sábado, 21 de abril de 2018

TELA INCOMPLETA

.
AC, Flor de cerejeira
.
.
Todos os anos era assim. Descia o carreiro que levava ao cerejal e, no alvo manto, procurava a tua silhueta. Era o tempo em que te desenhava, esgueirando-me por entre o festim das abelhas, qual tela em que todas as pinceladas procuravam um rosto, continuamente reinventado, jorrando traços que transbordavam a encosta.
Agora, em demanda da harmonia, o pó do caminho segreda-me que ela é feita na filtragem de muitos rostos, de muitos gestos, de muitas vontades. E eu tendo a concordar. Mas hoje, ao descer o carreiro, dei por mim a reinventar-te, como se a tela permanecesse, eternamente, incompleta.
A reinvenção é tarefa perpétua, carente de ser continuamente alimentada. Ainda temos muito que caminhar, meu amor.
.
.

sábado, 14 de abril de 2018

MENINA AIROSA, TEIMOSA, POR QUE TARDA EM TE BEIJAR A ROSA?

.
AC, Locomotiva do Comboio Real
.
.
Sempre foste menina airosa, senhora das tuas convicções, sempre foste de antes quebrar que torcer. Mas, sem te aperceberes, foste criando uma muralha nos outros, nos resignados, nos que tudo vêem em função do seu quintal. O teu voo, feito em jeito de “o rei vai nu”, inquieta a sua segurança, construída em areias movediças, despoletando a reacção mais básica: a intolerância. 
Nem sempre sabes por onde deves ir, mas tentas. A dignidade está em tentares. A incompreensão, no entanto, vai fazendo mossa, e quedas-te, por vezes, no recolhimento, incrédula por sentires que não há aplausos, dorida por sentires que, no silêncio que se faz, impera a terra queimada. 
Ouve, menina airosa. O ser humano é pleno de imperfeições, mas não gosta que lhe o digam de supetão. A sua imperfeição, para ser assumida, carece de ser regada de adjectivos aconchegantes, de palavras que o façam dormir, tranquilamente. 
Mas tu tens pressa, nunca gostaste de rodeios, sabes que há um mundo por desbravar, por entender. E, apesar de dorida, continuas a tentar derrubar o muro, muitas vezes não sabendo que, quanto mais tentas, mais pedras o muro vai acumulando. 
No final, menina airosa, qual mea culpa, vão-te abençoar. Deixaste um legado, pois deixaste, mas, na tua ausência, eles já sabem com o que contam. E dão-te, por fim, uma rosa.
.
.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

GRAAL

.
AC, Ribeira
.
.
Para onde vais, fio de água, sem vontade de parar? 
Vou em prol do meu desígnio, tenho pressa em chegar. 
E que ganhas tu, fio de água, com tanto calcorrear? 
No reflexo do meu esforço, todos temos a ganhar. 
Que mais desejas, fio de água, para conseguir serenar? 
Soubessem todos, como eu, ocupar o seu lugar.
.
.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

CICLOS

.
Fotografia de AC
.
.
Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas, como se tudo o que de mau acontecesse fosse questão intrínseca. Éramos encorajados a bater no peito, mea culpa, concentrando energias em elevado torpor, na esperança dum qualquer milagre à imagem de santas vidas. Éramos encorajados à redenção, deixando para segundo plano as injustiças do mundo. 
As amarras, contudo, apesar da severidade dos guardas, eram ténues perante o apelo natural do que se respirava lá fora. 
Um espreitar, um ousar, um pular. No início, qual vestir de pele dum recém-nascido, o impacto era violento, abissal: tudo fugia às regras, no comer e no rir, tudo parecia áspera terra, longe das linhas delineadas num qualquer gabinete avesso à luz. Depois, retiradas as névoas confessionais, o que nos rodeava - as pedras, as ervas, os rios, os pássaros, a água, as estrelas… - parecia ter uma linguagem própria, irmanada numa linguagem maior, muito maior, plena de harmonia. Tudo parecia saber, sem alardes, o seu exacto lugar. Insinuava-se uma outra configuração, apelava-se a um entendimento em que cada ser tentava construir a sua própria tela, contributo individual para uma interpretação maior. 
Mas nem todos. A maioria, escancarando as portas ao medo, tendia a estabelecer limites por tudo e por nada, impregnando a vida de rituais. Era a sua forma de se defenderem do que não entendiam. Nunca tinham saído do cativeiro, era nele que dormiam bem. E assim criaram a normalidade, plena de intolerâncias…
.
Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas, como se tudo o que de mau acontecesse fosse questão intrínseca. Éramos encorajados a bater no peito, mea culpa, concentrando energias em elevado torpor, na esperança dum qualquer milagre à imagem de santas vidas. Éramos encorajados à redenção, deixando para segundo plano as injustiças do mundo. 
As amarras, contudo, apesar da severidade dos guardas, eram ténues perante o apelo natural do que se respirava lá fora. 
Um espreitar, um ousar, um pular. No início, qual vestir de pele dum recém-nascido, o impacto era violento, abissal: tudo fugia às regras, no comer e no rir, tudo parecia áspera terra, longe das linhas delineadas num qualquer gabinete avesso à luz. Depois, retiradas as névoas confessionais, o que nos rodeava - as pedras, as ervas, os rios, os pássaros, a água, as estrelas… - parecia ter uma linguagem própria, irmanada numa linguagem maior, muito maior, plena de harmonia. Tudo parecia saber, sem alardes, o seu exacto lugar. Insinuava-se uma outra configuração, apelava-se a um entendimento em que cada ser tentava construir a sua própria tela, contributo individual para uma interpretação maior. 
Mas nem todos. A maioria, escancarando as portas ao medo, tendia a estabelecer limites por tudo e por nada, impregnando a vida de rituais. Era a sua forma de se defenderem do que não entendiam. Nunca tinham saído do cativeiro, era nele que dormiam bem. E assim criaram a normalidade, plena de intolerâncias…
.
Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas...
.
.