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terça-feira, 25 de julho de 2023

O NOME DA FLOR

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Margarida Cepêda, Esperança
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No registo dos dias, com mudanças a desafiar o mais ínfimo dos cânones, tornou-se banal o alerta das palavras, como que querendo mobilizar percepções e vontades.
Em vão. A multidão, inquieta, prescindindo de filtrar a realidade que lhe servem a qualquer hora, parece enveredar pelo fruir enquanto é tempo, demitindo-se da exigência da dignidade. E, obedecendo aos sentidos, aplaude os vencedores, revestidos de efémero néon, relegando para debaixo do tapete aquilo que a pode desassossegar. Gesto inútil, a prescindir de carícias, pois o futuro deixou de contar, quem cá ficar que aprenda a tecer loas ao destino, adiando o inevitável recorrendo a um qualquer ludíbrio. E, por entre os intervalos da hipnose, os pesadelos vagueiam à solta.
Entretanto, num qualquer suposto abrigo, Anarte, mãe e avó, imune à destemperança, continuava a debater-se com questões com muito ade: liberdade, igualdade, solidariedade, dignidade, fraternidade…
Judite, filha e mãe, contorcia-se na contínua procura da solução para pagar as contas.
Arinta, filha e neta, procurava besouros nos fraguedos, após passagem pelo terreno poeirento, com a memória alheia aos últimos pingos de chuva. E, surpreendentemente, acaba por descobrir uma flor numa brecha do terreno. Deslumbrada com a forma, a cor e o aroma, sentiu necessidade de a absorver: como lhe chamar?
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sábado, 8 de julho de 2023

PESADELOS NOS INTERVALOS DE OBSERVAÇÃO DAS FLORES

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Margarida Cepêda, Tocando para o abismo
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Eles, os mais velhos, vestiam a pele de sabedores. E discorriam, adoçando as palavras quanto baste, procurando despertar nos mais novos a apetência pela conquista. Mas, na intimidade, desconfiavam.
Eles, os mais novos, vestiam a pele de educados. E, em nome do respeito, evitavam a acidez das palavras para os confrontar com a herança dum mundo em decomposição. Mas, na intimidade, contestavam.
Não houve simbiose na argumentação, longe disso, mas houve, pelo menos, o deglutir duma bela refeição, qual pausa para o encarar dum futuro muito próximo, com a noção de tempo a esvair-se perante as ideias feitas personificadas numa flor: os mais velhos confrontados com a ida para um lar, qual flor murcha, os mais novos com a sobrevivência num mundo sobrelotado, qual flor por inventar.
Se fosse o ensaiar duma peça, o encenador teria o grande desafio, como pano de fundo, de saber retratar a angústia. Com a esperança, de forma muito dissimulada, a tentar espreitar.
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domingo, 23 de abril de 2023

FOREVER YOUNG

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Margarida Cepêda, O rei e o cavalo
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Ele costuma chegar, confiante, distribuindo abraços como se fosse a coisa mais natural do mundo. 
Ainda não fez três anos- faltam três meses - mas apodera-se da casa como se fosse sua, qual governante a quem apenas a boa disposição e a alegria sejam coisas a ter em conta. E, por entre brincadeiras sem fim, não se coíbe de beijar, ou abraçar, quando sente que é caso para isso.
- Avô, anda escondê! - solicita ele, na sua linguagem muito própria.
E eu lá vou, de coração cheio, brincando ao faz de conta com mantas a servir de tenda, com o sorriso dele a comunicar, de tão cúmplice, como se me desse a mão. Os outros, entrando no jogo, vão pintalgando o ar de expectativas, com muito açúcar, soltando a cada passo:
- Onde está o Miguel?
- Está aqui! - grita ele, esfuziante, ao fim dum certo tempo (pouco, mas para ele é muito) como se da novidade mais importante se tratasse.
O Miguel cresce a olhos vistos, rodeado de amor em todos os quadrantes, e ele retribui, retribui sempre, olhos nos olhos, confiante em tudo o que o rodeia.
- Avô, anda, vamos lá fora!
O avô, transbordando duma ternura que tem sempre retorno, até de mais, dá a mão ao novel habitante da tribo, encaminhando-o para os primeiros voos do contacto com a natureza.
- O que é isto?! - exclama ele, perante o cantarolar de um pássaro.
O Miguel, ao contrário do avô, vive num apartamento, na segurança da proximidade dos outros, mas longe dos sons naturais que enriquecem qualquer ser. Pacientemente, com muita ternura à mistura, lá lhe vou explicando o som dos pássaros, o voo de cada um deles, a azáfama das abelhas, o voo silencioso das borboletas...
O Miguel, a pouco e pouco, vai absorvendo uma nova linguagem, que não a sua, mas que tende a interiorizar. E, por mais informação que se lhe faculte, uma coisa me orgulha, profundamente: ele continua a abraçar, incondicionalmente, tudo aquilo que passe no seu filtro de gostar, tudo aquilo que o faz sentir feliz.
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domingo, 9 de abril de 2023

BREVETA PRIMAVERIL

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AC, Flor de cerejeira
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Quando as andorinhas voltavam, ela ia, bem cedo, pelo caminho das cerejeiras, procurando absorver tudo como se fosse a primeira vez. O tempo parava, para a contemplar, enquanto piscava o olho às abelhas. Depois, qual eterna menina, imitava o gorjear dos pintassilgos, insinuava o voo das borboletas, acariciava esta ou aquela flor...
Quando regressava, de alma plena, ainda trazia, no brilho dos olhos, os vestígios da alquimia primaveril.
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terça-feira, 4 de abril de 2023

DESÍGNIO

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Margarida Cepêda, Ela, o violoncelo e as vagas
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Ela já era, mas não sabia.
Inquieta com os outros, fruto da sua opção de vida, procurava, o melhor que sabia, pejada de dúvidas, saber das nuvens que lhes cobriam os horizontes, do seu respirar sem convicção, dos parcos momentos em que, qual milagre da vida, a rara espontaneidade se concretizava num sorriso, por mais ténue. E, sempre atenta, registava o pormenor, depois da consulta, procurando dar cor aos nomes que, lentamente, parecia que se iam sumindo na paisagem, cada vez mais desertificada.
Ela era um anjo, mas não sabia. Contudo, os velhos que lhe adornavam a consulta, mal habituados à dignidade do trato e do olhar, sabiam-no desde a primeira vez.
Ela é como é e, perante o olhar melado dos velhos, e o respeito dos outros, começa a perceber, lobrigando perante as dificuldades de saber ser quando pouco ou nada se tem. Só ainda não entendeu, por mais que lhe digam, por que é que, em todo o lado, não é sempre assim, com a dignidade a não conseguir ganhar lastro.
Apesar do ruidoso silêncio dos hostis gestos dos conformados, prossegue na sua convicção, qual  percurso sem fim à vista. E persiste. Ela respira o equilíbrio do mundo em modo de vida e não se imagina de outra forma, pois cresceu a pensar que a proximidade e o calor de um gesto podem fazer toda a diferença. 
Ela é assim, a nossa doutora, qual joana sem pestana a tremelicar, mas de olho sempre a brilhar. Apesar de lamentar os falsos ais e uis de quem decide, ela continua a remar, contra ventos e marés, alimentando a alma com o que a preenche, qual miríade dum futuro por desenhar.
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terça-feira, 28 de março de 2023

CURTA LETRAGEM

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AC, ninho de melro
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Antes havia uma árvore, um ninho, uma abelha e o desejo de ver o mar.
Agora há uma antena, um telemóvel, um drone e um especialista em comunicação.
Antes, olhando o horizonte, faltava algo. Agora, perante tanto movimento, falta muito mais.
Antes eu queria o movimento, de preferência com mar à vista. Agora, que conheço melhor os bípedes falantes, continuo a querer ver o mar. Mas, para além disso, apenas procuro entender a arquitectura dos ninhos, com a cumplicidade de quem possa abraçar. Sempre.
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terça-feira, 17 de janeiro de 2023

A AVÓ TITA

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AC
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Viera da grande cidade, sem dar cavaco a ninguém, ocupar a casa dos pais, gente de posses herdadas  noutras eras. Os filhos já nasceram na grande cidade, mas ela por ali dera os primeiros passos e, apesar de cedo dali sair, ficaram, para sempre, gravados na sua alma, os recantos, os sons e os aromas daquela xistosa aldeia, no sopé da serra, com uns laivos de granito, banhada por uma ribeira que, nos seus verdíssimos anos, lhe parecia um enorme rio.
Indiferente à modorra do lugar, ela passava, desconcertante, umas vezes a pé, outras de bicicleta, desafiando tabus e conveniências.  O ramerrame não era com ela, isso era garantido, indiferente ao apontar do dedo de vetustas tradições. E, quanto mais a apontavam, mais ela prosseguia. E sorria. Em modo tranquilo, diga-se, tal como a grande tília que, no fundo da propriedade, adornava o morro que circundava o espaço sobranceiro à casa, aparentemente satisfeita com o toque paisagístico que dava ao tom geral da construção. Agitava os ramos, na ventania, mas não passavam de ligeiras cócegas que sorriam, docemente, para quem sabia ver e ouvir, tal era a sua robustez e a forma com que se agarrava à terra, apesar de algumas raízes à mostra, que atraíam, sobretudo, ingénuos fotógrafos, para lá duma diversificada classe de passarada. E, contra tudo e contra todos, ela lá permanecia.
À noite, depois do jantar, quem passava perto ouvia, vindas da casa, algumas notas de piano, as suficientes para adensar a quase lenda daquela personagem. E dizia-se isto, dizia-se aquilo. Mas, lá no íntimo, começavam a admirá-la.
Um dia, sem qualquer pré-aviso, a casa inundou-se de vozes alegres, descomprometidas, que davam nova vida ao lugar. Os netos, em férias escolares, finalmente vinham visitar o velho rincão da avó Tita, que tantas vezes, de soslaio, ela mencionara antes de lhes ler qualquer história. Um mero aperitivo, mas tão sentido pela narradora que, sem se darem conta, lhes ficara tatuado na alma.
Os dias passavam, alegres, ou não fosse verão. De manhã, com toda a gente já bem desperta,  ensaiavam-se umas escapadelas até aos terrenos da família, que o ti João tratava com desvelo. A avó Tita, sempre de olhos brilhantes, aproveitava o momento para "puxar" pelo Ti João acerca daquela árvore, daquela rocha ou daquele pássaro, e o velho não se fazia rogado: discorria, compenetrado, acerca de tudo o que o rodeava, transformando o momento numa envolvente aula ao ar livre, com calorosa participação da pequenada, ávida de descodificar tudo aquilo que a rodeava.
Embalados pelo ar campestre, não lhes faltava apetite ao almoço. E, por entre risadas, depressa os pratos ficavam vazios, perante a satisfação da matriarca.
Depois do almoço, após cada um lavar o seu prato, toda a gente tinha direito a uma pequena pausa para o que lhe aprouvesse. Depois, qual maré iluminada pelos olhos da avó, sempre omnipresente, promoviam-se sessões de leitura, com alguma solenidade, e animados ensaios de uma peça de teatro, onde cada um descobria pormenores dos outros que, até aí, desconhecia.
A meio da tarde, com o sol já mais tolerante, a incursão à ribeira, mais por exigência deles, era obrigatória. E nadavam, riam, pregavam partidas uns aos outros... Imersos na sua espontânea alegria, nem se apercebiam que o seu entusiasmo provocava sorrisos de contentamento nos velhos habitantes da aldeia, alheios que estavam ao canto ingénuo do desabrochar da vida.
Já recolhidos, e após plena satisfação de apetites, a avó Tita reunia a "tropa" na varanda e, quase num murmúrio, reivindicava silêncio. Chegara a hora de, num ancestral ritual, o astro se despedir, por entre os montes, com um eterno piscar de olho, todo melado, como que prometendo, aos crédulos observadores, que o amanhã seria ainda melhor. E eles, imbuídos daquele mágico esplendor, ainda que efémero, acreditavam.
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domingo, 8 de janeiro de 2023

O AMOLADOR

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Num tempo em que o normal era medido, por precaução, em ressonâncias de múltiplos espelhos, fossem eles o que fossem, calhou um dia em que, nas calibragens de espera do faz de conta que é a vida, as têmporas dum santo parecessem azuis. E as pessoas, desidratadas de interrogações, socorrem-se do mais básico que a sobrevivência lhes proporciona: ai Jesus, que lá vem isto, ai meu Deus, que lá vem aquilo.
Estava-se nisto, num compasso de nem enferrujar nem desenferrujar, quando, um dia, na aldeia avessa a mudanças, apareceu por ali um velho amolador sorridente, muito sorridente. E, para lá do entoar da tradicional gaita, desembrulhava ditos de fazer sorrir, ancorados em vislumbres de visões para lá do horizonte.
Os velhos olhavam, desconfiados, mas as crianças, eternamente viradas para o mundo, seguiam-no com avidez, não fossem perder algo para lá do ramerrame. E o amolador, sentindo que tinha público, embora não pagante, começava a contar histórias de antanho, todas com um denominador comum: apesar das intempéries, coisas de deuses caprichosos, as personagens acreditavam que tudo poderia ser vencido pelo engenho e pela arte, pela vontade e perseverança. Festa, a haver, só no final dum bom desiderato.
Tal como surgiu, e após um ou outro serviço com uma moeda a tilintar, assim o velho sumiu, com um último trinado a refugiar-se nas pedras das casas. E, vá lá saber-se como, sabia, qual dever cumprido, que as crianças da aldeia jamais o esqueceriam.
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

EFÉMERO GRAAL, ETERNO PROCURAR

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AC
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Já discorreu algum tempo, imenso na dimensão dos homens, eterna condição efémera, mas ele, persistente na busca da cumplicidade, sem enfeites, teima em rebuscar um sol maior, olhos nos olhos, qual resguardo tecido na mais pura claridade, que é de factores como a luz, com muita água em resguardo, e do abraço, sincero, que a vida brota.
Ela, eterna garimpeira duma intenção maior, persiste em pesquisar nas estrelas, para lá de si e dos outros, como se tudo se conjugasse duma forma astral, com uns pozinhos de ancestral. 
Eu sei e, no meu íntimo, sei que ela também sabe, que as imperfeições vão muito para lá duma sessão nocturna a observar a lua, que as fraquezas são simples adornos da nossa condição, numa teia muito bem tecida por algo que nos ultrapassa.
Apesar de tudo, ela não se resigna quanto à teia, eu também não. E, enquanto especulamos, e convergimos, vamos aproveitando a luz das estrelas, com a lua, quando de feição, como aconchego. Nessas alturas o tempo deixa de contar.
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sábado, 23 de julho de 2022

JOGO DAS ESCONDIDAS - 1

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Margarida Cepêda, Procurando o princípio
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Ela foi ali e não disse, mas quis. A sua mãe, depois de dissertar acerca dos mil e um perigos da vida, deu-lhe um beijo e aconchegou-lhe o lençol.
Ela foi mais além e não disse, mas quis. A sua mãe, em silêncio, nada lhe disse, mas aconchegou-lhe o lençol de forma diferente.
Ela foi para muito longe e, olhando para trás, quase que não queria, mas foi. A sua mãe, qual ocaso da vida, limitou-se a acenar. 
A sua mãe partiu, mas não queria. E ela, sem certezas na vida, passou a mão pelo lençol que ela lhe tinha colocado na mochila. E, talvez tarde de mais, deixou que as barreiras do dique se soltassem e chorou, abundantemente, irrigando o caminho que ela, qual mortal errante, continuava a não descortinar. Mas, rompendo as margens, qual herança de pedra sem musgo, ousou continuar.
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sábado, 30 de abril de 2022

BARCAÇA DO BEM SER, EMBARCAÇÃO DO BEM ESTAR

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AC, Flor de macieira
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Em finais de Abril, princípios de Maio, eu já sabia que os deuses conjuravam. Pressentias o verde novo, os pássaros, as flores e a luz, vestias uma leve blusa de algodão, colocavas um chapéu de aba larga e vinhas cá para fora, como que a querer aspirar a vida que nos envolvia.
Depois, já impregnada de múltiplos sons e odores, não resistias. Abraçavas-me longamente, como que a querer transferir para mim tudo o que sentias, e encaminhavas-me para as cadeiras, com vista privilegiada para a encosta da serra, onde as cerejeiras se despediam das últimas flores. Já sentados, com o rosmaninho por perto, nada dizias, mas davas-me a mão como se sentisses, e soubesses, que partilhávamos toda a sabedoria da simplicidade das coisas. 
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terça-feira, 15 de março de 2022

A HORA DOS PEQUENOS MILAGRES

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AC
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Às vezes, quando os deuses se recostavam, enfastiados, cansados dos seus jogos de ciúmes e de guerra, ela esgueirava-se por entre os salgueiros do ribeiro e subia a encosta do pequeno promontório, onde a copa das grandes árvores envolvia a casa sedenta de vida.
Trazia com ela, não um regaço de abundantes rosas, mas um brilho no olhar pleno de promessas e anseios, com cheiro a trigo maduro. Era então que aconteciam os pequenos milagres.
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domingo, 23 de janeiro de 2022

ÀS VEZES

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AC
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Às vezes um gato não mia. Mas caminha.
Às vezes uma ave não chilreia. Mas voa.
Às vezes o planeta parece desfocado. Mas roda.
Às vezes uma estrela não se vê. Mas está lá.
Às vezes temos que nos isolar. Mas existimos.
Às vezes falta-nos a mão. Mas sobrevivemos.
Às vezes apetece-nos chorar. Mas cantamos.
Às vezes apetece-nos abraçar. Mas imaginamos.
Às vezes, para contrariar as nuvens negras, apetece-nos oferecer flores. E, confiantes na sua magia, enviamos uma foto do pôr-do-sol.
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Uma pessoa que me é muito cara não conseguiu iludir a teia do coronavírus. Este texto é para ela.
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

INSTANTÂNEO DE SOLTAS PONTAS

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Fotografias de AC
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O dia escoava-se, medido em ínfimas centelhas de luz, como se algo de importante estivesse a acontecer. Fosse pelas cores, pela geometria, pelos sinais ou insinuações, parecia urgente resgatar o momento para o poder perpetuar, a nosso bel-prazer, a fim de dissecá-lo, fruí-lo, ensaiar novas formas de arte, de filosofia. Mas sentia-se, quase ao de leve, que havia algo, em simultâneo, que nos escorria, nos ultrapassava, que ia para lá do olhar, que devassava a própria alma. 
Por mais que nos doa, é impossível domar o tempo. E por ali fiquei, na humildade da minha condição, mas grato pelo cenário do escoar do tempo, de sentir algo a acontecer. Seja lá o que for.
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sábado, 1 de janeiro de 2022

ACERCA DO RENOVAR DA ESPERANÇA

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Margarida Cepêda, Esperança
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Eu subi para ver que, de uma fonte, se pode formar um rio.
Eu desci para ver que, no ultrapassar dos obstáculos do rio, o anseio era abraçar o mar. 
Enquanto subia e descia, vi muita gente a arrebanhar, no lusco-fusco ou às claras, mas outros tantos a abraçar, nas ruas e becos onde, aparentemente, nada havia para lucrar.
Que dizer, depois de tanto caminhar?
Não importa o que os outros pensam, ou façam, o que conta é fazer e acreditar. Em mim, em ti, nos outros, num mundo (ainda) por descobrir. E sorrir, sorrir sempre, mesmo que nas entrelinhas se chore, seja qual for o porvir.
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Que 2022 seja o esboço duma esperança sem limites, pois só assim ela faz sentido. 
Um grande abraço para todos aqueles que, de alguma forma, vão acarinhando este cantinho, que se pretende pleno de interioridades. O meu eterno bem-haja.
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quinta-feira, 11 de novembro de 2021

DANÇANDO NA SUBTILEZA DAS PINHAS

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AC
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Por mais que o tempo passe, e se ele passa!, nunca sei como estas coisas acontecem. Só sei que ela chegou, com a luz a iluminar o pinhal, conjugando o verbo apanhar nas pinhas que íamos metendo no saco. Estavam fechadas, é certo, reagindo ao frio que abalroou os dias da passada semana, mas nada que amordaçasse a convicção de que, em ambiente ameno, elas voltariam a abrir.
Encheu-se um, encheram-se dois, depressa se almejaram os três sacos. E por ali ficámos, no abrigo do silêncio do pinhal, respirando mil e uma estórias com sonho e substância. As pinhas, cúmplices, sentindo a sintonia, aconchegaram-se no sono dos justos, sabendo que, em hora própria, iriam ter o seu grande momento. A lareira podia esperar.
Ela foi, de mão estendida, as pinhas ficaram. Só irá voltar, eu sei, quando as pinhas, na lareira, começarem a crepitar.
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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

VISLUMBRE DO ACENAR COM UM SORRISO NOS LÁBIOS

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AC
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Muito trabalho, pouco descanso, contas sempre a acenar, demasiadas regras a cumprir...
Andava descrente da face clara da vida. E logo ela que, desde que se lembra, sempre se preocupara em activar o ânimo dos outros. Pelos vistos, pensou, em cada esquina, para lá do amigo cantado pelo Zeca, também espreitava a penumbra. 
Inês pegou no copo de Papa Figos e foi até lá fora. Levantou o olhar para poente, em busca de luz e, de forma inesperada, sentiu um forte impacto, mas em modo suave, apaziguador, qual indelével manto tecido em harmonia. O dia despedia-se em modo festivo, sóbrio na quantidade de cores, é verdade, mas todas elas intensas, congregadoras das mil e uma formas com que se desenhara a tela, qual convite à criação dum poema, duma canção, do mergulho regenerador ao interior da zona de conflito.
Ficou por ali, deslumbrada, enquanto a tela se transformava, em movimentos lentos, obedecendo ao desígnio do sol, das nuvens, talvez dos deuses, enquanto a ligeira brisa lhe acariciava, suavemente, a face. E, pela primeira vez nos últimos dias, deu-se conta de que estava a sorrir.
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sábado, 5 de junho de 2021

MELODIA: OU COMO, CONTORNANDO O FEL, ÀS VEZES HÁ DIAS COM MEL

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Margarida Cepêda, Amizade
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Eram tempos em que a dúvida pairava, em demasia, propícios à sementeira de neblinas, com os instintos básicos, naturalmente, a irromper como cogumelos em terreno propício. Os deuses pareciam estar zangados em versão superlativa. 
Ela, como era habitual nos últimos tempos, acordou sobressaltada. Naquele dia, porém, sem saber bem porquê, sentiu-se impelida a visitar o jardim, outrora colorido sob o olhar atento dos jardineiros, que eram todos, mas agora a viver na penumbra. Desceu as velhas escadas de granito, afastou algumas ervas que, entretanto, foram crescendo com carta de alforria, contornou o tanque e seguiu o caminho das árvores centenárias, que continuavam, indiferentes a tudo, com um porte digno.
A falta de luz continuava a incomodá-la, apesar de alguma tranquilidade que, contrariando o cenário, emanava das grandes árvores. Aproximou-se mais. Os grandes ramos envolviam toda a área circundante, qual eterno abrigo para qualquer tempestade. Mas a luz, que ali só costumava deixar reflexos, bordados pelo intervalo das folhas, continuava ausente, como se algo estivesse doente, em completo declínio, a carecer dos maiores cuidados. E foi então que...
Um inesperado canto irrompeu pelo jardim. Abismada, tentou descortinar a procedência daquela espécie de luz, em versão emotiva, que a deixara tão empolgada. Espreitou por entre os ramos, atenta ao mais ínfimo pormenor, mas nada descortinava. Chegou-se mais à frente, andou para o lado, recuou, percorreu todos os pontos cardeais em busca da melodia. E só quando, já cansada, se sentou no banco que ladeava a enorme tília, sentiu a melodia que de si emanava. Tinha percebido, finalmente, que o canto vinha do mais fundo de si, tal a vontade de agarrar a vida.
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sábado, 22 de maio de 2021

QUANDO O ÍNFIMO É INTEMPORAL

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Eram tempos de descoberta, em que cada gesto revelava pressa, como se abarcar o mundo fosse coisa emergente. Exaltávamos a poesia, dançávamos nos concertos, mergulhávamos em rios de águas cristalinas, andar à boleia não era coisa estranha. E cada rosto afável que encontrávamos, cada gesto genuíno, cada sabor local, cada música no rádio duma tasca deserta, eram pretexto para a festa. 
Fazíamos planos, oh se fazíamos, e tudo servia de motivo para isso: uma casa abandonada, que reconstruíamos em sonhos, um tecido diferente, que desmultiplicávamos em novas roupas, a descoberta duma cascata num ribeiro entre montes, com peixes a jusante e a montante, as notas duma guitarra numa estação deserta, à espera dum comboio sem horário... E sorríamos, sorríamos tanto, caramba!
O tempo passou, os horários eram para se cumprir, as facturas tinham que se pagar. E pagaram-se. Mas, como quem guarda um precioso tesouro num baú, há luzes que, mesmo que ínfimas, nunca se apagaram, britando muitas das pedras que foram surgindo no caminho. São só nossas, são intemporais.
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sábado, 1 de maio de 2021

POSTAL À DERIVA

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Margarida Cepêda, Sob a ogiva
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Tinhas tudo programado. Irias circunvalar as águas, domar os ventos, orientar-te para a luz, num plano muito elevado. Faltava-te, e não era pouco, encontrar a chave da compreensão, essa coisa estranha, que dava trabalho, mas que era condição fundamental para poderes enfrentar, da melhor forma, tudo aquilo que ultrapassava o teu pequeno mundo.
Enquanto procuravas, de sono solto, encontraste refúgio nos livros. O quão eles revelavam! Mas, apesar da abertura de novos portais, continuava a haver algo que não encaixava, que não te deixava dormir tranquilamente. E desassossegavas. 
O tempo foi passando. Ainda não sabias, mas irias descobrir: faltava-te, para perceber os alicerces mais elementares da vida, tentar sentir a respiração dos outros.
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