sábado, 27 de outubro de 2018

GÉMEOS

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Nasceste, começaste a crescer. Tudo te parecia seduzir, tudo parecia ter o condão de te fazer cantar.
Continuaste a trepar, em tamanho e dimensão, e começaste a reparar que os obstáculos faziam parte da paisagem. Às vezes onde menos esperavas, que dois mais dois nem sempre são quatro, mas nada que te fizesse arrepiar caminho. Sentias que o mundo estava à tua espera, abraçá-lo era só uma questão de oportunidade. 
Às tantas começaste a interrogar-te. A princípio por conveniência, depois por condição, mas o certo é que começaste a reparar que as arquitecturas, as cores, os cheiros e os sentimentos, todas essas coisas que interferem com a vida, por vezes pareciam deslocados. E começaste a contestar, acreditando que a tua crença poderia fazer a diferença.
Mais à frente, depois dalgumas quedas no escuro, que hoje te fazem sorrir, sentiste que a contestação, para fazer sentido, carecia ser irmanada na visão de novos caminhos, em algo que contemplasse, não só a tua visão, mas a de todos. E começaste a pregar a tua verdade.
Procuraste cumplicidades, partilhaste angústias e utopias, despiste a camisa para mostrar o peito. A tua voz, mesmo à distância, parecia autêntica. Mas, por cada nova cumplicidade, multiplicavam-se os atropelos e as caneladas, vindas de frente e de trás.
Gritaste, rasgaste, vociferaste. Procuraste um porto de abrigo. Então, qual sentença de Salomão, sentiste repartir-te em duas partes. 
Uma seguiu a estrada dos contactos adquiridos, em proveito próprio, vendendo ilusões à multidão desgrenhada: não vai Maomé à montanha, vai a montanha a Maomé. A outra, mais resistente à dor, não abdicou do seu rumo: afastou-se da multidão, é verdade, mas apenas a uma distância prudente. Instalou-se, de biblioteca e piano, numa quinta, começou a cultivar frutos vermelhos. 
De vez em quando entravam em contacto, a longa estrada percorrida ensinou-lhes que, por mais voltas que o mundo dê, é preciso estabelecer laços: um para escoar os produtos, o outro para maquilhar a imagem.
Reúnem-se, mensalmente, para vestir a mesma pele. E, com os filhos em volta, em modo de sorriso, ficam sempre bem na fotografia.
Eles andam por aí, sempre andaram.
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sábado, 20 de outubro de 2018

LAIVOS DE OUTONO

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Fotografia de AC
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Tudo se repete, baixando a guarda,
Dobra o calendário outra vez.
Mas não há burro, não há albarda.
Algo deslumbra, cores em barda,
Como se da primeira vez.
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sábado, 13 de outubro de 2018

AS DORES DO CAMINHO

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AC, Serra da Estrela
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Começam a doer-me os pés de tanto caminhar, em constante insistir, sem ver fim à desdita.
À noite, se sinto frio, embrulho-me em nascentes e poentes utópicos, como se atiçasse as brasas para um café reconfortante. Mas os acordares anunciam, cada vez mais, um mundo plúmbeo. Por mais que caminhe.
De tanto caminhar, começa a doer-me o sorriso.
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