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quarta-feira, 15 de maio de 2024

ACERCA DAS SEMENTES

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AC
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Resplandecem luzes naturais que emanam duma química superior, mas abrangente, pejadas de mistérios, à mercê de mil e uma histórias de encantar, qual desafio à descoberta do segredo. 
Durante o dia, com o afluxo das plantas, eternamente desejosas de irromper, o verde novo tende a amadurecer, deixando resquícios de aromas de efémeras flores, ébrias de satisfação pelo contributo para mais uma passagem de testemunho. É quanto lhes basta. A vida perpetua-se, isso é certo, por entre tantas dúvidas, com a participação de uma infinidade de actores, todos eles ligados à corrente, em equilíbrio permanente, apesar da desfaçatez dos aprendizes de feiticeiro. Até ver.
Ontem, ao princípio da noite, tocaram à campainha. Eram uns amigos de longa data, sorridentes, que traziam consigo, como prenda, várias espécies de sementes, talvez não se dando conta de que, eles próprios, eram semente preciosa. Como só os amigos podem ser.
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terça-feira, 7 de maio de 2024

PLANTAR A ESPERANÇA

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AC, Estrelícia encabeçando manifestação de rosas de Santa Teresinha
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Apesar do frio dos últimos dias, a confirmar o instável humor do clima, as papoilas teimam em chegar-se à frente, renitentes em dar espaço a imprevisíveis formas de estar. E florescem, engalanando os campos, fazendo jus em acompanhar a sinfonia da passarada. Mas é leve a resistência, pois há algo de mais persistente. E não há resiliência que perdure a tanta adversidade, com as pétalas a render-se, uma a uma, aparentemente conformadas com o seu efémero destino.
Indiferente a tanta inclemência, já maturada pelo tempo, a estrelícia do canteiro fronteiro à casa tende em manter-se viva, quase jocosa da vulgaridade, irrompendo perante um batalhão de rosas de Santa Teresinha como se da mais natural circunstância se tratasse. E há que fazer reverência a tanta persistência, mais a mais acompanhada de uma beleza ímpar. Rendo-me à evidência, dou graças por tamanho privilégio.
Entretanto, num recanto já anteriormente preparado, insiro na terra mais três dúzias de tomateiros. A tarefa é libertadora para a alma, apesar das costas começam a desenhar uma espécie de queixume. Nada que arrefeça o ânimo para o baptismo de uma dúzia de curgetes, sedentas de mergulhar na vida, com a terra a acariciar o pouso duma nova espécie. Com o devido carinho, com a água a ter um papel primordial, vão dar-se bem, com toda a certeza.
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O conceito de tempo, por aqui, não se baseia em conceitos clássicos. Fruem-se as tarefas, mergulha-se a atenção no desfolhar duma nova flor, aprecia-se o chilrear dos pintassilgos, as surtidas esquivas dos melros... Relógio só o da luz e da sombra ou, quiçá, o do corpo a pedir repouso. A este, correspondendo ao mais elementar bom senso, faço sempre a vontade.
Para amanhã prevê-se sol, finalmente. Talvez as andorinhas apareçam para adornar este Maio de mil cores, qual Primavera de eterna esperança.
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domingo, 21 de abril de 2024

OBSOLETA CRONIQUETA

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Foto de AC
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A enxada, extremidade natural dos braços, com razão e com tempo, começou a rasgar a terra com a atenção que ela merecia. 
As ervas eram um obstáculo, mas apenas pela sua delicadeza, pois cada pormenor evidenciado - a forma das folhas, a flor que se desenhava... - era constante empecilho para um cavador demasiado sensível àquilo que o rodeava. Mas, por entre tratados inaudíveis para o exterior, que apenas diziam respeito ao portador da enxada e às espécies invadidas, lá se foi criando um compromisso apaziguador de consciências. E a terra foi-se preparando, com algum trauteio, de modo a receber algumas novas espécies.
O desafio, desta vez, era aconchegar as alfaces ao calor confraternizante dum canteiro semi-selvagem, onde algumas espécies cultivadas convivessem com rosmaninhos, muito senhores dos seus domínios, em perfeita harmonia. E, sempre com outras ervas de permeio, tentou-se que as alfaces se integrassem na irmandade, qual retrato duma talvez efémera tentativa de remediar os males do mundo. Utopia na sua mais pura essência, é bom de ver, com a vantagem de se poder usufruir de cores e odores. Até porque a música de fundo estava mais que garantida, pois a passarada, por aqui, é dona por inteiro do lugar.
O Miguel, a três meses de fazer quatro anos, às vezes irrompe por aqui, sedento de conhecimentos e brincadeiras, sempre com um olhar atento por perto. Já dá atenção aos pássaros, começa a tratar as flores e as borboletas por tu, numa forma muito própria, mas com as abelhas ainda existe uma distância prudente. Tem tempo.
Perante tal cenário, e longe de Instagrams, Facebooks e outros que tais, por opção, digam-me lá uma coisa, que ninguém nos ouve: estarei fora de moda? Perdoem-me, desde já, o meu irónico sorriso. :)
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quarta-feira, 14 de junho de 2023

PINGOS DE CHUVA EM CONTRAMÃO

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Fotos de AC
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A chuva, por estes dias, não parou de cair, iludindo a caminhada, mais que provável, para a seca, confirmando, mais uma vez, que a excepção é parte integrante da reg(r)a.
A horta, mais pragmática do que eu, agradece a bênção pluviosa para se desenvolver de forma natural, mas deixando para mim a preocupação com as ervas que, à boleia de tal escorrega, crescem desmesuradamente, nada se importando com um mero aprendiz de hortelão que, por todos os meios, tenta salvaguardar o bem-estar das suas plantas de estimação. Se as ervas agora já se insinuam, a carta de alforria irá chegar, dentro de poucos dias, quando os raios solares retomarem o seu domínio. É então que se começará a conjugar o verbo mondar.
Entretanto, aproveitando a folga da chuva, tento manter-me a par do que se passa pelo mundo, vasculhando jornais e revistas. E confirma-se uma ideia muito arreigada: tanto governantes, como oposição, apenas se preocupam com a detenção do poder, deixando para as calendas a solução dos problemas. E digladiam-se, sem fim, em busca da simpatia de potenciais eleitores. Invocando um famoso título literário, a oeste nada de novo. Felizmente, para aconchego do melhor que há em nós, existe o trabalho incansável de muitas ONG´s, mas o sentido cívico dos governados deixa muito a desejar.
Regresso à horta, aproveitando uma pausa da chuva, e reparo que a sinfonia dos pássaros também está de volta. Lá em cima, em voo planado, algumas aves de rapina povoam os ares, em voo silencioso, sempre atentas às oportunidades. Contrariando a postura das suas vizinhas mais altaneiras, as cegonhas passam num voo mais rectilíneo, com as patas bem distendidas, de modo ergonómico, em consonância com  a cabeça, no outro extremo, com destino bem delineado, sabendo bem ao que vão. As pegas rabilongas, habituais frequentadoras do espaço, afastam-se perante a minha presença. Só os pardais, muito senhores de si, teimam em se manter por perto.
Em pleno distender de sentidos, e em modo tranquilo, acabo por colher o que resta dos alperces, talvez para compota, que este foi um ano de fartura. Mas as cerejeiras, coitadas, de tão tristes, apenas se queixam de tão inesperadas pingas, que as ferem, retirando-lhes o tão esperado tempo de rainhas. São muito sensíveis, estas senhoras.
E assim vamos vivendo, por entre os pingos da chuva, quando os há, com demasiadas pessoas afectadas pelo vírus do consumo. Um dia destes, se chegarem a despertar, é muito provável que já seja tarde de mais. Nesse caso, e por mais que me resguarde, mesmo fazendo a minha parte, o meu pequeno paraíso pouco sentido fará.
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P.S. - Quando me afastava da horta, reparei que uma borboleta fazia duma couve lombarda um porto de abrigo. Voltei atrás, tentei afastá-la, não fosse ela depositar ovos que dariam lugar a lagartas, que mais tarde se alimentariam das couves, mas ela não gostou nada da interrupção, esvoaçando à minha volta com uma velocidade inusitada. Que é isto?, pensei. E lá deixei a criatura em paz, sujeita aos desígnios do seu livre arbítrio. Mas que vou passar a vigiar as couves, lá isso vou! 
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quinta-feira, 25 de maio de 2023

AVIEIRANDO

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Imagem retirada da Net
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Tudo começou na praia da Vieira, que me recebeu, e bem, há uns tempos atrás, onde o cerne do seu povoamento tem como personagens pessoas de labuta dura, em luta titânica com as vagas oceânicas, em busca de peixe para tentar estancar a fome das famílias que lhes sustentavam o pé, qual eterna antecâmara do existencialismo que se satisfazia, tão só, com comida na mesa. Era o solarengo, mas pobre, país que tínhamos, e todos, em mar ou em terra, exceptuando uma centena de famílias que estendiam a sua garra a tudo o que fosse apetecível, tinham que esgadanhar fosse no que fosse para assegurar, minimamente, a sua sobrevivência.
Seguindo as pegadas da história local, agora em busca de reabilitação, os pescadores desta zona, na impossibilidade de exercerem o mester da pesca durante a estação invernosa, perante a necessidade de aconchegar o estômago todos os dias, com família sem qualquer planeamento, que a ignorância de modernos meios era coisa do futuro, deslocavam-se para sul, para a acalmia do Tejo, onde pescavam, essencialmente, o sável, que depois as mulheres vendiam nas aldeias vizinhas. 
Desta faina fluvial, feita nos finais do século XIX até à década de trinta do século XX, os avieiros estabeleceram poiso desde Vila Velha de Ródão até à Póvoa de Santo Adrião. Alves Redol, com espírito observador e inquieto para a época, imortalizou as andanças destes nómadas do rio no livro "Avieiros", que ainda hoje é a grande referência de que dispomos para melhor entendermos esta forma de vida, em que os protagonistas, quase de ventre ao sol e à neblina, navegavam, para cima e para baixo, sujeitos às benesses que o antigo Tagus lhes concedia. 
Ainda restam, nas duas margens, vestígios desta forma de vida. E foi em busca dela que, seguindo  pequenas pistas dos Avieiros, rumámos até Escaroupim, no concelho de Salvaterra de Magos, um lugar onde se procura preservar o rasto que os nómadas fluviais, que faziam do barco casa, por aqui deixaram. E por lá se preservam memórias num museu alegórico, coabitando com antigas casas, tentando resgatar o essencial do impacto destes "intrusos" numa zona que, na origem, não era a sua.
À nossa espera, bem imbuída do espírito do antigo Tagus, estava a equipa do "Rio-a-dentro", documentada, e de que maneira, ao nível histórico e ambiental - até às Memórias Paroquiais, referência obrigatória para qualquer historiador que se preze, foram beber - e que, na manobra dos barcos, vai instruindo os visitantes dos amores e humores do rio. Na deambulação das palavras, sempre bem medidas, a acompanhar, da melhor forma, os rituais do homem do leme, ficámos a saber como se formaram, e susceptíveis de continuar a formar, as ilhas no rio. E assim surgiu a ilha das garças (na foto), que milhares de aves escolheram para nidificar; a ilha dos cavalos, que os quadrúpedes frequentam em busca de erva fresca, atravessando o rio aquando da maré baixa; e a ilha dos amores que, pela sua configuração, suscitou a imaginação dos barqueiros. Entretanto, na margem direita, lá estava a Palhota, outra aldeia avieira - onde Alves Redol chegou a viver, para melhor documentar a sua obra - com habitações palafitas muito bem preservadas e, um pouco mais a montante, deparamos com Valada do Ribatejo, que é normalmente notícia aquando das cheias na estação invernosa.
No Tejo, a sua segunda casa, os avieiros procuravam enganar a fome, com a sua cultura muito própria, mas sempre sujeitos ao olhar desconfiado dos habitantes locais, que nunca entenderam aquela forma de vida. Eram nómadas, diferentes, não se encaixavam na cultura local. E foi necessário decorrer um século para que, finalmente, em terra de cavalos, touros e toureiros, os nómadas do rio tivessem algum esboço de compreensão.
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Não levei máquina fotográfica, porque sim, mas hoje talvez o fizesse. Em suma, não vale a pena tentar entender. :)
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quarta-feira, 19 de abril de 2023

QUER OUTRO PASTEL?

Imagem retirada da net
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O meu pequeno paraíso, ladeado por excelsas damas, a Gardunha e a Estrela - tão diferentes e, em simultâneo, tão irrigadoras do meu olhar - por mais inspirador, não basta para me apaziguar por completo. E, por uns dias, rumei para o litoral atlântico, sem artefactos tecnológicos, qual necessidade catártica na tentativa de abraçar o mar, o grande caldeirão químico onde tudo começou. 
Praia deserta, como convinha, toda a atenção para a reconhecida grandiosidade do oceano. E ele, qual eterno matusalém, parecia divertir-se a mostrar diversas facetas, com o conluio dos elementos. Enquanto arremetia contra o indefeso areal, desenhando nuvens efémeras de espuma, afastava qualquer curioso, por mais agasalhado, com a cumplicidade da neblina e do vento. Quando o intrometido se afastava, escorraçado, com uns pingos de chuva a completar o leque, o sol, inesperadamente, dava entrada em cena, primeiro timidamente, mas depressa dardejando com algum ímpeto, a ponto de o invasor sentir necessidade de despir o casaco e, quase sem se dar conta, começar a sorrir. Mas era sol de pouca dura, que o mar tem via privilegiada para invocar os elementos. E o casaco lá servia novamente de aconchego, até o visitante percorrer o que faltava para um bar com sala envidraçada, com vista privilegiada para o gigante em constante movimento, mas ao abrigo dos seus maus humores.
Ainda não eram nove horas. Na sala viam-se algumas pessoas, que pouco ou nada conversavam, pois a presença do mar, apesar da protecção da vidraça, continuava omnipresente. Escolhi o melhor lugar disponível, tendo em conta a vista, e sentei-me, deixando-me absorver, lentamente, pela paisagem marítima, com o pensamento a embalar numa deriva  de considerações, sem leme e sem âncora.
- Deseja alguma coisa?
Emergi da quase inconsciência. À minha frente estava um homem na casa dos sessenta, com alvos retoques na barba rala, devidamente aparada. Recuperei a presença de espírito e, num meio sorriso, limitei-me a dizer:
- Um café e um pastel de nata.
O homem regressou, serviu-me e, por uns instantes, deixou-se ficar a observar o mar. Aproveitei para meter conversa:
- Para quem gosta de ver o mar, e sentir o seu aroma, hoje está um dia ventoso.
Olhou-me e, após uma breve pausa, deve ter sentido que o novel interlocutor merecia alguma confiança. E ousou, num ditame quase cúmplice:
- Sabe, meu amigo, passei a vida atrás do vento, mas nunca o consegui apanhar. Mas, com tantas andanças, umas contra e outras de feição, acabei por encontrar o equilíbrio, conseguindo desenhar alguma paz. 
Olhou-me, serenamente, medindo a minha reacção. Depois, parecendo satisfeito com o que via, adoptou uma postura mais profissional, com um leve sorriso a denunciá-lo, e inquiriu:
- Quer outro pastel?
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terça-feira, 4 de abril de 2023

DESÍGNIO

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Margarida Cepêda, Ela, o violoncelo e as vagas
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Ela já era, mas não sabia.
Inquieta com os outros, fruto da sua opção de vida, procurava, o melhor que sabia, pejada de dúvidas, saber das nuvens que lhes cobriam os horizontes, do seu respirar sem convicção, dos parcos momentos em que, qual milagre da vida, a rara espontaneidade se concretizava num sorriso, por mais ténue. E, sempre atenta, registava o pormenor, depois da consulta, procurando dar cor aos nomes que, lentamente, parecia que se iam sumindo na paisagem, cada vez mais desertificada.
Ela era um anjo, mas não sabia. Contudo, os velhos que lhe adornavam a consulta, mal habituados à dignidade do trato e do olhar, sabiam-no desde a primeira vez.
Ela é como é e, perante o olhar melado dos velhos, e o respeito dos outros, começa a perceber, lobrigando perante as dificuldades de saber ser quando pouco ou nada se tem. Só ainda não entendeu, por mais que lhe digam, por que é que, em todo o lado, não é sempre assim, com a dignidade a não conseguir ganhar lastro.
Apesar do ruidoso silêncio dos hostis gestos dos conformados, prossegue na sua convicção, qual  percurso sem fim à vista. E persiste. Ela respira o equilíbrio do mundo em modo de vida e não se imagina de outra forma, pois cresceu a pensar que a proximidade e o calor de um gesto podem fazer toda a diferença. 
Ela é assim, a nossa doutora, qual joana sem pestana a tremelicar, mas de olho sempre a brilhar. Apesar de lamentar os falsos ais e uis de quem decide, ela continua a remar, contra ventos e marés, alimentando a alma com o que a preenche, qual miríade dum futuro por desenhar.
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terça-feira, 21 de março de 2023

ONTEM, HOJE, SEMPRE...

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Imagem retirada da net
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Eles, os observadores, não navegavam, preferiam a margem segura, mas admiravam quem ousasse profanar as águas, fronteira limite dum mundo, assaz aventureiro, que nada augurava de bom para o recanto onde cada um, aparentemente, sabia o que tinha a fazer.
Outros foram, com a alma adocicada, contrariando os oráculos, mas poucos regressavam. E, entre traumas e venturas dos sobreviventes, logo se alongaram os cais, não fosse o diabo tecê-las, apesar da negação das ancestrais professias: cada um no seu lugar, sem necessidade de abespinhar o urso.
Mais partiram, procurando a aurora noutras latitudes, poucos continuaram a chegar. Os jovens, fervilhando, não viam a hora de sentir o porvir, tal o seu ensejo; os homens feitos, apesar do aconchego do conceito de honra, embebido nas origens, começavam a meditar, nos intervalos da suposta epopeia, nos filhos que deixavam, nos campos que ficavam por lavrar; as noivas, arrasadas por uma realidade sem paralelo, para além dos ais, reinventavam um tempo sem tempo, em que apenas elas existiam, ácidas de tanto esperar, sem filhos por nascer; as velhas, envoltas em pesados trajes, nada diziam, apenas lamentavam, pois sentiam o drama. E, às escondidas, limitavam-se a carpir, não fosse a vizinha notar.
Quando um barco chegou, carregado de riquezas doutros mundos, toda a aldeia festejou. E o efeito multiplicou-se por outras, por muitas outras, quando novas velas se fizeram anunciar num porto, em dois, em muitos... E, por um tempo, perante a limitação do olhar humano, a efemeridade insinuou-se como deusa suprema, não fosse qualquer precavido, por mais sensato, perder o próximo barco.
Hoje, passados muitos anos, se alguém festeja a chegada de um barco, é apenas para descompressão dos solitários dias, mas sempre com a esperança, eterna filha em dias melhores, sempre no horizonte. Os hemisférios deslocaram-se, artificialmente, para outras paragens, a conversão da vida em possível festa tornou-se, irremediavelmente, uma questão por reinventar. Segundo alguns, ad aeternum, apesar de continuarem, por hábito, a fazer o sinal da cruz, à espera dum qualquer sinal, seja ele qual for.
Por aqui, num espaço aparentemente imune às questiúnculas dum amanhecer cavernículo, teima-se em deixar espaço às diferentes espécies de vida, cada qual com a sua importância: as ervas, após alguma chuva - não a suficiente - continuam a crescer, florindo; as árvores, num ritmo primaveril comandado pelos raios solares, desabrocham a cada dia que passa, fazendo sorrir quem as sente e observa; as andorinhas fazem-se anunciar, reivindicando, quase que por magia, os ninhos ocupados de antanho; os pardais, sempre omnipresentes, continuam a fazer sentir a sua arruada, como se fossem donos e senhores do espaço; os pintassilgos, muito mais discretos e imunes à presença humana, teimam em debicar sementes e insectos, sempre num voo elegante; os melros, definição perfeita do que é ser esquivo e ladino, poisam aqui, debicam ali, procurando nunca denunciar onde habitam; as pegas-rabilongas, as malfeitoras do lugar, pois devoram qualquer couve jovem, denotam confiança e desfaçatez, mas afastam-se ao mínimo ruído; mais acima, as cegonhas, com ninho nas proximidades, passam ao fim da tarde, num voo ergonómico, com as patas a projectar-se para trás, em consonância com a cabeça, que se projecta para a frente, desafiando, ou evitando, qualquer obstáculo que se lhes depare; as aves de rapina, mais altaneiras, dominam a estratégia do olhar, procurando, socorrendo-se da emanação das correntes de ar, definir qual a melhor forma de apanhar este rato, ou aquele coelho, deitar as garras àquela serpente...
Por mais que, no exterior, os quadros se pintalguem de cores funestas, por aqui o vento continua a soprar, instalam-se os primaveris raios solares, começam a lavrar-se as terras, com as abelhas e as borboletas, qual benfazejo sinal, a dar sinal da sua presença. E eu, apesar dos anunciadores da desgraça, continuo a acreditar.
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sábado, 11 de março de 2023

LAUROS, MELROS E EQUILÍBRIOS

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AC
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Foi na manhã deste sábado, mas poderia ser a qualquer hora dum dia qualquer. Aproveitando a folga dada pela chuva - deveria chover mais, era bom para todos, penso para mim, apesar de, incoerente com o pensamento,  me animar com o sol que espreita - fui lá para fora podar a sebe de lauros que contracena com os dois portões da entrada, com a noção de que já era mais que tempo, pois  estas plantas, se houver qualquer descuido, tendem a crescer desmesuradamente. Até aos 12 metros, informa-me o Google.
O trabalho, ou melhor, o prazer de andar ao ar livre, sem restrições, absorvendo as múltiplas formas de vida, de forma natural e com isenção de formatações - a cada dia que passa, e num agradável aviso pré-primaveril, o chilreio da passarada, com novas espécies migradoras à compita, está mais diversificada, as abelhas e as borboletas, numa azáfama constante, estão cada vez mais presentes, as árvores começam a dar sinais de despertar, num perpétuo ciclo em constante equilíbrio - prosseguia em bom ritmo, de alma lavada, sem questões existenciais, numa progressão de baixo para cima. Às tantas, e chegado a um patamar em que a altura dos lauros já aconselhava um corte radical, não fossem eles escarnecer do estado de crescimento dos seus pares, já devidamente podados, deparo-me com um ninho de melro. A situação não me era desconhecida e, a fim de contrariar o acontecido há dois anos, interrompo de imediato a faina, com o prazer a esfumar-se, ou antes, a ter que ser reformulado. E, apesar da sensação de templo profanado a pairar no ar, ousei ir a casa em busca da máquina fotográfica para registar o momento. Com cuidado, muito cuidado, subi três degraus do escadote e preparei-me para o registo da imagem. Mas o sentimento de culpa, essa herança judaico-cristã que nos acompanha de braço dado, com garras profundas, não me permitiu captar o momento com a atenção desejável. E, quase a medo, lá despachei o clique, com receio de que a casa alheia, sabiamente tecida, fosse rejeitada pelos seus habitantes, atendendo à sua vulnerabilidade, apesar de, desta vez, ela continuar bem camuflada.
Com a preocupação de nada, ou pouco, incomodar, e só com uma apressada tentativa, pouco de acordo com os cânones, a fotografia ficou má, é um facto, e quase me regozijo por isso, qual acto de penitência pelo meu descuido no afã da arte de bem podar. Talvez, e fico a torcer muito por isso, o casal de melros continue a sentir-se em segurança, apesar da intrusão do podador. Era sinal de que, a pouco e pouco, e apesar dos meus percalços, vou conseguindo equilibrar-me com o que me rodeia, no mundo natural, com o menor impacto possível. 
Regresso a casa, devagar, com o escadote numa mão e a tesoura e o serrote na outra, num agridoce debate de sentimentos. De repente, como se os deuses me escolhessem para diversão, oiço à distância  o delicado canto do casal de pintassilgos que, de há uns tempos a esta parte, por aqui aportou. Estaco e, quase sem me dar conta, esboço um sorriso perante tal dádiva. É o suficiente para o meu sol interior começar a brilhar, sem restrições.
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sábado, 25 de fevereiro de 2023

NÃO CHORA, NÃO?!

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Margarida Cepêda, Transparente
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Após uma actividade qualquer, algures a meio da cidade, os pais do Miguel, o meu neto, e os da Diana, uma amiga de creche, resolveram ir até ao Parque Verde. Aí chegados, o escorrega foi o divertimento de eleição para as duas crianças, ambas com cerca de dois anos e meio.
A brincadeira começou, os risos soltaram-se e, para eles, parecia não haver fim à vista, com os adultos, por perto, agradados com o desenrolar. 
O tempo foi passando e, às tantas, os pais da Diana começaram a olhar para o relógio, pois tinham outro compromisso. Com todo o jeito possível, abeiraram-se da menina e disseram-lhe que tinham que ir embora. A pequena, contudo, estava a adorar a brincadeira e, vai não vai, resolveu socorrer-se do argumento mais eficaz que conhecia para a poder perpetuar: começou a chorar. Nestas alturas, já se sabe, os adultos tentam tudo para acalmar a criança, cada um tentando ser mais convincente que o outro. 
Por entre a agitação, quase ninguém reparou no Miguel que, compenetrado, olhava para o chão em busca de qualquer coisa. Às tantas pareceu satisfeito, apanhou o que queria e aproximou-se da amiga, que continuava a chorar. Depois, com ar quase solene, mas pejado de carinho, estendeu a mão, abriu-a, deixando ver uma uma pequeníssima pedra brilhante, e disse-lhe, com o encanto que só as crianças sabem ter:
- Toma, Diana. Não chora, não?!
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

PARA LÁ DOS CARNAVAIS

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AC
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O dia decorre cinzento, pouco apelativo, como que a ilustrar as notícias que chegam do mundo.
Contudo, quem está minimamente atento sabe que para o emissor a desgraça é que se propaga, qual fogo em terreno seco, em detrimento do gesto benigno, fazendo subir audiências. E a multidão, refém duma lógica pastoral, manipuladora do rebanho, devora a mensagem sem qualquer sentido crítico.
Como que a querer contrariar maus presságios, vislumbro lá fora, através da vidraça, um casal de pintassilgos a debicar aqui, a debicar ali, com toda a delicadeza, fora do raio de acção doutro casal, mas de melros, cuja envergadura, muito mais desenvolvida, aconselha afastamento aos pesos pluma. Os pardais, como sempre, são omnipresentes, como se fossem donos do território, e nem os gatos que por aqui deambulam os conseguem incomodar. Uma aproximação, um voo lesto, cada um sabendo ocupar o seu lugar, com os pequenos felinos a desenvolver, agora e sempre, o culto da resignação.
Saio de casa. Os pintassilgos e os melros esgueiram-se num ápice, mas os pardais, confiantes, ficam por perto. Em volta a vizinhança anda muito ocupada na lavra dos terrenos, prenúncio das sementeiras primaveris que se aproximam. À medida que lavram, num sempiterno ritual, a passarada acompanha o compasso, sempre à retaguarda, atenta a toda e qualquer lagarta colocada a descoberto, banqueteando-se sem qualquer sentimento de culpa. Isso é para os bípedes falantes.
Cinjo-me ao meu pequeno paraíso, repleto de ervas silvestres, onde as margaridas são rainhas. Reparo nas amendoeiras, cada vez mais adornadas de flores, enquanto o damasqueiro, mais dorminhoco, começa a insinuar um tom róseo, procurando imitar os marmeleiros japoneses que, mais junto da casa, há muito alegram o local. Com maior avanço seguem as nespereiras, com o fruto já na infância, aguardando por dias de mais sol para melhor se desenvolver. As outras árvores - macieiras, pereiras, cerejeiras... - sem pressa no parto, reservam-se, pacientemente, para o seu tempo de esplendor, enquanto uma ou outra ave lhes vai enfeitando, por breves momentos, os ramos nus.
Lá no alto, planando sem pressa, as aves de rapina - um ou outro milhafre, quiçá um açor, ou um bufo, talvez uma águia - aguardam pela melhor oportunidade para deitar as garras à cobiçada presa, reservando o uso do bico para quando estiverem instaladas no ninho.
Caminho, olho, absorvo. Quando, por fim, e já de alma saciada, retomo o caminho de casa, ouvir uma boa música apenas serve para complementar o efeito. Ligar a televisão é, naturalmente, a última das minhas prioridades.
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sábado, 11 de fevereiro de 2023

CRÓNICA AO CORRER DA PENA

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AC
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Segundo alguns estudiosos, há aquilo que queremos ser, aquilo que os outros querem que sejamos e, em última instância, aquilo que realmente somos.
Quase parece uma regra três simples, sujeita à nossa vontade, mas nestas coisas, quando o sentido da vida é o foco, nada é simples, por mais que se multiplique isto, divida aquilo, equacione aqueloutro. E, enquanto nos questionamos, a vida vai discorrendo, sem contemplações para angústias e dilemas, sorrindo de soslaio perante tanta interrogação. 
Para um observador mais cínico, com o desdém à flor da pele, a referência bíblica "crescei e multiplicai-vos" é motivo de motejo. É que nós crescemos cultivando a multiplicação, de tal forma que já excedemos a quota da sustentabilidade e, além de não nos desenvolvermos de uma forma espiritual, continuamos nos primórdios em termos de objectivos: limitamo-nos a sobreviver, a simplesmente sobreviver.
Bem sei que há a ciência, a arte nas suas múltiplas formas, a filosofia e a religião, mas, da forma que os auto-proclamados chefes da barca a estão a conduzir, tudo se resume, para a imensa maioria, ao (mau) exemplo romano: pão e circo. Quo vadis, humanidade?
Reparo agora que, ao iniciar a crónica, e dispondo da fotografia que encima o post, a intenção era ser positivo. E eu, que me refugiei num pequeno paraíso natural, constato o evidente, para lá da minha individualidade: crescei e multiplicai-vos, sim, mas em amor, justiça, esperança e respeito pelo outro, com cada um a fazer a parte que lhe corresponde. Tão só. O resto vem por acréscimo.
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domingo, 5 de fevereiro de 2023

QUANDO DO ESCURO SE FAZ LUZ

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Margarida Cepêda, Violino e chantili
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Ele chegou cedo, tal como estava previamente combinado, sendo recebido com todas as mordomias por quem estava presente. Mas faltava algo.
- O avô? - questionou ele, perante a imperdoável falta do visado.
O avô, esse compincha dos sete costados, que tinha o condão de poder voltar a menino na sua presença, estivera de véspera a ver um filme, que o prendera até tarde, sem noção das horas, e só agora começava a abrir os olhos. Contudo, mal se apercebeu dos primeiros sinais do neto, levantou-se num ápice, qual adolescente no encontro com o primeiro amor e, abrindo os braços, exclamou, de forma espontânea:
- Migueeelll!!!!
O neto, dois anos e meio de gente a crescer, a cada dia que passa, não se coibiu de notar, enquanto o abraçava, em jeito de reprimenda:
- Avô! Tu gostas do escuro?
Na sua interpretação das coisas, qual luz vitoriosa sobre todas as sombras, ele tinha razão, mas deixei as explicações para mais tarde. Limitei-me a abraçá-lo, ainda mais, qual manto protector de todos os males do mundo. 
Faz-me tão bem, este menino!
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sábado, 25 de junho de 2022

ENTRETANTO

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Margarida Cepêda, As nossas teias
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Há um tempo de frenesim na vida, no nosso crescimento, como se as coisas nos escapassem por entre os dedos, fugindo à vontade de mudar o mundo a nosso jeito. Mas, plenos de energia, continuamos.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo duma suposta estabilidade na vida, em que, a pretexto de salvaguardarmos os nossos, começamos a ser condescendentes. Mas os bens materiais são o perfeito antídoto para anestesiar a consciência.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas, com alguma ajuda, apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo em que, por mais que nos custe, começamos a envelhecer. Mas socorremo-nos de todos os artifícios para adiar o inevitável.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas continuam a lutar, com alguma ajuda, para sobreviver.
Há um tempo em que, por fim, nada mais há para adiar. E só nessa altura, sem nada para subornar a ceifeira, temos a plena consciência da nossa condição.
Entretanto, noutras latitudes, há muito que os contemporâneos  de nascimento foram tragados pelo inevitável. Mas, felizmente, com maior ou menor ajuda, os que restam continuam a lutar para sobreviver.
Haverá um tempo em que, para lá do tempo que foi, apenas restará a lição. Só então, por mais que doa, se evitará a contra-mão.
Entretanto...
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sábado, 11 de junho de 2022

PARA ALÉM DO TEJO, COM BORBA COMO PRETEXTO

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AC, Fachada do antigo Hospital do Espírito Santo, em Borba
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Por entre uma história de corrupios e arrepios, desavenças e avenças, com muita insegurança de permeio, assim se cultivou um povo sobrevivente, de parcas e tímidas posses, mas que soube encontrar, na sua resiliência, a forma de escapar a um trágico destino. Muitos emigraram, povoando os dormitórios da capital, outros ficaram, cultivando um lamento muito próprio, em tom dolente, mas sempre com um sorriso muito próprio à espreita de assomar na primeira oportunidade. E, quando se conseguem libertar da canga, bebem, cantam, confraternizam, ironizam...
Em Borba, para lá das pedreiras e do vinho, a sua maior riqueza, há todo um manancial de culturas entre-cruzadas de conquistadores e conquistados, de sobreviventes e assimilados. E, por entre as fachadas de mármore, material só acessível a quem estava de bem com Deus e o Diabo, o casario  humilde, sem pretensões, acabava por agradar a todos: a uns, porque dispunham de mão-de-obra barata e sempre disponível; a outros porque, apesar de tudo, acabavam por usfruir dum tecto para abrigar os seus. Tudo isto à sombra dum castelo, obrigatório em terras tão inseguras, e do qual já pouco resta.
Entre diferenças - sempre presentes, tal era o abismo - o engenho acabou por moldar a arte.  A escassez da maioria, herança acumulada de séculos, deu azo a criatividades várias, com o campo, fora da supervisão dos poderosos, a contribuir com coentros, orégãos, poejos, hortelã, alecrim, louro e outros que tais, dando forma, consistência e sabor, a um considerável número de pratos tradicionais que muito orgulham os residentes, apesar de pouco, ou nada, se passar da cepa torta: ontem para comer, sobrevivendo, hoje para vender, continuando a sentir, no âmago, ainda e sempre, o sentido do verbo sobreviver.
O Alentejo, por mais voltas e contra-voltas que dê, nunca deixa de me encantar. As suas gentes, moldadas na herança de mil e um povos que calcorrearam o território, com um toque q.b. das planícies solarengas, com um olhar sempre projectado, inconscientemente, no horizonte, são uma espécie única. Para melhor.
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terça-feira, 31 de maio de 2022

O ETERNO (D)ESCAMAR

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AC, Pedreira de mármore em Borba, Alentejo
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Alentejo sonante, aparentemente adormecido, Alentejo cantante, com mil e um ais de herança. Para lá da diáspora, o território continua a reinventar-se, a sobreviver, como que a querer dizer aos demais que por ali há gente de alma nobre, afeiçoada à terra, onde se misturam, qual receita milenar dum equilíbrio identitário, a humildade, a simplicidade e o orgulho de se ser, conjugando, numa forma única de saber estar, as suas raízes profundas com a abertura, sem concessões, das janelas para o mundo. E, podem crer, para lá dos horizontes abertos, essa é a sua maior riqueza. 
Tínhamos passado o sábado em Estremoz, que nos acolheu de forma surpreendente. Se, por um lado, já estávamos à espera de nos maravilharmos com os bonecos de Estremoz, agraciados pela UNESCO como património da Humanidade, o Museu do Azulejo, que desconhecíamos - no género, é o maior da Europa, talvez do mundo - foi uma daquelas surpresas que, pelo inesperado, suscitou mais exclamações. Uau!, da forma mais espontânea, foi a mais sentida. E, por entre maravilhas e encantamentos, acabámos a sessão a comer uma belíssima sopa de cação, que rima e com muita razão (de ser).
Pernoitámos em Vila Viçosa, que continua, orgulhosamente, a recordar Florbela Espanca e, após alguns acordes tocados à monumentalidade histórica, sem araganças mas com muitos Braganças de permeio, fomos visitar uma pedreira de mármore, cartaz obrigatório desta região.
Eu dizia, a cada camada, tu dizias, deslumbrada... E, por mais que se olhasse, e sentisse, ficava sempre a sensação duma explicação incompleta. Tal como se falássemos da vida. Fotografe-se, pois, antes que a veia nos escape.
A tarde passou-se na nóvel cidade de Borba, com o mármore - tal como em Estremoz e em Vila Viçosa - sempre presente, ou não fosse esta a Rota do Ouro Branco. Como cartaz, numa arquitectura apaziguadora, bem integrada, lá estão os palácios, o castelo, os fontanários, as igrejas, o casario medieval... E sempre, mas sempre, com uma forma muita própria de estar dos residentes, qual reserva natural duma genuína identidade talhada pelos tempos.
No final, a convicção: há que voltar, mas desta vez com mais vagar. O sentir, o cantar e a forma de estar desta região bem o merecem. Talvez, quiçá, saibamos mergulhar ainda mais profundamente na alma desta gente.
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sexta-feira, 6 de maio de 2022

PONTES, BALOIÇANTES, ENTRE O VELHO E O NOVO

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AC, Ruínas do castelo de Castelo Novo
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Caminha-se pelas graníticas ruas de Castelo Novo, quase sem vivalma, com marcas evidentes dum passado já longínquo. Ainda assomam esboços de personagens por entre as rochas, à socapa, como que a querer-nos contar a história a seu modo, mas só os mais observadores reparam nelas. O passado entristece pelo desprezo, como que a augurar que, assim, o futuro não será nada risonho.
Nalguns quintais, em casas mais desafogadas, as laranjeiras e os limoeiros continuam a manter o porte digno. Mas também nalguns becos, com pequenas casas bem aconchegadas, se conseguem vislumbrar as vivências doutras eras. Incertas, pela certa, temperadas por uma religião, sob a égide da Ordem de Cristo, herdeira dos Templários, que apostava, acima de tudo, no simbolismo. Como dizia uma certa fadista, cantarei até que a voz me doa. Por mais que sofrida.
Em toda a área circundante da pequena aldeia - já foi concelho, note-se, daí ser obrigatório, para qualquer visitante, espreitar o Pelourinho e a antiga Casa da Câmara, ainda bem conservados - se sente o abraço aconchegante da Gardunha. As encostas já foram riqueza florestal, é verdade, mas o amarelo das giestas, nesta altura do ano, a substituir o negro dos incêndios, adorna os afloramentos graníticos duma beleza singela, combinando a rudeza da rocha com a delicadeza da flor.
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AC, Encosta da Gardunha sobranceira a Castelo Novo
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No castelo roqueiro, ou no que sobra dele, a visão panorâmica amplia-se. E por ali ficamos, contemplando, deixando aflorar uma mescla de informações que nos foram tatuando ao longo do tempo, embalados no cantar da água das duas ribeiras que circundam a povoação: a Ribeira de Gualdim (referência ao Mestre Templário Gualdim Pais, pela certa) e a Ribeira de Alpreade, onde ainda se podem observar as ruínas de várias azenhas que marcavam o quotidiano doutros tempos. E é neste enquadramento, com o tempo parado, que se recorda o essencial do foral concedido pelo rei, com as antigas lendas a ganharem alforria, dando vida a cada esquina, enquanto se vislumbram algumas casas senhoriais, amplas e desafogadas, contrastando com a necessidade do esforço hercúleo dos braços da populaça para garantirem o sustento, mais de uns do que de outros.
O sol começa a inclinar, tal como o tempo, convidando a uma visita diferente, entre quatro paredes, a fim de restaurar o corpo e a alma. E assim, ainda embalados por histórias de outros tempos, com um leve aroma de Belisandra no ar, se manipulou faca e garfo, com um sorriso de satisfação sempre presente. Estômagos refeitos e mentes claras, bem o sabemos, ajudam sempre a mitigar o caminho.
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sexta-feira, 29 de abril de 2022

PEQUEN(ÍSSIM)A

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Gostava de escrever mas, de há uns tempos para cá, começava a cansar-se de tal exercício, nem sabia bem porquê.
Pensou nos seus leitores, ainda que poucos e, por um momento, tentou escrever meia dúzia de frases. Mas faltava a alavanca, a convicção de dizer algo, no seu íntimo, que valesse a pena ser lido. Seria que estava a desacreditar da vida?
Continuou a tentar, mas a coisa não fluía. E, naturalmente, foi protelando.
Um dia, quase por acaso, num passeio de ocasião, descobriu que as silvas estavam a invadir o recanto mais afastado do terreno. Podiam estar ainda longe, mas sabia que, se não as olhasse olhos nos olhos, em breve elas tomariam de assalto tudo o resto. Então, convicto, e apetrechado dos utensílios necessários, como se nada mais interessasse, deitou mãos à obra.
No final, a olhar para o trabalho feito, com algum suor, e quase sem se dar conta, a passarada voltou a cantar.
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sábado, 9 de abril de 2022

ASCENSÃO

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Margarida Cepêda, Ascensão II

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Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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Olhou para cima, remirou, calculou perspectivas de ângulos e saliências e, satisfeito, fez uma última inspecção à mochila.
Começou a trepar o pequeno monte, galgando metros, enquanto contornava, com algum deleite, pedregulhos e arbustos. As giestas começavam a florir - são afrodisíacas, segredara-lhe alguém, num dia de maior intimidade - a passarada, de tão efusiva, parecia tecer louvores à vida, o corpo parecia enquadrado na empreitada. Ora vamos lá.
Continuou a subir, num misto de maravilha e determinação, sempre em crescendo, como se tudo se tornasse mais simples à medida que irrompia no templo natural. E o vislumbre, a meia encosta, duma gruta dissimulada pelos arbustos, longe de intimidar, apenas acentuou a vontade de comungar com os elementos, de dar configuração aos pequenos sinais, de se tentar integrar num todo.
Após observação cuidada, em sintonia com a linguagem do local, focou-se nalguns pormenores: no lado esquerdo cresciam três rosadas dedaleiras, qual convite agridoce, a deslumbrar, em simultâneo, os sentidos, mas com um travão bem afinado quanto à sua toxicidade; ao centro, mesmo junto da entrada, fezes dum qualquer animal (raposa? javali? coelho?) faziam antever que a gruta seria habitada; no lado direito, duma forma singela, cresciam, a custo, meia dúzia de estevas, em plena floração, atraindo algumas abelhas. Apesar de saber que os javalis não gostam de frequentar altitudes, resolveu não entrar na gruta. Estava ali de visita, o mais discreta possível, e tentar não interferir com o equilíbrio do meio era condição obrigatória. E lá foi, decidido, continuando a ascensão. 
A dada altura a inclinação suavizou, dando azo a um curto promontório onde, num recanto mais abrigado dos ventos, sobrevivia uma capela medieval que, quase miraculosamente, continuava a ostentar um relógio de sol numa das paredes. Fez uma curta pausa para apreciar a preciosidade, enquanto retirava da mochila a garrafa de água para um gole retemperador. Depois, sem pressa, prosseguiu no seu rumo.
Quando o cume, de tão próximo, já começava a estender a passadeira para o receber, sempre por entre fraguedos, um canto peculiar chamou-lhe a atenção. Era um melro-azul, muito raro naquela altitude, mas que fazia questão, era grato pensar, de lhe dar as boas vindas. E, embalado pelo canto da ave, lá encetou as últimas centenas de metros do percurso, onde o aguardava uma visão panorâmica que esgotava todos os graus da convenção matemática. Agora, lá no alto, era só ele e o universo.
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quinta-feira, 31 de março de 2022

POR MORRER UMA DOURADA, NÃO ACABA A ANDORINHA

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Pegou no saco de carvão vegetal e, com os devidos cuidados, abasteceu o grelhador. Aplainou o nível da negra substância, colocou a grelha  cerca de 30 cm acima do carvão e colocou os pedaços maiores do carburante por cima da grelha. Depois, socorrendo-se da lenha miúda que fora acumulando no outono anterior, dispôs os gravetos por cima do carvão. Acendeu duas pinhas, colocou-as em locais estratégicos no meio da lenha e aguardou que a combustão se desenvolvesse, qual desígnio com fim bem controlado.
Saciado o apetite voraz do lume, com desenhos incandescentes, sempre em fase crescente, a querer dar mostras de gente crescida, às tantas, com o carvão na parte superior da grelha já a crepitar, era hora de envolver a camada superior com a inferior, qual rasgo de homogeneidade, não fosse o diabo tecê-las. E assim se misturou o carvão elevado na superfície da grelha com a arraia miúda do purgatório, qual inferno sem Dante. Mas, dou-me conta, há quem cante, nem que seja eu, com muitos sorrisos de permeio.
Com o lume estabilizado, era hora de colocar as douradas (da Madeira, dizia o folheto) na grelha. E o grelhado, com a bênção de cinco paredes, ficou mesmo a preceito, com o manuseador a usufruir da bênção da ausência da sexta parede.
Quando levou as douradas para a mesa, com o azeite e o vinho da região já a postos, do fogão tinham acabado de sair alguns legumes cozidos a preceito, não fosse a ocasião arrefecer. Tudo a combinar, tudo em harmonia, tudo em prol da compreensão e do usufruto da vida.
Através da vidraça, enquanto se degustava, viam-se duas andorinhas pousadas no estendal da roupa, muito compenetradas, pondo a conversa em dia. Não falavam das douradas, tenho a certeza. O desdém pelo meu contentamento era compreensível, elas tinham muita roupa para lavar. :)
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