sexta-feira, 16 de abril de 2021

PARA UNS A DÚVIDA, PARA OUTROS A CERTEZA...

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AC, Agonia dum laranjal
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Foram p'ra cidade, em busca do movimento e da ventura, deixando sentinelas, habituadas a bons tratos, alheadas dos habituais carinhos. A terra pouco dava, compreenda-se, para além da sobrevivência. Era o país em que vivíamos.
Nem a ventura chegou, apesar do movimento, nem as sentinelas renovaram o uniforme. E, com toda a naturalidade, as ervas instalaram-se, rindo-se da desventura humana, enquanto os antigos cuidadores desesperam por aprender a nadar no cimento. Em vão.
Reivindicam-se equilíbrios, às vezes apelando ao saudosismo, em tertúlias académicas de gente com bolsa instituída, mas na prática são ingleses e alemães que, fugindo da selva do cimento, e investindo poupanças e algumas reformas, se vão instalando por aqui, ufanos duma vida ao ar livre, em comunhão com sons, odores e sabores muito próprios, sem as grilhetas duma formação espontânea dos acordes ditatoriais dum qualquer relógio. Fazem, porque sentem que têm que fazer. Não mais. E respiram, respiram como nunca.
Os antigos donos, entretanto, vêm uma vez por ano. E, para além dos sorrisos de circunstância, como que a querer cimentar o estatuto duma nova forma de vida, deixam sempre transparecer a dúvida, ainda que de forma inconsciente, ao depararem com a serena satisfação dos novos ocupantes. E se eu, em vez de...
Mas não, não há volta a dar-lhe. Estão demasiado aprisionados às aparências para tentarem algo de radical nas suas vidas. Entretanto, e não vá a porca torcer o rabo, os ingleses e os alemães continuam a apreciar o sol, por mais labutas que a terra exija.
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sexta-feira, 9 de abril de 2021

INICIAÇÃO

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AC, Encosta de Castelo Novo, Serra da Gardunha, bem "barbeada" pelos incêndios
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O pai chamara-o, de véspera, e instruíra-o com ar sério, próprio das grandes ocasiões. Havia que ir à botica de Alpedrinha, com urgência, pois a avó precisava, sem falta, de um remédio. Ele não podia, que tinha um negócio por concluir na Soalheira, há muito combinado, mas confiava nele para o bom desempenho da missão. E assim se deitara, prenhe de responsabilidade, entregue a um sono inquieto.
Saíra de Castelo Novo ainda o galo não cantara, munido de curto farnel e duma cabaça com água do fontanário da antiga Câmara. Alheou-se do ladrar dos cães, sempre atentos a qualquer movimentação fora d'horas, e começou a contornar a serra, por entre fraguedos, num percurso prenhe de reentrâncias e desvios. O jeito que lhe dava agora o comboio, recentemente inaugurado pelo rei D. Carlos, para levar a missiva a bom porto - pensou, de si para si - mas passava longe, e além disso custava preciosos réis. Aquilo era para gente de posses, oh se era, e havia que dar às pernas, que apenas careciam da vontade do dono para pagar a passagem.
Caminhava com algum receio, em plena serra, mas tentava manter a firmeza. Não era agora, com uma missão de responsabilidade, só entregue a homens feitos, que ia dar parte de fraco. Mas, por mais que tentasse, as histórias do avô João e os zunzuns da vizinhança não saíam da cabeça daqueles doze anos incompletos. Andavam por ali lobos, dizia ele, e, quando eles se aproximavam, até os cabelos se punham em pé. E andavam mesmo.
Prosseguiu, sempre atento, e, quase sem se dar conta, de vez em quando levava as mãos à cabeça para se certificar que os cabelos continuavam no lugar. Estavam.  Por mais que caminhasse, sempre com mil cautelas, havia sempre mais uma dobra dum rochedo, igual a tantas outras, sem nunca se ter noção do caminho que faltava. Suava, suava muito, enquanto o coração batia de forma acelerada.
Quando, por fim, contornou a curva onde reinava um enorme castanheiro, de tronco carcomido, velha sentinela do tempo que passa - é do tempo de D. Dinis, costumava efabular o avô, ao serão - vislumbrou, lá ao fundo, as duas imponentes torres da igreja, que congregavam à sua volta o granítico casario da vila de Alpedrinha. Finalmente!
Os suores começaram a esvair-se, o coração moderou o andamento, tempo ideal para uma pausa.  Abriu a braguilha, dando vazão às necessidades do corpo, e sentiu que, à medida que a urina escorria, encosta abaixo, qual torrente libertadora, ainda não seria desta que os seus cabelos ficariam em pé. E lá prosseguiu, a fazer-se de homem, agora com outro ânimo.
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terça-feira, 6 de abril de 2021

CONVERSA IMPROVÁVEL COM UMA CEREJEIRA

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AC, Cerejeira com um niquinho de Estrela ao fundo
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Tudo se prepara para a festa da renovação, tudo se começa a engalanar, com um aroma muito próprio, muito fresco, a perfumar o ar.
Tu, contudo, nem pareces a mesma de há uma semana atrás. Vais sorrindo, mas a cada dia que passa pareces mais contrafeita, como se algo de grave se passasse. Que se passa?
Olho para ti, reparo no viço das flores a desaparecer e então entendo a cusquice das duas andorinhas que, em dois fios do beiral, logo pela manhã, antes de iniciarem a azáfama costumeira, se deliciavam a falar daquilo que te envenenava a alma. Dá Deus cerejas a quem não tem dentes, pareciam concluir elas, com desdém. 
As andorinhas sabem da vida delas, tu sabes da tua, mas não evito pensar que tu gostarias que o apogeu das flores se mantivesse, que continuasses a ser admirada, que o palco a que te guindaram, por momentos, fosse eterno. 
Nem sei que te diga, não vá magoar-te. Fazes-me lembrar uma pessoa amiga que corre, desesperadamente, em busca das últimas novidades para se manter jovem - ela fala-me de algas, de massagens de pedras, eu sei lá... - e eu, enquanto a oiço, não deixo de sorrir. Ela não gosta que o faça, ainda não entendeu que as coisas, muito para lá de se possuírem, têm, acima de tudo, que se sentir. E, aqui para nós, diz-me lá: para além do decrépito da tua flor, não sentes algo de maior a eclodir dentro de ti? Repara bem, os frutos, as deliciosas cerejas que, daqui a um mês e meio, motivarão a cobiça de muitos, começam a despontar donde antes emergia a tua vaidade. Pensa e aguarda. Vais ver que, aquando rubras e bem docinhas, ninguém vai conseguir despegar o olhar de ti e dos teus frutos, derretido em cobiça. Num palco sem limites, essa será a tua verdadeira representação deste ciclo. E, podes crer, desde que bem cuidada, outros se seguirão, pela certa.
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terça-feira, 30 de março de 2021

O NINHO DE MELRO: UM GESTO, UMA CONSEQUÊNCIA

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AC, Ninho de melro
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Viver no campo é bom, é mesmo muito bom, mas desiluda-se quem pense que tudo é descanso e contemplação. As tarefas acumulam-se, de dia para dia e, por mais que se faça, parece que pouco ou nada se fez. Há pois, que desligar da vida lá fora - o das pessoas apressadas - aprender a relativizar as coisas, dar-lhes a importância que realmente têm. Só assim se alcança a satisfação, o equilíbrio.
Andava eu, esta manhã, a tentar domar o crescimento desmesurado dum arbusto, próximo duma das janelas da casa, satisfeito por, ao fim de dois dias, a vacina que levara contra o Covid não apresentava quaisquer reacções adversas. Desbastava aqui, podava ali, sempre com preocupação geométrica, quando, de repente, se me insinua um ninho de melro. Deslumbrei-me, primeiro, com a delicadeza dos ovos, mas horrorizei-me, depois, qual sensação de crime cometido. É que, ao podar os ramos que protegiam o ninho, provavelmente ele irá ser rejeitado pelo casal de melros, sujeito que ficou à investida de qualquer predador. Preocupado, tentei camuflar aquele centro de vida com dois pequenos ramos, mas dificilmente isso resultará. A não ser que...
Vou ficar atento, vou acreditar. Talvez, quem sabe, os melros me surpreendam, como tantas vezes a Natureza o faz. Mas, até lá, fica uma sensação de culpa que teima em não desaparecer.
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domingo, 28 de março de 2021

COM QUANTAS ÁRVORES SE TECE O HORIZONTE?

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AC
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Uma árvore, o horizonte, muito espaço para a divagação. 
Por mais que os dias passem, nunca me canso do cenário, de tentar descortinar segredos, de me projectar para lá dos montes, de forjar receitas de encantamentos mil. E, enquanto o astro vai rodando, desfiando partículas para bom entendedor, meia palavra é apenas o rastilho para ousar, sabendo-se à partida que, no nosso vocabulário, o da percepção, é debalde a ousadia de tentar furar a mais dura rocha com um simples dedo. 
Deixamos dedadas enquanto tentamos, meros esgares de desespero, de incapacidade, tudo muito ao de leve, quase imperceptível, qual boi a olhar para um palácio. Mas tentamos, tentamos sempre, a honra está em nunca deixar de tentar. E é nessa vontade indomável de tentar ir em frente, por mais que a alma desassossegue, que talvez um dia consigamos espreitar, provavelmente de muito longe, novos patamares que nos conduzam a uma nova forma de estar, de percepcionarmos a verdadeira arquitectura daquilo de que somos formados.
É por isso que, bem rodeado de afectos, nunca me canso da cumplicidade da árvore dos segredos, bem projectada no horizonte. Nessas alturas, se desassossegos houver, eles vêm sentar-se a meu lado, afáveis, como se tudo em volta fizesse sentido.
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sábado, 27 de março de 2021

TALVEZ

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AC, Ribeira de Alpreade, Castelo Novo, Serra da Gardunha
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Prosseguias, vetusta, movida por desígnio ancestral. E, por mais que te acenassem, só uma coisa importava: cumprir o teu desígnio, fazendo mover as azenhas, saciando sedes e fertilizando as margens. 
Talvez, em pleno estio, satisfeita a necessidade de muitos, te seja permitida uma pausa, enquanto multiplicas pequenos charcos para as rãs se deleitarem, enfeitando a noite com o seu coaxar. Se assim for, talvez possas, por fim, compor as canções que te enfeitam a memória, transportadas pela brisa que agita, levemente, os salgueiros.
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sábado, 20 de março de 2021

LEVAS-ME CONTIGO?

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Margarida Cepêda, Inquietação e segurança
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A acção decorre na passada semana, última do confinamento dos alunos do 1.º Ciclo, numa sala de Acolhimento para filhos de trabalhadores da linha da frente. Com toda a gente mascarada, note-se.
A Marisa, vamos chamar-lhe assim, era uma das frequentadoras, e fazia-se notar por apresentar alguma relutância em deitar mãos às tarefas que lhe estavam destinadas, após as sessões síncronas com a sua professora. Argumentava, empatava, tudo lhe servia de argumento para não deitar mãos à obra. E tudo indicava que o seu comportamento se tornaria padrão.
Eu era presença recente naquela sala, mas depressa a Marisa se fez notar aos meus olhos: pelo que ela não fazia, pelo que ela desafiava. E aceitei o repto.
No início, com as devidas meças a um novo interveniente, ela fez-se de nova, reagindo com cautela. E, embora fosse concretizando qualquer coisa, tudo o que produzia era sempre cadenciado por pausas mil, inquirindo por tudo e por nada. Mas sempre com um olhar atento, como se medisse a intenção de quem a solicitava. Mas eu tentava, cabriolava, tentava seduzir. E assim se passou um dia, dois dias...
Entretanto, e atendendo à minha preocupação, fiquei a saber, por consultas várias, que havia indícios de que, na família dela, talvez houvesse violência doméstica. Um talvez que me soube a escusa, a falta de envolvimento. Mas desta faceta dalguns seres já eu estou vacinado.
A meio da semana, quando tudo parecia mais do mesmo, a Marisa chamou-me. Aproximei-me, solícito, para indagar daquilo que ela carecia, e ela fez um gesto, aparentemente natural, a pedir aproximação. E eu correspondi. De repente, quando nada o fazia pressentir, ela pega na minha mão e, qual gesto dum qualquer activista, resgata-a para debaixo do seu braço direito, enquanto a aperta com a sua mão esquerda. Depois, reclinando o corpo de encontro ao meu braço resgatado, como se fosse um apoio, liberta a sua mão direita e começa a escrever ininterruptamente, qual dealbar dum barco em porto seguro. E eu, atónito, assistia àquele inesperado fervilhar de vida.
A Marisa prosseguiu na escrita, convicta, mas às tantas, sem nunca me olhar nos olhos, diz-me, num tom íntimo, quase discreto:
- Levas-me contigo para a tua casa?
Ainda esbocei "a tua mãe ficava tão triste, Marisa", mas nada que eu dissesse me faria apagar o impacto dum pedido tão espontâneo. E, apesar do contentamento pela confiança depositada, um aperto devassou-me as entranhas, trespassado pelo grito interior de tantas marisas, pelo desespero de tantas mães.
Para lá das máscaras, a vida, por vezes, é mesmo madrasta.
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sábado, 13 de março de 2021

PUDESSE EU...

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Pudesse eu sentir-te, para lá dos diáfanos fios
Pudesse eu ver-te, para lá da luz que se esgueira
Pudesse eu fundir-me em ti, para lá do tempo que escorre...
Talvez, então, 
Com a libertação do sorriso,
O furor dos relâmpagos amainasse.
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domingo, 7 de março de 2021

ALAMEDA DAS ERVILHAS

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AC
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Sei que não gostas muito de te envolver nas coisas da terra, que preferes observá-las, de preferência sentada no conforto dum chá, para lá da vidraça, mas desta vez não resisti. E desafiei-te.
Quando a neblina se dissipou, abrindo alas ao esplendor solar, chamei-te para um passeio na alameda das ervilhas. Franziste o sobrolho, mas viste nos meus olhos que talvez valesse a pena. Foi quanto bastou. Relembrei-te o desbravar da terra, o lançar da semente, os mimos depositados para um parto feliz, a atenção constante com um novo ser...
Quando chegámos à zona das ervilhas, com a alameda por percorrer, já estavas conquistada. Olhaste, interiorizaste, fizeste uma pausa. Depois, já embrenhada no microcosmos, chamaste-me a atenção, como se eu não soubesse, para a geometria da plantação. Mantive uma expressão atenta, interessada - apenas sorri para dentro, não fosses interpretar-me mal - como se me estivesses a mostrar a arquitectura da simplicidade. E continuámos.
Percorrida a alameda, enfeitada de verde vivo nas alas, olhei para ti e não resisti ao impulso dum abraço. É que, e percebi que também o estavas a sentir, a simplicidade, para lá dos meandros do complexo, precisa constantemente de ser cultivada. Com convicção.
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

A HORA DAS MOURAS ENCANTADAS

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AC
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Já despertam as encantadas mouras, no desenhar da hora dos prodígios, reivindicando os passos (não) dados para a sua libertação. 
Quem tem o condão de as ouvir parece adivinhar, por entre os difusos sons espalhados pela brisa, uma dança sensual plena de arrebatamento. Mas, por mais que se esforcem, os cavaleiros dos sonhos parecem não acreditar, por demais incrédulos. 
Desesperadas pelo avançar da noite, em que a magia se tende a evaporar, as mouras cavalgam cada vez para mais longe, acompanhando o declinar do astro, qual demanda em vão dum gesto libertador. 
Por fim, cansadas, regressam à grande lapa e voltam a adormecer.
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