segunda-feira, 23 de agosto de 2010

EFÉMERO

.Imagem encontrada na Net (desconheço o autor)
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A seara ondulava
Sensual
E as papoilas
Efémeras
Adornavam o cenário
Que embalava
O voar das borboletas
Assim eras tu
Em Maio
Na frescura dos caminhos
Radiante
Com o mundo a teus pés
Gostavas do teu brilho
E embriagavas-te
Na imagem do espelho
Que enfeitavas
Com as cores
Duma eterna primavera
Esqueceste os aromas da terra
E não viste que os deuses
Despreocupados
Em olímpico tédio
Jogavam o teu destino
Em jogo de dados
Dedilhado
Em acordes chorados
O espelho fragmentou-se
E não percebeste
A sensação de frio
Nos caminhos que te levaram
À solidão
Dum palco vazio.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A MORTE ANUNCIADA

.Fotografia de João Sargo
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Sentado em frente ao lume, Felismino ouvia o silêncio. Do curral vinha o eco quase imperceptível de meia dúzia de cabras que, para além da companhia, proporcionavam ao velho o leite necessário para fazer um ou outro queijo.
Às vezes sentia a falta de dois dedos de conversa, mas habituara-se à solidão dos montes e à companhia dos animais. Os últimos habitantes da aldeia tinham partido ia já para cinco anos, e desde então vivia ali sozinho. Queriam à viva força que fosse com eles, que havia de se arranjar jeito de ficar num lar, mas ali era a sua casa. Ali nascera e ali haveria de morrer. Nunca chegara a casar, e não havia nada fora daquele mundo que chamasse por ele.
Tirou da panela o caldo acabadinho de fazer, encheu uma tigela e esperou que arrefecesse um pouco. Lá fora ouvia-se agora o ladrar dos cães, mas não ligou. Era bicho, com certeza, pois por ali não passava vivalma, a não ser um ou outro caçador de tempos a tempos.
Bastava-se da horta e não precisava de muito. Uma vez por mês ia à vila para receber a parca reforma e, entre dois copos na tasca do Pinto, aproveitava para se abastecer de arroz, açúcar, sabão, umas latitas de conserva e pouco mais.
Há dois anos chegara a ter a companhia duns alamães que para ali vieram viver, à espera de encontrarem não se sabe bem o quê. No princípio pareciam entusiasmados, mas fora sol de pouca dura. Conforme chegaram, assim partiram. Não estavam preparados para aquilo, o bicho homem precisa da companhia de outros homens.
Acabou de comer e foi até lá fora. A noite estava fria e adivinhava-se geada. Apertou melhor o casaco e foi espreitar as cabras, aninhadas no curral. Estavam sossegadas. Depois puxou da onça e começou a enrolar um cigarrito, companhia solitária de todas as noites.
A morte não o preocupava. Sabia que tinha que ir um dia, e já tinha vivido o suficiente para aceitar o inevitável. Queria deixar os ossos naquele ermo, onde os animais nasciam e morriam respeitando a ordem natural das coisas. Era assim que entendia o mundo.
No céu via-se o brilho dalgumas estrelas. Apagava o cigarro quando os cães, sentindo algo no ar, começaram a emitir um uivar desassossegado. Tinha chegado a hora de, na rua deserta, as sombras dos antigos habitantes ensaiarem a sua dança lúgubre.
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Reedição
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terça-feira, 17 de agosto de 2010

(DES)OLHAR

.Salvador Dali, Reloj Blando Herido
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Olhavas para ti
E vias
Em pânico
O tempo a escoar
Qual ampulheta
Meteórica
Sem vontade de parar
E não sabias
Desesperada
Que tecla tocar
Para refrear
A angústia premente
Que minava
Continuamente
A verdade instalada
Se ponderasses
Para além do ego
Talvez notasses
Sem desatino
O fio de água
Cristalino
Que corria
Galgando a frágua
Para abraçar
Por inteiro
A razão do seu destino
Então talvez pudesses serenar
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DANÇA

.Daniel Oliveira, Dança em Movimento
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Estavas tão concentrada
No papel de Margot
Que não vias
No canto da sala
Os olhos suspensos
No teu respirar
Eram mais uns
Na plateia domada
Enquanto dançavas
Como ninguém
E as pétalas das rosas
Rendidas
Vertiam perfume
Ao teu rodopiar
A carruagem partiu
Na meia-noite temida
Deixando no ar
Da sala hipnotizada
O aroma envolvente
A promessa de vida
Da cinderela alada
Desci a avenida
Nureyev a dançar
Enquanto desenhava
Com a pétala que restava
A musa encantada
Saída do sonho
Do teu esvoaçar.
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

SEMENTES

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O concílio dos deuses
Em olímpico desdém
Assistia de longe
Ao ruir da ideia
Caduca e sem tino
De imolar a alma
Por trinta dinheiros
Em palácios de frio
E a multidão enjaulada
Sem a almofada
Da bengala-cifrão
Sentia a atracção
Fatal e desgraçada
Do grande buraco negro
Temperado na ilusão
(Economia do vazio)
A esperança rareava
Na multidão sem freio
Definhando nas trevas
Em medo animal
Sem qualquer anseio
Mas aqui e ali
Acendia-se a luz
E uma ideia nova
Pulando o muro
Semeava a esperança
Passando a mensagem
Da reinvenção do futuro
Foi lançada a semente
Em toque de gente
No sentir colectivo
E abraçada a certeza
Com cariz profundo
De olhar em volta
E sentir a magia
Da perfeita harmonia
Do pulsar do mundo.
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Reedição
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

PRIMAVERA

. Gorbachev, Cavalo Vermelho na Primavera
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Éramos jovens potros
Imunes ao receio
E a primavera de Vivaldi
Em harmonia vibrante
Era o primoroso retrato
Do nosso entusiasmo
No galopar sem freio
A seara ondulava, sensual
E viajávamos no sonho
Embalados no rumor da aragem
Que escrevia
Nas folhas dos freixos
Sinfonias à nossa passagem
A paixão das cigarras
Morava dentro de nós
E a linha do horizonte
Meta por conquistar
Era a tela
Dos planos traçados
Dum mundo por desbravar
Adormecia nos teus braços
Em nocturno de Chopin
Terna e doce vassalagem
E só o romper da aurora
Rebate do mundo lá fora
Quebrava o feitiço da viagem.
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3ª  publicação, a pedido :)
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sexta-feira, 30 de julho de 2010

NUDEZ

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Procurei-te
No mais fundo de mim
Desenhei-te
Nos contornos do viajar intranquilo
Adivinhei-te
No vulto que dobrava a esquina
Ah, quanta cegueira
Quanta insistência na receita errada
Por uma quimera mil vezes desejada
Ah, quanta solidão
Quanto rebuscar no vazio
Em constantes vagas de frio
Então chegaste
Vinda do nada
E desmontaste
Com risos despreocupados
A construção do labirinto
Mil vezes tecido
Em adornos florais
Só então
No desespero da nudez
Vislumbrei
A génese da promessa
E percebi
Como tudo começou.
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Reedição
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quarta-feira, 28 de julho de 2010

THE DARK SIDE

.Ariane Daniela Cole, Verticalidades V e VI

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............Um poema é uma história com mil janelas abertas
............AC
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O alvor era plúmbeo
E a multidão
Em reserva vigiada
Iniciava a jornada
Na dependência
Dos dias banais
(Manequins de uniforme
Em cinzentos rituais)
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Evitava a receita
E vagueava
Por entre a carneirada
Negando o cenário medonho
E enfrentava a dor
Ansiando esboço de cor
Alimento do seu sonho
Procurava a claridade
Que promovia o abraço
E encarnava a cotovia
Na inglória melodia
De alcançar o último raio
Olvidando o cansaço
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Depois de detectada
A ovelha perdida
Foi-lhe diagnosticada
Reacção química desajustada
E o laboratório
Em receita eficaz
Apagou a ideia
Do perigoso purgatório
E a alma penada
Em código testado
Foi programada
No eficaz bem-estar
Do mundo formatado
(A ovelha
Sem alma
Sorriu)
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segunda-feira, 26 de julho de 2010

TEMPO

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Lutavas contra o tempo
Em sobressalto
Vendo as folhas cair
E não reparavas
Que a cor outonal
Era a satisfação
Dum desígnio cumprido
E que a queda
Suave
Era a chave
Do desvendar do segredo
Debatias-te
Angustiada
Na visão do espelho
E esquecias
O passo a dar
Para entender
A arquitectura do ciclo
Programada
Na palavra primitiva
Sentia-te a inquietude
Mas nada podia fazer
Para apaziguar o medo
De sentires
O vazio do abraço.
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Reedição
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LOVELY AND LOYAL AWARD

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Da Em@, do blogue com o mesmo nome, recebi o desafio de responder a algumas questões. Vamos lá então a isso.
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Porque é que criou um blogue e, quando o criou, tinha expectativas de que fosse popular?
Há algum tempo atrás, os professores portugueses viram-se, de repente, envolvidos na estratégia política do governo, com este a intoxicar a opinião pública com uma série de falsidades. Esta situação, porém, teve o condão de unir uma classe tradicionalmente dividida, ferida que fora na sua dignidade. Os blogues, nesta fase, tiveram um papel fundamental no esclarecimento das pessoas, e a sua consulta era recorrente. Na filtragem do entusiasmo e do ruído - há sempre muito ruído nestas coisas - seduziram-me as palavras de Isabel Fidalgo, professora de Português e brilhante poetisa, que comecei a seguir e a comentar no seu blogue Frutos de Mim e Mar. Um dia a Isabel questionou-me se eu não tinha um blogue, pois escrevia muito bem. E foi aí que, a pouco e pouco, se foi insinuando a ideia...
Quando criei o blogue (quase na clandestinidade) estava apenas preocupado em saber se era capaz. Acho que a coisa nem atava nem desatava. Foi então que a Isabel (eterna dívida!) me descobriu o rasto e comentou o primeiro post - e único, até à altura - criando algumas expectativas acerca do espaço. A partir daí tive que deixar de lado o medo de me expor e avancei. E ainda não me arrependi.
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Em que data exacta iniciou o blogue?
Basta consultar o início do blogue. O primeiro post, o tal passo a medo, foi feito em 28 de Agosto de 2009. Ainda não fez, portanto, um ano. Mas só avancei com convicção na publicação do segundo post, feita a 12 de Setembro. Como se vê, é tudo ainda muito recente.
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Nomeie cinco seguidores leais.
Durante vários meses o Interioridades esteve circunscrito a meia dúzia de seguidores, funcionando quase em circuito fechado. Essas pessoas foram importantíssimas para me convencer que o blogue era viável, e foram fantásticas no apoio. Assim, para além do Jorge e da Ana Paula, que não têm blogue, nomeio:
- Isabel Fidalgo, do blogue Frutos de Mim e Mar;
- JB, do blogue Em Tons de Azul , que assistiu a muitas hesitações e interrogações, e nunca faltou com o seu apoio. Muito pelo contrário;
- Zé Caldeira, do blogue portugalprofundo;
- Elisabete, do blogue Didascália;
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Entretanto, há pouco tempo, achei que tinha chegado a altura de levar o blogue a mais pessoas. E, de entre os novos seguidores, pessoas com quem tenho aprendido muito, escolhi, simbolicamente, alguém cuja lucidez e tranquilidade são referência:
- Gizelda, do blogue Desassossego.
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Apesar de só conhecer pessoalmente dois seguidores, tenho por todos a maior estima e carinho. O meu BEM-HAJA!
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