sábado, 21 de dezembro de 2019

NATAIS DE ESPERANÇA, ESPERANÇA DE NOVOS NATAIS

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imagem com origem desconhecida
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Por onde passava só via terra devastada. Colheitas queimadas, pilhagens, nascentes envenenadas. Teimava em prosseguir, mas os sinais não mudavam. Por todo o lado a mesma aridez, o mesmo fruto da falência das ideias. A vida é feita de ciclos, lia-se nos livros, mas os ciclos são a prova da cegueira colectiva. Sempre os mesmos erros, sempre a mesma tendência para o arrotar do estômago. E, em celeiro vazio, o músculo acabava por assomar.
Da cabana, em plena floresta, saía uma leve coluna de fumo. Aproximou-se, cauteloso, mas não via guardas nem defesas, apenas um jerico que pastava, indiferente ao que o rodeava. Espreitou. Lá dentro duas pessoas afadigavam-se a manter vivo o lume, mexendo de quando em vez, com uma colher de pau, num caldeirão que destilava odores apetecíveis. Próximo, num berço de madeira, um bebé dormitava.
Bateu à porta. De dentro não perguntaram quem era, limitaram-se a abrir. E entrou. Dois rostos sorridentes encaminharam-no para uma tosca mesa de madeira, onde o aguardava uma tigela de caldo fumegante.
No final, já saciado, olhou em volta. Na cabana pouco ou nenhum conforto havia, mas uma prateleira de tigelas chamou-lhe a atenção. Eram para quem chegasse, disseram-lhe, um estômago reconfortado ajuda a manter a esperança. E continuavam a sorrir.

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Reedição
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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

CONTO DE NATAL EM VERSÃO MICRO

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Imagem retirada da net
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Havia um olho, uma mão e um coração. E a escuridão.
O olho não via, o coração dormia, a mão não dava a mão.
Um raio, descomunal, rasgou a noite. O olho viu, o coração despertou, a mão quis dar a mão.
Com a esperança em eclosão, e em jeito de conclusão, eis como ficaram a saber aquilo que realmente são.
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domingo, 8 de dezembro de 2019

PLANURA TRANSVERSAL SOBRE A AGITAÇÃO DOS ECOS

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AC, Medronhos
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É forte o bramido das ondas, procurando almejar as barreiras que teimam em se perpetuar, sempre em constante mutação. 
O vento sopra-me que não há outro caminho, mas adivinha-se a proliferação dos diques, das ilhas, dos desertos. A multidão agita-se, inquieta,  enquanto se multiplicam os profetas, quase todos urdidos em cinzentas vestes. 
As aves, contudo, continuam a apurar o seu voo, enquanto os medronhos, tingidos dum rubro sedutor, atingem o seu pico de maturação. E o sorriso, para lá do tom ruidoso dos ecos, acaba, naturalmente,  por se instalar.
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

BREVES FRAGMENTOS DA LINGUAGEM DA LUZ

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Fotos de AC
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Já se some o fulgor outonal, breve lampejo prometedor dum grande final, em apoteose, dando lugar ao recolhimento próprio da gestação dum novo ciclo. A luz, contudo, teima em manter-se, serena, como que a alimentar olhares perscrutadores em busca da compreensão da alquimia do grande caldeirão.
Nos fins de tarde já não se vêem bandos de garças a saudar os últimos raios de sol, mas os atrevidos pardais e as esquivas pegas-rabilongas continuam a fazer-se notar, em eterna busca de alimento. Dos lados da Estrela sopra um vento agreste, a convidar recolhimento junto da lareira. Na Gardunha, mais próxima e prazenteira, a policromia das folhas de cerejeira e dos castinçais é já saudade, começando a adornar o solo em suave e delicada carícia.
Já se some o fulgor outonal, mas a luz, plena de sugestivas roupagens, continua incansável na projecção de subtis e renovados sinais.
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