segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O CAMINHO DAS PEDRAS

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AC, Saudação
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Chegam-me ecos dos teus passos, andarilha de todos os recantos, canção ancestral constantemente renovada.
As pedras do caminho, aqui e ali adornadas pelo cerimonial da queda das folhas, têm uma textura familiar, como que eternizando a sua presença. Por vezes, quando nada se parece insinuar, tens a tentação de querer parar. Sentes-te cansada, queixas-te, começas a olhar para trás. Mas resistes. Sabes que, se o fizeres, acabas por desembocar num labirinto. E voltas ao caminho das pedras, aspirando formas e aromas, tentando decifrar a sua linguagem. Não há outro rumo.
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domingo, 11 de novembro de 2018

CRÓNICA TRANQUILA DE TARDE DE DOMINGO

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Fotografia de AC
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Na envolvência da casa, ladeada de árvores e arbustos, o festival de cor, à medida que os dias passam, tende a escurecer a riqueza de tons. É um fim de ciclo mas, em simultâneo, como que lembrando que os compartimentos da vida nunca são estanques, tudo se começa a preparar, sem pressas, para o fermentar dum novo desabrochar de vida, a eclodir daqui a alguns meses, quando o sol, magnânimo, se dispuser a voar mais alto, qual braço de ferro com a sombra em que ora agora mando eu, ora depois vences tu.
Chove lá fora, em abundância, numa melodia cerzida em tons fortes. A lareira, entretanto, já crepita, convidando ao recolhimento e à reflexão. Entra em cena um livro, uma música tranquila já se faz ouvir. Depois, lá mais para o fim da tarde, será a vez das castanhas sentirem o aconchego do lume. A jeropiga, para adoçar o prazer, já se encontra a postos.
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domingo, 4 de novembro de 2018

CONFESSIONÁRIO DO TEMPO

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Fotografia de AC
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Bates-me à porta, sem pedir licença, como se tudo estivesse acordado desde os primórdios. 
Vens bordar o apogeu das coisas, recordar que a beleza, para lá da interioridade, é definitivamente efémera. Concedes umas pausas, dizes tu, como que a alertar que a eternidade poderá existir num só olhar, desde que focado na essência das coisas. Esqueces, no entanto, que muita gente já nem sequer olha, apenas tenta sobreviver.
Teimas em bater-me à porta sem pedir licença, serás sempre bem-vindo. Mas, tempo, sabes, às vezes apetece-me escorraçar-te como se do pior vilão se tratasse. Bem sei que a culpa da cegueira que por aí grassa não é tua. Nós, humanos, eternamente rendidos à tentação do poder, é que temos a tendência, para não encarar as coisas de frente, a entregar as rédeas ao destino. Talvez seja defeito de fabrico, talvez seja medo da clareza e da lucidez, talvez seja apenas um ciclo, confesso que não sei. Sinto é que a ignorância e o medo tendem a caminhar, cada vez mais, de mãos dadas, abrindo caminho ao evento de monstros redentores.
Desculpa o desabafo, bem sei que a culpa não morreu solteira. Agora, já mais calmo, e se me permites, preciso respirar: vou tentar prosseguir o exercício de interiorizar a beleza, de forma natural,  que emana das pequenas coisas.
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sábado, 27 de outubro de 2018

GÉMEOS

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Nasceste, começaste a crescer. Tudo te parecia seduzir, tudo parecia ter o condão de te fazer cantar.
Continuaste a trepar, em tamanho e dimensão, e começaste a reparar que os obstáculos faziam parte da paisagem. Às vezes onde menos esperavas, que dois mais dois nem sempre são quatro, mas nada que te fizesse arrepiar caminho. Sentias que o mundo estava à tua espera, abraçá-lo era só uma questão de oportunidade. 
Às tantas começaste a interrogar-te. A princípio por conveniência, depois por condição, mas o certo é que começaste a reparar que as arquitecturas, as cores, os cheiros e os sentimentos, todas essas coisas que interferem com a vida, por vezes pareciam deslocados. E começaste a contestar, acreditando que a tua crença poderia fazer a diferença.
Mais à frente, depois dalgumas quedas no escuro, que hoje te fazem sorrir, sentiste que a contestação, para fazer sentido, carecia ser irmanada na visão de novos caminhos, em algo que contemplasse, não só a tua visão, mas a de todos. E começaste a pregar a tua verdade.
Procuraste cumplicidades, partilhaste angústias e utopias, despiste a camisa para mostrar o peito. A tua voz, mesmo à distância, parecia autêntica. Mas, por cada nova cumplicidade, multiplicavam-se os atropelos e as caneladas, vindas de frente e de trás.
Gritaste, rasgaste, vociferaste. Procuraste um porto de abrigo. Então, qual sentença de Salomão, sentiste repartir-te em duas partes. 
Uma seguiu a estrada dos contactos adquiridos, em proveito próprio, vendendo ilusões à multidão desgrenhada: não vai Maomé à montanha, vai a montanha a Maomé. A outra, mais resistente à dor, não abdicou do seu rumo: afastou-se da multidão, é verdade, mas apenas a uma distância prudente. Instalou-se, de biblioteca e piano, numa quinta, começou a cultivar frutos vermelhos. 
De vez em quando entravam em contacto, a longa estrada percorrida ensinou-lhes que, por mais voltas que o mundo dê, é preciso estabelecer laços: um para escoar os produtos, o outro para maquilhar a imagem.
Reúnem-se, mensalmente, para vestir a mesma pele. E, com os filhos em volta, em modo de sorriso, ficam sempre bem na fotografia.
Eles andam por aí, sempre andaram.
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sábado, 20 de outubro de 2018

LAIVOS DE OUTONO

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Fotografia de AC
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Tudo se repete, baixando a guarda,
Dobra o calendário outra vez.
Mas não há burro, não há albarda.
Algo deslumbra, cores em barda,
Como se da primeira vez.
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sábado, 13 de outubro de 2018

AS DORES DO CAMINHO

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AC, Serra da Estrela
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Começam a doer-me os pés de tanto caminhar, em constante insistir, sem ver fim à desdita.
À noite, se sinto frio, embrulho-me em nascentes e poentes utópicos, como se atiçasse as brasas para um café reconfortante. Mas os acordares anunciam, cada vez mais, um mundo plúmbeo. Por mais que caminhe.
De tanto caminhar, começa a doer-me o sorriso.
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domingo, 23 de setembro de 2018

VAGAS

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Margarida Cepêda, Ela, o violino e vagas

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Já pouco me interrogo, confesso, quando a onda galga o paredão.
Não somos deuses, somos meros aprendizes de feiticeiro. E, a cada descoberta, ficamos tão eufóricos que, para lá do manto tecido pela vaidade, nada nos é permitido ver. A humildade, condição fundamental de qualquer pretenso equilíbrio, tende a esvair-se, cada vez mais, como se fosse condição dos fracos. Galga a vaga de contabilizar, ganha a gargalhada de possuir. Eliminando, sempre.
Já pouco me interrogo, confesso, quando a onda galga o paredão. Já não leio livros, apenas me interessa o olhar das pessoas. Mas sofro, meu amor e, quase sem me dar conta, teimo em procurar a tua mão.
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sábado, 14 de julho de 2018

A DANÇA

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Vsevolod Shvayba
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Carregavam memórias ancestrais, guardadas em mil subterfúgios, como se da mais preciosa carga se tratasse. Sabiam o que a maior parte dos mortais não sabia, sobrevoavam as suas vidas, observavam as suas angústias, mas pouco ou nada lhes era permitido, a não ser deixar pequenos sinais: uma flor no sítio mais inusitado, uma moeda depositada numa gaveta, um raio de sol a ultrapassar o filtro das árvores... E seguiam, seguiam sempre, qual missão sem fim à vista, eterna tarefa em prol da harmonia.
Às vezes, cansadas do seu pedestal, eram tentadas a deter-se num qualquer pormenor do que observavam. E, qual porto de abrigo feito devaneio, assumiam as vestes  dum mero humano, como se as emoções fossem a maçã da tentação. Era só por momentos, pensavam. E, normalmente, era. Mas quando, por descuido, deixavam que as emoções lhes abraçassem o corpo e a alma, nada mais era como dantes. Talvez fosse por isso que, em pleno milheiral, quando o estio já findava, a tarde ficasse incendiada com uma luz que até tu própria desconhecias.
Partiste, tinhas que partir, na altura não sabia. Mas quando, nos longos finais de verão, as cotovias se elevam, nos céus, em busca da última luz, eu sei que a tua alma nunca chegou a partir.
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 Vsevolod Shvayba, A dance
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sábado, 16 de junho de 2018

INSPIRA, EXPIRA, INSPIRA...

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Fotografia de AC
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Manhã de sábado, de pretensa tranquilidade.
Toca a campainha. Não é o vizinho, não é o carteiro, não é um familiar. Apenas alguém, assumido portador da verdade, a querer conversar, como se a fé se vendesse porta a porta.
Retine o telefone. Não é o vizinho, não é um amigo. Apenas alguém, com entoação estudada, preocupado com a minha qualidade de vida.
Ligo o televisor. Verdade, verdadinha, todos os canais defendem, com maior ou menor subterfúgio, uma verdade: a de quem mais lhes paga, mas sempre em meu abono.
Vou lá para fora. Calço as botas, ponho o chapéu e irrompo pelo vasto terreno. Cruzo-me com pereiras, macieiras, nespereiras, cerejeiras. Olho para estas com um carinho especial, ou não fossem elas, no seu esplendor, fruto da enxertia de quem pouco ou nada sabe destas coisas, mas a quem sobra ousadia. Estão apetitosas, as cerejas!
Continuo de encontro às nespereiras, macieiras, oliveiras e amendoeiras, prossigo por rosmaninhos, papoilas, giestas, eu sei lá que mais. Isto para não falar de gafanhotos e formigas, borboletas e abelhas, de toda a espécie de plantas silvestres. Por mais que olhe, nada se me afigura querer chegar-se à frente, cada ser cinge-se ao seu lugar. 
A pausa, sempre a necessária pausa, com a visão a distender-se, lentamente, com ligação directa à alma. E, vá lá saber-se o porquê, às tantas dou por mim a tentar acompanhar, desajeitadamente, o concerto dum pintassilgo.
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P.S. - Domingo, cerca das 18 horas. 
Acabei há pouco de as colher. Vai uma? :)
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sábado, 9 de junho de 2018

A REFUGIADA

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Fotografias de AC
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Um dia, já lá vão uns anos - sete? oito? - alguém trouxe uma nova flor para o canteiro que ficava mesmo defronte à laranjeira. Chegou modesta, de roupagem discreta, de boas referências apenas o que se não via.
Recebeu-se bem o novo ser, em terra de habitantes bem definidos: recebia o mesmo quinhão de água, a mesma atenção, os mesmos cuidados de todos os outros.
O tempo, transformado em anos, foi passando. Todas as flores se engalanavam, na altura certa, todas cumpriam o ritual. Só a nova habitante, qual refugiada em terra alheia, teimava em não desabrochar, ficando-se pelas folhas, apesar de, ano após ano, enviar sinais de promessa. Todos os fevereiros se podavam as folhas mirradas, todas as primaveras ela prometia eclodir. Mas havia sempre uma pitada de geada, ou um vento frio, a inibir a sua emancipação.
A refugiada tornou-se residente, apesar do silêncio. Continuou a receber os mesmos cuidados, a mesma atenção, o mesmo quinhão de água que os outros habitantes do canteiro.
Ontem, apesar do verão adiado, a eterna refugiada assumiu, finalmente, o estatuto de residente. E foi vê-la, qual patinho feio, a transformar-se num belo cisne, irradiando a beleza que só a diversidade permite. Ainda se mostra tímida, desconfiada, mas o útero carregado promete, para os próximos tempos, um contínuo parto de beleza estonteante.
A estrelícia, apesar da saudade de latitudes mais meridionais, tornou-se uma habitante residente. E, com a sua afirmação, até as outras flores ganharam um novo esplendor.
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