primaveras ela prometia eclodir. Mas havia sempre uma pitada de geada, ou um vento frio, a inibir a sua emancipação.
A refugiada tornou-se residente, apesar do silêncio. Continuou a receber os mesmos cuidados, a mesma atenção, o mesmo quinhão de água que os outros habitantes do canteiro.
Ontem, apesar do verão adiado, a eterna refugiada assumiu, finalmente, o estatuto de residente. E foi vê-la, qual patinho feio, a transformar-se num belo cisne, irradiando a beleza que só a diversidade permite. Ainda se mostra tímida, desconfiada, mas o útero carregado promete, para os próximos tempos, um contínuo parto de beleza estonteante.
A estrelícia, apesar da saudade de latitudes mais meridionais, tornou-se uma habitante residente. E, com a sua afirmação, até as outras flores ganharam um novo esplendor.
.
.
.

sábado, 2 de junho de 2018

O BILHETE

.
.
.

Júlio olhava pela janela. Em frente, na pastelaria, algumas pessoas tomavam a bica ao balcão a olhar para o relógio. Na esplanada, indiferente à pressa geral, um casalinho gozava os raios de sol de um Verão tardio, enquanto deitava uns grãos de trigo a meia dúzia de pombos. Mais à direita, no jardim, viam-se alguns velhos, de sorriso apagado, a olhar para nenhures, como se as pessoas que por ali passavam, qual enxame de abelhas apressadas, nada lhes dissesse. Andavam quase todos na casa dos setenta e muitos, oitenta, e já pouco mais faziam que olhar para o escoar do tempo.
Às vezes Júlio abeirava-se deles e, com a sua presença, o pulsar do grupo alterava-se. Contava uma história engraçada de outros tempos, dizia duas ou três larachas, e o efeito era garantido: os sorrisos voltavam, por momentos, a introduzir-se naquela solidão mortiça.
Joana, a filha, fora visitá-lo um dia destes à hora do almoço, cinco minutos roubados ao seu correrio diário, antes de ir aquecer a comida, feita na véspera, que ela e o marido iriam engolir num ápice. Perguntou-lhe como é que se sentia, se tinha tomado os medicamentos, se precisava de alguma coisa. Depois, a propósito de nada, começou a falar do Sousa, amigo de sempre do pai, que estava há uns tempos no lar.
- Sabe com quem estive? Com a Dora, a filha do seu amigo Sousa. Está a viver no lar, e parece que o tratam lá muito bem.
Nem ele sabia outra coisa! Há dias, em conversa de banco de jardim, o João Pires falara-lhe do destino do Sousa. A notícia tocara-o e, sem dizer nada a ninguém, fora visitar o seu velho amigo ao lar. Quando o viu, arrependeu-se logo de lá ter ido. Estava sentado na varanda, sozinho, alheado de tudo o que o rodeava. Ainda lhe puxou pelo sorriso com uma ou outra graçola, mas o Sousa, que noutros tempos distribuía entusiasmo a rodos, mostrava-se indiferente a tudo. Parecia que apenas aguardava que chegasse a sua hora.
Joana estava, nitidamente, pouco à vontade a aflorar o assunto, e tentou dissimulá-lo com a intenção de lavar a pouca loiça do pequeno-almoço. Nem reparara que o pai já a tinha lavado, deixando-a apenas a escorrer no lava-loiças. Disse-lhe, então, que estava preocupada com ele, que não gostava de o ver sozinho. E se lhe acontecesse alguma coisa, quem o socorria? Gostaria muito de o levar para o andar onde vivia, mas as três assoalhadas já eram acanhadas para ela, o marido e os filhos. Na semana passada fora tirar umas informações da Casa de Repouso do Pinheiro, e gostara do que tinha apurado. Era um lugar onde tratavam as pessoas com toda a dignidade, o sítio ideal para ele.
Júlio não disse nada, apenas balbuciou um "está bem" quando a filha, à saída, o lembrou do almoço de domingo em casa dela. A conversa de Joana, no fundo, não o surpreendia, pois sabia que ela não tinha condições para o receber. Ela e o marido matavam-se a trabalhar, com um horário cada vez mais exigente, e o que recebiam mal dava para pagarem a prestação da casa. Houve uma altura em que pensou que talvez lhe arranjassem um cantito na sala para dormir, mas era ele a iludir-se com a possibilidade de acompanhar o crescimento dos netos, de os sentar nos joelhos enquanto os maravilhava com as aventuras do João Pequeno, história que o seu avô lhe contara vezes sem conta na sua meninice. Mas os tempos tinham mudado. Ao que sabia, os pequenos passavam o dia fechados no infantário, no meio de dezenas de outros reclusos, e só lhes concediam uma precária quando os pais os iam buscar no fim do trabalho. Mas pouco aproveitavam do seu quinhão de liberdade. Quando chegavam a casa, os pais colocavam-nos em frente da televisão enquanto faziam o jantar. Depois comiam e, passado pouco tempo, toca a deitar, que amanhã é preciso levantar cedo. E, no dia seguinte, num imutável ritual, lá iam todos para o mesmo ramerrame. Tinha pena deles, mas que poderia fazer? Raio de tempos, estes!
Depois da filha sair, Júlio ficou mergulhado num turbilhão de pensamentos inconsequentes. As suas palavras, embora não o apanhassem desprevenido, tocaram-no como nunca pensara. Começou a dar voltas à casa, tentando ordenar ideias, mas a sensação de aperto não saía do seu peito.
Foi então que tomou uma decisão. Ainda pegou numas roupas para colocar na mala que guardava no roupeiro, mas abandonou a ideia. Dirigiu-se para a cómoda e, com todo o cuidado, retirou um estojo do fundo de uma das gavetas. Abriu-o, delicadamente, e olhou para o colar que em tempos tinha comprado para Maria, a sua mulher, pequeno luxo a que se permitira para presentear a companheira de muitas vicissitudes e alegrias. Mas ela morrera, em penoso sofrimento, uns dias antes do aniversário, vítima de um cancro de mama tardiamente diagnosticado, e o colar para ali ficara guardado como uma relíquia.
Tomou banho, perfumou-se e vestiu o seu melhor fato. Depois, delicadamente, pegou no estojo, guardou-o no bolso interior do casaco e saiu de casa.
Desceu a avenida muito direito e compenetrado, como se estivesse a escolher os movimentos certos para não engelhar o fato. Mas, ao chegar junto da estação ferroviária, algo o fez vacilar. Parou, por instantes, e ensaiou um olhar para trás. Mas foi coisa de poucos segundos. Recompôs-se rapidamente e, de forma resoluta, abeirou-se da bilheteira:
- Um bilhete para longe, para muito longe!
Quando entrou na carruagem e descortinou o seu lugar, tirou o casaco e, com movimentos tranquilos, de quem sabe o que faz, sentou-se. Enquanto o ajeitava, cuidadosamente, sobre as pernas, a sua mão, num gesto quase inconsciente, procurou o contacto do estojo, como se da mais preciosa coisa se tratasse. Maria aguardava-o, não queria fazê-la esperar mais.

.
Outubro de 2009
.
.

sábado, 26 de maio de 2018

O MEU PEQUENO PARAÍSO

.
AC, Rosmaninho
.
.
Cheguei a casa cansado do algaraviar dos homens, da necessidade constante, alheia às aprendizagens, de colocar cuspo no nariz dos outros como forma de afirmação. Não, não vinha, tal como o Eugénio, com os olhos rasos de água, mas o semblante irradiava nuvens cinzentas.
Uma pequena pausa, o calçar das botas, o cirandar pelo espaço circundante, alquimia natural da essência dos milagres. Estava no meu pequeno paraíso.
Olhei de relance para a pequena horta. Depois, sem pressa, contornei as árvores de fruto, detendo-me, aqui e ali, com uma papoila mais exuberante, até sentir que, ao de leve, algo começava a fazer das minhas pernas um qualquer esboço de estrada. Eram formigas, incomodadas no eterno labor de encher o celeiro, enquanto duas ou três borboletas, indiferentes à ameaça da chuva, acariciavam, delicadamente, as ervas e as couves.
Quando cheguei junto dos rosmaninhos, vizinhos duma ou outra giesta, já as nuvens se começavam a desvanecer. Recordei o momento em que, há dias, na limpeza do terreno, não consegui cortá-los. São demasiado especiais, é impossível ficar imune à espiritualidade que inspiram. E por lá ficaram, pintalgando o terreno com a sua cor inconfundível. Olhei, absorvi o perfume. Sentia que, subtilmente, se abriam janelas dentro de mim. 
A passarada, até aí cautelosa, começou, de mansinho, a fazer-se ouvir, com as notas em crescendo como se o espaço fosse, verdadeiramente, seu. E era. Já de sorriso instalado, alheio a qualquer cinto de segurança, franqueei as portas à sinfonia e deixei-me embalar, qual tripulante duma qualquer nave em que tudo, ou quase tudo, parecia fazer sentido...
.
.

sábado, 19 de maio de 2018

VELADAMENTE

.
Margarida Cepêda, The three veiled ones and the revealed one
.
.
Longos são os caminhos, diversas são as suas configurações.
Juramos, na casa Partida, manter-nos fiéis à matriz, em nome disto ou daquilo, que nos alegra ou entristece, mas ela, pois mais que nos debatamos, é condicionada pelo que se nos vai deparando, obrigando-nos a reformular, a cada instante, a percepção daquilo que nos rodeia. É a aprendizagem, pura e dura, em que de pouco nos valem as credenciais. Ou resistimos, ficando por ali, ou ousamos continuar, sujeitos a muitas tempestades, enfrentando os medos, com algumas bonanças a adoçar o percurso, mas sempre sem fim à vista. Uma coisa é certa: sem enfrentar os medos, ousar vencê-los, nunca sairemos do mesmo patamar.
Ontem perguntaste-me - tu, menina e moça - porque nem sempre tudo é calmo e sereno, como se o mundo devesse, por natureza, ser um lugar pacífico, apenas à espera que o fruissem. Não te respondi de imediato, afinal estás apenas no início duma longa etapa. Mas, sorrindo, acabei por te dizer que nada, mesmo nada, surge de mão beijada, que há um longo caminho a percorrer até podermos sentir, no mais fundo de nós, o sentido de recompensa.
Muito irás caminhar, menina e moça, até sentires que as coisas fazem sentido. Até lá, vive cada momento como se fosse único, em cada passo dá o que de melhor tens. Ri, indigna-te, chora, comove-te, cai, volta a rir, levanta-te, mas nunca te esqueças de estender a mão. Essa é a melhor prova de que o mundo, para seguir um novo rumo, está cansado das doutrinas de Maquiavel.
.
.

sábado, 12 de maio de 2018

O BEIJO DA NUVEM

.
AC, Beijo da nuvem
.
.
Maio insinuou-se, sedutor, convocando tudo e todos para o habitual festival de cores e aromas. 
As espigas, a caminho da maioridade - ornamentadas, aqui e ali, com o alegre colorido das papoilas - ajudavam à festa de forma discreta, mas prometedora. Não queriam ocupar o palco, contentavam-se com a promessa, num farto Junho, de encher as arcas dos bastidores.
Por perto, nas orlas dos caminhos, as giestas vestiam-se de branco e amarelo. O rosmaninho, de místicas vestes, ajudava a compor a tela, enquanto, obedecendo a ancestral apelo, procurava apaziguar o infatigável labor das abelhas.
Os deuses, saindo do seu torpor, invejaram o quadro. E, não resistindo a deixar a sua marca, segredaram às nuvens para beijarem, delicadamente, a terra.
Chamei-te para veres, chamei-te para sentirmos. Estava na hora da mais natural das comunhões.
.
.

domingo, 6 de maio de 2018

CRÓNICA DUM HOMEM SIMPLES

.
AC
.

Arredara-se dos homens, seres de mil faces, e acomodara-se numa pequena quinta abandonada. Mau negócio aos olhos dos outros, um pequeno paraíso, feito refúgio, no cintilar dos seus. Os filhos bem tentaram demovê-lo, mas nada feito. Era mesmo aquilo que ele queria.
Alberto limpou, cortou silvas, fez obras, rasgou a terra. Quanto mais fazia mais se ligava, mais jorrava, dentro dele, um sentimento de pertença.
Sentia-se grato a cada dia que passava, de alma aberta ao crescimento e ao definhar das plantas, ao distanciamento respeitoso da bicharada. Só os pardais, eternos senhores de qualquer lugar, pareciam indiferentes à sua presença.
Com o tempo foi descobrindo a magia dos enxertos, qual alquímica arte de multiplicação dos frutos. Tentou macieiras, cerejeiras, pessegueiros, pereiras, abrunheiros... Ganhou-lhe o jeito e, vá lá saber-se como, começou a ganhar prestígio nos seus vizinhos, que de vez em quando o convidavam para exercer o seu talento. Talvez fosse pelo reconhecimento da sua arte, talvez fosse pelo pretexto de saber mais daquele homem simples, de olhos brilhantes, que nunca se queixava fosse do que fosse. E isso intrigava-os. Alberto ajudava no que podia, tentava ser cortês, mas depressa regressava ao seu refúgio. Não era dado a grandes conversas.
Os filhos visitavam-no uma vez por ano, mas depressa se iam. Amarrados pelos compromissos de outras vidas, continuavam a não entender aquela espécie de felicidade do pai, cada vez mais entranhada.
Com o tempo começou a tentar enxertos de várias espécies na mesma árvore. De uma só qualidade era fácil, a questão residia quando tentava congregar várias espécies. Tentou, cogitou, voltou a tentar.
O tempo dum homem nesta vida é limitado, e Alberto bem o sabia. Tudo tem um rumo, um caminhar, e outros homens ocupariam o espaço dos que, entretanto, iam partindo, deixando um legado natural, por mais ínfimo. Sentia-o profundamente, a comunhão com a natureza assim lho ditava. Talvez, por o sentir de forma tão profunda e, em simultâneo, natural, nunca se inquietou com questões de vida ou de morte. Continuava a fazer o que achava que devia, que lhe dava satisfação, num permanente deslumbramento pelas manifestações da vida. Por vezes, alheio à noção do tempo, era capaz de ficar horas a observar um besouro na sua labuta diária, era capaz de se deslocar uma distância considerável só para saber onde um melro fazia ninho...
Um dia, no fim do Verão, também chegou a sua vez. Os filhos, depois do funeral, reuniram-se na casa da quinta, fazendo contas à vida, e só então repararam numa árvore, diferente de todas as outras, que dava ameixas, pêssegos, pêras, maçãs... 
.
.

sábado, 28 de abril de 2018

SEGREDOS, MA NON TROPPO

.
Fotografia de Gaja Maria
.
.
Gosto de alguns segredos, das pistas que deixam, gosto das zonas quase sagradas onde depositamos aquilo que, de mais precioso, preservamos do impacto das maiorias. É uma forma de tentar respirar, em aparente estado puro, aquilo que de mais fundo se agita em nós, fórmula quase alquímica de preservação de preciosas fragilidades, indefesas perante o tacão dum qualquer uniforme.
Gosto de certos segredos, conspiração movida a verde-sol-violeta, das finas teias que tecem, onde a delicadeza de tons se esforça por dar a pincelada perfeita.
Ah, como me prendo a certos segredos, daqueles que estimulam aquilo que de melhor há em nós, à espera do momento certo para eclodir, eterna reserva de quem nunca se resigna, de quem nunca desiste...!
Move-me o eterno gosto de tentar, por mais que doa, o eterno gosto de respirar, o eterno gosto de viver.
.
.

sábado, 21 de abril de 2018

TELA INCOMPLETA

.
AC, Flor de cerejeira
.
.
Todos os anos era assim. Descia o carreiro que levava ao cerejal e, no alvo manto, procurava a tua silhueta. Era o tempo em que te desenhava, esgueirando-me por entre o festim das abelhas, qual tela em que todas as pinceladas procuravam um rosto, continuamente reinventado, jorrando traços que transbordavam a encosta.
Agora, em demanda da harmonia, o pó do caminho segreda-me que ela é feita na filtragem de muitos rostos, de muitos gestos, de muitas vontades. E eu tendo a concordar. Mas hoje, ao descer o carreiro, dei por mim a reinventar-te, como se a tela permanecesse, eternamente, incompleta.
A reinvenção é tarefa perpétua, carente de ser continuamente alimentada. Ainda temos muito que caminhar, meu amor.
.
.