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quinta-feira, 31 de março de 2022

POR MORRER UMA DOURADA, NÃO ACABA A ANDORINHA

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Pegou no saco de carvão vegetal e, com os devidos cuidados, abasteceu o grelhador. Aplainou o nível da negra substância, colocou a grelha  cerca de 30 cm acima do carvão e colocou os pedaços maiores do carburante por cima da grelha. Depois, socorrendo-se da lenha miúda que fora acumulando no outono anterior, dispôs os gravetos por cima do carvão. Acendeu duas pinhas, colocou-as em locais estratégicos no meio da lenha e aguardou que a combustão se desenvolvesse, qual desígnio com fim bem controlado.
Saciado o apetite voraz do lume, com desenhos incandescentes, sempre em fase crescente, a querer dar mostras de gente crescida, às tantas, com o carvão na parte superior da grelha já a crepitar, era hora de envolver a camada superior com a inferior, qual rasgo de homogeneidade, não fosse o diabo tecê-las. E assim se misturou o carvão elevado na superfície da grelha com a arraia miúda do purgatório, qual inferno sem Dante. Mas, dou-me conta, há quem cante, nem que seja eu, com muitos sorrisos de permeio.
Com o lume estabilizado, era hora de colocar as douradas (da Madeira, dizia o folheto) na grelha. E o grelhado, com a bênção de cinco paredes, ficou mesmo a preceito, com o manuseador a usufruir da bênção da ausência da sexta parede.
Quando levou as douradas para a mesa, com o azeite e o vinho da região já a postos, do fogão tinham acabado de sair alguns legumes cozidos a preceito, não fosse a ocasião arrefecer. Tudo a combinar, tudo em harmonia, tudo em prol da compreensão e do usufruto da vida.
Através da vidraça, enquanto se degustava, viam-se duas andorinhas pousadas no estendal da roupa, muito compenetradas, pondo a conversa em dia. Não falavam das douradas, tenho a certeza. O desdém pelo meu contentamento era compreensível, elas tinham muita roupa para lavar. :)
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domingo, 24 de janeiro de 2021

DIÁRIO - 12

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Há uma fila que se estende, convicta, como que a querer vincar, bem fundo, e de voto na mão, as bases do rumo a seguir.
Parafraseando José Régio, e com a devida adaptação, não sabemos para onde vamos, mas sabemos que não vamos por ali. Assim seja, que os desafios, em modo de espera, são mais que mil.
Hoje, apesar dos dramas atrás da cortina, foi decretada uma pausa, qual satisfação, embora com riscos, do dever cumprido. Amanhã, que se faz tarde, tudo será mais premente, pondo à prova se é em vão, ou não, tudo aquilo que debitamos, em tempo soalheiro, acerca da cumplicidade e da solidariedade. Há que colocar em prática, pois é claro.
Quase sem me dar conta, assaltam-me, de mansinho, palavras duma canção dos Madredeus: haja o que houver, eu estou aqui. Enquanto depender da minha vontade, estarei sempre.
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