quarta-feira, 28 de setembro de 2022

SABERES EM VIAS DE EXTINÇÃO

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No vale, ainda antes de alguém acordar, espalhara-se um nevoeiro que tudo envolvia, que tudo devorava.
Quando despertaram as primeiras almas, e muitas havia que acordavam cedo, já não era possível escapar às garras do intruso. E, quase sem se darem conta, o pequeno-almoço já não sabia ao mesmo: havia algo, quase indefinível, que tolhia o movimento das pupilas gustativas.
Adriana,  imponente nos seus oitenta e muitos anos, rijos e de boa saúde, esgueirou-se por entre veredas, contrariando ideias feitas e maus olhados, e encaminhou os passos, ainda certeiros, para as courelas do Vale da Ponte, propriedade ancestral da família, onde as maçãs bravo esmofo e os figos pingo de mel já deveriam estar no ponto.
Colheu, avaliando a fruta, embalada pelo protesto de alguma passarada que via, de repente, ser-lhe interrompido o banquete, principalmente dos figos. Já a cesta estava cheia, com alguma humidade a escorrer dos frutos, quando se lhe deparou o inusitado: um raio de luz, irrompendo a névoa, parecia fixar-se, por entre as ervas secas, resquício dum verão inclemente, sobre um objecto metálico. Estacou, aproximou-se, olhou com atenção e... era a chave da loja onde costumava guardar o resultado das colheitas.
Não se benzeu, não agradeceu aos céus, não invocou qualquer crença sobrenatural. Limitou-se a sorrir, tranquila, enquanto pensava, de si para si, que a velhice tem as suas manhas, o que era preciso era saber aceitá-las. E continuava a sorrir, olhando de soslaio para a cesta, enquanto irrompia num passo suave, mas cadenciado, pelo pó do caminho, em direcção à sua casa de sempre.
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sábado, 23 de julho de 2022

JOGO DAS ESCONDIDAS - 1

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Margarida Cepêda, Procurando o princípio
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Ela foi ali e não disse, mas quis. A sua mãe, depois de dissertar acerca dos mil e um perigos da vida, deu-lhe um beijo e aconchegou-lhe o lençol.
Ela foi mais além e não disse, mas quis. A sua mãe, em silêncio, nada lhe disse, mas aconchegou-lhe o lençol de forma diferente.
Ela foi para muito longe e, olhando para trás, quase que não queria, mas foi. A sua mãe, qual ocaso da vida, limitou-se a acenar. 
A sua mãe partiu, mas não queria. E ela, sem certezas na vida, passou a mão pelo lençol que ela lhe tinha colocado na mochila. E, talvez tarde de mais, deixou que as barreiras do dique se soltassem e chorou, abundantemente, irrigando o caminho que ela, qual mortal errante, continuava a não descortinar. Mas, rompendo as margens, qual herança de pedra sem musgo, ousou continuar.
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domingo, 17 de julho de 2022

RENASCER

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Elvira Carvalho é uma blogueira muito conhecida, que espalha gentileza, boas maneiras e, contrariando as várias maleitas que a têm afectado, uma vontade enorme de viver. 
Há dias fez-me chegar às mãos o seu terceiro livro, Renascer de seu nome, em edição bilingue, pois nuestros hermanos estão mesmo aqui ao lado, e fazia-me um pedido: que lhe transmitisse a minha opinião. Pois bem, ela aqui fica.
A Elvira tem um forma muito peculiar de escrever. As vírgulas, por vezes, gostam de jogar às escondidas, trocando de lugar com um sorriso, mas quem a lê entra no jogo facilmente, tal a torrente de situações que lhe brotam da pele. E é ver, e sentir, a cruzada dos seus protagonistas, enfrentando o mau humor do destino com muita resiliência, sempre na boa fé de que a verdade é como o azeite.
Neste romance a autora descreve as emoções de Carlos, refém dum conceito de honra que ele cultiva como poucos, após um ferimento na guerra colonial que lhe subtraiu a memória. O enredo desenrola-se como se de um filme se tratasse, com vários locais de "filmagem" - Angola, Lisboa e Peso da Régua - a dar cor e substância à obra, recheada de incertezas, com a emoção e as incertezas do amor sempre presentes.
Renascer, tal como todas as obras da Elvira, lê-se num ápice e de forma muito agradável. No final, no meio de um suspiro, fica a sensação, que transpira das palavras, de que a autora, já tendo passado por muito, tem uma vontade enorme de participar no equilíbrio colectivo, devidamente alicerçada num mundo mais justo, com valores não hipotecáveis.
Parabéns, Elvira!
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sábado, 25 de junho de 2022

ENTRETANTO

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Margarida Cepêda, As nossas teias
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Há um tempo de frenesim na vida, no nosso crescimento, como se as coisas nos escapassem por entre os dedos, fugindo à vontade de mudar o mundo a nosso jeito. Mas, plenos de energia, continuamos.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo duma suposta estabilidade na vida, em que, a pretexto de salvaguardarmos os nossos, começamos a ser condescendentes. Mas os bens materiais são o perfeito antídoto para anestesiar a consciência.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas, com alguma ajuda, apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo em que, por mais que nos custe, começamos a envelhecer. Mas socorremo-nos de todos os artifícios para adiar o inevitável.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas continuam a lutar, com alguma ajuda, para sobreviver.
Há um tempo em que, por fim, nada mais há para adiar. E só nessa altura, sem nada para subornar a ceifeira, temos a plena consciência da nossa condição.
Entretanto, noutras latitudes, há muito que os contemporâneos  de nascimento foram tragados pelo inevitável. Mas, felizmente, com maior ou menor ajuda, os que restam continuam a lutar para sobreviver.
Haverá um tempo em que, para lá do tempo que foi, apenas restará a lição. Só então, por mais que doa, se evitará a contra-mão.
Entretanto...
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domingo, 19 de junho de 2022

ABISMOS E LABIRINTOS, CANDEIAS (ETERNAMENTE?) ÀS AVESSAS

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Margarida Cepêda, Tocando para o abismo
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Os tempos eram de ameaça, apesar dos dirigentes se esforçarem por vender a canção "Tudo vai bem". O mal vinha de longe, sem aparente cura, e Ruican, que vivia numa solidão assumida, própria de quem via as coisas antes do tempo, mantinha-se inflexível. Havia que dar volta às coisas, combater o fatalismo, de inaugurar uma época para lá da escravidão de todos pensarem o mesmo...
Bruma, que crescera perto de Ruican, sabia muito bem o que ele pretendia. Mas, apesar de limitada à distância que lhe era concedida, conseguia perceber que, por mais que ele tentasse, haveria sempre uma barreira entre ele e os outros. Por mais que ele porfiasse, as pessoas iriam sempre agarrar-se àquilo que sempre tiveram, em detrimento daquilo que a maioria nunca teve.
Ruican gostava de Bruma, para lá duma visão maior, pois sabia que nela habitava o segredo da simplicidade. Mas pensava, para sua desgraça, que havia uma questão superlativa a descobrir.
Bruma gostava de Ruican, por ele mesmo, contra todas as expectativas dos outros. E, sem que ele soubesse, ia todos os dias, à tardinha, remar contra a maré das coisas fáceis: abeirava-se do penhasco, munida do seu violino e, perante a fúria dos elementos, tentava tocar a profundidade das coisas mais simples, qual segredo para chegar a Ruican. Mas este, demasiado entregue ao seu ego, tardava em perceber...
O abismo, sem que Ruican se apercebesse, demasiado entregue à sua visão, começava a desenhar-se à sua frente.
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sábado, 11 de junho de 2022

PARA ALÉM DO TEJO, COM BORBA COMO PRETEXTO

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AC, Fachada do antigo Hospital do Espírito Santo, em Borba
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Por entre uma história de corrupios e arrepios, desavenças e avenças, com muita insegurança de permeio, assim se cultivou um povo sobrevivente, de parcas e tímidas posses, mas que soube encontrar, na sua resiliência, a forma de escapar a um trágico destino. Muitos emigraram, povoando os dormitórios da capital, outros ficaram, cultivando um lamento muito próprio, em tom dolente, mas sempre com um sorriso muito próprio à espreita de assomar na primeira oportunidade. E, quando se conseguem libertar da canga, bebem, cantam, confraternizam, ironizam...
Em Borba, para lá das pedreiras e do vinho, a sua maior riqueza, há todo um manancial de culturas entre-cruzadas de conquistadores e conquistados, de sobreviventes e assimilados. E, por entre as fachadas de mármore, material só acessível a quem estava de bem com Deus e o Diabo, o casario  humilde, sem pretensões, acabava por agradar a todos: a uns, porque dispunham de mão-de-obra barata e sempre disponível; a outros porque, apesar de tudo, acabavam por usfruir dum tecto para abrigar os seus. Tudo isto à sombra dum castelo, obrigatório em terras tão inseguras, e do qual já pouco resta.
Entre diferenças - sempre presentes, tal era o abismo - o engenho acabou por moldar a arte.  A escassez da maioria, herança acumulada de séculos, deu azo a criatividades várias, com o campo, fora da supervisão dos poderosos, a contribuir com coentros, orégãos, poejos, hortelã, alecrim, louro e outros que tais, dando forma, consistência e sabor, a um considerável número de pratos tradicionais que muito orgulham os residentes, apesar de pouco, ou nada, se passar da cepa torta: ontem para comer, sobrevivendo, hoje para vender, continuando a sentir, no âmago, ainda e sempre, o sentido do verbo sobreviver.
O Alentejo, por mais voltas e contra-voltas que dê, nunca deixa de me encantar. As suas gentes, moldadas na herança de mil e um povos que calcorrearam o território, com um toque q.b. das planícies solarengas, com um olhar sempre projectado, inconscientemente, no horizonte, são uma espécie única. Para melhor.
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terça-feira, 31 de maio de 2022

O ETERNO (D)ESCAMAR

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AC, Pedreira de mármore em Borba, Alentejo
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Alentejo sonante, aparentemente adormecido, Alentejo cantante, com mil e um ais de herança. Para lá da diáspora, o território continua a reinventar-se, a sobreviver, como que a querer dizer aos demais que por ali há gente de alma nobre, afeiçoada à terra, onde se misturam, qual receita milenar dum equilíbrio identitário, a humildade, a simplicidade e o orgulho de se ser, conjugando, numa forma única de saber estar, as suas raízes profundas com a abertura, sem concessões, das janelas para o mundo. E, podem crer, para lá dos horizontes abertos, essa é a sua maior riqueza. 
Tínhamos passado o sábado em Estremoz, que nos acolheu de forma surpreendente. Se, por um lado, já estávamos à espera de nos maravilharmos com os bonecos de Estremoz, agraciados pela UNESCO como património da Humanidade, o Museu do Azulejo, que desconhecíamos - no género, é o maior da Europa, talvez do mundo - foi uma daquelas surpresas que, pelo inesperado, suscitou mais exclamações. Uau!, da forma mais espontânea, foi a mais sentida. E, por entre maravilhas e encantamentos, acabámos a sessão a comer uma belíssima sopa de cação, que rima e com muita razão (de ser).
Pernoitámos em Vila Viçosa, que continua, orgulhosamente, a recordar Florbela Espanca e, após alguns acordes tocados à monumentalidade histórica, sem araganças mas com muitos Braganças de permeio, fomos visitar uma pedreira de mármore, cartaz obrigatório desta região.
Eu dizia, a cada camada, tu dizias, deslumbrada... E, por mais que se olhasse, e sentisse, ficava sempre a sensação duma explicação incompleta. Tal como se falássemos da vida. Fotografe-se, pois, antes que a veia nos escape.
A tarde passou-se na nóvel cidade de Borba, com o mármore - tal como em Estremoz e em Vila Viçosa - sempre presente, ou não fosse esta a Rota do Ouro Branco. Como cartaz, numa arquitectura apaziguadora, bem integrada, lá estão os palácios, o castelo, os fontanários, as igrejas, o casario medieval... E sempre, mas sempre, com uma forma muita própria de estar dos residentes, qual reserva natural duma genuína identidade talhada pelos tempos.
No final, a convicção: há que voltar, mas desta vez com mais vagar. O sentir, o cantar e a forma de estar desta região bem o merecem. Talvez, quiçá, saibamos mergulhar ainda mais profundamente na alma desta gente.
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sexta-feira, 6 de maio de 2022

PONTES, BALOIÇANTES, ENTRE O VELHO E O NOVO

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AC, Ruínas do castelo de Castelo Novo
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Caminha-se pelas graníticas ruas de Castelo Novo, quase sem vivalma, com marcas evidentes dum passado já longínquo. Ainda assomam esboços de personagens por entre as rochas, à socapa, como que a querer-nos contar a história a seu modo, mas só os mais observadores reparam nelas. O passado entristece pelo desprezo, como que a augurar que, assim, o futuro não será nada risonho.
Nalguns quintais, em casas mais desafogadas, as laranjeiras e os limoeiros continuam a manter o porte digno. Mas também nalguns becos, com pequenas casas bem aconchegadas, se conseguem vislumbrar as vivências doutras eras. Incertas, pela certa, temperadas por uma religião, sob a égide da Ordem de Cristo, herdeira dos Templários, que apostava, acima de tudo, no simbolismo. Como dizia uma certa fadista, cantarei até que a voz me doa. Por mais que sofrida.
Em toda a área circundante da pequena aldeia - já foi concelho, note-se, daí ser obrigatório, para qualquer visitante, espreitar o Pelourinho e a antiga Casa da Câmara, ainda bem conservados - se sente o abraço aconchegante da Gardunha. As encostas já foram riqueza florestal, é verdade, mas o amarelo das giestas, nesta altura do ano, a substituir o negro dos incêndios, adorna os afloramentos graníticos duma beleza singela, combinando a rudeza da rocha com a delicadeza da flor.
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AC, Encosta da Gardunha sobranceira a Castelo Novo
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No castelo roqueiro, ou no que sobra dele, a visão panorâmica amplia-se. E por ali ficamos, contemplando, deixando aflorar uma mescla de informações que nos foram tatuando ao longo do tempo, embalados no cantar da água das duas ribeiras que circundam a povoação: a Ribeira de Gualdim (referência ao Mestre Templário Gualdim Pais, pela certa) e a Ribeira de Alpreade, onde ainda se podem observar as ruínas de várias azenhas que marcavam o quotidiano doutros tempos. E é neste enquadramento, com o tempo parado, que se recorda o essencial do foral concedido pelo rei, com as antigas lendas a ganharem alforria, dando vida a cada esquina, enquanto se vislumbram algumas casas senhoriais, amplas e desafogadas, contrastando com a necessidade do esforço hercúleo dos braços da populaça para garantirem o sustento, mais de uns do que de outros.
O sol começa a inclinar, tal como o tempo, convidando a uma visita diferente, entre quatro paredes, a fim de restaurar o corpo e a alma. E assim, ainda embalados por histórias de outros tempos, com um leve aroma de Belisandra no ar, se manipulou faca e garfo, com um sorriso de satisfação sempre presente. Estômagos refeitos e mentes claras, bem o sabemos, ajudam sempre a mitigar o caminho.
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sábado, 30 de abril de 2022

BARCAÇA DO BEM SER, EMBARCAÇÃO DO BEM ESTAR

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AC, Flor de macieira
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Em finais de Abril, princípios de Maio, eu já sabia que os deuses conjuravam. Pressentias o verde novo, os pássaros, as flores e a luz, vestias uma leve blusa de algodão, colocavas um chapéu de aba larga e vinhas cá para fora, como que a querer aspirar a vida que nos envolvia.
Depois, já impregnada de múltiplos sons e odores, não resistias. Abraçavas-me longamente, como que a querer transferir para mim tudo o que sentias, e encaminhavas-me para as cadeiras, com vista privilegiada para a encosta da serra, onde as cerejeiras se despediam das últimas flores. Já sentados, com o rosmaninho por perto, nada dizias, mas davas-me a mão como se sentisses, e soubesses, que partilhávamos toda a sabedoria da simplicidade das coisas. 
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sexta-feira, 29 de abril de 2022

PEQUEN(ÍSSIM)A

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Gostava de escrever mas, de há uns tempos para cá, começava a cansar-se de tal exercício, nem sabia bem porquê.
Pensou nos seus leitores, ainda que poucos e, por um momento, tentou escrever meia dúzia de frases. Mas faltava a alavanca, a convicção de dizer algo, no seu íntimo, que valesse a pena ser lido. Seria que estava a desacreditar da vida?
Continuou a tentar, mas a coisa não fluía. E, naturalmente, foi protelando.
Um dia, quase por acaso, num passeio de ocasião, descobriu que as silvas estavam a invadir o recanto mais afastado do terreno. Podiam estar ainda longe, mas sabia que, se não as olhasse olhos nos olhos, em breve elas tomariam de assalto tudo o resto. Então, convicto, e apetrechado dos utensílios necessários, como se nada mais interessasse, deitou mãos à obra.
No final, a olhar para o trabalho feito, com algum suor, e quase sem se dar conta, a passarada voltou a cantar.
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sábado, 9 de abril de 2022

ASCENSÃO

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Margarida Cepêda, Ascensão II

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Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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Olhou para cima, remirou, calculou perspectivas de ângulos e saliências e, satisfeito, fez uma última inspecção à mochila.
Começou a trepar o pequeno monte, galgando metros, enquanto contornava, com algum deleite, pedregulhos e arbustos. As giestas começavam a florir - são afrodisíacas, segredara-lhe alguém, num dia de maior intimidade - a passarada, de tão efusiva, parecia tecer louvores à vida, o corpo parecia enquadrado na empreitada. Ora vamos lá.
Continuou a subir, num misto de maravilha e determinação, sempre em crescendo, como se tudo se tornasse mais simples à medida que irrompia no templo natural. E o vislumbre, a meia encosta, duma gruta dissimulada pelos arbustos, longe de intimidar, apenas acentuou a vontade de comungar com os elementos, de dar configuração aos pequenos sinais, de se tentar integrar num todo.
Após observação cuidada, em sintonia com a linguagem do local, focou-se nalguns pormenores: no lado esquerdo cresciam três rosadas dedaleiras, qual convite agridoce, a deslumbrar, em simultâneo, os sentidos, mas com um travão bem afinado quanto à sua toxicidade; ao centro, mesmo junto da entrada, fezes dum qualquer animal (raposa? javali? coelho?) faziam antever que a gruta seria habitada; no lado direito, duma forma singela, cresciam, a custo, meia dúzia de estevas, em plena floração, atraindo algumas abelhas. Apesar de saber que os javalis não gostam de frequentar altitudes, resolveu não entrar na gruta. Estava ali de visita, o mais discreta possível, e tentar não interferir com o equilíbrio do meio era condição obrigatória. E lá foi, decidido, continuando a ascensão. 
A dada altura a inclinação suavizou, dando azo a um curto promontório onde, num recanto mais abrigado dos ventos, sobrevivia uma capela medieval que, quase miraculosamente, continuava a ostentar um relógio de sol numa das paredes. Fez uma curta pausa para apreciar a preciosidade, enquanto retirava da mochila a garrafa de água para um gole retemperador. Depois, sem pressa, prosseguiu no seu rumo.
Quando o cume, de tão próximo, já começava a estender a passadeira para o receber, sempre por entre fraguedos, um canto peculiar chamou-lhe a atenção. Era um melro-azul, muito raro naquela altitude, mas que fazia questão, era grato pensar, de lhe dar as boas vindas. E, embalado pelo canto da ave, lá encetou as últimas centenas de metros do percurso, onde o aguardava uma visão panorâmica que esgotava todos os graus da convenção matemática. Agora, lá no alto, era só ele e o universo.
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quinta-feira, 31 de março de 2022

POR MORRER UMA DOURADA, NÃO ACABA A ANDORINHA

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Pegou no saco de carvão vegetal e, com os devidos cuidados, abasteceu o grelhador. Aplainou o nível da negra substância, colocou a grelha  cerca de 30 cm acima do carvão e colocou os pedaços maiores do carburante por cima da grelha. Depois, socorrendo-se da lenha miúda que fora acumulando no outono anterior, dispôs os gravetos por cima do carvão. Acendeu duas pinhas, colocou-as em locais estratégicos no meio da lenha e aguardou que a combustão se desenvolvesse, qual desígnio com fim bem controlado.
Saciado o apetite voraz do lume, com desenhos incandescentes, sempre em fase crescente, a querer dar mostras de gente crescida, às tantas, com o carvão na parte superior da grelha já a crepitar, era hora de envolver a camada superior com a inferior, qual rasgo de homogeneidade, não fosse o diabo tecê-las. E assim se misturou o carvão elevado na superfície da grelha com a arraia miúda do purgatório, qual inferno sem Dante. Mas, dou-me conta, há quem cante, nem que seja eu, com muitos sorrisos de permeio.
Com o lume estabilizado, era hora de colocar as douradas (da Madeira, dizia o folheto) na grelha. E o grelhado, com a bênção de cinco paredes, ficou mesmo a preceito, com o manuseador a usufruir da bênção da ausência da sexta parede.
Quando levou as douradas para a mesa, com o azeite e o vinho da região já a postos, do fogão tinham acabado de sair alguns legumes cozidos a preceito, não fosse a ocasião arrefecer. Tudo a combinar, tudo em harmonia, tudo em prol da compreensão e do usufruto da vida.
Através da vidraça, enquanto se degustava, viam-se duas andorinhas pousadas no estendal da roupa, muito compenetradas, pondo a conversa em dia. Não falavam das douradas, tenho a certeza. O desdém pelo meu contentamento era compreensível, elas tinham muita roupa para lavar. :)
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terça-feira, 15 de março de 2022

A HORA DOS PEQUENOS MILAGRES

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AC
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Às vezes, quando os deuses se recostavam, enfastiados, cansados dos seus jogos de ciúmes e de guerra, ela esgueirava-se por entre os salgueiros do ribeiro e subia a encosta do pequeno promontório, onde a copa das grandes árvores envolvia a casa sedenta de vida.
Trazia com ela, não um regaço de abundantes rosas, mas um brilho no olhar pleno de promessas e anseios, com cheiro a trigo maduro. Era então que aconteciam os pequenos milagres.
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sábado, 5 de março de 2022

QUANDO OS DIABOS SE SOLTAM

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Hieronymus Bosch, Extracção da pedra da loucura
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Sentou-se em frente da prancha e, pacientemente, esperou que as nuvens que transportava se tornassem gotículas. E elas, paulatinamente, iniciaram o seu bailado, contrariando a gravidade, subindo e descendo, por vezes planando. Havia que agarrar a onda.
Começou a desenhar, freneticamente, o que lhe assomava da alma, qual tempestade cerebral com emergência de emergir. Procurava acudir a todos os focos, a todos os assomos, mas era humanamente impossível. E acabou por ficar um respingo duma ideia aqui, um rabisco duma ideia ali, com muito em branco por preencher. Resolveu adiar.
No dia seguinte voltou a tentar, mas o fundo em branco persistia, dando asas ao desalento. Foi então que, pela janela entreaberta, uma abelha se fez anunciar, esvoaçando pela sala, aparentemente sem rumo. Sobrevoou a prancha, poisou no cortinado e, por fim, após algum atabalhoamento, lá se esgueirou para o exterior, saindo por onde entrara. Num gesto repentino, sentindo a ideia no ar, pegou no lápis, pronto para mais um discorrer com ele próprio. Mas, de súbito, rompendo o código estabelecido, a Inês invade a sala, com ar apreensivo, balbuciando um porra entre dentes:
- Zé! A Rússia invadiu a terra da Yaryna!
Foi-se o esboço da inspiração. E ambos, ainda atordoados pela perplexidade, sentiram uma nova onda a surgir, plena de diabos. O Zé rebuscou, à pressa, qualquer tipo de comparação, e mergulhou nas ondas forjadas pelo canhão da Nazaré, aqui mesmo à mão. Mas estas, pela sua insignificância, nem sequer figuravam no mapa das coisas importantes. A nova onda seria indomável?
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terça-feira, 1 de março de 2022

ELA

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Margarida Cepêda, Tudo em nós é o ponto em que estamos
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Ela disse que sim, ele não.
Ela quis cavalgar as nuvens, ele não.
Ela comprou um bilhete de ida, ele não.
Ela ousou, lutou e descobriu, ele não.
Ela riu e chorou, ele ficou a ver.
Ela viveu, ele continua a tentar dar-lhe vida.
Ela permanece, ele não.
Ela sorri, ele (na sombra, olhando para ela) também.
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domingo, 27 de fevereiro de 2022

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Para além do acentuar do poderio do sol, dono e senhor destas e doutras latitudes, com mudanças, para os mais incrédulos, em entrega personalizada, tudo parecia igual: os pardais comportavam-se como donos e senhores do território, debicando onde mais lhes aprouvesse,  as borboletas continuavam a esvoaçar sobre tudo o que encaixasse na sua química, o sino continuava a repicar às mesmas horas. Tudo parecia, enfim, no seu lugar. Contudo, algo não fazia sentido.
Lá longe, mas suficientemente perto, um louco - não dos bons, que também os há - lembrou-se de colocar em causa o equilíbrio, já precário, do planeta. E, de repente, as sirenes tocaram, as mães abraçaram os filhos com uma intensidade de quem adivinha a desgraça, os varões, embora com parcos meios, vestiram a farda da luta como se fosse a derradeira causa. Resistir é preciso, acreditam eles.
Perante a resistência, em plano ascendente, o louco persiste, obcecado, como se a sua visão fosse única. E é aí que reside o verdadeiro perigo. É que, e estamos fartos e cansados de saber, uma fera acossada é capaz das maiores dissonâncias, seja qual for o preço. Para ela, se perder, quem cá ficar que o pague.
Vivemos tempos conturbados, é verdade, daí a necessidade, cada vez mais imperiosa, do cultivo de valores como a paz, a tolerância, a esperança... E, já que a minha geração não conseguiu resolver o problema - infelizmente agravou-o, na ânsia de ter, atirando para trás das costas os sinais comprometedores - acredito, cada vez mais, em acções para que a geração dos meus filhos, já, e do meu neto, amanhã, consigam vislumbrar, na prática, os passos certos para alcançar um verdadeiro equilíbrio. Com a premência de que o futuro não é amanhã, é já hoje.
Quanto à avestruz, se sobreviver, quando tirar a cabeça da areia que apague a luz, porque tudo o que ficar não vale um pingo de alívio.
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

SINAIS DE BEM FAZER, SINAIS DE BEM HAVER

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Margarida Cepêda, Frescura
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Tem pouco mais de ano e meio. É vivaço, meigo e perspicaz e, às vezes, atendendo à forma como interage com os outros, parece ter mais idade. Dispenso-me de mais pormenores, pois é meu neto, e tudo o que disser parecerá sempre exagerado.
Ontem, na creche que frequenta, o Miguel foi ter com a educadora, ocupada em dar vazão às necessidades doutra criança. Concluída a tarefa, e perante os sinais inequívocos do solicitador, foi conduzida, de forma determinada, para a estante dos brinquedos. Aparentando saber bem ao que ia, o Miguel retirou um carrinho e encaminhou-se, sem hesitações, para determinado ponto da sala, fora dos holofotes da acção, onde uma criança se mantinha em posição apática, pois revela dificuldades de locomoção. Aí chegado, e sempre sob o olhar atento da educadora, deu o brinquedo ao colega e, não satisfeito, deu-lhe um beijinho na testa.
A educadora, incrédula e comovida, não se conteve e correu para abraçar o Miguel.
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domingo, 23 de janeiro de 2022

ÀS VEZES

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AC
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Às vezes um gato não mia. Mas caminha.
Às vezes uma ave não chilreia. Mas voa.
Às vezes o planeta parece desfocado. Mas roda.
Às vezes uma estrela não se vê. Mas está lá.
Às vezes temos que nos isolar. Mas existimos.
Às vezes falta-nos a mão. Mas sobrevivemos.
Às vezes apetece-nos chorar. Mas cantamos.
Às vezes apetece-nos abraçar. Mas imaginamos.
Às vezes, para contrariar as nuvens negras, apetece-nos oferecer flores. E, confiantes na sua magia, enviamos uma foto do pôr-do-sol.
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Uma pessoa que me é muito cara não conseguiu iludir a teia do coronavírus. Este texto é para ela.
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

INSTANTÂNEO DE SOLTAS PONTAS

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Fotografias de AC
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O dia escoava-se, medido em ínfimas centelhas de luz, como se algo de importante estivesse a acontecer. Fosse pelas cores, pela geometria, pelos sinais ou insinuações, parecia urgente resgatar o momento para o poder perpetuar, a nosso bel-prazer, a fim de dissecá-lo, fruí-lo, ensaiar novas formas de arte, de filosofia. Mas sentia-se, quase ao de leve, que havia algo, em simultâneo, que nos escorria, nos ultrapassava, que ia para lá do olhar, que devassava a própria alma. 
Por mais que nos doa, é impossível domar o tempo. E por ali fiquei, na humildade da minha condição, mas grato pelo cenário do escoar do tempo, de sentir algo a acontecer. Seja lá o que for.
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sábado, 1 de janeiro de 2022

ACERCA DO RENOVAR DA ESPERANÇA

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Margarida Cepêda, Esperança
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Eu subi para ver que, de uma fonte, se pode formar um rio.
Eu desci para ver que, no ultrapassar dos obstáculos do rio, o anseio era abraçar o mar. 
Enquanto subia e descia, vi muita gente a arrebanhar, no lusco-fusco ou às claras, mas outros tantos a abraçar, nas ruas e becos onde, aparentemente, nada havia para lucrar.
Que dizer, depois de tanto caminhar?
Não importa o que os outros pensam, ou façam, o que conta é fazer e acreditar. Em mim, em ti, nos outros, num mundo (ainda) por descobrir. E sorrir, sorrir sempre, mesmo que nas entrelinhas se chore, seja qual for o porvir.
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Que 2022 seja o esboço duma esperança sem limites, pois só assim ela faz sentido. 
Um grande abraço para todos aqueles que, de alguma forma, vão acarinhando este cantinho, que se pretende pleno de interioridades. O meu eterno bem-haja.
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