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Na pequena aldeia já todos se tinham recolhido, fazendo contas à vida. Lá fora pareciam felizes, contentes com a sua existência - andavam, numa azáfama, a preparar a festa do padroeiro - mas recolhidos, enquanto cogitavam, um nome era transversal a todas as conversas, quase de forma inconsciente: o de João Afoito, executor da agenda do barão. Todos sabiam do seu poder, todos sentiam na pele o preço de estar de bem com ele. Servil, até à medula, para quem lhe dava ordens, transfigurava-se na sua aplicação, como se a salvação da alma dependesse da sua obediência. E, aí, era cínico, frio, alicerçado numa fidelidade canina.
João Afoito, contudo, não sentia paz. E, de quando em vez, talvez para apaziguar a consciência, convidava um ou outro peão mais influente para uma petiscada. Copo daqui, copo dali, as palavras começavam a brotar, embora comedidas. O Afoito tentava debitar insinuações de humanidade, esboçando recompensas a quem o entendesse, os peões sentiam-se protegidos por merecerem a sua atenção. A sombra, contudo, era fiel testemunha do subtil amordaçar.
Um dia, no largo da ribeira, onde todos se encontravam ao fim da tarde para dois inofensivos dedos de conversa, o Aranha, que já tinha bebido uns copos na adega do compadre, começou a questionar as amarras do barão e do capataz, o João Afoito. Silêncio. Todos ouviam, mas o olhar, não fosse interpretado como de concordância, afastava-se noutra direcção. E, quase em murmúrio, naquele dia regressaram mais cedo a casa.
O João Afoito, por beneplácito de alguma alma caridosa, depressa soube o que se passou. Ouviu, mas dele nada transpareceu.
A aldeia voltou à sua azáfama, benzida no ouvir e calar, em prol do pão de cada dia. E nem mesmo quando o Aranha, personagem bafejada pela má fortuna, apareceu afogado num poço, se atreveram a endireitar as costas. Para rematar o caso, ficaram, qual etéreo epitáfio, as palavras da Ti Ana do moleiro:
- Coitado, nunca teve sorte nenhuma.
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