Antes havia uma árvore, um ninho, uma abelha e o desejo de ver o mar.
Agora há uma antena, um telemóvel, um drone e um especialista em comunicação.
Antes, olhando o horizonte, faltava algo. Agora, perante tanto movimento, falta muito mais.
Antes eu queria o movimento, de preferência com mar à vista. Agora, que conheço melhor os bípedes falantes, continuo a querer ver o mar. Mas, para além disso, apenas procuro entender a arquitectura dos ninhos, com a cumplicidade de quem possa abraçar. Sempre.
Tinham sonhos. Procuravam o arco-íris da vida, como se não houvesse amanhã, mas nem sempre cultivavam a paciência necessária para sentir a chuva. Compreende-se, eram jovens.
O tempo foi passando, a chuva ora aumentava, ora amainava, do arco-íris apenas alguns laivos, que se esfumavam por entre os dedos.
Uns foram ficando pelo caminho, montando a tenda, outros recauchutaram as botas. Mas, à medida que avançavam, a visão foi-se perdendo, a bússola deixou de funcionar.
Optaram por levar o barco para porto seguro, com café pela manhã e ar condicionado. E só um, já sem botas, ousou continuar, até a solidão o enlouquecer. Do ponto de vista dos outros, não do próprio. Para ele, numa visão muito selectiva, há muito que o caminho o ensinara a não deitar pérolas a quem apenas via pedras.
Nasceste, começaste a crescer. Tudo te parecia seduzir, tudo parecia ter o condão de te fazer cantar.
Continuaste a trepar, em tamanho e dimensão, e começaste a reparar que os obstáculos faziam parte da paisagem. Às vezes onde menos esperavas, que dois mais dois nem sempre são quatro, mas nada que te fizesse arrepiar caminho. Sentias que o mundo estava à tua espera, abraçá-lo era só uma questão de oportunidade.
Às tantas começaste a interrogar-te. A princípio por conveniência, depois por condição, mas o certo é que começaste a reparar que as arquitecturas, as cores, os cheiros e os sentimentos, todas essas coisas que interferem com a vida, por vezes pareciam deslocados. E começaste a contestar, acreditando que a tua crença poderia fazer a diferença.
Mais à frente, depois dalgumas quedas no escuro, que hoje te fazem sorrir, sentiste que a contestação, para fazer sentido, carecia ser irmanada na visão de novos caminhos, em algo que contemplasse, não só a tua visão, mas a de todos. E começaste a pregar a tua verdade.
Procuraste cumplicidades, partilhaste angústias e utopias, despiste a camisa para mostrar o peito. A tua voz, mesmo à distância, parecia autêntica. Mas, por cada nova cumplicidade, multiplicavam-se os atropelos e as caneladas, vindas de frente e de trás.
Gritaste, rasgaste, vociferaste. Procuraste um porto de abrigo. Então, qual sentença de Salomão, sentiste repartir-te em duas partes.
Uma seguiu a estrada dos contactos adquiridos, em proveito próprio, vendendo ilusões à multidão desgrenhada: não vai Maomé à montanha, vai a montanha a Maomé. A outra, mais resistente à dor, não abdicou do seu rumo: afastou-se da multidão, é verdade, mas apenas a uma distância prudente. Instalou-se numa quinta, bem munida de livros e de música, e começou a cultivar frutos vermelhos.
De vez em quando entravam em contacto, a longa estrada percorrida ensinou-lhes que, por mais voltas que o mundo dê, é preciso estabelecer laços: um para escoar os produtos, o outro para maquilhar a imagem.
Reúnem-se, mensalmente, para partilhar a mesma pele. E, com os filhos em volta, em modo de sorriso, ficam sempre bem na fotografia.
Eles andam por aí, sempre andaram.
Viver é coisa séria. Podemos pintalgar gestos, tentar abrilhantar os ecos do respirar, mas, mais tarde ou mais cedo, acabamos sempre por ser confrontados com as passadas que demos. Atitudes que, quase sem darmos conta, moldam, significativamente, todo o nosso percurso, decisões muitas vezes tomadas de acordo com cores, dissabores, odores, ou tão só de meras circunstâncias. É o tempo da rebeldia com ou sem causa, de horizontes limitados, de gritar bem alto, é o tempo de olhar para o umbigo. Que, ultrapassado, enfrenta várias bifurcações: seguir o caminho mais fácil, servindo as ideias feitas, ou enfrentar as agruras do espinhoso não, apenas baseado em convicções. A partir daqui não há loas, não há cantos de sereia, cada passo implica sentir o peso de cada movimento, de cada gesto. A cumplicidade pode ajudar, semeando violetas pelo caminho, mas não mais do que isso. É necessário ir fundo, bem fundo, passando pela caverna dos medos, para redescobrir a nossa nudez. Talvez, então, se descubra a simplicidade do brilho das estrelas, da configuração das nuvens, do desabrochar das plantas...
Viver é coisa mesmo séria. Os homens, contudo, teimam em rever-se em si próprios. Por mais tempestades que enfrentem, continuam a querer pôr cuspo no nariz do seu semelhante. Os homens teimam em ser tolos.
Eram nómadas por convicção. Traziam consigo, coladas no dorso, conchas de outras eras, medalhas naturais adquiridas no seu viajar.
Vislumbraram há muito o padrão das estrelas, mas continuavam sem encontrar a correspondência nos seus passos.
Sabiam dos limites da explicação do claro-escuro, perpetuadora de fronteiras, e percorriam os caminhos em busca de novas tonalidades. Tentavam de todas as formas geométricas, mas o brilho total, sem eclipse, teimava em não se revelar.
Na sua tentativa de descobrir o futuro, ser nómada tornara-se condição e estado de espírito. E, por entre a carícia do vento, a música e a dança tendem a suavizar o caminho.
. . Reformulado. Para Zerafim e as 5 cozinheiras Vurdón. .
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São ainda novos, albergando dentro de si muito espaço para o sonho. Mas não se ficaram a frui-lo, quiseram pôr em prática aquilo em que acreditam. Vai daí puseram-se a pesquisar as redondezas, até descobrirem um espaço que desse asas às suas convicções: uma quinta com muito terreno, abandonada há já algum tempo, nas faldas da Gardunha.
Fizeram obras, tornando o espaço condignamente habitável, e puseram-se a cultivar toda a espécie de legumes. Biológicos, claro está, que a mixordice não é bem vista por ali.
Quando a produção começou a irromper, viram-se confrontados com um problema: o escoamento do que produziam. Mas como o entusiasmo não falta, imaginaram uma forma de chegar às pessoas de forma apelativa, com umas pinceladas de poesia. Arranjaram umas cestas de verga, com um design atraente, e colocaram nelas um pouco de tudo o que produziam: couve roxa, rabanetes, morangos, tomates, cebolinho, couve-flor, tomilho, coentros..., tudo disposto de forma harmoniosa. Os amigos foram passando a palavra, e aos poucos foram estabelecendo uma rede de contactos, criando uma base de sustentação. E assim, todas as semanas dezenas de cestas saem da quinta, qual natureza viva saída da paleta dum pintor, que vão engalanar, de cor, odor e sabor, o paradeiro dos clientes.
Para já as coisas não estão a correr mal, embora a burocracia vá dando sinal de vida. Na quinta circulam vontades tamanhas, traduzidas em assobios, enquanto os cães, habituados a um trato leal, povoam o espaço em convívio natural.
São jovens e albergam dentro de si muito espaço para o sonho. . .