sábado, 19 de maio de 2018

VELADAMENTE

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Margarida Cepêda, The three veiled ones and the revealed one
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Longos são os caminhos, diversas são as suas configurações.
Juramos, na casa Partida, manter-nos fiéis à matriz, em nome disto ou daquilo, que nos alegra ou entristece, mas ela, pois mais que nos debatamos, é condicionada pelo que se nos vai deparando, obrigando-nos a reformular, a cada instante, a percepção daquilo que nos rodeia. É a aprendizagem, pura e dura, em que de pouco nos valem as credenciais. Ou resistimos, ficando por ali, ou ousamos continuar, sujeitos a muitas tempestades, enfrentando os medos, com algumas bonanças a adoçar o percurso, mas sempre sem fim à vista. Uma coisa é certa: sem enfrentar os medos, ousar vencê-los, nunca sairemos do mesmo patamar.
Ontem perguntaste-me - tu, menina e moça - porque nem sempre tudo é calmo e sereno, como se o mundo devesse, por natureza, ser um lugar pacífico, apenas à espera que o fruissem. Não te respondi de imediato, afinal estás apenas no início duma longa etapa. Mas, sorrindo, acabei por te dizer que nada, mesmo nada, surge de mão beijada, que há um longo caminho a percorrer até podermos sentir, no mais fundo de nós, o sentido de recompensa.
Muito irás caminhar, menina e moça, até sentires que as coisas fazem sentido. Até lá, vive cada momento como se fosse único, em cada passo dá o que de melhor tens. Ri, indigna-te, chora, comove-te, cai, volta a rir, levanta-te, mas nunca te esqueças de estender a mão. Essa é a melhor prova de que o mundo, para seguir um novo rumo, está cansado das doutrinas de Maquiavel.
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sábado, 12 de maio de 2018

O BEIJO DA NUVEM

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AC, Beijo da nuvem
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Maio insinuou-se, sedutor, convocando tudo e todos para o habitual festival de cores e aromas. 
As espigas, a caminho da maioridade - ornamentadas, aqui e ali, com o alegre colorido das papoilas - ajudavam à festa de forma discreta, mas prometedora. Não queriam ocupar o palco, contentavam-se com a promessa, num farto Junho, de encher as arcas dos bastidores.
Por perto, nas orlas dos caminhos, as giestas vestiam-se de branco e amarelo. O rosmaninho, de místicas vestes, ajudava a compor a tela, enquanto, obedecendo a ancestral apelo, procurava apaziguar o infatigável labor das abelhas.
Os deuses, saindo do seu torpor, invejaram o quadro. E, não resistindo a deixar a sua marca, segredaram às nuvens para beijarem, delicadamente, a terra.
Chamei-te para veres, chamei-te para sentirmos. Estava na hora da mais natural das comunhões.
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domingo, 6 de maio de 2018

CRÓNICA DUM HOMEM SIMPLES

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AC
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Arredara-se dos homens, seres de mil faces, e acomodara-se numa pequena quinta abandonada. Mau negócio aos olhos dos outros, um pequeno paraíso, feito refúgio, no cintilar dos seus. Os filhos bem tentaram demovê-lo, mas nada feito. Era mesmo aquilo que ele queria.
Alberto limpou, cortou silvas, fez obras, rasgou a terra. Quanto mais fazia mais se ligava, mais jorrava, dentro dele, um sentimento de pertença.
Sentia-se grato a cada dia que passava, de alma aberta ao crescimento e ao definhar das plantas, ao distanciamento respeitoso da bicharada. Só os pardais, eternos senhores de qualquer lugar, pareciam indiferentes à sua presença.
Com o tempo foi descobrindo a magia dos enxertos, qual alquímica arte de multiplicação dos frutos. Tentou macieiras, cerejeiras, pessegueiros, pereiras, abrunheiros... Ganhou-lhe o jeito e, vá lá saber-se como, começou a ganhar prestígio nos seus vizinhos, que de vez em quando o convidavam para exercer o seu talento. Talvez fosse pelo reconhecimento da sua arte, talvez fosse pelo pretexto de saber mais daquele homem simples, de olhos brilhantes, que nunca se queixava fosse do que fosse. E isso intrigava-os. Alberto ajudava no que podia, tentava ser cortês, mas depressa regressava ao seu refúgio. Não era dado a grandes conversas.
Os filhos visitavam-no uma vez por ano, mas depressa se iam. Amarrados pelos compromissos de outras vidas, continuavam a não entender aquela espécie de felicidade do pai, cada vez mais entranhada.
Com o tempo começou a tentar enxertos de várias espécies na mesma árvore. De uma só qualidade era fácil, a questão residia quando tentava congregar várias espécies. Tentou, cogitou, voltou a tentar.
O tempo dum homem nesta vida é limitado, e Alberto bem o sabia. Tudo tem um rumo, um caminhar, e outros homens ocupariam o espaço dos que, entretanto, iam partindo, deixando um legado natural, por mais ínfimo. Sentia-o profundamente, a comunhão com a natureza assim lho ditava. Talvez, por o sentir de forma tão profunda e, em simultâneo, natural, nunca se inquietou com questões de vida ou de morte. Continuava a fazer o que achava que devia, que lhe dava satisfação, num permanente deslumbramento pelas manifestações da vida. Por vezes, alheio à noção do tempo, era capaz de ficar horas a observar um besouro na sua labuta diária, era capaz de se deslocar uma distância considerável só para saber onde um melro fazia ninho...
Um dia, no fim do Verão, também chegou a sua vez. Os filhos, depois do funeral, reuniram-se na casa da quinta, fazendo contas à vida, e só então repararam numa árvore, diferente de todas as outras, que dava ameixas, pêssegos, pêras, maçãs... 
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sábado, 28 de abril de 2018

SEGREDOS, MA NON TROPPO

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Fotografia de Gaja Maria
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Gosto de alguns segredos, das pistas que deixam, gosto das zonas quase sagradas onde depositamos aquilo que, de mais precioso, preservamos do impacto das maiorias. É uma forma de tentar respirar, em aparente estado puro, aquilo que de mais fundo se agita em nós, fórmula quase alquímica de preservação de preciosas fragilidades, indefesas perante o tacão dum qualquer uniforme.
Gosto de certos segredos, conspiração movida a verde-sol-violeta, das finas teias que tecem, onde a delicadeza de tons se esforça por dar a pincelada perfeita.
Ah, como me prendo a certos segredos, daqueles que estimulam aquilo que de melhor há em nós, à espera do momento certo para eclodir, eterna reserva de quem nunca se resigna, de quem nunca desiste...!
Move-me o eterno gosto de tentar, por mais que doa, o eterno gosto de respirar, o eterno gosto de viver.
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sábado, 21 de abril de 2018

TELA INCOMPLETA

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AC, Flor de cerejeira
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Todos os anos era assim. Descia o carreiro que levava ao cerejal e, no alvo manto, procurava a tua silhueta. Era o tempo em que te desenhava, esgueirando-me por entre o festim das abelhas, qual tela em que todas as pinceladas procuravam um rosto, continuamente reinventado, jorrando traços que transbordavam a encosta.
Agora, em demanda da harmonia, o pó do caminho segreda-me que ela é feita na filtragem de muitos rostos, de muitos gestos, de muitas vontades. E eu tendo a concordar. Mas hoje, ao descer o carreiro, dei por mim a reinventar-te, como se a tela permanecesse, eternamente, incompleta.
A reinvenção é tarefa perpétua, carente de ser continuamente alimentada. Ainda temos muito que caminhar, meu amor.
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sábado, 14 de abril de 2018

MENINA AIROSA, TEIMOSA, POR QUE TARDA EM TE BEIJAR A ROSA?

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AC, Locomotiva do Comboio Real
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Sempre foste menina airosa, senhora das tuas convicções, sempre foste de antes quebrar que torcer. Mas, sem te aperceberes, foste criando uma muralha nos outros, nos resignados, nos que tudo vêem em função do seu quintal. O teu voo, feito em jeito de “o rei vai nu”, inquieta a sua segurança, construída em areias movediças, despoletando a reacção mais básica: a intolerância. 
Nem sempre sabes por onde deves ir, mas tentas. A dignidade está em tentares. A incompreensão, no entanto, vai fazendo mossa, e quedas-te, por vezes, no recolhimento, incrédula por sentires que não há aplausos, dorida por sentires que, no silêncio que se faz, impera a terra queimada. 
Ouve, menina airosa. O ser humano é pleno de imperfeições, mas não gosta que lhe o digam de supetão. A sua imperfeição, para ser assumida, carece de ser regada de adjectivos aconchegantes, de palavras que o façam dormir, tranquilamente. 
Mas tu tens pressa, nunca gostaste de rodeios, sabes que há um mundo por desbravar, por entender. E, apesar de dorida, continuas a tentar derrubar o muro, muitas vezes não sabendo que, quanto mais tentas, mais pedras o muro vai acumulando. 
No final, menina airosa, qual mea culpa, vão-te abençoar. Deixaste um legado, pois deixaste, mas, na tua ausência, eles já sabem com o que contam. E dão-te, por fim, uma rosa.
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segunda-feira, 9 de abril de 2018

GRAAL

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AC, Ribeira
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Para onde vais, fio de água, sem vontade de parar? 
Vou em prol do meu desígnio, tenho pressa em chegar. 
E que ganhas tu, fio de água, com tanto calcorrear? 
No reflexo do meu esforço, todos temos a ganhar. 
Que mais desejas, fio de água, para conseguir serenar? 
Soubessem todos, como eu, ocupar o seu lugar.
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quarta-feira, 4 de abril de 2018

CICLOS

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Fotografia de AC
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Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas, como se tudo o que de mau acontecesse fosse questão intrínseca. Éramos encorajados a bater no peito, mea culpa, concentrando energias em elevado torpor, na esperança dum qualquer milagre à imagem de santas vidas. Éramos encorajados à redenção, deixando para segundo plano as injustiças do mundo. 
As amarras, contudo, apesar da severidade dos guardas, eram ténues perante o apelo natural do que se respirava lá fora. 
Um espreitar, um ousar, um pular. No início, qual vestir de pele dum recém-nascido, o impacto era violento, abissal: tudo fugia às regras, no comer e no rir, tudo parecia áspera terra, longe das linhas delineadas num qualquer gabinete avesso à luz. Depois, retiradas as névoas confessionais, o que nos rodeava - as pedras, as ervas, os rios, os pássaros, a água, as estrelas… - parecia ter uma linguagem própria, irmanada numa linguagem maior, muito maior, plena de harmonia. Tudo parecia saber, sem alardes, o seu exacto lugar. Insinuava-se uma outra configuração, apelava-se a um entendimento em que cada ser tentava construir a sua própria tela, contributo individual para uma interpretação maior. 
Mas nem todos. A maioria, escancarando as portas ao medo, tendia a estabelecer limites por tudo e por nada, impregnando a vida de rituais. Era a sua forma de se defenderem do que não entendiam. Nunca tinham saído do cativeiro, era nele que dormiam bem. E assim criaram a normalidade, plena de intolerâncias…
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Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas, como se tudo o que de mau acontecesse fosse questão intrínseca. Éramos encorajados a bater no peito, mea culpa, concentrando energias em elevado torpor, na esperança dum qualquer milagre à imagem de santas vidas. Éramos encorajados à redenção, deixando para segundo plano as injustiças do mundo. 
As amarras, contudo, apesar da severidade dos guardas, eram ténues perante o apelo natural do que se respirava lá fora. 
Um espreitar, um ousar, um pular. No início, qual vestir de pele dum recém-nascido, o impacto era violento, abissal: tudo fugia às regras, no comer e no rir, tudo parecia áspera terra, longe das linhas delineadas num qualquer gabinete avesso à luz. Depois, retiradas as névoas confessionais, o que nos rodeava - as pedras, as ervas, os rios, os pássaros, a água, as estrelas… - parecia ter uma linguagem própria, irmanada numa linguagem maior, muito maior, plena de harmonia. Tudo parecia saber, sem alardes, o seu exacto lugar. Insinuava-se uma outra configuração, apelava-se a um entendimento em que cada ser tentava construir a sua própria tela, contributo individual para uma interpretação maior. 
Mas nem todos. A maioria, escancarando as portas ao medo, tendia a estabelecer limites por tudo e por nada, impregnando a vida de rituais. Era a sua forma de se defenderem do que não entendiam. Nunca tinham saído do cativeiro, era nele que dormiam bem. E assim criaram a normalidade, plena de intolerâncias…
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Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas...
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sábado, 24 de março de 2018

O MOLEIRO, A AZENHA E O RIBEIRO

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AC, Azenha numa ribeira da Gardunha, Souto da Casa
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Havia um moleiro, uma azenha e um ribeiro.
Sabiam o seu lugar, o ano inteiro.
Que se passou?
O tempo mudou.
O moleiro emigrou.
A azenha parou.
O ribeiro minguou.
Havia um moleiro, uma azenha e um ribeiro.
Só ficaram memórias, o ano inteiro.
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sábado, 17 de março de 2018

A ILHA

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Fotografia de AC
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Ontem, lembras-te?, falavas-me do longe como se tivéssemos asas, enquanto, tranquilamente, bebíamos um Jameson à lareira. 
Dizes sempre as coisas a sorrir, faz parte de ti, num velho e renovado jogo de te descobrir, de nos descobrirmos. E eu gosto. Lá fora, onde a chuva teima em ser rainha, as amendoeiras começaram a perder a flor, mas os pessegueiros, de forma discreta, já se começam a enfeitar, delicadamente, num inconfundível subtil rosa. Só as cerejeiras, demasiado melindrosas, teimam em não desabrochar, exigindo, para sua apoteose, a indispensável luz solar.
Hoje, para contrapor, falei-te de poetas e de pintores de outrora, que viam nos mares do sul a viagem das suas vidas. Nada disseste, só os teus olhos sorriam. Levantaste-te, puseste mais um pau na lareira e escolheste outra música. Depois, com o sorriso a desenhar-se no rosto, olhaste-me bem de frente.
Nunca me canso de te descobrir, nunca nos cansamos de nos surpreender.
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