sábado, 1 de maio de 2021

POSTAL À DERIVA

.
Margarida Cepêda, Sob a ogiva
.
Tinhas tudo programado. Irias circunvalar as águas, domar os ventos, orientar-te para a luz, num pano muito elevado. Faltava-te, e não era pouco, encontrar a chave da compreensão, essa coisa estranha, que dava trabalho, mas que era condição fundamental para poderes enfrentar, da melhor forma, tudo aquilo que ultrapassava o teu pequeno mundo.
Enquanto procuravas, de sono solto, encontraste refúgio nos livros. O quão eles revelavam! Mas, apesar da abertura de novos portais, continuava a haver algo que não encaixava, que não te deixava dormir tranquilamente. E desassossegavas. 
O tempo foi passando. Ainda não sabias, mas irias descobrir: faltava-te, para perceber os alicerces mais elementares da vida, tentar sentir a respiração dos outros.
.
.

13 comentários:

  1. A nossa atenção seletiva impede-nos ou limita-nos, por vezes, de “ver” as outras pessoas como elas merecem ser “vistas”.

    Bom fim de semana, AC.

    ResponderEliminar
  2. Um belo e interessantíssimo texto, que tanto pode ser dirigido a alguém em especial, como a todos em geral. Ainda que, por vezes, sinta que me falta esse golpe de asa, esse estar tão perto dos demais, que me identifique com os seus problemas, as suas dores e alegrias, logo me afasto dos visados, pois nunca me coloco, nem colocarei, num plano muito elevado. Creio bem que olho sempre para os demais, de baixo para cima e nunca ao contrário.

    Um abraço e parabéns, uma vez mais, pelo excelente texto, AC!

    ResponderEliminar
  3. Texto poeticamente escrito em prosa que me deliciou ler.

    " ... faltava-te, para perceber os alicerces mais elementares da vida, tentar sentir a respiração dos outros. "

    Fato que falta a tanta gente, sem dúvida alguma
    .
    Um Sábado feliz
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

    ResponderEliminar
  4. Sem sombras de dúvidas e só se aprende quando se dá e recebe coisas tão básicas que nos fazem crescer em harmonia...afetos, amor, colo e carinho. O resto? á pois é leva-o o vento!

    Um enorme abraço

    ResponderEliminar
  5. A fração pensante da humanidade também encontra refúgio nos livros.
    Belo post. Que a nova semana seja excelente!

    ResponderEliminar
  6. A respiração dos outros. Sem os outros o nosso sossego é sempre desassossegado. Belíssimo e inspirador texto.
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
  7. Não adianta programar a vida. Ela é feita de imprevistos e de desconhecido, e sempre haverá algo para nos desassossegar.
    Como sempre, um belíssimo texto.
    Bom domingo AC.

    ResponderEliminar
  8. Os alicerces constroem-se fora do mundo protegido, quando sentimos os outros, a sua respiração, a sua vida.
    A isso se chama crescer, digo eu, que assim o entendi.

    Um beijinho AC.

    ResponderEliminar
  9. Onde é que eu assino o comentário da Catarina?
    Abraço, boa semana

    ResponderEliminar
  10. Um belíssimo texto, e um não menos belo postal da Margarida Cepêda.
    Gostei muito.
    Abraço e saúde

    ResponderEliminar
  11. Os outros também somos nós
    connosco
    Abraço

    ResponderEliminar
  12. Ouvi-los é essencial. Tanta gente que não gosta de escutar esse respirar alheio...
    ~CC~

    ResponderEliminar
  13. É tão verdade! Partilhar, sentir o mundo em outros olhares, é condição essencial para uma respiração tranquila.

    Maravilhoso e esclarecido texto.

    Grande abraço, AC.

    ResponderEliminar