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quarta-feira, 21 de abril de 2010

O LICÍNIO

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Vivia-se o bulício da hora do recreio. No espaço situado junto ao portão da entrada, como era hábito, um animado grupo, aproveitando a configuração favorável do terreno, saltava à corda. Como o número de candidatos era considerável, foi necessário formar uma fila onde a pequenada, impaciente, aguardava a sua vez.
O Licínio é que não estava para isso. Como quem não quer a coisa, chegou-se à frente e empurrou o cabeça de fila, aprestando-se para entrar em acção. Remediado o problema, o prevaricador ficou de castigo encostado ao muro a ver saltar os outros.
Entretanto desloquei-me para as traseiras da escola, onde se praticava outro género de brincadeiras. Fiquei por ali uns minutos, a observar o descarregar de energias. De repente sinto um toque subtil nas costas. Viro-me e...
- Já posso sair do meu lugar?
Era o Licínio, com ar muito compenetrado. Deslocara-se do lado oposto do recinto do recreio para saber se já podia sair do lugar. Não consegui evitar um sorriso, mas não lhe dei muito troco. O recreio continuou, mas sentia-o por perto, a querer aproximar-se. Às tantas, numa situação qualquer de faz-de-conta, levantei um dos petizes no ar, perante a algazarra dos restantes. E continuei a andar. É então que intervém o Licínio, dirigindo-se aos colegas com o ar mais natural do mundo:
- O senhor professor até pode com uma vaca às costas!
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

ARGUMENTO PARA UM INTERVALO DIFERENTE

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Último dia de aulas do período. Num cantinho do recinto do recreio, resguardado de outras brincadeiras, o Pedro escava na terra. De repente, após um gesto mais convicto, do buraco sai um pequeno raio de luz. Curioso, o Pedro escava com mais força. Mais um, dois, três golpes, e o brilho alastra a todo o recinto.
As brincadeiras param. Lentamente, num misto de curiosidade e desconfiança, os pequenos figurantes dirigem-se para o local da fonte luminosa. Então, qual filme animado, sete sorridentes formigas saltam do buraco e, a um sinal da líder, a do meio, iniciam uma coreografia hilliwoodesca, entoando em simultâneo:
..........É tempo de parar!
..........É tempo de folgar!
..........Vamos lá meninos
..........Não parem de saltar!
Depois, após um solo de sapateado da chefe, entoam em uníssono, de antenas em riste:
..........E quem não salta, não é da malta!
..........E quem não salta, não é da malta!
E toda a gente saltou, transformando o recreio numa festa ainda maior que o habitual.
A Teresa, a auxiliar, esfrega os olhos para acreditar no que está a ver. Estaria a sonhar?
Quando volta a olhar, os pequenos continuam a brincar como sempre fizeram: uns saltam à corda, outros jogam às apanhadas, outros à bola... Só o Pedro, no seu cantinho, continua a escavar o buraco, à procura não se sabe bem do quê.
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terça-feira, 3 de novembro de 2009

A VALSA LENTA

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O Outono entrou de mansinho, mas a sua sinfonia colorida, em tons nostálgicos, já se faz notar.
As árvores da escola, correspondendo a um ciclo imemorial, começam a libertar as folhas que, numa dança suave, se encaminham para o novo anfitrião, a terra batida do recinto do recreio. Quando o tapete começa a ganhar forma, a Teresa, a auxiliar da escola, não está pelos ajustes: mal arranja um tempito nos seus afazeres, pega na vassoura e vai juntando as folhas invasoras em montinhos, destinando-lhes o contentor como morada. Só que às vezes chega a hora do recreio antes de ela acabar o serviço, e aqueles montinhos, ali mesmo à mão, são verdadeira cobiça para as brincadeiras, principalmente dos mais novos. E então é vê-los, radiantes, atirando as folhas ao ar, como que dizendo:
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..........Eu gosto de apanhar folhas
..........Ouvir o vento a soprar
..........Correr pela estrada fora
..........Como se fosse a voar
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Quando os pequenotes entram para a sala, um mar de folhas coloridas cobre todo o recinto, extenuadas das brincadeiras daquelas mãos afoitas e entusiastas. Então a Teresa, pacientemente, junta-as de novo, mete-as num saco e leva-as para o contentor.
Indiferentes a tudo, e seguindo uma lei do princípio do tempo, das árvores, em ritmo de valsa lenta, outras folhas vão caindo...
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domingo, 18 de outubro de 2009

GOOOOLO!!!

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Intervalo na escola. Os miúdos mais velhos, após tragarem o lanche em três tempos, assumem o papel cimeiro da hierarquia do recreio e ocupam o terreno de jogo. São eles quem mais ordena, e aos mais novos nada mais resta que aguardar, ansiosos, com os olhos implorantes a mendigar um convite. Desta vez o Duarte teve sorte. A bola começa a saltitar. O Duarte, sete anitos vivos e escorregadios, corre que se farta para chegar junto da cobiçada redondinha, mas os mais velhos são mais rápidos e chegam sempre primeiro. Ele bem se esforça, mas a bola foge, parece que está zangada com ele. De repente, qual presente inesperado dos deuses, a bola insinua-se à sua frente. Parece que lhe está mesmo a dizer "chuta-me, depressa!". O Duarte não se faz rogado a tão inesperado ensejo e, quase sem saber como, levanta o pé direito e remata com toda a força. A bola, impulsionada pelo desejo de mil glórias, dirige-se para a baliza. O João Franco, o guarda-redes, bem tenta segurá-la, mas nada pode deter a força de tamanha convicção. 
- Goooolo!!! 
O contentamento vem-lhe do mais fundo de si mesmo. Aquele momento é só dele, e manifesta-o de forma exuberante. Até os mais velhos o olham de outra forma, a caminho do respeito. Mas não lhe dizem nada.
No fim do intervalo o Duarte entra na sala, todo transpirado, ainda a gozar o seu momento de glória. Feliz como só uma criança pode ser.
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terça-feira, 6 de outubro de 2009

COM A MÃE NO BOLSO

.Para a Graça
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Todos os anos se repete o ritual. À escola chega uma vintena de novos alunos, passaritos de asas curtas em busca da carta de alforria no voo. A professora, ao recebê-los, tem como preocupação que façam daquele o seu espaço, que criem laços afectivos e cumplicidades, ao mesmo tempo que lhes vai incutindo regras e formas de estar, fundamento básico para lhes começar a introduzir, paulatinamente, os rudimentos da interpretação dos diversos códigos que lhes proporcionem a melhor ligação possível com o mundo que os espera lá fora: na língua materna, na matemática, no conhecimento do meio envolvente, ao mesmo tempo que lhes vai estimulando a solidariedade, a civilidade, a amizade e outras ade.
Os olhos da maioria não escondem o entusiasmo. Parecem potrinhos sem freio, ávidos de galopes intermináveis por territórios bem delineados no sonho, apenas apaziguados por sono retemperador.
Mas há sempre um ou dois que não trazem as defesas necessárias para conviver harmoniosamente num grupo com tanta energia à solta, ávido de se manifestar e de deixar marca de si. Sentem demasiado a mudança de território, e o desconforto fá-los recordar, constantemente, a segurança das mãos da mãe, o seu cheiro, a sua protecção...
O Tiago é um desses casos. A vivacidade dos colegas não o tranquiliza, e cada gesto mais exuberante é uma ameaça para o precário equilíbrio do seu pequeno mundo. A professora, percebendo-lhe a insegurança, tenta apaziguar-lhe as angústias e, após ouvir-lhe a invocação da progenitora pela enésima vez, sugere-lhe que traga para a sala a fotografia da mãe.
No dia seguinte, com um esboço de sorriso nos lábios, o Tiago apareceu na escola com uma moldura com a fotografia da mãe, e mostrou-a à professora. Esta, com a cumplicidade estampada no olhar, elogiou-lhe a beleza, e encorajou-o a colocá-la em cima da mesa de trabalho.
Embora recorrendo a frequentes olhares para a fotografia, o Tiago começou a encarar a escola de forma mais tranquila. As tarefas deixaram de ser penosas, as caras dos colegas começaram a ter contorno de amigos, ousou aventurar-se nas movimentações do recreio...
O pior era quando chegava a hora do almoço. O miúdo, que até aí continuava a trepar degraus na sua integração, quando chegava o meio-dia não conseguia evitar o aparecimento dos seus fantasmas. Apavorava-o o ambiente do refeitório, sem a presença da professora, não conseguindo lidar com a exuberância dos colegas mais velhos, com outro traquejo na arte de lidar com os outros.
Quando a angústia da hora do almoço ameaçava tornar-se um hábito, foi o próprio Tiago a encontrar a solução. Um dia destes, ao chegar a temida hora, aproximou-se da professora e pediu-lhe, baixinho:
- Professora, posso levar a minha mãe comigo?
Perante o acenar positivo, o pequenote pegou na moldura, meteu-a no bolso com todo o cuidado e lá partiu, mais confiante, em direcção ao refeitório.
Nesse dia, na reconfortante companhia da mãe, o Tiago comeu a sopa toda.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A DANÇA

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Mal saem para o recreio, imediatamente se posicionam na zona mais maneirinha para a função: a parte cimentada do recinto, mesmo à entrada da escola. A corda, manuseada por mãos hábeis, convida as assistentes para a dança, num apelo irrecusável, qual Fred Astaire de braço estendido para Ginger. Aceite alegremente o convite, é vê-las então pular, sozinhas ou em grupo, num ritmo cadenciado mas cheio de ginga, capaz de as transportar para outros mundos.
Quando o cansaço as vence, imediatamente entra em acção outro grupo, ávido da mesma volúpia libertadora. E por ali ficam, cavalgando os anseios, às vezes subindo, subindo no ar, até a escola se desmaterializar no tempo...
Uma voz, que parece vir de longe, começa a insinuar-se no grupo, anunciando a entrada. O despertar é brusco. As viajantes, a muito custo, acabam por aceder a sair da dimensão alcançada, e Ginger Rogers, contrafeita, tem que largar o braço do parceiro, dirigindo-se para a zona dos lavatórios.
Quando, finalmente, chegam à sala, já o equilíbrio está restabelecido.
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A LASSIE

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De olhar vago e distante, mas com um porte digno, engana qualquer observador menos atento. Ostenta um luzidio pêlo preto e costuma vaguear por terrenos circundantes à escola, onde tem o seu território bem demarcado. Por perto só permite caninos de boa índole, não vão estes perturbar os seus protegidos, umas pequenas criaturas bípedes, de olhos brilhantes, que costumam frequentar o edifício situado no centro dos seus domínios. É a Lassie.
Os seus protegidos, os alunos da escola, são os grandes conhecedores da enorme riqueza existente no seu código genético, verdadeiramente abençoado por manipulação divina: uma ternura do tamanho do mundo! Perto da Lassie a segurança aumenta, os medos desaparecem, e ela tudo permite aos pequenos amigos, até que a cavalguem... Em troca, e é condição fundamental, a Lassie apenas exige que eles ostentem a sua condição de criança: que corram, saltem, riam...
Às vezes, quando lá fora o frio aperta, a Lassie esgueira-se para dentro da sala de aula e vai deitar-se junto da estufa. Os seus pequenos amigos, habituados à sua presença, olham, trocam um sorriso cúmplice e retomam o trabalho com a mesma concentração.
Com a Lassie, o mundo parece mais tranquilo e seguro.
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Texto publicado pela 1.ª vez em Janeiro de 2007 no blog da escola de Aldeia de Joanes
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