sábado, 14 de julho de 2018

A DANÇA

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Vsevolod Shvayba
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Carregavam memórias ancestrais, guardadas em mil subterfúgios, como se da mais preciosa carga se tratasse. Sabiam o que a maior parte dos mortais não sabia, sobrevoavam as suas vidas, observavam as suas angústias, mas pouco ou nada lhes era permitido, a não ser deixar pequenos sinais: uma flor no sítio mais inusitado, uma moeda depositada numa gaveta, um raio de sol a ultrapassar o filtro das árvores... E seguiam, seguiam sempre, qual missão sem fim à vista, eterna tarefa em prol da harmonia.
Às vezes, cansadas do seu pedestal, eram tentadas a deter-se num qualquer pormenor do que observavam. E, qual porto de abrigo feito devaneio, assumiam as vestes  dum mero humano, como se as emoções fossem a maçã da tentação. Era só por momentos, pensavam. E, normalmente, era. Mas quando, por descuido, deixavam que as emoções lhes abraçassem o corpo e a alma, nada mais era como dantes. Talvez fosse por isso que, em pleno milheiral, quando o estio já findava, a tarde ficasse incendiada com uma luz que até tu própria desconhecias.
Partiste, tinhas que partir, na altura não sabia. Mas quando, nos longos finais de verão, as cotovias se elevam, nos céus, em busca da última luz, eu sei que a tua alma nunca chegou a partir.
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 Vsevolod Shvayba, A dance
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17 comentários:

  1. Olá, A.C.
    Muito bom ter-te por aqui, de novo. Saudade!

    Por enquanto, ainda têm um longo caminho a percorrer, até que os seus bagos dourados incendeiem o final das tardes... O tempo em que as moçoilas incendiavam os corações dos mancebos, e as suas vozes ecoavam nas lajes das eiras, já faz parte de um passado distante.
    Um texto precioso, debulhado em poesia. :)

    Beijinhos.

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  2. A gravura é simplesmente deliciosa.
    Fiquei a observá-la durante algum tempo.
    É daquelas imagens que pedem uma história!

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  3. Magnífico texto, com imagens tão inspiradoras… Confesso que já tinha saudades de ler estas prosas poéticas e cheias de significado… Uma boa semana.
    Um beijo.

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  4. Wow AC o que é esse artista Vsevolod Shvayba, que grande descoberta! Fui perquisar mais da obra dele e adorei. E a tua narrativa uma delícia de ler! Às vezes parece que encontramos alguns seres assim pelo caminho. Um beijo.

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  5. Todas as flores se desfolham
    Excelente como sempre

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  6. Hoje é só para dizer que já estou de volta.
    Amanhã já haverá comentários.

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  7. Mais uma prosa poética cheia de tudo, embora não goste nada da primeira gravura e no teu espólio tens fotos fabulosas que fariam mais efeito:)) (pelo menos para mim) e desculpa o abuso.

    Beijocas e um bom dia

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  8. "eu sei que a tua alma nunca chegou a partir", porque é impossível enganar os fantasmas. Tão lindo. Um forte abraco Agostinho. Agora que um ano letivo árduo terminou e o descanso merecido finalmente chegou, desejo-lhe umas férias tranquilas, com muita e paz de espírito, que acredito encotrar nesse seu pequeno paraíso.

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  9. Bonito e intenso.
    As palavras e as imagens
    brisas doces *

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  10. INFORMAÇÃO
    Tal como tinha anunciado acabo de publicar mais um episódio, o oitavo, da saga É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE que desta feita tem como título... "Empernanço de pestana"... Com este texto a acção entra de raspão na guerra colonial e ainda na ida do primeiro homem à Lua. Uma vez mais alerto para imagem que pode impressionar as/os mais sensíveis.


    Volto depois para comentar.


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  11. As almas são assim AC, tão surpreendentes e tão previsíveis por vezes. Boa noite

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  12. Perco-me na beleza das palavras feitas imagem, das imagens carregadas de emoções. Que dizer mais? Quisera eu estar à altura para comentar semelhante texto.
    Abraço e bom Domingo.

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  13. Isto era o que acontecia a todos os deuses gregos, tinham uma sã inveja dos mortais, vinham fazer umas visitas e deixavam sempre frutos atrás de si. Lindas estórias, lendas e superstições nasceram disso.
    Bom Verão, amigo AC
    Abraço

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  14. Maravilhoso, este pedaço de céu, em forma de texto, onde se descortinam as almas dos que não chegam a partir... talvez por ser mesmo escrito, com o coração...
    Talento, sensibilidade e emoção, sempre num mix perfeito, por aqui, AC!
    Beijinho! E boas férias, de for o caso!...
    Ana

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  15. E como nos primeiros dias de Agosto, serei eu, que entrarei de férias... deixo um beijinho e um abraço apertado, para estas semanitas, em que estarei mais ausente!...
    Tudo de bom, por aí, AC!
    Ana

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  16. A gos... to aqui vim.
    entrei ao toque mas, no fim,
    disfarçado a mente.
    Aqui vim e
    sempre que venho espanto-
    -me, maravilho-me pela dança, as nu-
    vens: eu leio, eu_Agosto sinto-
    -me nas nuvens.

    Agosto enquanto der e Agostinho, pois,
    depois das marés vivas que alqueivam
    neurónios para a sementeira.
    Há-de vir maiz,
    há-de vir e é xi-coração!

    Abraço

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