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sábado, 5 de março de 2022

QUANDO OS DIABOS SE SOLTAM

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Hieronymus Bosch, Extracção da pedra da loucura
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Sentou-se em frente da prancha e, pacientemente, esperou que as nuvens que transportava se tornassem gotículas. E elas, paulatinamente, iniciaram o seu bailado, contrariando a gravidade, subindo e descendo, por vezes planando. Havia que agarrar a onda.
Começou a desenhar, freneticamente, o que lhe assomava da alma, qual tempestade cerebral com emergência de emergir. Procurava acudir a todos os focos, a todos os assomos, mas era humanamente impossível. E acabou por ficar um respingo duma ideia aqui, um rabisco duma ideia ali, com muito em branco por preencher. Resolveu adiar.
No dia seguinte voltou a tentar, mas o fundo em branco persistia, dando asas ao desalento. Foi então que, pela janela entreaberta, uma abelha se fez anunciar, esvoaçando pela sala, aparentemente sem rumo. Sobrevoou a prancha, poisou no cortinado e, por fim, após algum atabalhoamento, lá se esgueirou para o exterior, saindo por onde entrara. Num gesto repentino, sentindo a ideia no ar, pegou no lápis, pronto para mais um discorrer com ele próprio. Mas, de súbito, rompendo o código estabelecido, a Inês invade a sala, com ar apreensivo, balbuciando um porra entre dentes:
- Zé! A Rússia invadiu a terra da Yaryna!
Foi-se o esboço da inspiração. E ambos, ainda atordoados pela perplexidade, sentiram uma nova onda a surgir, plena de diabos. O Zé rebuscou, à pressa, qualquer tipo de comparação, e mergulhou nas ondas forjadas pelo canhão da Nazaré, aqui mesmo à mão. Mas estas, pela sua insignificância, nem sequer figuravam no mapa das coisas importantes. A nova onda seria indomável?
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quinta-feira, 2 de abril de 2020

PERDOAI-LHES, PAI...

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Hieronymus Bosch, Jardim das Delícias Terrenas
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Este blogue sempre fez questão de apenas publicar textos originais do  seu autor. Contudo, e porque sim, há sempre uma primeira vez para tudo. No abrir da excepção, deixo-vos com uma crónica de Antonieta Garcia, minha antiga professora, publicada na semana passada no Jornal do Fundão.
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Eis que de repente o axioma do progresso contínuo cai, o Coronavírus entra em cena e dá a volta ao mundo. Roído de miasmas de tédio, embarcou. Vestiu-se de mandarim, pôs a coroa. Cruel, compilou memórias doridas da maldade humana, sentiu prazer, inoculou-se com o fascínio da violência. Agora, viaja, contagia, ceifa vidas, não dá tréguas. Encerrou-nos no Medo, excluiu a Vida. Maledictus! Tanto que sonhámos com a construção de uma parúsia humana, iluminada pela Ciência, pela Cultura, pela Arte… Onde se ocultam as luzes? Agora, somos uma bastilha tomada por mensageiros de ignorância. Aqui, habitam senhores construtores de fronteiras, xenófobos, que afetam as relações entre povos, poluem emoções…. Há refugiados em peregrinações de angústia, a suplicar solidariedade e não se salvam. Que incapacidade de amar o próximo é esta? O céu vê, ouve, emudece. 
Germinam, agora, mil diabos que atormentam. Levantam muros de crueldade. Novos tiranos tanto negam como afirmam; as palavras desfazem-se-lhes em bolor lento, enterram-se na vala comum das redes sociais, os mais recentes pilares dos senhores do mundo. Por ali, formigam robôs em textos formatados. Manipulando glórias quixotescas e grupais, soltaram a hipocrisia e são feras vigilantes de comportamentos e falas. Tuítam e regurgitam ódio, brigam furiosa e desesperadamente com o Tempo devorador de certezas. 
Quem abre as janelas à fraternidade? Que mistério rege a doença do poder, do conformismo e da indiferença? 
Já se ouvem profetas da desgraça a apregoar o valor purificador do sofrimento, a lembrar Job, o homem justo, protagonista do texto bíblico, que ousa debater com a divindade o seu tormento e manifestará um desejo: 
Pereça o dia em que nasci! E Cristo perdoará aos fariseus: Perdoai-lhes Pai, porque eles não sabem o que fazem. Mas em cada dia, no mais fundo de si, os meninos da Síria que enregelam de frio e todos os peregrinos de fomes e vizinhos da morte hão de repetir a súplica de Jesus: Afasta de mim este cálice, Pai! 
Mil diabos atormentam o nosso tempo; fervilham ideias que agigantam o deserto do espírito. O mundo empobreceu pela banalização; a verborreia caótica, oca e ruidosa infernizou a sociedade. O “fascismo da vulgaridade” (Steiner) irrompeu. Agora, a nostalgia alia-se ao desencanto de um período que divorcia a Humanidade da ciência, da arte, da filosofia. O dinheiro tornou-se deus de um público massivo, formatado, antítese da auctoritas, da cultura animi. Quanto ódio suscitam intelectuais, artistas… 
Por todo o lado, reina uma inquietação a enfrentar a Esfinge, a tentar romper a teia enovelada em expectativas disfóricas alimentadas pelo Medo do futuro, pela fatalidade do fim. Agora, o reino é o da roleta russa. E o Coronavírus jogou. Como é Senhor Trump e apaniguados? Que é do Muro para o impedir de entrar, para o deter? Com que armas vai refrear a contaminação do Coronavírus, microscópico, mas dono do mundo? 
Ai, que anseio tão forte de alívio! Ai, o desconcerto entre a solidão da doença e o desejo de amar, entre o odor sufocante de tantos cadáveres e o sopro de vida… 
O Coronavírus vestiu-se de mandarim, fez-se deus do mal. Agora, que ressoe a esperança numa voz louca de amor e enrouqueça a gritar que a vida gira que gira, geração em geração…. 
Quantos somos os que ajudamos a virar? Estamos tão cheios de fome do Sol, das cerejas…. Queremos tanto abraçar todos os amigos!
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Antonieta Garcia
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