domingo, 17 de janeiro de 2021

DIÁRIO - 5

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Por mais que a sentisse por perto, ela não disse nada. Eu também não.
Que fazer?
Considerei, obviamente, que se foi. Mas guardei-a, para sempre, num cantinho do meu coração.
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sábado, 16 de janeiro de 2021

DIÁRIO - 4

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Mudam-se os tempos e, ao contrário do que o grande Camões auspiciava, não se mudam as vontades. Muda-se, quanto muito, a cosmética, tal como constatou Tomasi de Lampedusa no seu magnífico romance "O Leopardo". Recomendo profundamente.
Chegam-me notícias dum familiar que esteve em contacto com um infectado com Covid-19. Há alarme geral, com algumas pessoas - poucas, felizmente - em comoção, como se a peste negra chegasse à família. A pessoa em questão já está em quarentena, apesar de, na altura do contacto, usar máscara (tal como o infectado) e de se ter mantido a uma distância prudente. Para todos os efeitos, dentro de dois dias vai fazer o teste. Em suma: por mais que nos mentalizemos das medidas certas a tomar, a irracionalidade tem sempre campo de manobra. Com efeitos colaterais, pois é claro.
A lareira crepita. Entretanto, para amenizar a coisa, chegam-me imagens do Miguel através duma vídeo-chamada. E então, qual mezinha abençoada, tudo fica para trás. O catraio está lindo, ávido de interagir, não se escusando à prova de novos sabores, para lá do leite materno: brócolos e cenoura. É verdade que, no início, ele estranhou, mas, tal como na genial frase de Fernando Pessoa aquando do lançamento, nos primórdios, da Coca-Cola em Portugal, depois ele entranhou. E, para terminar, por hoje, nada melhor que socorrer-me de Mestre Gil (Vicente), quando escreveu em título, publicando, que "E assim se fazem as cousas". Dito isto, e procurando analisar tudo o que surgiu de sopetão, deixo o teclado em repouso.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

DIÁRIO - 3

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Mais um dia, com um despertar acompanhado de muita geada, mas o sol, qual herói de BD, irrompe a meio da manhã e, bem disposto, distribui algumas flores, pejadas de sorrisos, tentando-nos fazer sentir como gatos ao sol. Mas é ilusório convite.
Não estraguemos as boas intenções do astro, nem sempre virado para isso, pois também ele está sujeito à ditadura do tempo, e avancemos para um olhar panorâmico, qual minúsculo quintal perdido nos confins do universo. Há muito para lá, que nos ultrapassa, mas por ora cinjamo-nos ao que a vista alcança, que muito há por resolver. E a carecer de crença.
Os ecos do mundo dão a entender que a ordem pré-estabelecida está a ser colocada em causa, com a multidão de excluídos a levantar, cada vez mais, a sua voz. O "bichinho" não veio ajudar em nada, antes pelo contrário, e as rupturas são cada vez mais visíveis, abrindo portas aos cavaleiros da sombra, cultores do medo, e que, vá lá saber-se como, enriquecem cada vez mais à custa da desgraça alheia. E, com tudo isto, a questão ambiental fica para segundo plano, enquanto grassam, em simultâneo, ondas de frio e ondas de calor.
Felizmente, em contraponto, chegam-me novas duma homenagem, aqui perto, com as devidas salvaguardas, a Eugénio de Andrade, eterno poeta das essências, dos afectos, da procura da harmonia. Relembro, interiormente, algumas palavras do poeta...
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É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
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É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
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É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
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Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer. 
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

DIÁRIO - 2

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Continuam as noites friorentas, com o sol a assomar durante o dia com um brilho enganador. Só os gatos se deleitam, deitados nos muros, aproveitando para tranquilas cogitações de que só eles sabem.
No mundo dos homens, com opiniões diversas, debatem-se as regras de confinamento, com a generalidade dos sectores confinados a defenderem que deveriam fazer parte das medidas de excepção. Vai-se a ver, para agradar a todos, não haveria confinamento. Entretanto, nos hospitais e centros de saúde, o pessoal que lá trabalha desespera por uma pausa, enquanto o tal candidato presidencial continua a matraquear incessantemente, sussurrando para a parte irracional das pessoas. E vai vendendo, o diabinho.
Lá fora, com a terra em período de regeneração, as diversas sebes requerem a minha atenção, qual cabeleireiro de abas largas. É tempo de lhes fazer a vontade.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

DIÁRIO - 1

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Lá fora caiu neve, qual eterna magia, mas esfumou-se, ao contrário do frio. A intensidade não foi muita, é certo, mas foi a suficiente para, por momentos, me desconfinar, sentir a linguagem do silêncio, pejada duma enorme tranquilidade, enquanto observava as árvores. Foi bom, mas breve. Talvez seja melhor assim, até porque um dos limoeiros novos, plantado com todo o carinho, parece ter ficado em risco.
Entretanto o frio continua, solicitando contínuo aquecimento, em simultâneo com a desfaçatez dum candidato presidencial que, de olho vivo, tudo aproveita para soprar ao ouvido os incómodos óbvios da vida, escolhidos a dedo, qual diabrete irreverente que tudo faz para dar nas vistas, enquanto se ri a bandeiras despregadas com a angústia das vítimas, incapazes de perceber a armadilha dum pretenso abraço envenenado. E, quanto maior o sorriso, maior a desgraça. Ah, pobre Portugal!
Lá fora, aparentemente indiferente a tudo, o cão teima em reivindicar companhia para as suas brincadeiras. Sem se aperceber, e sempre fiel à sua simplicidade de ver as coisas, acaba sempre por desencantar sorrisos nos reivindicados. Valha-nos isso.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

RECEITA DE ANO NOVO

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Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
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Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
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Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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Carlos Drummond de Andrade
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

PARA O NOVO ANO A ESPERANÇA, SEMPRE!

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Precisamos, para lá de palavras, de gestos que contem, que acrescentem, que toquem verdadeiramente na alma. Se isso acontecer, qual utopia em eterno superlativo, o mundo vai mesmo melhorar. Talvez, quem sabe, com a vontade em verdadeiro equilíbrio, para lá de ambições desenfreadas, as crianças que vão nascendo tenham um verdadeiro futuro à sua frente. Oxalá!
Para todos os que por aqui passam, e não só, que 2021 seja consignador da tatuagem da esperança. Em versão profunda.
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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

EU NATALICIO, SEM PINGA DE PAPEL DE EMBRULHO. E TU, APARENTEMENTE DE BEM COM O MUNDO, FAZES O QUÊ?

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Imagem retirada do google
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Rebusco, em jeito de retrospectiva, em 2009 e, sem surpresa, qual eterno pesquisador, resgato palavras como se fossem pedras em eterna combustão. Afinal, sem qualquer admiração, e apesar da presença do bicho, nada mudou.
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Aproximou-se e, com ar de quem sabe o que está a fazer, levantou a frágil tampa. Lá dentro, no meio dos detritos da abundância, uma ideia desprezada debatia-se, inconformada com a inevitabilidade dos tempos. Pegou numa velha vassoura e varreu a zona contígua ao contentor, tornando-o a estrela do beco. Então, com a solenidade de algo que contivesse a maior premência, pegou numa placa, virou-a e escreveu algo no verso. Depois de a colocar de modo a nela incidir a luz do candeeiro, afastou-se do local.
Quando os almeidas saltaram do camião para recolher o lixo, depararam com uma placa onde, em letras gravadas a fogo, se podia ler: "AQUI AGONIZA O ESPÍRITO DE NATAL".
Naquela noite, no desconcertante beco, o lixo ficou por recolher.
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O tempo passou, de melhorias do beco nada constou. E assim penamos, colados na TV, no Twitter ou no Face qualquer coisa, como se dali algo de bom pudesse advir, para lá de nós.
Continuamos tolos, como sempre, assim registou o cronista. Para que conste.
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O ETERNO CONJUGAR DO VERBO

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Presépio, em telha mourisca, do meu ex-aluno Francisco Paulo
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O homem carregou no acelerador do velho Fiat Uno, lata amolgada carcomida pela ferrugem, mas os gemidos da mulher, no banco de trás, diziam-lhe que não iriam chegar a tempo à maternidade. A hora aproximava-se, assim lho diziam os constantes apelos da mulher, e o desespero incapacitante levou-o a virar no primeiro desvio, recurso último de quem não sabe o que fazer. O velho carro, a dar o que não podia, entrou numa rua escura, esburacada, pejada de armazéns abandonados. A cadência dos gemidos acentuou-se, accionando o chiar dos travões. Era agora.
Enquanto o homem, desesperado, tentava acudir à mulher, das imediações começa a irromper vida. Rostos barbudos, de cabelo em desalinho, caminham para o epicentro. Enquanto ajudam o casal, sente-se o ranger dum enorme portão a rodar. Um movimento inusitado começa a insinuar-se na zona. 
Estendem dois cobertores no chão, entre duas enormes pilhas de paletes, e acomodam a mulher. Ao lado, movido a urgência, alguém acende um fogão de campismo e põe água a aquecer. Vindos do exterior, dois bidões, prenhes de madeira seca a alimentar as chamas, começam a aconchegar o improvisado abrigo. 
Quando se ouve o primeiro choro, nascem lágrimas para temperar o júbilo. De repente, qual quadro há muito esquecido, o enorme armazém torna-se pequeno para tanto rosto barbudo, de olhar intenso, como se algo novo, quase indefinível, despertasse dentro deles.
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Dezembro de 2013
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terça-feira, 8 de dezembro de 2020

CRÓNICA A PRETO E BRANCO, COM FORTE ASSOMO DE CORES

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AC, Gardunha vista do pequeno paraíso
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A manhã acordou escura e fria, reivindicando grossas roupas de lã, enquanto convidava, sem qualquer favor, ao recolhimento. Como a Natureza, sabemos nós, é avessa a salamaleques, é melhor dizer que, onde se estampa convite, se deve ler obrigação.
A reserva de lenha, no abrigo, assoma ao espírito, mas sem necessidade. Ainda por ali há combustível, com a lareira a laborar diariamente, para cerca de um mês. Há, no entanto, que providenciar para uma nova leva de lenha grossa, de sobro ou de azinho, que de lenha miúda, para iniciar a combustão, há muita por aqui.
O Whisky, um canídeo que é hóspede habitual, parece não sentir o frio. Clama por companhia, de pau na boca, para exibir a sua perícia escapatória, numa espécie de toca e foge, em que o desafiado tem que fazer o papel de cobaia, a fazer de conta que se esforça para o apanhar. É claro que, para seu deleite, o cão leva sempre a melhor, enquanto o oponente arfa, rendido, mas sorridente.
No terreno circundante, para além da área ajardinada, da horta de verão já só sobram couves e alho francês. Há, pois, que preparar a terra para a horta de inverno, que já não é cedo para iniciar o cultivo dos alhos, das favas e das ervilhas. Tal como os dias, diz o ditado que, no dia de Natal, os alhos já têm um bico de pardal.
A neve na Gardunha, mais escassa, contrasta com a abundância de branco na Estrela, mais a norte, mas com a certeza de que os cerejais agradecem a dádiva, tamanha, para eliminar as diversas pragas. Deleito-me, num epicentro de delícias várias, grato por usufruir dum horizonte tão gratificante.
Vou ao abrigo para abastecer a lareira de lenha e, por ente os paus, deparo-me com uma vespa em estado, parece-me, de hibernação. E, a propósito de tudo, ou de nada, assoma-me ao pensamento o tal bichinho omnipresente, que a todos condiciona. Oxalá a neve o aniquilasse, ou, no mínimo, adormecesse, mas parece que o frio tem efeito contrário. É por estas e por outras que ninguém quer o termómetro na mó de baixo nos contornos da sua vida. Por inerência, penso no Natal que se aproxima, em que um "bicho" maior deveria ser foco canalizador dum amor mais elevado. Mas, rendendo-me à evidência, condicionados pelas grilhetas, já quase todos se renderam às luzes ofuscantes dum amor menor, vendido em episódios, redimensionado, a todo o instante, pelos números duma qualquer caixa registadora. Adiante.
Chegam-me, entretanto, notícias do Miguel, num vídeo em que o meu neto evidencia, a cada dia que passa, uma vontade genuína de abraçar o mundo que, paulatinamente, se vai desenhando nos seus sentidos, ancorado, sempre, numa imensa ternura. Sorrio, de peito aberto, pois há coisas que não têm preço.
E a vida prossegue, bem apoiada em convicções tecidas em esperança, enquanto inicio o despertar da lareira com recurso a duas pinhas, apanhadas no final do verão num dos muitos pinhais das redondezas.
A paisagem pode arrefecer, mas a alma, em momento algum, pode deixar de se tentar aquecer. É do nosso desígnio.
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