quarta-feira, 8 de julho de 2020

PODERÁ LEVITAR SER SINÓNIMO DE MERGULHAR?

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Talvez fosse da conjugação dos astros, dos cromossomas, ou da alma rebelde com livre arbítrio. Não sabia explicar como o fazia, mas levitava, constantemente, enquanto os outros se limitavam a observar. Admirando ou deplorando.
Disseram-lhe que, para ser entendido, tinha que aportar em praias já habitadas, conjugar os verbos dentro da norma. Tentou, tentou, mas quanto mais tentava, mais náufrago se sentia. E então percebeu que, para agradar, mais refém tinha que ficar: de pastores, aduladores, manipuladores, confessores, ditadores, estupores...
Libertou-se, a custo, da névoa da normalidade. Sondou os ventos, libertou as íntimas aves, apanhou o expresso da incerteza. E começou, de novo, a levitar, dando cor e forma às paisagens que ia tentando domar, com dificuldade, no inevitável mergulho aos abismos mais profundos da sua alma.
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sábado, 4 de julho de 2020

GATA ESCALDADA DE ÁGUA FRIA TEM MEDO

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Descia a rua, em passo gingado, cadenciado pela música dos fones, como se cada movimento fosse tão natural como o respirar.
Entrou na marginal, fintando os semáforos, sempre com a mesma ginga. Depois, num alarde de audácia, contornou as barreiras e desceu para o areal, sempre no mesmo ritmo, como se deslizasse nas notas dum blues muito pessoal.
Quando chegou ao areal fez uma pequena pausa. Descalçou os sapatos de salto alto, adaptou os pés nus à nova textura e, retomando a ginga, encaminhou-se para o lugar onde a água beijava, delicadamente, a areia.
O sol já se despedia, dourando as águas, uma ou outra gaivota sobrevoava o local. Mas ela não se deteve. Entrou na água e, ao primeiro contacto, deu um salto de recusa, enquanto os fones iam pelos ares.
- Porra, que está fria!
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terça-feira, 30 de junho de 2020

FOGACHO DE RIACHO PARA LÁ DO DESNORTE, REJEITANDO A MÁ SORTE

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Imagem retirada da Net
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Faz de conta que era um menino. Ele olhava, olhava, à procura da ponta do fio para entender tanto desnorte. Mas, quanto mais olhava, mais confundido ficava. Todos tinham as suas razões, mas ninguém ouvia as razões dos outros. Mesmo que fossem as mesmas.
O olhar dos meninos, com tantas portas e janelas para o sonho, raramente fica confundido, e ele acabou por tomar uma decisão: subiu para o penedo que servia de promontório, abriu a braguilha e começou a ensaiar um arremedo de riacho. Depois, voltando as costas, seguiu à sua vida, em busca de melhor sorte.
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sexta-feira, 26 de junho de 2020

GOSTOS

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Ela é talentosa, autêntica, única, reconhecida nos palcos referenciais de todo o mundo onde se considera, suprema exigência, que alguma música só pode ser tocada por pessoas que alcancem os deuses.
Pelo seu percurso e pela excelência alcançada na sua arte, faz parte do leque das poucas pessoas que admiro, ainda por cima coincidindo num gosto que nos orienta: o reencontro no contacto com a Natureza.
Para meu deleite, já a visitei duas vezes em Belgais para a ver tocar, para este verão estava programada uma terceira. Infelizmente, pelas razões que todos sabemos e, acima, de tudo, sentimos, todos os concertos foram adiados para 2021. 
O tempo, bem vistas as coisas, é uma insignificância, e o reencontro está já ali à espreita. Talvez, para além da excelência da música, seja possível calcorrear alguns dos  recantos que encantam os seus merecidos dourados dias.
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quarta-feira, 24 de junho de 2020

DESPEDIDA EM ACORDES DE "O AMANHÃ COMEÇA AGORA"

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Fotografia de AC
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Para o M.
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Segue. Não olhes para trás, sê imune ao ruído. Segue, segue sempre. Se, no decorrer da viagem, tiveres a ventura de algo te tocar a alma, então sim, pára, mas sê humilde na avaliação, exigente na reflexão. Mas cinge-te ao essencial. Não embarques em loas de sereia, nas palavras engomadas de qualquer gravata, no mau tempo anunciado pelos velhos do restelo.  Ouve, fixa bem. Para lá do ruído, a Natureza, por mais que a desdenhem, será sempre um guia fiável. Até porque, soprem os ventos que soprarem, não consta, que se saiba, em qualquer tabela de Excel.  Mas nunca te esqueças: quando sentires que tens que seguir, deixa sempre um rasto da tua dignidade, da tua simpatia. É que, por mais que pensem o contrário - dizem que sim, mas deixaram de acreditar - as flores podem crescer em qualquer lugar.
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terça-feira, 23 de junho de 2020

DIÁLOGOS PROVÁVEIS AO TELEFONE NUM (IM)POSSÍVEL ABRAÇO

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Ondulam os pinheiros na encosta, como sempre o fizeram, mas as aves procuram outros rumos, como se, em Junho, a vinha já tivesse sido vindimada. Algo as perturba, algo as atemoriza. É verdade que os mensageiros da corte têm estado mais activos do que nunca, mas ruído sempre houve, sempre haverá. Talvez, para lá das circunstâncias, haja algo nas bússolas que acautele a sobrevivência, que aconselhe ao recolhimento. Mas... será que a vida se resume a uma espera contínua? Nada mais haverá para além disso?
Tens razão, sempre houve ondulações e sempre haverá. Mas os deuses, ao tentarem viciar os dados, perderam o controle do tabuleiro. 
Desculpa, mas não acredito em deuses.
Nem eu, nunca acreditei em falsos deuses. Mas, podes crer, há cada vez mais por aí, recitando ladainhas para todos os gostos. É só escolher.
Será este um triste desígnio, um triste fado?
Não, há sempre uma possibilidade de redenção, de nos reencontrarmos com a harmonia. Se deixarmos de lado as (nossas) chinelinhas e as capelinhas, como se elas fossem o centro do mundo, talvez as bússolas se reconfigurem, talvez a fruta cresça no tempo certo.
Gostei de te ouvir, gosto sempre. Obrigado por telefonares. É sempre tão bom ouvir-te, sentir esse afago para dar calor à cumplicidade.
Se precisares, o carro estará sempre disponível para a viagem. Sempre.
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sábado, 20 de junho de 2020

O INEVITÁVEL OLHAR PARA LÁ DE NÓS

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Fotografia de AC
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Olho-te, debruçada sobre algo que te parece doloroso, quase único, como se nada mais houvesse para lá dos limites do teu mundo. Sinto que sofres, como todos sofremos, que te revoltas, como todos nos revoltamos. É assim, é da nossa condição. Tendemos a não acreditar, olhando tudo pela mesma medida. Mas, se estiveres atenta, há quem note que há uma luz que refulge, tingindo os dias, como que recordando que todos os dias são dia de vida. E, se continuares atenta, verás que essas pessoas seguem sempre em frente, orientando-se pela bússola da luz, olhando com carinho para cada pedra que ultrapassam. Para lá do que buscam, eles sabem que cada pedra fará, para sempre, parte de si.
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domingo, 14 de junho de 2020

A IMPROVÁVEL FOTOGRAFIA DAS GAIVOTAS EM PONTES BORDADAS DE ESPERANÇA

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Pintura de Barbara Issa Wagnerovà 
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Começas a vacilar, agora que reparas no desmoronar das pontes que alicerçavam este vertiginoso mundo. Não, não vale a penas quereres esconder-te, a mudança irá bater-te à porta. Vai doer, a princípio, principalmente porque ninguém gosta de mudar. Mas, se pensares bem, ela está sempre a bater. Nós é que não a abrimos, convictos de que conseguimos preservar-nos numa qualquer ilha, nem que seja virtual, até a ameaça soçobrar. Mas isso nunca irá acontecer, os corvos estarão sempre por perto. Vá lá, enfrenta os factos. Até porque, para lá das ondas de convulsão, precisaremos sempre de  novas pontes para cultivar aquilo que, no fundo, nos faz mover: a esperança. Depois, até as gaivotas demandarem o mar, teremos sempre a filosofia do abraço para nos alimentar.
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domingo, 7 de junho de 2020

ACERCA DO (IN)COMPREENSÍVEL MAU HUMOR DOS DEUSES

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Foto (por trás da vidraça) de AC
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Era domingo, dia de pausa, com "o pequeno paraíso" a servir de ponto de encontro entre pessoas que se querem bem. Desta vez, como se tal fosse necessário, o pretexto era uma sardinhada acompanhada com todos os matadores: pimentos assados, batata nova cozida com casca, salada de tomate e salada de alface. Para bebericar, em opção quase unânime, optou-se por um bom vinho do Douro.
Depois do repasto, como seria de esperar, a conversa ficou animada. De repente...
Nas telhas ouve-se um barulho assustador, colocando as conversas em suspenso. Vinda do nada, e numa cadência avassaladora, a tempestade irrompe como dona e senhora de tudo o que abrange, disparando, como dardos, mortíferas pedras de granizo que devastam tudo o que tocam.
Olho, impotente, através da vidraça. A horta, qual inocente vítima apanhada em local errado, é vergastada sem dó nem piedade. E eu, cuidador e guardião de cada uma daquelas plantas, sinto, até às entranhas, o sentido da palavra impotência. E dói...
Passada a tempestade - no dia seguinte ainda havia gelo no terreno - uma rápida surtida para comprovar o que se temia: exceptuando as cebolas, as cenouras e o alho francês, por razões óbvias, a horta praticamente desaparecera. E isto para não falar da fruta, quase toda no chão, com a sobrevivente a apresentar lacerações irreparáveis.
Os dias que se seguiram foram de comiseração, dum quase abandono da empreitada. Repararam-se alguns canteiros, tentaram-se tratar algumas feridas do pouco que restara, enquanto se lamentava o  mau desígnio dos deuses. Mas a Natureza é assim. Dá e tira, reagindo a maus tratos, indiferente a especulações de seres ínfimos e substituíveis.
Mas havia que reagir. O ser humano é o que é, imperfeito na sua elaboração, com laivos de ostentação, mas há coisas que, nestas alturas, vindas não se sabe de onde, assomam à tona d'água: a abnegação, a resiliência, a eterna vontade de recomeçar.
Nos últimos dias a horta voltou a ser repovoada de tomateiros, couves, alfaces e ervas aromáticas. Apenas. De fora ficaram os melões, o feijão, os pepinos, os pimentos, as abóboras e as curgetes. Não é a mesma coisa, que cada história deixa a sua marca, mas é um recomeço. E eu, lentamente, começo outra vez a abraçar aquelas plantas, eterno elo de ligação com os humores, por vezes incompreensíveis, da Natureza.
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sábado, 30 de maio de 2020

ACERCA DA COMPLEXIDADE DO VOO PARA LÍNGUAS PERGUNTADORAS

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Fotografia da Luísa, do blogue À Esquina da Tecla
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Havia um passarinho. E um lago. E tão bem se davam que fizeram promessa de amor eterno: quando o passarinho passarinhava, o lago alagava.
E depois?
O tempo passou, o passarinho passarinhou, o lago alagou. E toda a gente protestou. 
Afinal, como é que ficou?
O passarinho assisou, o lago recuou e toda a gente se calou.
Assim, tão simples?
Achas simples conjugar o nós com os outros? Anda cá, meu potrinho, que eu ponho mais uns pozinhos. Era uma vez...
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