domingo, 4 de novembro de 2018

CONFESSIONÁRIO DO TEMPO

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Fotografia de AC
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Bates-me à porta, sem pedir licença, como se tudo estivesse acordado desde os primórdios. 
Vens bordar o apogeu das coisas, recordar que a beleza, para lá da interioridade, é definitivamente efémera. Concedes umas pausas, dizes tu, como que a alertar que a eternidade poderá existir num só olhar, desde que focado na essência das coisas. Esqueces, no entanto, que muita gente já nem sequer olha, apenas tenta sobreviver.
Teimas em bater-me à porta sem pedir licença, serás sempre bem-vindo. Mas, tempo, sabes, às vezes apetece-me escorraçar-te como se do pior vilão se tratasse. Bem sei que a culpa da cegueira que por aí grassa não é tua. Nós, humanos, eternamente rendidos à tentação do poder, é que temos a tendência, para não encarar as coisas de frente, a entregar as rédeas ao destino. Talvez seja defeito de fabrico, talvez seja medo da clareza e da lucidez, talvez seja apenas um ciclo, confesso que não sei. Sinto é que a ignorância e o medo tendem a caminhar, cada vez mais, de mãos dadas, abrindo caminho ao evento de monstros redentores.
Desculpa o desabafo, bem sei que a culpa não morreu solteira. Agora, já mais calmo, e se me permites, preciso respirar: vou tentar prosseguir o exercício de interiorizar a beleza, de forma natural,  que emana das pequenas coisas.
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12 comentários:

  1. Tu, AC, e todos os que vêem para além do que se perfila na frente do nariz, acabam por se render e deixar seduzir pela beleza das pequenas coisas. As palpáveis, as têm nome, as que nos fascinam, por virem sempre, mais cedo ou mais tarde, e que, afinal, são essas que nos dão cor à vida.
    Espera um pouco mais, em breve, bater-te-á à porta, algo que vai bater leve, levemente, como quem chama por ti...:)

    Um beijinho grande, AC. :)

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  2. Descansa, hoje não te irei visitar
    Acedo ao teu pedido...
    Dá-me depois conta do teu exercício
    conta-me do teu respirar

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  3. Muito além de todos os muros mora a essência. AC bem sabe sorver dessa beleza infinita! Se existem intrusos estão sempre lá por algum motivo, as vezes é bom investigar porque raios nos incomodam tanto. A teia da vida nos dá sinais claros através daquilo que nos apresenta. É preciso ficar atento. Sempre bom te ler. Beijos

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  4. Há quem olhe e há quem vá para além do olhar e consiga observar.
    Aquele abraço, boa semana

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  5. Os altos e baixos da vida que nos fazem parar e ou seguir em frente e não consigo dizer mais nada, excepto que gostei imenso porque bateu no fundo..

    Um enorme abraço

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  6. Passei pelo teu cantinho se abre em jeito confessional. Na verdade, o fragaredo por vezes aperta e outras é rampa de lançamento. E quando voas é natural que roces as asas.
    Por mim, gosto muito do teu voo.

    Beijinho, AC.

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  7. Também lhe bato à porta para "tentar prosseguir o exercício de interiorizar a beleza, de forma natural, que emana das pequenas coisas."
    Magnífico!
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  8. Medo e ignorância na mesma equação costuma dar m***** ou, em alguns casos, episódios horrorosos de intolerância, racismo, discriminação, etc, etc. Apreciar as belezas simples da vida parece-me melhor caminho.
    Abraço
    Ruthia

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  9. No Outono há folhas que se levantam do chão
    Abraço

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  10. Hoje em dia, a humanidade vive a correr. Quase não tem tempo para respirar, quanto mais para observar toda a beleza que a rodeia.
    E pensar, AC, rouba tempo e cansa o cérebro de quem se quer com o máximo de tempo para se exibir nas redes sociais. Pode-se ignorar tudo, menos o número de seguidores, que todos os humanos deliram em se sentirem "importantes" mesmo que seja só através do número de seguidores. Hoje acordei um bocado cínica, desculpe.
    Abraço

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  11. Prosa poética que dispensa subterfúgios, adornos. Sem contornos floridos, "tudo" ficou dito. Parabéns, AC.
    O tempo, sem dono, bate-nos à porta a hora incerta, e a gente na eterna ilusão cuidando iludi-lo, como aprendizes de feiticeiro.
    Dou conta que apesar de andar, fazer malabarismos, permaneço no mesmo lugar.
    Melhor será pousar as argolas e as bolas e aprender a pensar com o olhar.
    Abraço de saúde.

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  12. É a simplicidade das pequenas coisas... que mais nos aproxima da verdadeira dimensão do tempo... a eternidade... e que nos permite, parar para respirar...
    Mais um texto, absolutamente excepcional, AC! Parabéns!
    Beijinho
    Ana

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