sábado, 9 de abril de 2011

À PORTA DO REINO DOS AFECTOS

.Margarida Cepêda, À porta do reino dos afectos
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Estavas numa encruzilhada. Sabias há muito que o brilho das pedras tinha seduzido os homens, e que a fealdade que irradiava da sua posse não augurava horizontes agregadores. Não era esse o cenário que sonhavas.
A harmonia era possível, sim, mas não bastava a vontade dos afectos. O mundo onde querias depositar o melhor do teu respirar não era um microcosmo, requeria envolvência plena: que as ilhas tomassem consciência das outras ilhas, que o aroma das flores fosse partilha colectiva. Só assim o teu vinho mais íntimo revelaria o melhor de si.
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sábado, 2 de abril de 2011

AREIA

.Margarida Cepêda, Enfrentando-se
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Sinto a tua inquietação, a ânsia de domares as sombras que perturbam os teus dias.
Quando desponta a aurora, pegas no melhor de ti e vais ao encontro do marulhar das ondas, ritual primevo do decifrar da essência apaziguadora. É a hora de te despires, de enfrentares a tua efemeridade.
Quando começas a entender o voo das gaivotas, há sempre algo que as impele para longe. É grande a tua sede de infinito, perpetuação do teu desassossego, mas não te basta entender, tu queres o poder do voo. E, sem te dares conta, apesar de mais forte, ficas cada vez mais só.
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sábado, 26 de março de 2011

O CALOR DAS MÃOS

.António Tapadinhas, Azul, azul
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Desligam-se as amarras do convencional, passo irreversível para o vislumbre da arquitectura do entendimento.
O confronto com a nudez, em paisagens pouco definidas, resgata o choro umbilical. O olhar vai-se fixando em minúsculas crateras, pequenos vales, grutas dispersas, instantâneos orientados em convergência disforme. A visão começa a construir referências, integrando os ventos num campo cada vez mais nítido. A pouco e pouco insinua-se a textura do barro, e o choro mistura-se com o riso. Aumenta a dimensão do olhar. A percepção do barro amaina o vento, mas não faz desaparecer a inquietude. São tantas as estrelas perante um pedaço de argila...!
É então que se sente o desabrochar da flor, rompendo a ténue fronteira da solidão. As estrelas continuam longe, mas há um calor novo que renova o sentido das coisas. O calor das tuas mãos.
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domingo, 20 de março de 2011

ESPERA

.Hélio Cunha, Movimentos de um visionário
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Pudera eu amainar as tuas inquietações, vesti-las com as cores mais sublimes e tranquilizadoras. Mas, sabes, eu não posso percorrer o caminho por ti e oferecer-to numa bandeja. A convicção, na sua aparente disponibilidade, requer olhares plenos e pegadas profundas.
As flores, em apelo mudo, gritam aos quatro ventos a simplicidade dos aromas, mas apenas as sandálias do artesão parecem estar em harmonia com a mensagem.
Espero, mas não desespero. Por aqui há muito que as mimosas estão em flor.
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segunda-feira, 14 de março de 2011

SOBREVIVÊNCIAS

.Margarida Cepêda, As nossas teias
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Os tempos não iam para grandes assomos de liberdade.
O trabalho no terreno, verdadeiro sustentáculo de todo o edifício, gemia até mais não com a carga opressora. A cúpula, por seu lado, nunca se dava por satisfeita, enfeitiçada que estava na análise dos gráficos. E, na lógica do gabinete, mais um ponto percentual não custava nada. Todos sentiam o cheiro do medo, e as chefias intermédias, entaladas que estavam entre o coração e a razão, tentavam encontrar pé no mar da sobrevivência.
O Teles, chegado há pouco a um cargo de chefia - na verdade não mandava nada, era apenas um mero transmissor - começou por sentir cócegas no ego aquando da sua nomeação. Mas em breve o sorriso deu lugar à angústia quando se apercebeu do seu verdadeiro papel.
O tempo, contudo, faz milagres. E o Teles, qual ovo de Colombo, julgou encontrar a solução para anular a sua estreiteza. Forjou um projecto que agradasse às instâncias superiores e, em simultâneo, piscasse o olho às bases.
A cúpula, sorridente, bateu-lhe nas costas como quem elogia um menino. As bases, porém, já há muito tinham perdido a vontade de sorrir. O Teles era apenas mais um que tinha vendido a alma ao diabo.
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segunda-feira, 7 de março de 2011

BRISA

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.Margarida Cepêda, Prescrutando
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Princípio da noite. As primeiras estrelas, holograma de outros lugares, encenam o convite à transcendência. A lua, quarto crescente de lendas encantadas, é farol da veia poética, despertar de sentidos adormecidos. Tudo muito curvilíneo, muito sensual, o universo a conspirar no feminino. E a alma, carente de novos desbravares, acede ao desafio, embarcando em percursos de descoberta, no revolver das partículas onde assenta o livro da vida.
Uma brisa leve, um arrepio, uma ausência sentida.
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domingo, 6 de março de 2011

(DESAS)SOSSEGADAMENTE

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Os devaneios eram múltiplos, mas faltava-lhes o essencial, circunscritos que eram à margem de segurança. E parecia tudo tão bem delineado, tão bem colorido, que ficava admirada quando, ao fim da tarde, as promessas do horizonte não vinham ao seu encontro, bem deitada que estava na sua espreguiçadeira. E desacreditava. Mas esse era um estado de espírito fácil de sustentar. Sempre bem instalada, pegava no Livro do Desassossego e começava a folhear. Encontrava ali matéria abundante para, com um encolher de ombros, justificar que a linha do horizonte era um mito.
O poeta, convenhamos, merecia melhores leitores.
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domingo, 27 de fevereiro de 2011

TECLADO

.Pintura de Margarida Cepêda
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Olho o horizonte para respirar e, por norma, apenas sinto o vibrar dalgumas teclas do teclado.
Mas algo muda quando me chegam as tuas palavras. Sente-se uma música no ar, inventam-se novos aromas. E o teclado redescobre-se, dando vida às teclas adormecidas.
É então que se insinua a sinfonia, a hora de descobrir que todas as teclas são necessárias para se soltar a orquestra.
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

PAUSA

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O cansaço já se insinua há muito, mas fui protelando, até porque o gosto pela blogosfera é real. Mas cheguei a um ponto em que se tornou impossível conciliar esse gosto com uma actividade profissional intensíssima. E a solução é parar.
É provável que vá publicando um ou outro texto, mas, até nova avaliação da situação, as visitas aos blogues amigos irão ressentir-se. Para meu lamento, pois quem fica a perder sou eu.
Espero que compreendam. Até já.
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A MULHER QUE GOSTAVA DE LIVROS

.Pablo Picasso, Meninas lendo
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Nascera em época de míngua, e isso moldara-lhe o ânimo.
Nunca tivera muita paciência para aturar as conversas das colegas, tinha mais que fazer que estar a falar da vida alheia. Gostava de sair, ai se gostava, mas as suas debandadas cingiam-se às compras do dia a dia. Para além disso satisfazia-se com uma passagem rápida pela pastelaria, onde uma bica bem quentinha lhe reforçava o ânimo. Às vezes concedia dois dedos de conversa à D. Fátima, que lhe contava as últimas novidades, e ala para casa, que a vida não se arranja no paleio.
Dentro de paredes era Maria quem fazia e desfazia, e o marido há muito se resignara a tal facto. Conhecia bem a determinação e a energia da mulher, e não adiantava lutar contra tais armas. No fundo admirava aquela força da natureza, que delineava o contorno das suas vidas de forma implacável.
Os filhos conheciam-lhe bem a voz de comando, e foi-os instruindo no caminho do trabalho e do esforço. O percurso deles foi-lhe mostrando que tinha razão.
Do dinheiro do orçamento familiar, rigorosamente gerido, apenas se lhe conhecia uma extravagância: comprar um livro de vez em quando. Lia-o à noite, depois da lida da casa, e o marido nem sempre entendia aquela bizarria. Era a única altura do dia em que a via longe dali, como se a sua realidade controlada, por momentos, não existisse.
Mas os anos já iam pesando, apesar de continuar mexida e desembaraçada. Com os filhos em casa própria, começou a ter mais tempo para si, e a dar largas ao seu gosto pelos livros. Lia, lia muito...
O neto começou a frequentar a casa, adoçando-lhe os dias, fazendo cócegas àquela capa de austeridade. O companheiro, porém, via-lhe nos olhos uma espécie de insatisfação. Bem tentava sondar, mas um seco "não se passa nada" cortava toda e qualquer inquirição.
Uma manhã o marido saiu cedo. Maria, habituada ao seu rosto tranquilo e resignado, notou-lhe uma determinação pouco habitual, mas encolheu os ombros. Retomou a leitura de "Veneza", de Jan Morris, e não pensou mais no assunto.
Depois do almoço, após arrumar a cozinha, voltou para a sua leitura. Ajeitou a almofada, sentou-se, e esboçou o gesto maquinal de pegar no livro. Só então reparou no invólucro, com o logotipo de uma agência de viagens, deixado em cima da capa do livro. O marido olhava, num misto de apreensão e ansiedade. Mas, quando lhe viu o brilho de satisfação ao ler a palavra Veneza, percebeu que tinha acertado em cheio.
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reedição
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