quarta-feira, 4 de agosto de 2021

QUE BELOS TOMATES, VIZINHO!

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Tudo, aparentemente, parecia bem encaminhado. As luas eram as de sempre, a Sofia acabara o doutoramento, o caminho para a lagoa fizera-se a preceito,  as árvores cresciam como um afago na alma. Até as galinhas, com o garboso e irritante galo sempre à vista, armado em dono do quintal, se ocupavam das novas ninhadas. No entanto...
De vários pontos do globo chegavam notícias contra a corrente: vagas de calor em locais inusitados, enchentes onde ninguém esperava, incêndios desmesurados, o gelo dos Polos em constante decrescimento, em sentido contrário dos movimentos populistas, o vírus teimava em sobreviver...
Na horta ao lado, alheia ao mundo que a envolve, e aproveitando um curto momento de aproximação, a vizinha exclama, com satisfação, enquanto escolhe o que mais lhe convém:
- Já viu? Que belos tomates, vizinho! 
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sábado, 17 de julho de 2021

QUANDO OS SINOS AMEAÇAM COMEÇAR A DOBRAR

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Margarida Cepêda, Metamorfose e labirinto
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Sei como gostas duma canção suave, ancorada num fim de tarde apaziguador, com o murmúrio da brisa a desenhar nas árvores, por entre as aconchegantes solaridades da despedida, a tua sensação de bem-estar. Sei, mas não vou por aí.
Hoje, nem sei porquê, apetece-me falar da avidez dalgumas formigas, que tudo invadem, do escorpião que se aventura para lá da porta escancarada, das moscas que pousam em qualquer porcaria, das andorinhas que de tudo dão conta e comentam, das pombas que, contrariando a ideia do ramo de oliveira no bico, vão benzendo a terra num constante cerimonial de ácidas fezes.
Que é isso?, questionas tu. Que fel te amarga os dias para proferires tais impropérios? Não vês que, qual eterno sinal de esperança, continuam crianças a nascer?
Não, não vou mesmo por aí, nem por além. Apenas queria recordar-te que, nestes tempos conturbados e sem memória, a cantilena que nos fazem ouvir apenas nos induz ao cultivo dos extremos: ou se aplaude, com o sorriso n.º 5, ou se dá largas à vaia, com o cenho bem franzido. Com esta a ganhar por ippon, que a reputação do circo das desgraças não se constrói com falinhas mansas, apenas nos resta resistir e, em simultâneo, tentar construir algo de novo. Não há outro caminho, por mais que doa, mas o espaço e o tempo são cada vez mais curtos. E eu, que raramente rezo, tendo a tecer esboços de mil e uma orações, por entre algumas acções, que me vão rasgando os calções. Em prol das crianças que nascem, acima de tudo. Elas merecem um futuro com maior luminosidade.
Lá no alto, aparentemente indiferentes a tudo, as aves de rapina planam, ao sabor da corrente, à espera da melhor oportunidade. Elas sentem que o seu momento vai chegar.
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sábado, 26 de junho de 2021

PARA SANTO, OU LOUCO, TODO O GRAAL É POUCO

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Tinham sonhos. Procuravam o arco-íris da vida, como se não houvesse amanhã, mas nem sempre cultivavam a paciência necessária para sentir a chuva. Compreende-se, eram jovens.
O tempo foi passando, a chuva ora aumentava, ora amainava, do arco-íris apenas alguns laivos, que se esfumavam por entre os dedos. 
Uns foram ficando pelo caminho, montando a tenda, outros recauchutaram as botas. Mas, à medida que avançavam, a visão foi-se perdendo, a bússola deixou de funcionar. 
Optaram por levar o barco para porto seguro, com café pela manhã e ar condicionado. E só um, já sem botas, ousou continuar, até a solidão o enlouquecer. Do ponto de vista dos outros, não do próprio. Para ele, numa visão muito selectiva, há muito que o caminho o ensinara a não deitar pérolas a quem apenas via pedras.
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segunda-feira, 21 de junho de 2021

PULSANDO PARA LÁ DOS ANÚNCIOS PUBLICITÁRIOS

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Margarida Cepêda, A forma é o invólucro da pulsação
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O bebé chorava, de forma desesperada, pela ausência da aura materna, enquanto o adolescente exultava, ainda que de modo incipiente, pelas mesmas razões. Um não se queria desligar, o outro começava a dar os primeiros passos para se desconectar. Ambos por necessidade.
A Rita subia, apressada, as escadas que a levariam ao miradouro, impelida pela vontade de ver e sentir quem esperava por ela. O João, num escritório dum 12.ª andar, tentava iludir os avanços da chefe. A Sílvia, enquanto abraçava a filha, pensava na melhor forma de lhe arranjar a roupa de que ela tanto carecia. O António sentava-se, quase conformado, perante os infrutíferos esforços para arranjar um novo emprego. A Eva, na casa de banho, socorria-se da maquilhagem para tentar ocultar as olheiras dum sono incerto. O Carlos, cabisbaixo, sentia que tinha que fazer o que não queria: incomodar os pais para o pagamento da prestação que se aproximava. A Nocas, entediada na espreguiçadeira, suspirava pelas festas com os amigos.
A Florbela e o Jacinto viviam no mesmo Lar, mas não se conheciam. Partilhavam, contudo, o mesmo sentir: a ausência da família, a falta de liberdade e, acima de tudo, sentiam que já não contavam. Sem se darem conta, as memórias dum ser único, a mãe, começou a povoar-lhes os dias, amaciando-os, qual porto de abrigo para os preservar daquela realidade. Mas não chegava. E o Jacinto, de tempos a tempos, com o olhar cada vez mais apagado, lembrava-se das palavras do poeta José Gomes Ferreira: viver sempre também cansa. Duma forma mais profunda, estava na hora de voltar, como canta Abrunhosa, para os braços da sua mãe.
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quinta-feira, 10 de junho de 2021

ROTINAS

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AC, Alperces (damascos)
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Manhã cedo. Após pequeno almoço substancial, obrigatório para quem respira e cultiva estes ares, há que fazer uma ronda obrigatória na horta, poema sempre presente, antes que o sol afaste qualquer ser vivo. Já se consomem alfaces, os alperces estão no ponto, as cerejas já se despedem, as cebolas estão bem, muito obrigado, as couves lombardas crescem que é um regalo, os tomateiros estão plenos de flor...
Por perto, na perspectiva do hortelão, e de forma muito discreta, uma lesma namora as alfaces, em busca de manjar, mas não é o fim do mundo. Muito pelo contrário. Numa horta sem químicos - tal como as fotografias no blogue, sem corantes nem aditivos - em que qualquer ser a sente como sua, há sempre lugar para todos. Em equilíbrio, note-se, que as lesmas, caracóis e outros que tais, têm muito que comer nas ervas circundantes.
O tempo vai passando e, em crescendo, o calor começa a dardejar, qual sinal para o recolhimento. Até para as formigas. Lá mais para a tarde, quando a o astro começar a ceder, a passarada voltará a fazer-se notar. E, bem mais acima, fora do alcance do olhar das potenciais presas, as aves de rapina voltarão a povoar os céus, no seu planar constante, apenas ultrapassadas, em altitude, pelo rasto efémero da passagem dos aviões. As cegonhas, bem mais circunscritas, limitar-se-ão a um voo directo, bem menos sofisticado: ninho-alimento-ninho. É quanto lhes basta. 
Entretanto, e para que conste, o rouxinol continua por aí, animando, e de que maneira, as noites quentes dum pré-anúncio estival. Nem a pandemia, pasme-se, consegue anular estes concertos, qual sonho duma noite de verão, em versão muito arredada de Shakespeare, para ouvinte privilegiado.
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sábado, 5 de junho de 2021

MELODIA: OU COMO, CONTORNANDO O FEL, ÀS VEZES HÁ DIAS COM MEL

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Margarida Cepêda, Amizade
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Eram tempos em que a dúvida pairava, em demasia, propícios à sementeira de neblinas, com os instintos básicos, naturalmente, a irromper como cogumelos em terreno propício. Os deuses pareciam estar zangados em versão superlativa. 
Ela, como era habitual nos últimos tempos, acordou sobressaltada. Naquele dia, porém, sem saber bem porquê, sentiu-se impelida a visitar o jardim, outrora colorido sob o olhar atento dos jardineiros, que eram todos, mas agora a viver na penumbra. Desceu as velhas escadas de granito, afastou algumas ervas que, entretanto, foram crescendo com carta de alforria, contornou o tanque e seguiu o caminho das árvores centenárias, que continuavam, indiferentes a tudo, com um porte digno.
A falta de luz continuava a incomodá-la, apesar de alguma tranquilidade que, contrariando o cenário, emanava das grandes árvores. Aproximou-se mais. Os grandes ramos envolviam toda a área circundante, qual eterno abrigo para qualquer tempestade. Mas a luz, que ali só costumava deixar reflexos, bordados pelo intervalo das folhas, continuava ausente, como se algo estivesse doente, em completo declínio, a carecer dos maiores cuidados. E foi então que...
Um inesperado canto irrompeu pelo jardim. Abismada, tentou descortinar a procedência daquela espécie de luz, em versão emotiva, que a deixara tão empolgada. Espreitou por entre os ramos, atenta ao mais ínfimo pormenor, mas nada descortinava. Chegou-se mais à frente, andou para o lado, recuou, percorreu todos os pontos cardeais em busca da melodia. E só quando, já cansada, se sentou no banco que ladeava a enorme tília, sentiu a melodia que de si emanava. Tinha percebido, finalmente, que o canto vinha do mais fundo de si, tal a vontade de agarrar a vida.
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quinta-feira, 3 de junho de 2021

OS ÚLTIMOS FILHOS DOS RINCÕES DO INTERIOR

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Cabeço da Argemela
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Iam e vinham, sem parar, não descurando qualquer metro quadrado. Tiravam o chapéu, sorriam, apaparicavam. E as pessoas, confiantes, assinavam o papel. 
Depois de eles saírem, embrulhados em gentilezas mil - ainda havia uma ponta de reserva, rebuscada lá no fundo de quem pouco percebeu, mas acreditar fazia parte da sua herança - parecia que o mundo ia mudar para muito melhor. Mas não. Era apenas um plano estratégico a avançar, imune a qualquer sentimento humano.
Quando se deram conta, feitas as mudanças convencionadas, havia uma barragem, uma mina de lítio a céu aberto, uma zona privada de caça, ou outra coisa qualquer, no lugar onde dantes eram as suas casas e os seus terrenos de cultivo. Apareceram algumas organizações a contestar, é verdade, mais uns políticos candidatos a qualquer coisa, mas tudo se esqueceu depois das fotografias e das filmagens da praxe. Já tinham o que queriam.
Alguns, moldados na dureza da vida, choraram pela primeira vez desde que se sabiam adultos. Tinha-se esboroado a fé na palavra de honra dos homens, cultivada, desde sempre, no seu rincão natal, cavando um abismo irremediável na tranquilidade da sua velhice. Acabara-se o olhar de frente, com um discreto brilho nos olhos, instalara-se a luz mortiça de quem baixa a cabeça. Para sempre.
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sábado, 29 de maio de 2021

CRÓNICA (I)NESPERADA

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AC, Nêspera
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Já todos sabem, é um facto, de tanto o apregoar. Adoro viver aqui, entre serras, sentindo, a cada dia que nasce, o aconchego da graciosa Gardunha e da imponente Estrela. Mas nem tudo são rosas. Numa zona onde a amplitude térmica é considerável, com estios a ostentar, como se fossem chaleiras em constante laboração, temperaturas de 40º, e invernias a pedir agasalho que combatam, da melhor forma, leituras do termómetro que rondam, frequentemente, os 0º, as árvores vindas doutras latitudes têm a vida difícil nas estações extremas. Mais sorte têm as pessoas com a mesma procedência, que beneficiam dum enorme calor, sim, mas humano, mas aí a música já é outra.
Há por aqui, neste espaço que me enfeita os dias, duas nespereiras que, todos os anos, dependem dum inverno suave para glorificarem a vida com os seus frutos. Mas a geada, senhoras e senhores, a geada...! E as flores da nobre árvore, que nascem em contramão, quando o sol mais se esquiva, todos os anos são confrontadas com a inclemência dum inimigo aparentemente hostil, quase cruel, que tudo faz para que os seus delicados frutos se vergam à sua lei e não vejam a luz do dia.
Com honrosas excepções, devidamente apreciadas - há dois anos, com um Inverno suave, as nespereiras estavam repletas, e foi "um fartar, vilanagem" - este ano foi mais do mesmo, com uma única nêspera a conseguir vencer a adversidade. E ela para ali está, quase amadurecida, contemplada e admirada quanto baste, pela sua resiliência e, porque não, pela sua delicada beleza, mas, para ser deglutida, meta final do seu percurso, há que esquecer a pompa e circunstância de tão notável desiderato, não vá ela, como admiravelmente disse Mário Viegas, servindo-se das palavras de Mário-Henrique Leiria, despertar a cobiça da Velha. :) 
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Por mim, fica desde já a promessa de que, em acto solene, lhe farei as devidas honras, como convém a tão digna sobrevivente, deglutindo-a va-ga-ro-sa-men-te, com música a condizer, tentando rebuscar o tempo que nem o tempo sabe que tem. Ela merece.
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domingo, 23 de maio de 2021

DE CARA LAVADA

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Fotografia de AC
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Foi na semana passada, com mais uns trocos. Tinha chovido com alguma moderação, embora de forma persistente, como que a querer abençoar o que já estava plantado. As plantas, de cara lavada - a olho nu mais as árvores, mas creio que eram todas, principalmente as silvestres - galgaram uma nova dimensão, plenas de dignidade, como que a querer dizer que nada é perpétuo, que tudo está em movimento. Assim haja carinho, respeito, assim hajam uns pingos de água. E eu, eterno aprendiz da vida, meti mais uma vez a viola no saco, enquanto anotava, mentalmente, o simples, mas complexo, da questão. Seria assim tão linear? Hesito perante a interrogação, mas apenas por breves momentos. A complexidade coloca-se a quem não entende, não saboreia, não comunga, a quem apenas funciona com um talão, de preferência com número de contribuinte. Adiante, que a passarada já se faz notar.
As aves podem ter amainado o canto, ainda que por momentos, mas os pardais, sempre omnipresentes, mais uns melros atrevidos, com ninho nas redondezas – eu suspeito onde, mas não vou lá, pois o acontecido, há cerca de um mês, serviu-me de lição – não se coíbem, com movimentos rápidos e elegantes, de se passearem pela terra fresca, em busca duma qualquer lagarta desprevenida, obrigada a sair do submundo, por excesso de água. Lá no alto, imperiais, as aves de rapina parecem planar alheias de tudo, mas é só aparência. Elas sabem bem ao que andam, atentas ao mínimo movimento daquilo que lhes interessa.
Cá dentro, por detrás da vidraça, as coisas ganham outra configuração. Ainda tento ir lá fora para me integrar no novo cenário, mas algo me diz que há coisas, para serem verdadeiramente autênticas, que não carecem da nossa pegada. Por mais ínfima. E eu, respeitosamente, obedeço ao apelo deste pedaço de terra que me tem enfeitado os dias, qual legado para as novas gerações. E aí, se me permitem, penso imediatamente no Miguel, o meu querido neto, e em todas as crianças da sua geração. E, para adoçar a trégua, a música discorre, a gosto, alimentando a convicção.
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sábado, 22 de maio de 2021

QUANDO O ÍNFIMO É INTEMPORAL

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Eram tempos de descoberta, em que cada gesto revelava pressa, como se abarcar o mundo fosse coisa emergente. Exaltávamos a poesia, dançávamos nos concertos, mergulhávamos em rios de águas cristalinas, andar à boleia não era coisa estranha. E cada rosto afável que encontrávamos, cada gesto genuíno, cada sabor local, cada música no rádio duma tasca deserta, eram pretexto para a festa. 
Fazíamos planos, oh se fazíamos, e tudo servia de motivo para isso: uma casa abandonada, que reconstruíamos em sonhos, um tecido diferente, que desmultiplicávamos em novas roupas, a descoberta duma cascata num ribeiro entre montes, com peixes a jusante e a montante, as notas duma guitarra numa estação deserta, à espera dum comboio sem horário... E sorríamos, sorríamos tanto, caramba!
O tempo passou, os horários eram para se cumprir, as facturas tinham que se pagar. E pagaram-se. Mas, como quem guarda um precioso tesouro num baú, há luzes que, mesmo que ínfimas, nunca se apagaram, britando muitas das pedras que foram surgindo no caminho. São só nossas, são intemporais.
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