sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

HISTÓRIA DE NATAL

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A década de sessenta iniciara-se há pouco.
Na aldeia, inclinada à inclemência dos gelos da Estrela, não se poupava na lenha. Em casa do Luís Pereira o lume crepitava desde muito cedo, inundando a cozinha com um calor só visto nas grandes azáfamas.
Da horta, logo de manhã, tinham chegado as mais lindas e apetecíveis couves, que iriam fazer companhia, na Consoada, ao bacalhau já demolhado, comprado na mercearia da menina Amélia. Mas havia ainda muito que fazer: só de doces ainda faltavam as filhós, que seriam fritas a meio da tarde, as rabanadas, o arroz doce...
O João, seis anitos de gente, cirandava pela casa tentando não perder pitada de todo aquele movimento, que só se via naquela altura do ano. Enquanto a mãe e as irmãs davam voltas à massa para as filhós, o pequeno não arredava pé, como se toda aquela lida desse asas ao encantamento com que vivia a época.
- Oh João, vai brincar lá para fora!
É o vais! O João empolgava-se a respirar todos aqueles preparativos para "a noite mais longa do ano", como dizia o pai, e só quando era preciso reforçar o lume é que ele condescendia em ir ao quintal para trazer mais uns cavacos. Era preciso aquecer bem a casa para receber o Menino Jesus!
Durante a fritura das filhós, toda a casa se via envolvida em cantos. Enquanto lhes davam forma e as colocavam no azeite quente, as mulheres da casa cantavam em louvor do Menino:
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........Ó meu Menino Jesus
........Ó meu menino tão belo
........Só Vós pudestes nascer
........Na noite do caramelo.
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À Consoada, após a oração dirigida pelo chefe da casa, as atenções centraram-se no bacalhau e nas couves que, a pouco e pouco, iam desaparecendo de duas grandes travessas. Aos dois filhos mais velhos, já homens feitos, foi-lhes permitido acompanhar o pai e o avô num copo de vinho, que a ocasião era de festa. A noite ia decorrendo, animada, como seria de esperar numa mesa com dez pessoas irmanadas pelos mesmos sentimentos. As filhós e as rabanadas iam temperando a conversa, que alternava aqui e ali com as canções que as mulheres tentavam impor e a que todos aderiam...
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........Da vara nasceu a vara
........Da vara nasceu a flor
........Da flor nasceu Maria
........De Maria o Redentor.
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Ainda a mesa da Consoada não estava apanhada e já o João, afoito, corria para a cozinha, na ânsia de colocar os sapatos para a prenda do Menino Jesus. Ainda esboçou um gesto para levar também as botas feitas no Zé Brás, o sapateiro da terra, para ver se o leque das prendas aumentava, mas os olhos da mãe disseram-lhe que não valia a pena. Pouco depois recebeu ordem para ir para a cama, enquanto os mais velhos, com outro estatuto, saíam para a missa do Galo, a que se seguiria uma ida ao madeiro, que combatia o ar gelado da noite no adro da igreja.
No dia de Natal, bem cedinho, ainda antes do galo cantar, o João foi o primeiro a levantar-se. Com o coração aos pulos, correu para a cozinha e galgou a distância em dois tempos. Pegou no embrulho que estava junto dos seus sapatos, atado com um grosseiro cordel, e desembrulhou-o logo ali. Então, deslumbrado, pegou na camisola e nas calças novas e levou-as, instintivamente, ao seu corpito de menino. Que bem que lhe ficariam na missa de Natal!
A manhã custou a passar, pois nunca mais chegava a hora de vestir a roupa nova. Ansiava pelo momento de subir a igreja, de peito inchado, exibindo a roupa para os amigos. Quando, finalmente, chegou a autorização da mãe, ele e os irmãos partiram para a igreja, onde os aguardava o encantamento das enormes figuras do presépio que o padre Nicolau tinha mandado vir do Porto.
Enquanto faziam o caminho o João continha-se para não correr. Queria chegar à igreja o mais rapidamente possível para ver o presépio, mas com a roupa direitinha. Contudo, os cânticos que se ouviam ao longe ainda acirravam mais a vontade de chegar depressa. Os irmãos, que lhe notavam a ansiedade, sorriam uns para os outros. Apesar das partidas que ele lhes pregava, gostavam muito da vivacidade do irmão mais novo, e sabiam o que ele estava a sofrer para dominar a sua vontade. Às tantas, já com a igreja à vista, o pequeno não se conteve mais e começou a correr. Os irmãos ainda tentaram segurá-lo, mas quem o conseguiu foi uma pedra solta no meio do caminho, que o fez estatelar no meio do chão.
Teve que voltar para trás e, quando chegou a casa, ainda não parara de soluçar, tal a decepção que sentia ao ver a sua roupa nova toda enlameada.
Com muito jeitinho e uma paciência que só as mães têm, a Maria José lá o convenceu a vestir outra roupa. E o João, que sonhara com uma entrada triunfal na igreja, subiu a coxia de cabeça baixa, só estacando em frente do presépio. Então, à vista daquelas maravilhosas figuras, o miúdo começou a esquecer-se da roupa que vestia. Deitou os olhos para o Menino e, qual milagre de Natal, teve a certeza que Ele também olhava para si. E sorria-lhe.
Durante o almoço toda a gente estranhou o silêncio do João. Não que ele estivesse triste, longe disso, mas mostrava-se tão ausente do que tinha no prato que parecia longe dali, absorto em mil pensamentos. Mas o que passava na sua cabeça devia ser coisa boa, pois de vez em quando esboçava um sorriso. E só mais tarde, quando lhe puseram uma taça de arroz doce à frente e o viram desenhar um menino com a canela, é que perceberam o encantamento que ia na alma do pequeno.
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12 comentários:

  1. Olá, amigo!
    Fizeste-me recuar até aos natais da minha infância, quando toda a família se juntava e o mundo parecia estar todo em paz.
    Obrigado pela viagem!

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  2. Agostinho, escolheste a melhor forma de mostrar o verdadeiro espírito de Natal: os olhos de uma criança.
    É magnífica a simplicidade harmoniosa da tua escrita, a forma como envolves as palavras que, na quantidade certa, vão projectando o Natal, nessa casa, na aldeia...
    Descreves momentos que fazem crepitar calorosas memórias que, pelas mais diversas razões, pareciam congeladas no tempo.
    Descreves sensações que conduzem os sentidos ao coração que, com alguma contenção, exibe a força do seu bater.
    É bom poder ler a tua história e sentir o calor da lareira, o cheiro das filhós, o sabor do arroz doce, a dor do pequeno João e, no final, imaginar o milagroso encantamento que vai na sua alma.
    O único sabor amargo é chegar ao último ponto final e ver que não há mais palavras para ler. Por isso, espero que consigas dar a volta ao tempo e ter tempo para continuares os capítulos que tens deixado em aberto...
    Nas tuas palavras, pude voltar a ser criança e ver que nos olhos de minha mãe continua a valer a pena.
    Ah, já agora... quando a pedra me travou a correria... na década de oitenta... por acaso, rasguei as meias :)
    Parabéns, Agostinho, é uma belíssima história de Natal!

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  3. Também eu recuei aos Natais da minha infância.Era tudo assim como conta nesta história deslumbrante:a corrida ao sapinho, logo na madrugada do dia de Natal,era de uma excitação indescritível;o presépio na Igreja de Santo António, durante a missa do galo,com o menino Jesus também a sorrir-me, faziam-me acreditar na minha bondade;o beijar do menino era a ternura descida do céu.
    Gostei de toda a história e da forma como a remata.Um menino Jesus de canela, doce,tão doce quanto este João que deve ser também
    Agostinho, aposto!
    Sabe que ainda hoje o doce de que mais gosto são as filhós?
    Parabéns pelo conto.De VERDADE!!!!

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  4. # Jorge,
    Hoje, para variar, não estás resmungão. :)
    És sempre bem-vindo, tu sabes isso.

    #JB,
    Os teus comentários são um bálsamo. Obrigado!

    #Ibel,
    Sempre atenta, sempre presente, sempre encorajadora... Obrigado!
    Quanto à aposta, ganhava-a pela certa! :)

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  5. Bem haja por me fazer recuar aos Natais quentinhos da minha infancia... a mãe fazia questão de que nada faltasse, a tradição beirã mantinha-se, a unica diferença era a falta do pai que estava sempre de serviço. mas, à meia - noite fazia questão de passar lá em casa e dar um beijinho às suas princesas. a familia de sangue estava longe, mas a comunidade era muito unida e sempre nos reuniamos todos, era lindo, porque me lembro de tanta gente junta, da alegria, dos cãnticos... a missa do galo, essa era só para os adultos, alguem ficava depois a tomar conta da pequenada que tinha que ír para a caminha e no dia seguinte acordar e abrir os presentes... que bastava ser ou uma boneca ou um bombom, a festa e a familia junta isso sim era o NATAL.

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  6. Belo poema!Os melhores presentes são os do nosso coração!!!Isso é que importa!No meu Natal vive-se em harmonia e paz.É para isso que existe o Natal.Para exprimirmos o que sentimos,com quem o sentimos.
    Bj!:)

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  7. #Ana,
    Que belos devem ter sido esses Natais da infância, com a tradição beirã misturada com as cores e odores africanos.
    Volte sempre!

    #Micaela,
    Tens razão, os melhores presentes são os do coração. Mas temos que sustentar tudo isso com estudo e trabalho. Entendes?
    Um bom Natal!

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  8. anapaula.oliveira@live.com.pt17 de dezembro de 2009 às 15:49

    Não imagina a SAUDADE que eu tenho do NATAL, do clima, da união, da partilha, de tudo... havia gente de todas as zonas do país, as tradições de todos e tudo aquilo misturado com o calor humano,as cores e odores africanos... a dança então, fascinava - me!!!
    quem viveu lá e nasceu como eu, aqui, vive numa eterna nostalgia misturada com angustia (e ódio da solidão).
    Entende agora a minha opinião ao seu poema à solidão?
    O seu Livro, que nós tanto lhe pedimos, era uma optima prenda, e com mensagens espectaculares... e mais não digo.

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  9. senHor professor eu acho que o seu texro esta muito giro.
    No Natal recebe-sse prendas.Mas os outros meninos que não têm nem comida nem roupa não têm nada.Eu desejo um bom natal e um feliz ano novo para todos.
    filipa correia

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  10. Olá, Filipa!
    Ainda bem que gostaste do texto. Este blogue não é propriamente para pessoas da tua idade, mas há textos que já podes ler sem qualquer problema. Sei que os teus pais estão atentos, e isso é que importa. No segundo período - com a devida explicação - vou ler-vos umas coisinhas (contos) que aqui publico.
    Um bom Natal também para ti, para a tua irmã e para os teus pais.

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  11. Caro Agostinho!
    Foi a mais maravilhosa mensagem de Natal que já recebi, e já recebi muitas.
    Recuei aos tempos de infância e fez-me reflectir sobre a sociedade em que vivemos, nos dias de hoje. Milhões de Euros gastos em futilidades quando apenas é preciso lembrar que o Menino de Belém veio para transformar o Mundo para melhor.
    Um grande abraço meu e da minha para para ti e para os teus. Votos de um Santo e Feliz Natal.
    Caldeira

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  12. Um conto de Natal emocionante, que me levou a reviver os Natais do Menino Jesus, onde do presépio brotava a verdadeira alegria!
    Que o espírito de Natal prevaleça sempre na tua vida!
    Um abraço com votos de Feliz Ano Novo!!

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