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terça-feira, 28 de março de 2023

CURTA LETRAGEM

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AC, ninho de melro
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Antes havia uma árvore, um ninho, uma abelha e o desejo de ver o mar.
Agora há uma antena, um telemóvel, um drone e um especialista em comunicação.
Antes, olhando o horizonte, faltava algo. Agora, perante tanto movimento, falta muito mais.
Antes eu queria o movimento, de preferência com mar à vista. Agora, que conheço melhor os bípedes falantes, continuo a querer ver o mar. Mas, para além disso, apenas procuro entender a arquitectura dos ninhos, com a cumplicidade de quem possa abraçar. Sempre.
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quarta-feira, 9 de novembro de 2022

O FEITICEIRO E O MENINO

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AC
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Havia uma árvore, um horizonte e um feiticeiro.
Como a ciência começava a imperar, o feiticeiro tomou a resolução da sua vida: esperou pelo fim de tarde, trepou à árvore e, solenemente, abrindo os braços, sentiu os últimos raios de sol como se da coisa mais importante se tratasse. Depois, lentamente, olhou em volta, como se tudo quisesse absorver, e preparou-se para o último mergulho da sua vida. Foi então que, vinda das proximidades, ouviu uma voz infantil:
- Olha, avô, que ave tão grande está poisada naquela árvore! Vai voar?
O feiticeiro, incrédulo, ficou estarrecido. E só então, qual revelação suprema, percebeu donde emanava a verdadeira luz. E, descendo da árvore, correu para abraçar o menino.
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sábado, 25 de junho de 2022

ENTRETANTO

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Margarida Cepêda, As nossas teias
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Há um tempo de frenesim na vida, no nosso crescimento, como se as coisas nos escapassem por entre os dedos, fugindo à vontade de mudar o mundo a nosso jeito. Mas, plenos de energia, continuamos.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo duma suposta estabilidade na vida, em que, a pretexto de salvaguardarmos os nossos, começamos a ser condescendentes. Mas os bens materiais são o perfeito antídoto para anestesiar a consciência.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas, com alguma ajuda, apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo em que, por mais que nos custe, começamos a envelhecer. Mas socorremo-nos de todos os artifícios para adiar o inevitável.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas continuam a lutar, com alguma ajuda, para sobreviver.
Há um tempo em que, por fim, nada mais há para adiar. E só nessa altura, sem nada para subornar a ceifeira, temos a plena consciência da nossa condição.
Entretanto, noutras latitudes, há muito que os contemporâneos  de nascimento foram tragados pelo inevitável. Mas, felizmente, com maior ou menor ajuda, os que restam continuam a lutar para sobreviver.
Haverá um tempo em que, para lá do tempo que foi, apenas restará a lição. Só então, por mais que doa, se evitará a contra-mão.
Entretanto...
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domingo, 19 de junho de 2022

ABISMOS E LABIRINTOS, CANDEIAS (ETERNAMENTE?) ÀS AVESSAS

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Margarida Cepêda, Tocando para o abismo
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Os tempos eram de ameaça, apesar dos dirigentes se esforçarem por vender a canção "Tudo vai bem". O mal vinha de longe, sem aparente cura, e Ruican, que vivia numa solidão assumida, própria de quem via as coisas antes do tempo, mantinha-se inflexível. Havia que dar volta às coisas, combater o fatalismo, de inaugurar uma época para lá da escravidão de todos pensarem o mesmo...
Bruma, que crescera perto de Ruican, sabia muito bem o que ele pretendia. Mas, apesar de limitada à distância que lhe era concedida, conseguia perceber que, por mais que ele tentasse, haveria sempre uma barreira entre ele e os outros. Por mais que ele porfiasse, as pessoas iriam sempre agarrar-se àquilo que sempre tiveram, em detrimento daquilo que a maioria nunca teve.
Ruican gostava de Bruma, para lá duma visão maior, pois sabia que nela habitava o segredo da simplicidade. Mas pensava, para sua desgraça, que havia uma questão superlativa a descobrir.
Bruma gostava de Ruican, por ele mesmo, contra todas as expectativas dos outros. E, sem que ele soubesse, ia todos os dias, à tardinha, remar contra a maré das coisas fáceis: abeirava-se do penhasco, munida do seu violino e, perante a fúria dos elementos, tentava tocar a profundidade das coisas mais simples, qual segredo para chegar a Ruican. Mas este, demasiado entregue ao seu ego, tardava em perceber...
O abismo, sem que Ruican se apercebesse, demasiado entregue à sua visão, começava a desenhar-se à sua frente.
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terça-feira, 8 de setembro de 2020

ELAS

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Margarida Cepêda, A forma é o invólucro da pulsação
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Começaram por, sendo muito, ser pouco mais que nada.
Resistiram como rocha para lá de tântrica, indestrutível na resiliência, intuindo sempre a melhor saída para contornar a força máscula.
Foram, a pouco e pouco, ganhando espaço, principalmente em meios onde se cultivava a lucidez, a inteligência e o bom senso, para o qual investiram de forma discreta. Continuavam a ser olhadas como acessórios, mas começavam a fazer sentir a sua voz. E, aproveitando uma aberta aqui, outra ali, começaram a votar, a frequentar universidades, a escalar cargos de responsabilidade, provocando ondas de choque que abalaram ideias feitas.
Hoje, libertas de amarras, elas chegam-se à frente no assumir dos novos desafios globais e, apesar das resistências, começam a rir-se das competências dos seus comparsas do género oposto, eternos meninos mascarados de guerreiros, à boleia duma condescendência de séculos.
Eles, em momentos de desafio, costumam encher o peito, como se a honra se medisse em testosterona, mas já há muito, de forma subtil, que perderam o confronto. Desta forma, jamais jantarão o coração delas.
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É urgente outra via, eu sei. Eles que cresçam e... talvez se almocem e se jantem mutuamente. O mundo agradece.
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sábado, 5 de setembro de 2020

OLHAR DO ALTO DA MONTANHA

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Margarida Cepêda, Procurando o principio
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Pareciam vir de longe, mas já se tinham instalado há muito. Trouxeram, consigo, novas formas de ser, novas formas de estar, irrompendo nos preconceitos de quem estava. 
Houve embate, houve controvérsia, mas, após algumas desavenças, as novas gerações, de ambos os lados, acabaram por selar a concórdia. E criaram novas canções, novas danças, novas histórias...
Em nome da união, preciosidade a defender, prescindiram de subir às montanhas para ver ao longe, não se abeiraram do mar, a grande mãe, para perceber melhor a profundidade das coisas. E seguiram, muralhando-se. Hoje, unificada a forma de estar, continuam a olhar para quem chega como um corpo estranho, sujeito às mais variadas provas para ser aceite. No fundo, apesar de se considerarem na senda certa, continuam a ser uma ilha, sujeita às mais diversas intempérie de tudo o que é desconhecido. 
Cometendo os mesmos erros de outras eras e de outras latitudes, crêem-se donos da verdade. Mas, por mais defesas que criem, por mais demagogos que elejam, o mundo irá sempre ter com eles, derrubando muros de papel. É que, para lá de palavreados fáceis, a nova filosofia, a irromper, discreta, mas com a força do inadiável, precisa de todas as cores para se multiplicar e assentar. Talvez, então, entendidas as crenças de todos os lugares, com um especial olhar sobre as coisas naturais, consigamos discernir o melhor rumo para o nosso futuro.
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domingo, 16 de agosto de 2020

BICHOS

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AC, Gravura rupestre do Poço do Caldeirão, rio Zêzere

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Esgueirava-se, por entre as giestas, tentando ver e não ser vista. Tinham-lhe dito que, a meio da manhã, passaria por aquelas bandas a Senhora dos Santos Bichos, a fim de esconjurar a maleita, e não queria perder a ocasião de lhe dirigir uma dúzia de palavras, ou pouco mais, a fim de colocar um açaime nos seus medos.
O andor, transportado por quatro acólitos, que precediam o padre, emergiu da curva do Carvalhal Redondo, transmitindo alguma solenidade ao acto. A Russa, ciente da ocasião, ajeitou a saia, passou a mão pelo cabelo e aguardou, ansiosa. Quando o cortejo passou à sua beira, deu um salto para o caminho, prostrou-se  no chão e, baixando a cabeça, inquiriu:
- Senhora dos Santos Bichos, minha santa, é verdade que anda um bicho à solta por aí?
Ninguém respondeu, o cortejo seguiu em frente. A Russa, não se contendo, exclamou:
- Homessa! Mas eu sou algum bicho do mato, ou quê?!
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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

MULTIDÕES E MINORIAS, SAGRADO E INSANO

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AC, Fogo à distância de um fósforo
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Já não se sabe onde começa a história, mas, a determinada altura, perante a histeria geral, fomentada por alguns, toda a gente enveredou pelo refúgio em abrigos seguros, modernas cavernas que nos isolam, não só do "inimigo invisível", mas, acima de tudo, dos outros, ou seja, de nós próprios.
Em nome da segurança, começámos a seguir novas tendências: deixámos de abraçar, quase deixámos de opinar, falta-nos o ar, estamos a deixar de amar. Entretanto, para adensar o caldeirão de impropérios, os pobres estão cada vez mais pobres, os fracos cada vez mais fracos, a liberdade parece ter-se encerrado num quarto escuro. Até os incêndios, cada vez mais florescentes, parecem ajudar à festa.
Como em qualquer intempérie, a irracionalidade é como o azeite misturado na água, vem sempre à superfície: primeiro nós, depois nós, e só depois, muito depois, vêm os outros. Na prática, é o caos. Mas há excepções, claro, há uma minoria que, com fundamento científico e possuidora duma visão global, se satisfaz no bem comum, apesar das sementes da solidariedade tardarem em fazer efeito. Pacientes, aprenderam que construir custa muito, que poderá demorar, nalguns casos, gerações, enquanto que o acto de destruir, por vezes, fica à mera distância dum fósforo. Mas eles, apesar da manada começar a mostrar  sinais de impaciência, continuam a acreditar que a vida, para lá das religiões, é um acto sagrado. E trabalham, na sombra, para encontrar soluções, tentando contrariar, numa visão com fundamento, a besta destruidora que, lentamente, se vai insinuando  no nosso dia-a-dia.
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sábado, 25 de julho de 2020

ESBOÇO DE TELA EM DISCRETAS TONALIDADES

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Margarida Cepêda, Azul
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Para a Graça Pires
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Há, na tua convicção, uma vontade que, apesar de adornada com cores reservadas, tudo ousa enfrentar. Não derrubando, isso nunca, mas respeitando, respeitando sempre, tentando entender olhando, sentindo, por mais que inquiete e doa. Depois, com o soltar de pequenas réstias de luz, vais vencendo os medos, construindo alicerces para um mundo novo, de janelas cada vez mais abertas, mas com espaços interiores onde apenas têm guarida as flores mais discretas e delicadas. 
No epicentro, resguardado como fio invisível que tudo sustenta, o veio inicial que te fez iniciar a jornada. É aí que reside o segredo, o precioso Graal que, depois de tanta demanda, descobriste que sempre esteve perto de ti.
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terça-feira, 21 de julho de 2020

TEMPO SEM TEMPO

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Salvador Dali, A Persistência da Memória
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A canícula tem sido inclemente, tolhendo gestos e pensamentos, configurando um galinheiro em estado de sítio, com as galinhas a perderem o norte. Mas eis que, repentinamente, os deuses se compadecem, e enviam uma chuva apaziguadora, entremeada de raios e trovões, qual recado para os pretensos donos dum qualquer galinheiro.
A vida quer-se simples, apregoa o filósofo da reconciliação, mas isso dá uma trabalheira danada. E, pondo de lado qualquer reflexão, condição mínima para qualquer tentativa de evolução, dá-se primazia ao grito, à vitimização, tentando condensar a razão de ser aos gestos mais básicos e mais boçais. Dizem-me que é assim, que é da natureza humana, mas tenho dificuldade em aceitar essa argumentação. É que, para lá do básico, há sempre uma margem de progressão, alicerçada em princípios nobres e elevados, assim nós o queiramos. É uma luta dura, eu sei, uma luta de sempre. Com avanços e recuos. E não é à toa que, no mundo em que vivemos, emergem, ciclicamente, figuras de banda desenhada, ou de qualquer má ficção, como Trump, Putin, Bolsonaro, Kim Jong-un...
Voltemos à chuva benfazeja, permitam que me centre na minha horta. Ela sofreu, há tempos, um forte revés, mas, a pouco e pouco, começou a renascer, produzindo tomates, curgetes, pepinos, alfaces, cebolas, pimentos... Como em tudo, há que dar tempo ao tempo. E o gozo que me dá, depois da rega, colher esta ou aquela espécie para abastecer a cozinha!
Infelizmente, vivemos num tempo em que todos parecem querer tudo para hoje, olvidando as memórias, individuais e colectivas, de como se chegou até aqui. E exigimos, exigimos cada vez mais, como se tudo viesse dum saco sem fundo.
Agradeço aos deuses a chuva retemperadora, propícia a uma pequena pausa, mas ela não esbate a evidência: olhar para o nosso ego, continuamente, sem nos preocuparmos com a visão e o bem-estar dos outros, vai acabar por dar cabo de nós, sejamos bons ou maus. Sem excepção.
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sexta-feira, 17 de julho de 2020

O GRITO

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Fotografia de Flavio Scalzo
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Caminhavam quase hirtos, a medo, não se desviando do rumo pré-definido, como se em cada vulto, em cada esquina, ou em cada movimento, espreitasse o perigo. 
Fazia calor, o suor começava a insinuar-se, o incómodo fazia-se cada vez mais presente. Quase sem se darem conta, iam ajeitando as máscaras, tentando aliviar o não aliviável: a insegurança no recém-viver, a incapacidade racional de estabelecer pontes harmónicas para a nova forma de estar. 
Tentavam seguir as regras, mas elas mudavam a cada instante, acentuando a insegurança geral. Além disso, na luta pela sobrevivência, só alguns podiam ficar resguardados, em casa ou em qualquer poiso distante. Os outros, a grande maioria, os tais que o cronista de antanho designou de "ventres ao sol", muitos deles achocolatados, tinham que lutar, continuamente, por um lugar no autocarro, no comboio, ou no barco, onde o distanciamento social era remetido, sem aviso de recepção, para a procedência. Tinham que chegar ao destino, ou não recebiam.
Alina, veterana desta luta diária, desceu as escadas para entrar no metro do Marquês. Aproveitando um breve momento em que não via ninguém por perto, retirou a alça da máscara da orelha direita, manteve-a a meia haste e, com toda a convicção, lançou o grito libertador, prolongado pelas paredes do túnel:
- Foooodaaaa-se!
Depois, já mais aliviada, voltou a ajeitar a máscara e correu, desalmadamente, para não perder o comboio da sobrevivência.
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quinta-feira, 16 de julho de 2020

REDENÇÃO

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Imagem retirada da net
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Dizia-se amarela. Depois azul. Logo a seguir, quase sem pausas, assumia-se roxa, verde ou siena, pronta para o que desse e viesse.
Procurava-se? Não, nem tanto. Era apenas uma questão de sobrevivência para um ego sem sustentação, que dependia totalmente da energia dos outros. Então, sem verdadeiramente as sentir, ia desfilando cores, como estratégia, até que alguém se dignasse olhar. Depois, caso um ratinho cheirasse o queijo, fazia o pino, pintava a manta, queimava o sutiã. Numa tela resguardada, claro, longe dos rebentos, delicadas joaninhas que, felizes, se deslumbravam com as flores do jardim. E, por entre efabulações descontínuas, sem capacidade para pintar os cenários que evocava, acabava sempre por perder a cor,  afugentando a presa, dando guarida ao despeito e ao rancor.
Lá fora, indiferentes ao secreto jogo multicolor, as joaninhas continuavam a sorrir. Talvez nelas, tecedeiras de cores alegres e vibrantes, residisse a verdadeira redenção, e não tivesse que fazer como Marcel Proust: discorrer em busca do tempo perdido.
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domingo, 12 de julho de 2020

LIÇÃO PRIMEVA

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Imagem retirada daqui.
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Um passeio em família, um vale com um ribeiro, a merenda.
Entre palavras e sorrisos, um melro, ladino, abeirou-se dumas migalhas. Com todos ligados à corrente das palavras, apenas o menino reparou, e o melro continuou. 
Já saciado, o melro partiu, o menino o seguiu. Foi então, importante lição, que ele percebeu que voar, para lá do falar, só mesmo na imaginação.
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quarta-feira, 8 de julho de 2020

PODERÁ LEVITAR SER SINÓNIMO DE MERGULHAR?

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Talvez fosse da conjugação dos astros, dos cromossomas, ou da alma rebelde com livre arbítrio. Não sabia explicar como o fazia, mas levitava, constantemente, enquanto os outros se limitavam a observar. Admirando ou deplorando.
Disseram-lhe que, para ser entendido, tinha que aportar em praias já habitadas, conjugar os verbos dentro da norma. Tentou, tentou, mas quanto mais tentava, mais náufrago se sentia. E então percebeu que, para agradar, mais refém tinha que ficar: de pastores, aduladores, manipuladores, confessores, ditadores, estupores...
Libertou-se, a custo, da névoa da normalidade. Sondou os ventos, libertou as íntimas aves, apanhou o expresso da incerteza. E começou, de novo, a levitar, dando cor e forma às paisagens que ia tentando domar, com dificuldade, no inevitável mergulho aos abismos mais profundos da sua alma.
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sábado, 4 de julho de 2020

GATA ESCALDADA DE ÁGUA FRIA TEM MEDO

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Descia a rua, em passo gingado, cadenciado pela música dos fones, como se cada movimento fosse tão natural como o respirar.
Entrou na marginal, fintando os semáforos, sempre com a mesma ginga. Depois, num alarde de audácia, contornou as barreiras e desceu para o areal, sempre no mesmo ritmo, como se deslizasse nas notas dum blues muito pessoal.
Quando chegou ao areal fez uma pequena pausa. Descalçou os sapatos de salto alto, adaptou os pés nus à nova textura e, retomando a ginga, encaminhou-se para o lugar onde a água beijava, delicadamente, a areia.
O sol já se despedia, dourando as águas, uma ou outra gaivota sobrevoava o local. Mas ela não se deteve. Entrou na água e, ao primeiro contacto, deu um salto de recusa, enquanto os fones iam pelos ares.
- Porra, que está fria!
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terça-feira, 30 de junho de 2020

FOGACHO DE RIACHO PARA LÁ DO DESNORTE, REJEITANDO A MÁ SORTE

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Imagem retirada da Net
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Faz de conta que era um menino. Ele olhava, olhava, à procura da ponta do fio para entender tanto desnorte. Mas, quanto mais olhava, mais confundido ficava. Todos tinham as suas razões, mas ninguém ouvia as razões dos outros. Mesmo que fossem as mesmas.
O olhar dos meninos, com tantas portas e janelas para o sonho, raramente fica confundido, e ele acabou por tomar uma decisão: subiu para o penedo que servia de promontório, abriu a braguilha e começou a ensaiar um arremedo de riacho. Depois, voltando as costas, seguiu à sua vida, em busca de melhor sorte.
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quarta-feira, 24 de junho de 2020

DESPEDIDA EM ACORDES DE "O AMANHÃ COMEÇA AGORA"

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Fotografia de AC
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Para o M.
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Segue. Não olhes para trás, sê imune ao ruído. Segue, segue sempre. Se, no decorrer da viagem, tiveres a ventura de algo te tocar a alma, então sim, pára, mas sê humilde na avaliação, exigente na reflexão. Mas cinge-te ao essencial. Não embarques em loas de sereia, nas palavras engomadas de qualquer gravata, no mau tempo anunciado pelos velhos do restelo.  Ouve, fixa bem. Para lá do ruído, a Natureza, por mais que a desdenhem, será sempre um guia fiável. Até porque, soprem os ventos que soprarem, não consta, que se saiba, em qualquer tabela de Excel.  Mas nunca te esqueças: quando sentires que tens que seguir, deixa sempre um rasto da tua dignidade, da tua simpatia. É que, por mais que pensem o contrário - dizem que sim, mas deixaram de acreditar - as flores podem crescer em qualquer lugar.
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terça-feira, 23 de junho de 2020

DIÁLOGOS PROVÁVEIS AO TELEFONE NUM (IM)POSSÍVEL ABRAÇO

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Ondulam os pinheiros na encosta, como sempre o fizeram, mas as aves procuram outros rumos, como se, em Junho, a vinha já tivesse sido vindimada. Algo as perturba, algo as atemoriza. É verdade que os mensageiros da corte têm estado mais activos do que nunca, mas ruído sempre houve, sempre haverá. Talvez, para lá das circunstâncias, haja algo nas bússolas que acautele a sobrevivência, que aconselhe ao recolhimento. Mas... será que a vida se resume a uma espera contínua? Nada mais haverá para além disso?
Tens razão, sempre houve ondulações e sempre haverá. Mas os deuses, ao tentarem viciar os dados, perderam o controle do tabuleiro. 
Desculpa, mas não acredito em deuses.
Nem eu, nunca acreditei em falsos deuses. Mas, podes crer, há cada vez mais por aí, recitando ladainhas para todos os gostos. É só escolher.
Será este um triste desígnio, um triste fado?
Não, há sempre uma possibilidade de redenção, de nos reencontrarmos com a harmonia. Se deixarmos de lado as (nossas) chinelinhas e as capelinhas, como se elas fossem o centro do mundo, talvez as bússolas se reconfigurem, talvez a fruta cresça no tempo certo.
Gostei de te ouvir, gosto sempre. Obrigado por telefonares. É sempre tão bom ouvir-te, sentir esse afago para dar calor à cumplicidade.
Se precisares, o carro estará sempre disponível para a viagem. Sempre.
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sábado, 20 de junho de 2020

O INEVITÁVEL OLHAR PARA LÁ DE NÓS

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Fotografia de AC
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Olho-te, debruçada sobre algo que te parece doloroso, quase único, como se nada mais houvesse para lá dos limites do teu mundo. Sinto que sofres, como todos sofremos, que te revoltas, como todos nos revoltamos. É assim, é da nossa condição. Tendemos a não acreditar, olhando tudo pela mesma medida. Mas, se estiveres atenta, há quem note que há uma luz que refulge, tingindo os dias, como que recordando que todos os dias são dia de vida. E, se continuares atenta, verás que essas pessoas seguem sempre em frente, orientando-se pela bússola da luz, olhando com carinho para cada pedra que ultrapassam. Para lá do que buscam, eles sabem que cada pedra fará, para sempre, parte de si.
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sábado, 30 de maio de 2020

ACERCA DA COMPLEXIDADE DO VOO PARA LÍNGUAS PERGUNTADORAS

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Fotografia da Luísa, do blogue À Esquina da Tecla
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Havia um passarinho. E um lago. E tão bem se davam que fizeram promessa de amor eterno: quando o passarinho passarinhava, o lago alagava.
E depois?
O tempo passou, o passarinho passarinhou, o lago alagou. E toda a gente protestou. 
Afinal, como é que ficou?
O passarinho assisou, o lago recuou e toda a gente se calou.
Assim, tão simples?
Achas simples conjugar o nós com os outros? Anda cá, meu potrinho, que eu ponho mais uns pozinhos. Era uma vez...
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