quarta-feira, 26 de agosto de 2020

ARQUITECTURAS

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Imagem retirada daqui
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Quando o calor concedia em aliviar a terra do seu abraço ofegante, costumavas passar, à tardinha, no caminho que levava ao que restava dos campos de margaridas. 
Apesar da trégua solar, não dispensavas um chapéu de aba larga, num bege apaziguador, que apenas libertava o rosto quando levantavas o olhar, curiosa, para tentar vislumbrar, lá no alto, a arquitectura dos ninhos das cegonhas. 
Nesses primeiros dias de Estio, enquanto o astro amainava a respiração dos outros, a tua simples passagem incendiava as minhas tardes.
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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

TRIANGULAÇÕES

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Imagem retirada da Net
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Devem ter por perto um pombal, mas, durante o dia, parecem ter fixado por aqui o seu território. 
Esvoaçam dos fios, na rua em frente da casa, para a figueira mais alta, situada nas traseiras, daí para os abetos, mais à ilharga, num triângulo de navegação em que o arrulhar é constante. Parecem felizes assim, a triangular, sempre lá no alto. Ao contrário dos parentes citadinos, nunca se aproximam. Devem ter, por certo, alimento farto, ou então tentavam apanhar umas sementes. Então o que os faz andar por aqui? A sensação de liberdade?
Hoje, bem cedo, enquanto apanhava tomates na horta, mais uma vez o arrulhar se fez sentir, com os pombos a empreender viagem da figueira para os abetos, indiferentes à restante passarada. Não sei se, com toda a pacatez que por aqui existe, se sentiram incomodados com a minha presença, mas, a ser assim, estes amigos vão ter que aprender a partilhar o espaço. Eles, lá no alto, enquanto se deleitam a triangular, que arrulhem, mas a horta é espaço sagrado para mim. A não ser que gostem de tomates, de couves, ou de outra hortícola qualquer,  que sempre se arranja qualquer coisa, mas não me parece.
Com um sorriso de permeio, fica a conclusão, enquanto se levam os tomates para casa: os pombos que triangulem, à vontade, desde que não façam disto as Bermudas. 😏
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terça-feira, 18 de agosto de 2020

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE OS PARAÍSOS

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Ladeado de montanhas, como que a querer esconder-se das confusões do mundo, o pequeno rio filosofava, tranquilamente, enquanto ia acenando ao casario de xisto, com sardinheiras nas varandas, encimado pela enorme mancha verde dos pinhais. Nas margens, domadas, de há muito, pela força de braços, estimulavam-se hortas, milheirais e árvores de fruto. 
Bem cedo, mal as manhãs se desenhavam, já os ganhões, irmanados ritualmente às suas juntas, irrompiam pelos caminhos para retomar a eterna azáfama. Cientes do seu estatuto, davam ordens aos bois, enquanto lavravam, como se tivessem divisas: 
- Vira aí 'marelo! Ah, coisa linda!
O fumo dos fornos, entretanto, anunciava novas fornadas de pão fresco, de milho ou de centeio. No final, assegurada a fornada, as mulheres ganhavam um ar mais despreocupado e, pegando num naco de toucinho, numas rodelas de chouriça ou numa sardinha, era o que houvesse, embrulhavam as iguarias com a última massa para fazerem umas picas, reservando-as, depois da passagem pelo forno, para presentearem as suas crias como se da coisa mais preciosa se tratasse.
De vez em quando, dando tréguas à pacatez, passava uma cabrada, anunciada pelos chocalhos, com os impropérios do pastor a delimitar espaço a qualquer animal mais rebelde, a cobiçar uma qualquer iguaria da vizinhança.
- Onde é que tu vais, Castanha? Ah, filha da p…!
A meio da tarde, indiferentes à poeira do caminho, cardumes de ganapos rumavam aos locais do rio mais propícios a um mergulho, exibindo, inocentes, a esbelta nudez, enquanto alardeavam proezas natatórias. Por entre as pausas, estendidos ao sol nos grandes lajedos das margens, não resistiam à vaidade, entoando com um tom de cantilena:
- Eu sei um ninho de pintassilgo!
No final do dia, comandada pelo badalo do sino, a pequena aldeia recolhia-se, com cada um, em sua casa, a dar certidão de vida à demais família. Depois da ceia, caso a lua estivesse de feição, vinham para a rua e sentavam-se nos degraus do balcão, dando de caras com a vizinhança. Era então chegada a hora - tal como nas noites invernosas, junto ao lume – de soltar o maravilhoso que havia dentro de cada um, polvilhado de contos, de cenas jocosas, de canções e de lendas. Respeitando as hierarquias, as primeiras palavras pertenciam sempre ao mais velho:
- Era uma vez o Arranca-Pinheiros e o Arrasa-Montanhas. Um dia, estavam eles no meio de um pinhal, resolveram…
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domingo, 16 de agosto de 2020

BICHOS

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AC, Gravura rupestre do Poço do Caldeirão, rio Zêzere

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Esgueirava-se, por entre as giestas, tentando ver e não ser vista. Tinham-lhe dito que, a meio da manhã, passaria por aquelas bandas a Senhora dos Santos Bichos, a fim de esconjurar a maleita, e não queria perder a ocasião de lhe dirigir uma dúzia de palavras, ou pouco mais, a fim de colocar um açaime nos seus medos.
O andor, transportado por quatro acólitos, que precediam o padre, emergiu da curva do Carvalhal Redondo, transmitindo alguma solenidade ao acto. A Russa, ciente da ocasião, ajeitou a saia, passou a mão pelo cabelo e aguardou, ansiosa. Quando o cortejo passou à sua beira, deu um salto para o caminho, prostrou-se  no chão e, baixando a cabeça, inquiriu:
- Senhora dos Santos Bichos, minha santa, é verdade que anda um bicho à solta por aí?
Ninguém respondeu, o cortejo seguiu em frente. A Russa, não se contendo, exclamou:
- Homessa! Mas eu sou algum bicho do mato, ou quê?!
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sábado, 15 de agosto de 2020

PARA LÁ DA TRANSPARÊNCIA

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Margarida Cepêda, Transparente

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Não tinham filtro, como quem respira à flor da pele. Corriam com vontade de abraçar a vida, sorriam com a naturalidade dos dias, transpiravam na azáfama de serem felizes. Sem o saberem, com tudo tão natural, eram mesmo. 

Perante tanta cor, tanto movimento, e com novas configurações a acenarem para lá do horizonte, queriam mais, e mais, e mais. Em suma, queriam crescer. Ainda não sabiam que, quanto mais queriam, mais defesas teriam que criar, vendendo a espontaneidade. Ser adulto, iriam sabê-lo depois, ia muito para lá da transparência dos primeiros dias. Conservá-la, ainda que com novas cambiantes, fazia parte dum novo desafio. Ou tinham força para sustentar a verdadeira essência, sabendo ultrapassar os medos, ou desciam no próximo apeadeiro. Sem dramas, se cada um souber qual o seu lugar. É então que começa a verdadeira luta.

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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

MULTIDÕES E MINORIAS, SAGRADO E INSANO

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AC, Fogo à distância de um fósforo
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Já não se sabe onde começa a história, mas, a determinada altura, perante a histeria geral, fomentada por alguns, toda a gente enveredou pelo refúgio em abrigos seguros, modernas cavernas que nos isolam, não só do "inimigo invisível", mas, acima de tudo, dos outros, ou seja, de nós próprios.
Em nome da segurança, começámos a seguir novas tendências: deixámos de abraçar, quase deixámos de opinar, falta-nos o ar, estamos a deixar de amar. Entretanto, para adensar o caldeirão de impropérios, os pobres estão cada vez mais pobres, os fracos cada vez mais fracos, a liberdade parece ter-se encerrado num quarto escuro. Até os incêndios, cada vez mais florescentes, parecem ajudar à festa.
Como em qualquer intempérie, a irracionalidade é como o azeite misturado na água, vem sempre à superfície: primeiro nós, depois nós, e só depois, muito depois, vêm os outros. Na prática, é o caos. Mas há excepções, claro, há uma minoria que, com fundamento científico e possuidora duma visão global, se satisfaz no bem comum, apesar das sementes da solidariedade tardarem em fazer efeito. Pacientes, aprenderam que construir custa muito, que poderá demorar, nalguns casos, gerações, enquanto que o acto de destruir, por vezes, fica à mera distância dum fósforo. Mas eles, apesar da manada começar a mostrar  sinais de impaciência, continuam a acreditar que a vida, para lá das religiões, é um acto sagrado. E trabalham, na sombra, para encontrar soluções, tentando contrariar, numa visão com fundamento, a besta destruidora que, lentamente, se vai insinuando  no nosso dia-a-dia.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

ROSA

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Margarida Cepêda, No coração da rosa
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Era o tempo dos cardos e das prosas inconsequentes, de viola a tiracolo, sem rumo definido.
Numa manhã orvalhada, parecida com muitas outras manhãs, um raio de sol deu brilho às gotas que escorriam, vagarosamente, das pétalas duma rosa, perdida entre as ervas dum qualquer jardim, como que a acenar com a revelação dos mais delicados segredos, promessa de mil e um encantamentos. Olhei, fascinado, quase não respirando. Ousei aproximar-me. Desviei as ervas, com cuidado, mas não o suficiente: um espinho pintalgou-me um dedo de vermelho, como que a alertar-me para a delicadeza da flor. Mas o perfume, ah, o perfume...! 
Nunca mais deixei de voltar. Entremeadas por ventanias e trovoadas, houve mais manhãs orvalhadas, mais manhãs de magia, sempre com o perfume a manter-se incólume. E eu, cultor de dúvidas, comecei a adquirir uma certeza: tu não eras uma rosa, tu eras a Rosa.
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