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sábado, 17 de julho de 2021

QUANDO OS SINOS AMEAÇAM COMEÇAR A DOBRAR

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Margarida Cepêda, Metamorfose e labirinto
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Sei como gostas duma canção suave, ancorada num fim de tarde apaziguador, com o murmúrio da brisa a desenhar nas árvores, por entre as aconchegantes solaridades da despedida, a tua sensação de bem-estar. Sei, mas não vou por aí.
Hoje, nem sei porquê, apetece-me falar da avidez dalgumas formigas, que tudo invadem, do escorpião que se aventura para lá da porta escancarada, das moscas que pousam em qualquer porcaria, das andorinhas que de tudo dão conta e comentam, das pombas que, contrariando a ideia do ramo de oliveira no bico, vão benzendo a terra num constante cerimonial de ácidas fezes.
Que é isso?, questionas tu. Que fel te amarga os dias para proferires tais impropérios? Não vês que, qual eterno sinal de esperança, continuam crianças a nascer?
Não, não vou mesmo por aí, nem por além. Apenas queria recordar-te que, nestes tempos conturbados e sem memória, a cantilena que nos fazem ouvir apenas nos induz ao cultivo dos extremos: ou se aplaude, com o sorriso n.º 5, ou se dá largas à vaia, com o cenho bem franzido. Com esta a ganhar por ippon, que a reputação do circo das desgraças não se constrói com falinhas mansas, apenas nos resta resistir e, em simultâneo, tentar construir algo de novo. Não há outro caminho, por mais que doa, mas o espaço e o tempo são cada vez mais curtos. E eu, que raramente rezo, tendo a tecer esboços de mil e uma orações, por entre algumas acções, que me vão rasgando os calções. Em prol das crianças que nascem, acima de tudo. Elas merecem um futuro com maior luminosidade.
Lá no alto, aparentemente indiferentes a tudo, as aves de rapina planam, ao sabor da corrente, à espera da melhor oportunidade. Elas sentem que o seu momento vai chegar.
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segunda-feira, 21 de junho de 2021

PULSANDO PARA LÁ DOS ANÚNCIOS PUBLICITÁRIOS

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Margarida Cepêda, A forma é o invólucro da pulsação
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O bebé chorava, de forma desesperada, pela ausência da aura materna, enquanto o adolescente exultava, ainda que de modo incipiente, pelas mesmas razões. Um não se queria desligar, o outro começava a dar os primeiros passos para se desconectar. Ambos por necessidade.
A Rita subia, apressada, as escadas que a levariam ao miradouro, impelida pela vontade de ver e sentir quem esperava por ela. O João, num escritório dum 12.ª andar, tentava iludir os avanços da chefe. A Sílvia, enquanto abraçava a filha, pensava na melhor forma de lhe arranjar a roupa de que ela tanto carecia. O António sentava-se, quase conformado, perante os infrutíferos esforços para arranjar um novo emprego. A Eva, na casa de banho, socorria-se da maquilhagem para tentar ocultar as olheiras dum sono incerto. O Carlos, cabisbaixo, sentia que tinha que fazer o que não queria: incomodar os pais para o pagamento da prestação que se aproximava. A Nocas, entediada na espreguiçadeira, suspirava pelas festas com os amigos.
A Florbela e o Jacinto viviam no mesmo Lar, mas não se conheciam. Partilhavam, contudo, o mesmo sentir: a ausência da família, a falta de liberdade e, acima de tudo, sentiam que já não contavam. Sem se darem conta, as memórias dum ser único, a mãe, começou a povoar-lhes os dias, amaciando-os, qual porto de abrigo para os preservar daquela realidade. Mas não chegava. E o Jacinto, de tempos a tempos, com o olhar cada vez mais apagado, lembrava-se das palavras do poeta José Gomes Ferreira: viver sempre também cansa. Duma forma mais profunda, estava na hora de voltar, como canta Abrunhosa, para os braços da sua mãe.
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