quarta-feira, 28 de setembro de 2022

SABERES EM VIAS DE EXTINÇÃO

.
.
.
No vale, ainda antes de alguém acordar, espalhara-se um nevoeiro que tudo envolvia, que tudo devorava.
Quando despertaram as primeiras almas, e muitas havia que acordavam cedo, já não era possível escapar às garras do intruso. E, quase sem se darem conta, o pequeno-almoço já não sabia ao mesmo: havia algo, quase indefinível, que tolhia o movimento das pupilas gustativas.
Adriana,  imponente nos seus oitenta e muitos anos, rijos e de boa saúde, esgueirou-se por entre veredas, contrariando ideias feitas e maus olhados, e encaminhou os passos, ainda certeiros, para as courelas do Vale da Ponte, propriedade ancestral da família, onde as maçãs bravo esmofo e os figos pingo de mel já deveriam estar no ponto.
Colheu, avaliando a fruta, embalada pelo protesto de alguma passarada que via, de repente, ser-lhe interrompido o banquete, principalmente dos figos. Já a cesta estava cheia, com alguma humidade a escorrer dos frutos, quando se lhe deparou o inusitado: um raio de luz, irrompendo a névoa, parecia fixar-se, por entre as ervas secas, resquício dum verão inclemente, sobre um objecto metálico. Estacou, aproximou-se, olhou com atenção e... era a chave da loja onde costumava guardar o resultado das colheitas.
Não se benzeu, não agradeceu aos céus, não invocou qualquer crença sobrenatural. Limitou-se a sorrir, tranquila, enquanto pensava, de si para si, que a velhice tem as suas manhas, o que era preciso era saber aceitá-las. E continuava a sorrir, olhando de soslaio para a cesta, enquanto irrompia num passo suave, mas cadenciado, pelo pó do caminho, em direcção à sua casa de sempre.
.
.

sábado, 23 de julho de 2022

JOGO DAS ESCONDIDAS - 1

.
Margarida Cepêda, Procurando o princípio
.
.
Ela foi ali e não disse, mas quis. A sua mãe, depois de dissertar acerca dos mil e um perigos da vida, deu-lhe um beijo e aconchegou-lhe o lençol.
Ela foi mais além e não disse, mas quis. A sua mãe, em silêncio, nada lhe disse, mas aconchegou-lhe o lençol de forma diferente.
Ela foi para muito longe e, olhando para trás, quase que não queria, mas foi. A sua mãe, qual ocaso da vida, limitou-se a acenar. 
A sua mãe partiu, mas não queria. E ela, sem certezas na vida, passou a mão pelo lençol que ela lhe tinha colocado na mochila. E, talvez tarde de mais, deixou que as barreiras do dique se soltassem e chorou, abundantemente, irrigando o caminho que ela, qual mortal errante, continuava a não descortinar. Mas, rompendo as margens, qual herança de pedra sem musgo, ousou continuar.
.
.

domingo, 17 de julho de 2022

RENASCER

.
.
.
Elvira Carvalho é uma blogueira muito conhecida, que espalha gentileza, boas maneiras e, contrariando as várias maleitas que a têm afectado, uma vontade enorme de viver. 
Há dias fez-me chegar às mãos o seu terceiro livro, Renascer de seu nome, em edição bilingue, pois nuestros hermanos estão mesmo aqui ao lado, e fazia-me um pedido: que lhe transmitisse a minha opinião. Pois bem, ela aqui fica.
A Elvira tem um forma muito peculiar de escrever. As vírgulas, por vezes, gostam de jogar às escondidas, trocando de lugar com um sorriso, mas quem a lê entra no jogo facilmente, tal a torrente de situações que lhe brotam da pele. E é ver, e sentir, a cruzada dos seus protagonistas, enfrentando o mau humor do destino com muita resiliência, sempre na boa fé de que a verdade é como o azeite.
Neste romance a autora descreve as emoções de Carlos, refém dum conceito de honra que ele cultiva como poucos, após um ferimento na guerra colonial que lhe subtraiu a memória. O enredo desenrola-se como se de um filme se tratasse, com vários locais de "filmagem" - Angola, Lisboa e Peso da Régua - a dar cor e substância à obra, recheada de incertezas, com a emoção e as incertezas do amor sempre presentes.
Renascer, tal como todas as obras da Elvira, lê-se num ápice e de forma muito agradável. No final, no meio de um suspiro, fica a sensação, que transpira das palavras, de que a autora, já tendo passado por muito, tem uma vontade enorme de participar no equilíbrio colectivo, devidamente alicerçada num mundo mais justo, com valores não hipotecáveis.
Parabéns, Elvira!
.
.

sábado, 25 de junho de 2022

ENTRETANTO

.
Margarida Cepêda, As nossas teias
.
.
Há um tempo de frenesim na vida, no nosso crescimento, como se as coisas nos escapassem por entre os dedos, fugindo à vontade de mudar o mundo a nosso jeito. Mas, plenos de energia, continuamos.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo duma suposta estabilidade na vida, em que, a pretexto de salvaguardarmos os nossos, começamos a ser condescendentes. Mas os bens materiais são o perfeito antídoto para anestesiar a consciência.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas, com alguma ajuda, apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo em que, por mais que nos custe, começamos a envelhecer. Mas socorremo-nos de todos os artifícios para adiar o inevitável.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas continuam a lutar, com alguma ajuda, para sobreviver.
Há um tempo em que, por fim, nada mais há para adiar. E só nessa altura, sem nada para subornar a ceifeira, temos a plena consciência da nossa condição.
Entretanto, noutras latitudes, há muito que os contemporâneos  de nascimento foram tragados pelo inevitável. Mas, felizmente, com maior ou menor ajuda, os que restam continuam a lutar para sobreviver.
Haverá um tempo em que, para lá do tempo que foi, apenas restará a lição. Só então, por mais que doa, se evitará a contra-mão.
Entretanto...
.
.
.

domingo, 19 de junho de 2022

ABISMOS E LABIRINTOS, CANDEIAS (ETERNAMENTE?) ÀS AVESSAS

.
Margarida Cepêda, Tocando para o abismo
.
.
Os tempos eram de ameaça, apesar dos dirigentes se esforçarem por vender a canção "Tudo vai bem". O mal vinha de longe, sem aparente cura, e Ruican, que vivia numa solidão assumida, própria de quem via as coisas antes do tempo, mantinha-se inflexível. Havia que dar volta às coisas, combater o fatalismo, de inaugurar uma época para lá da escravidão de todos pensarem o mesmo...
Bruma, que crescera perto de Ruican, sabia muito bem o que ele pretendia. Mas, apesar de limitada à distância que lhe era concedida, conseguia perceber que, por mais que ele tentasse, haveria sempre uma barreira entre ele e os outros. Por mais que ele porfiasse, as pessoas iriam sempre agarrar-se àquilo que sempre tiveram, em detrimento daquilo que a maioria nunca teve.
Ruican gostava de Bruma, para lá duma visão maior, pois sabia que nela habitava o segredo da simplicidade. Mas pensava, para sua desgraça, que havia uma questão superlativa a descobrir.
Bruma gostava de Ruican, por ele mesmo, contra todas as expectativas dos outros. E, sem que ele soubesse, ia todos os dias, à tardinha, remar contra a maré das coisas fáceis: abeirava-se do penhasco, munida do seu violino e, perante a fúria dos elementos, tentava tocar a profundidade das coisas mais simples, qual segredo para chegar a Ruican. Mas este, demasiado entregue ao seu ego, tardava em perceber...
O abismo, sem que Ruican se apercebesse, demasiado entregue à sua visão, começava a desenhar-se à sua frente.
.
.

sábado, 11 de junho de 2022

PARA ALÉM DO TEJO, COM BORBA COMO PRETEXTO

.
AC, Fachada do antigo Hospital do Espírito Santo, em Borba
.
.
 
Por entre uma história de corrupios e arrepios, desavenças e avenças, com muita insegurança de permeio, assim se cultivou um povo sobrevivente, de parcas e tímidas posses, mas que soube encontrar, na sua resiliência, a forma de escapar a um trágico destino. Muitos emigraram, povoando os dormitórios da capital, outros ficaram, cultivando um lamento muito próprio, em tom dolente, mas sempre com um sorriso muito próprio à espreita de assomar na primeira oportunidade. E, quando se conseguem libertar da canga, bebem, cantam, confraternizam, ironizam...
Em Borba, para lá das pedreiras e do vinho, a sua maior riqueza, há todo um manancial de culturas entre-cruzadas de conquistadores e conquistados, de sobreviventes e assimilados. E, por entre as fachadas de mármore, material só acessível a quem estava de bem com Deus e o Diabo, o casario  humilde, sem pretensões, acabava por agradar a todos: a uns, porque dispunham de mão-de-obra barata e sempre disponível; a outros porque, apesar de tudo, acabavam por usfruir dum tecto para abrigar os seus. Tudo isto à sombra dum castelo, obrigatório em terras tão inseguras, e do qual já pouco resta.
Entre diferenças - sempre presentes, tal era o abismo - o engenho acabou por moldar a arte.  A escassez da maioria, herança acumulada de séculos, deu azo a criatividades várias, com o campo, fora da supervisão dos poderosos, a contribuir com coentros, orégãos, poejos, hortelã, alecrim, louro e outros que tais, dando forma, consistência e sabor, a um considerável número de pratos tradicionais que muito orgulham os residentes, apesar de pouco, ou nada, se passar da cepa torta: ontem para comer, sobrevivendo, hoje para vender, continuando a sentir, no âmago, ainda e sempre, o sentido do verbo sobreviver.
O Alentejo, por mais voltas e contra-voltas que dê, nunca deixa de me encantar. As suas gentes, moldadas na herança de mil e um povos que calcorrearam o território, com um toque q.b. das planícies solarengas, com um olhar sempre projectado, inconscientemente, no horizonte, são uma espécie única. Para melhor.
.
.
.

terça-feira, 31 de maio de 2022

O ETERNO (D)ESCAMAR

.
AC, Pedreira de mármore em Borba, Alentejo
.
.
Alentejo sonante, aparentemente adormecido, Alentejo cantante, com mil e um ais de herança. Para lá da diáspora, o território continua a reinventar-se, a sobreviver, como que a querer dizer aos demais que por ali há gente de alma nobre, afeiçoada à terra, onde se misturam, qual receita milenar dum equilíbrio identitário, a humildade, a simplicidade e o orgulho de se ser, conjugando, numa forma única de saber estar, as suas raízes profundas com a abertura, sem concessões, das janelas para o mundo. E, podem crer, para lá dos horizontes abertos, essa é a sua maior riqueza. 
Tínhamos passado o sábado em Estremoz, que nos acolheu de forma surpreendente. Se, por um lado, já estávamos à espera de nos maravilharmos com os bonecos de Estremoz, agraciados pela UNESCO como património da Humanidade, o Museu do Azulejo, que desconhecíamos - no género, é o maior da Europa, talvez do mundo - foi uma daquelas surpresas que, pelo inesperado, suscitou mais exclamações. Uau!, da forma mais espontânea, foi a mais sentida. E, por entre maravilhas e encantamentos, acabámos a sessão a comer uma belíssima sopa de cação, que rima e com muita razão (de ser).
Pernoitámos em Vila Viçosa, que continua, orgulhosamente, a recordar Florbela Espanca e, após alguns acordes tocados à monumentalidade histórica, sem araganças mas com muitos Braganças de permeio, fomos visitar uma pedreira de mármore, cartaz obrigatório desta região.
Eu dizia, a cada camada, tu dizias, deslumbrada... E, por mais que se olhasse, e sentisse, ficava sempre a sensação duma explicação incompleta. Tal como se falássemos da vida. Fotografe-se, pois, antes que a veia nos escape.
A tarde passou-se na nóvel cidade de Borba, com o mármore - tal como em Estremoz e em Vila Viçosa - sempre presente, ou não fosse esta a Rota do Ouro Branco. Como cartaz, numa arquitectura apaziguadora, bem integrada, lá estão os palácios, o castelo, os fontanários, as igrejas, o casario medieval... E sempre, mas sempre, com uma forma muita própria de estar dos residentes, qual reserva natural duma genuína identidade talhada pelos tempos.
No final, a convicção: há que voltar, mas desta vez com mais vagar. O sentir, o cantar e a forma de estar desta região bem o merecem. Talvez, quiçá, saibamos mergulhar ainda mais profundamente na alma desta gente.
.
.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

PONTES, BALOIÇANTES, ENTRE O VELHO E O NOVO

.
AC, Ruínas do castelo de Castelo Novo
.
.
Caminha-se pelas graníticas ruas de Castelo Novo, quase sem vivalma, com marcas evidentes dum passado já longínquo. Ainda assomam esboços de personagens por entre as rochas, à socapa, como que a querer-nos contar a história a seu modo, mas só os mais observadores reparam nelas. O passado entristece pelo desprezo, como que a augurar que, assim, o futuro não será nada risonho.
Nalguns quintais, em casas mais desafogadas, as laranjeiras e os limoeiros continuam a manter o porte digno. Mas também nalguns becos, com pequenas casas bem aconchegadas, se conseguem vislumbrar as vivências doutras eras. Incertas, pela certa, temperadas por uma religião, sob a égide da Ordem de Cristo, herdeira dos Templários, que apostava, acima de tudo, no simbolismo. Como dizia uma certa fadista, cantarei até que a voz me doa. Por mais que sofrida.
Em toda a área circundante da pequena aldeia - já foi concelho, note-se, daí ser obrigatório, para qualquer visitante, espreitar o Pelourinho e a antiga Casa da Câmara, ainda bem conservados - se sente o abraço aconchegante da Gardunha. As encostas já foram riqueza florestal, é verdade, mas o amarelo das giestas, nesta altura do ano, a substituir o negro dos incêndios, adorna os afloramentos graníticos duma beleza singela, combinando a rudeza da rocha com a delicadeza da flor.
.
AC, Encosta da Gardunha sobranceira a Castelo Novo
.
No castelo roqueiro, ou no que sobra dele, a visão panorâmica amplia-se. E por ali ficamos, contemplando, deixando aflorar uma mescla de informações que nos foram tatuando ao longo do tempo, embalados no cantar da água das duas ribeiras que circundam a povoação: a Ribeira de Gualdim (referência ao Mestre Templário Gualdim Pais, pela certa) e a Ribeira de Alpreade, onde ainda se podem observar as ruínas de várias azenhas que marcavam o quotidiano doutros tempos. E é neste enquadramento, com o tempo parado, que se recorda o essencial do foral concedido pelo rei, com as antigas lendas a ganharem alforria, dando vida a cada esquina, enquanto se vislumbram algumas casas senhoriais, amplas e desafogadas, contrastando com a necessidade do esforço hercúleo dos braços da populaça para garantirem o sustento, mais de uns do que de outros.
O sol começa a inclinar, tal como o tempo, convidando a uma visita diferente, entre quatro paredes, a fim de restaurar o corpo e a alma. E assim, ainda embalados por histórias de outros tempos, com um leve aroma de Belisandra no ar, se manipulou faca e garfo, com um sorriso de satisfação sempre presente. Estômagos refeitos e mentes claras, bem o sabemos, ajudam sempre a mitigar o caminho.
.
.

sábado, 30 de abril de 2022

BARCAÇA DO BEM SER, EMBARCAÇÃO DO BEM ESTAR

.
AC, Flor de macieira
.
.
Em finais de Abril, princípios de Maio, eu já sabia que os deuses conjuravam. Pressentias o verde novo, os pássaros, as flores e a luz, vestias uma leve blusa de algodão, colocavas um chapéu de aba larga e vinhas cá para fora, como que a querer aspirar a vida que nos envolvia.
Depois, já impregnada de múltiplos sons e odores, não resistias. Abraçavas-me longamente, como que a querer transferir para mim tudo o que sentias, e encaminhavas-me para as cadeiras, com vista privilegiada para a encosta da serra, onde as cerejeiras se despediam das últimas flores. Já sentados, com o rosmaninho por perto, nada dizias, mas davas-me a mão como se sentisses, e soubesses, que partilhávamos toda a sabedoria da simplicidade das coisas. 
.
.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

PEQUEN(ÍSSIM)A

.
.

Gostava de escrever mas, de há uns tempos para cá, começava a cansar-se de tal exercício, nem sabia bem porquê.
Pensou nos seus leitores, ainda que poucos e, por um momento, tentou escrever meia dúzia de frases. Mas faltava a alavanca, a convicção de dizer algo, no seu íntimo, que valesse a pena ser lido. Seria que estava a desacreditar da vida?
Continuou a tentar, mas a coisa não fluía. E, naturalmente, foi protelando.
Um dia, quase por acaso, num passeio de ocasião, descobriu que as silvas estavam a invadir o recanto mais afastado do terreno. Podiam estar ainda longe, mas sabia que, se não as olhasse olhos nos olhos, em breve elas tomariam de assalto tudo o resto. Então, convicto, e apetrechado dos utensílios necessários, como se nada mais interessasse, deitou mãos à obra.
No final, a olhar para o trabalho feito, com algum suor, e quase sem se dar conta, a passarada voltou a cantar.
.
.