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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

O NATAL DA MINHA INFÂNCIA

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como muito bem escreveu o nosso intemporal Camões.
Vem isto a propósito de os meus ouvidos, a torto e a direito, ouvirem (in)confidências, muitas vezes em surdina, de que o Natal já não é o que era, que agora a carteira é quem manda, mas sempre duma forma efémera. A acrescer a isto, e que já não era pouco, tenho recebido, nos últimos tempos, algumas solicitações para voltar a publicar o meu conto sobre o Natal tradicional, em que, acima de tudo, prevaleciam os rituais ligados à nossa parte espiritual, imbuídos dalguma inocência, pois isso (será?) faz parte do nosso património cultural. 
Pois bem, e procurando dar o meu pequeno contributo para que certas memórias se perpetuem, aqui fica ele.
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Presépio, em telha mourisca, do meu ex-aluno Francisco Paulo
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A década de sessenta iniciara-se há pouco.
Na aldeia, inclinada à inclemência dos gelos da Estrela, não se poupava na lenha. Em casa do Luís Pereira o lume crepitava desde muito cedo, inundando a cozinha com um calor só visto nas grandes azáfamas.
Da horta, logo de manhã, tinham chegado as mais apetecíveis couves, que iriam fazer companhia, na Consoada, ao bacalhau já demolhado, comprado na mercearia da menina Amélia. Mas havia ainda muito que fazer: só de doces ainda faltavam as filhós, que seriam fritas a meio da tarde, as rabanadas, o arroz doce...
O João, cinco anitos de gente, cirandava pela casa tentando não perder pitada de todo aquele movimento, só visto naquela altura do ano. Enquanto a mãe e as irmãs davam voltas à massa para as filhós, o pequeno não arredava pé, como se toda aquela lida desse asas ao encantamento com que vivia a época.
- Oh João, vai brincar lá para fora!
É o vais! O João empolgava-se a respirar todos aqueles preparativos para "a noite mais longa do ano", como dizia o pai, e só quando era preciso reforçar o lume é que ele condescendia em ir ao quintal para trazer mais uns cavacos. Era preciso aquecer bem a casa para receber o Menino Jesus!
Durante a fritura das filhós, toda a casa se via envolvida em cânticos. Enquanto lhes davam forma e as colocavam no azeite quente, as mulheres entoavam, em louvor do Menino:
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........Ó meu Menino Jesus
........Ó meu menino tão belo
........Só Vós pudestes nascer
........Na noite do caramelo.
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À Consoada, após a oração dirigida pelo chefe da casa, as atenções centraram-se no bacalhau e nas couves que, a pouco e pouco, iam desaparecendo de duas grandes travessas. Aos dois filhos mais velhos, já homens feitos, foi-lhes permitido acompanhar o pai e o avô num copo de vinho, que a ocasião era de festa. A noite ia decorrendo, animada, como seria de esperar numa mesa com dez pessoas irmanadas pelos mesmos sentimentos. As filhós e as rabanadas iam temperando a conversa, que alternava aqui e ali com as canções que as mulheres tentavam impor e a que todos aderiam...
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........Da terra nasceu a vara
........Da vara nasceu a flor
........Da flor nasceu Maria
........De Maria o Redentor.
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Ainda a mesa da Consoada não estava apanhada e já o João, afoito, corria para a cozinha, na ânsia de colocar os sapatos para a prenda do Menino Jesus. Ainda esboçou um gesto para levar também as botas feitas no Zé Brás, o sapateiro da terra, para ver se o leque das prendas aumentava, mas os olhos da mãe disseram-lhe que não valia a pena. Pouco depois recebeu ordem para ir para a cama, enquanto os mais velhos, com outro estatuto, saíam para a missa do Galo, a que se seguiria uma ida ao madeiro, que combatia o ar gelado da noite no adro da igreja.
No dia de Natal, bem cedinho, ainda antes do galo cantar, o João foi o primeiro a levantar-se. Com o coração aos pulos, correu para a cozinha e galgou a distância em dois tempos. Pegou no embrulho que estava junto dos seus sapatos, atado com um grosseiro cordel, e desembrulhou-o logo ali. Então, deslumbrado, pegou na camisola e nas calças novas e levou-as, instintivamente, ao seu corpito de menino. Que bem lhe ficariam na missa de Natal!
A manhã custou a passar, pois nunca mais chegava a hora de vestir a roupa nova. Ansiava pelo momento de subir a igreja, de peito inchado, exibindo a roupa para os amigos. Quando, finalmente, chegou a autorização da mãe, ele e os irmãos partiram para a igreja, onde os aguardava o encantamento das enormes figuras do presépio que o padre Nicolau tinha mandado vir do Porto.
Enquanto faziam o caminho o João continha-se para não correr. Queria chegar à igreja o mais rapidamente possível para ver o presépio, mas com a roupa direitinha. Contudo, os cânticos que se ouviam ao longe ainda acirravam mais a vontade de chegar depressa. Os irmãos, que lhe notavam a ansiedade, sorriam uns para os outros. Apesar das partidas que ele lhes pregava, gostavam muito da vivacidade do irmão mais novo, e sabiam o que ele estava a sofrer para dominar a sua vontade. Às tantas, já com a igreja à vista, o pequeno não se conteve mais e começou a correr. Os irmãos ainda tentaram segurá-lo, mas quem o conseguiu foi uma pedra solta no meio do caminho, que o fez estatelar no meio do chão.
Voltou para trás, a soluçar, vergado à enorme desilusão de ver a sua roupa nova toda enlameada. Nada o parecia reconfortar. Só a Maria José, com o jeitinho e a paciência que só as mães têm, o convenceu a vestir outra roupa. E o João, que sonhara com uma entrada triunfal na igreja, subiu a coxia de cabeça baixa, só estacando em frente do presépio. Então, à vista daquelas maravilhosas figuras, o miúdo começou a esquecer-se da roupa que vestia. Deitou os olhos para o Menino e, qual milagre de Natal, teve a certeza que Ele também olhava para si. E sorria-lhe.
Durante o almoço toda a gente estranhou o silêncio do João. Não que ele estivesse triste, longe disso, mas mostrava-se tão ausente do que tinha no prato que parecia longe dali, absorto em mil pensamentos. Mas o que passava na sua cabeça devia ser coisa boa, pois de vez em quando esboçava um sorriso. E só mais tarde, quando lhe puseram uma taça de arroz doce à frente e o viram desenhar um menino com a canela, é que perceberam o encantamento que ia na alma do pequeno.
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domingo, 28 de novembro de 2021

A INICIAÇÃO

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Foto de AC
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Foto do João, com 6 anos e meio
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Gosto de pinhais. As razões para isso são difusas, mas talvez o facto de ter nascido numa aldeia rodeada por eles tenha o seu impacto. Não sei se isso explica tudo, mas sempre senti naqueles espaços o prolongamento das histórias que ouvia à lareira, num encantamento proporcionado pelos mais velhos. Na sequela dessas narrativas desenhava mouras encantadas, imaginava cenários de lobos de pôr os cabelos em pé, achados mirabolantes de tesouros, qual recompensa para o mais sagaz. Em suma, a memória ficou, para sempre, povoada de sensações de que, naquele território, tudo era possível.
Mas voltemos ao presente. O domingo passado acordou acinzentado, pouco convidativo, com o sol a fazer birra, mas com a bênção do vento a dormitar. Tendo em conta a vontade dos convocados, todos familiares, havia, está mais que visto, condições para uma incursão ao pinhal, no sopé da Estrela, em busca de míscaros. Na ementa, para além da vontade de cada um em respirar e vasculhar o ambiente único do pinhal, sempre presente a partir da convocatória, desta vez havia um suplemento extra: cerimoniar a iniciação do João, a caminhar dos seis para os sete anos, como novo membro nestas andanças. É assim, todos o sabemos e sentimos, que é com o constante rendilhar e acariciar dos afectos e das atitudes convergentes que o sentido de família se cultiva e se perpetua.
Os míscaros não abundavam, é certo, até porque a chuva, condição essencial para o seu eclodir, tem estado ausente. Problema sério que se adivinha, todos o sentem. Mas, apesar disso, sempre ia surgindo um aqui, outro ali, numa tendência mais que suficiente para manter incólume a magia da pesquisa.
O João, o nóvel iniciado, tentava manter as expectativas em alta, mas, sempre sob o olhar atento dos mais velhos, só lhe surgiam cogumelos venenosos. Quando descobria um inquiria, expectante, e os outros elucidavam, pacientemente. E, notava-se, o que ele queria era descobrir o pote de ouro, como todo e qualquer iniciado, seja no que for. Às tantas, perante tanto cogumelo venenoso, e apesar da descoberta dum ou outro comestível, o João começou a "agredir" os cogumelos "inimigos".
- Que estás a fazer, João?
- Estou a destruir os cogumelos assassinos.
Nova paragem, pretexto para nova lição. Há cogumelos que não se devem comer, mas que poderão ser úteis, por exemplo, para medicamentos. Mais perguntas, esboço de novas respostas, as suficientes para incutir o devido respeito em tudo o que observávamos, em tudo o que nos rodeava, que nos abençoava.
A pausa surge, benfazeja, para um reforço alimentar. E, à mesa, já se sabe. As histórias soltam-se, o riso alastra, cultiva-se a cumplicidade, até porque o vinho e o presunto serrano eram bons. E o João, deglutindo o seu Bongo, chegou à conclusão de que, por hoje, o melhor era pedir a Canon ao tio para ver o pinhal com outros olhos, a fim de complementar, e documentar, a sua iniciação. Vontade satisfeita, pois é claro, enquanto afrontávamos o pinhal para nova investida. E, desta vez, o João não destruiu, apenas documentou.
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terça-feira, 6 de abril de 2021

CONVERSA IMPROVÁVEL COM UMA CEREJEIRA

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AC, Cerejeira com um niquinho de Estrela ao fundo
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Tudo se prepara para a festa da renovação, tudo se começa a engalanar, com um aroma muito próprio, muito fresco, a perfumar o ar.
Tu, contudo, nem pareces a mesma de há uma semana atrás. Vais sorrindo, mas a cada dia que passa pareces mais contrafeita, como se algo de grave se passasse. Que se passa?
Olho para ti, reparo no viço das flores a desaparecer e então entendo a cusquice das duas andorinhas que, em dois fios do beiral, logo pela manhã, antes de iniciarem a azáfama costumeira, se deliciavam a falar daquilo que te envenenava a alma. Dá Deus cerejas a quem não tem dentes, pareciam concluir elas, com desdém. 
As andorinhas sabem da vida delas, tu sabes da tua, mas não evito pensar que tu gostarias que o apogeu das flores se mantivesse, que continuasses a ser admirada, que o palco a que te guindaram, por momentos, fosse eterno. 
Nem sei que te diga, não vá magoar-te. Fazes-me lembrar uma pessoa amiga que corre, desesperadamente, em busca das últimas novidades para se manter jovem - ela fala-me de algas, de massagens de pedras, eu sei lá... - e eu, enquanto a oiço, não deixo de sorrir. Ela não gosta que o faça, ainda não entendeu que as coisas, muito para lá de se possuírem, têm, acima de tudo, que se sentir. E, aqui para nós, diz-me lá: para além do decrépito da tua flor, não sentes algo de maior a eclodir dentro de ti? Repara bem, os frutos, as deliciosas cerejas que, daqui a um mês e meio, motivarão a cobiça de muitos, começam a despontar donde antes emergia a tua vaidade. Pensa e aguarda. Vais ver que, aquando rubras e bem docinhas, ninguém vai conseguir despegar o olhar de ti e dos teus frutos, derretido em cobiça. Num palco sem limites, essa será a tua verdadeira representação deste ciclo. E, podes crer, desde que bem cuidada, outros se seguirão, pela certa.
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terça-feira, 8 de dezembro de 2020

CRÓNICA A PRETO E BRANCO, COM FORTE ASSOMO DE CORES

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AC, Gardunha vista do pequeno paraíso
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A manhã acordou escura e fria, reivindicando grossas roupas de lã, enquanto convidava, sem qualquer favor, ao recolhimento. Como a Natureza, sabemos nós, é avessa a salamaleques, é melhor dizer que, onde se estampa convite, se deve ler obrigação.
A reserva de lenha, no abrigo, assoma ao espírito, mas sem necessidade. Ainda por ali há combustível, com a lareira a laborar diariamente, para cerca de um mês. Há, no entanto, que providenciar para uma nova leva de lenha grossa, de sobro ou de azinho, que de lenha miúda, para iniciar a combustão, há muita por aqui.
O Whisky, um canídeo que é hóspede habitual, parece não sentir o frio. Clama por companhia, de pau na boca, para exibir a sua perícia escapatória, numa espécie de toca e foge, em que o desafiado tem que fazer o papel de cobaia, a fazer de conta que se esforça para o apanhar. É claro que, para seu deleite, o cão leva sempre a melhor, enquanto o oponente arfa, rendido, mas sorridente.
No terreno circundante, para além da área ajardinada, da horta de verão já só sobram couves e alho francês. Há, pois, que preparar a terra para a horta de inverno, que já não é cedo para iniciar o cultivo dos alhos, das favas e das ervilhas. Tal como os dias, diz o ditado que, no dia de Natal, os alhos já têm um bico de pardal.
A neve na Gardunha, mais escassa, contrasta com a abundância de branco na Estrela, mais a norte, mas com a certeza de que os cerejais agradecem a dádiva, tamanha, para eliminar as diversas pragas. Deleito-me, num epicentro de delícias várias, grato por usufruir dum horizonte tão gratificante.
Vou ao abrigo para abastecer a lareira de lenha e, por ente os paus, deparo-me com uma vespa em estado, parece-me, de hibernação. E, a propósito de tudo, ou de nada, assoma-me ao pensamento o tal bichinho omnipresente, que a todos condiciona. Oxalá a neve o aniquilasse, ou, no mínimo, adormecesse, mas parece que o frio tem efeito contrário. É por estas e por outras que ninguém quer o termómetro na mó de baixo nos contornos da sua vida. Por inerência, penso no Natal que se aproxima, em que um "bicho" maior deveria ser foco canalizador dum amor mais elevado. Mas, rendendo-me à evidência, condicionados pelas grilhetas, já quase todos se renderam às luzes ofuscantes dum amor menor, vendido em episódios, redimensionado, a todo o instante, pelos números duma qualquer caixa registadora. Adiante.
Chegam-me, entretanto, notícias do Miguel, num vídeo em que o meu neto evidencia, a cada dia que passa, uma vontade genuína de abraçar o mundo que, paulatinamente, se vai desenhando nos seus sentidos, ancorado, sempre, numa imensa ternura. Sorrio, de peito aberto, pois há coisas que não têm preço.
E a vida prossegue, bem apoiada em convicções tecidas em esperança, enquanto inicio o despertar da lareira com recurso a duas pinhas, apanhadas no final do verão num dos muitos pinhais das redondezas.
A paisagem pode arrefecer, mas a alma, em momento algum, pode deixar de se tentar aquecer. É do nosso desígnio.
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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

DE ALMA CHEIA

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 AC, Estrela vista da Gardunha
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Olho para ela. É forte, dominadora, altiva, mas com o tempo tornou-se acessível, à custa do sacrifício de alguns flancos, desmultiplicando-se, conforme a latitude, em vários portais.
Continua bela, continua fonte de vida, apesar dos abusos. Dela brotam águas mil, moldando, lentamente, o omnipresente granito, eterna promessa irrigadora que se alarga para lá do horizonte. Mas começa a cansar-se de alguns admiradores do tipo "maria vai com as outras" que, incapazes de se debruçar sobre a sua essência, teimam em deixar rasto por onde passam.
Desta vez entro por Manteigas, uma espécie de presépio vivo espalhado pela parte mais baixa da encosta, onde o Zêzere galga os últimos pedregulhos antes de lobrigar um percurso mais tranquilo. À minha espera está o Zé Pedro, profundo conhecedor de todos os recantos da Estrela, que, após os cumprimentos mesclados de sorrisos,  me questiona.
- Então, subimos o vale glaciar do Zêzere, em direcção às Penhas da Saúde, com paragem no Covão d'Ametade, ou vamos para as Penhas Douradas?
Sugiro o percurso das Penhas Douradas, mas não para lá chegar. Quero revisitar a Rota das Faias, que nesta altura apresenta uma policromia de sonho, com nuances entre o verde, o amarelo, o laranja e o castanho. Sensibilidades.
Sorriu, assentiu e lá fomos nós, galgando a inclinação curva após curva, até lobrigarmos um chafariz a debitar a frígida água das entranhas da serra, a anteceder o cruzamento, à direita, que nos levaria ao nosso objectivo. Paramos o carro numa pequena folga de terra batida, saímos e olhamos em volta. Reparo que, desde a minha última visita, o mato está mais curto, como se um aparador tivesse passado por ali, e disso dou conta ao meu anfitrião. Explicou-me que isso se devia a um projecto inovador, que envolvia um rebanho considerável de cabras, e que, para além da exploração tradicional do leite, para queijo, e da carne, o objectivo era a prevenção de incêndios. Quanto mais as cabras comessem, menos as labaredas teriam que comer. Gostei da ideia.
Aconchegamos as mochilas - só agora reparo que me esqueci da máquina fotográfica - e damos os primeiros passos em direcção ao santuário. No início, quase sem me dar conta, acelero o passo, qual criança no almejar dum brinquedo, com pressa de chegar, mas quando as faias nos começam a envolver, impondo respeito, o ritmo desacelera, numa postura quase reverencial. É então hora de abrir as portas da alma, de nos deixarmos envolver na suave tonalidade das cores outonais, de deixarmos que a arquitectura das folhas seja parte integrante da Grande Arquitectura. E, por momentos, não há palavras, quase que não há passos, que se dane a máquina fotográfica. Aquilo que nos envolve é muito maior, aquilo que nos preenche, como se todas as peças do grande puzzle estivessem no lugar, não tem cotação em qualquer mercado. É um momento único, longe e perto de tudo, a percepção ao alcance duma mão, dum olhar ou dum sentir, mas que, simultaneamente, se mantém à distância, como que a resguardar-se para alguns momentos, para alguns eleitos. E por ali ficamos, em puro deleite, cientes de que não podemos levar as faias connosco, apenas uma leve tatuagem.
Quando nos despedimos, já em Manteigas, poucas palavras troco com o Zé Pedro. Ele já me conhece, basta-lhe olhar para o meu rosto para saber que regresso de alma cheia. E, cúmplice, sorri.
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Rota das Faias - Imagem retirada da Net
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sábado, 13 de outubro de 2018

AS DORES DO CAMINHO

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AC, Serra da Estrela
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Começam a doer-me os pés de tanto caminhar, em constante insistir, sem ver fim à desdita.
À noite, se sinto frio, embrulho-me em nascentes e poentes utópicos, como se atiçasse as brasas para um café reconfortante. Mas os acordares anunciam, cada vez mais, um mundo plúmbeo. Por mais que caminhe.
De tanto caminhar, começa a doer-me o sorriso.
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sábado, 12 de maio de 2018

O BEIJO DA NUVEM

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AC, Beijo da nuvem
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Maio insinuou-se, sedutor, convocando tudo e todos para o habitual festival de cores e aromas. 
As espigas, a caminho da maioridade - ornamentadas, aqui e ali, com o alegre colorido das papoilas - ajudavam à festa de forma discreta, mas prometedora. Não queriam ocupar o palco, contentavam-se com a promessa, num farto Junho, de encher as arcas dos bastidores.
Por perto, nas orlas dos caminhos, as giestas vestiam-se de branco e amarelo. O rosmaninho, de místicas vestes, ajudava a compor a tela, enquanto, obedecendo a ancestral apelo, procurava apaziguar o infatigável labor das abelhas.
Os deuses, saindo do seu torpor, invejaram o quadro. E, não resistindo a deixar a sua marca, segredaram às nuvens para beijarem, delicadamente, a terra.
Chamei-te para veres, chamei-te para sentirmos. Estava na hora da mais natural das comunhões.
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sábado, 10 de março de 2018

O QUINTAL

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AC, Paisagem com Estrela ao fundo
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Os passos eram firmes, determinados, apesar duma constante espada, na sombra, a ameaçar travar a marcha. Talvez por isso. A vida, na sua essência, baseia-se no risco de ousar ir mais além, controlá-la está fora de questão. Há, pois, que depurar os empecilhos, contornar os profetas da desgraça, estar acima da filosofia dos donos dos quintais, especialistas em fronteiras.
De repente, qual convite irrecusável, insinua-se a pausa. O olhar alonga-se, planando na sensação de descoberta duma espécie de portal com ligação directa à alma, a configuração das coisas ganha outra dimensão. O tempo pára. Cada pormenor ganha vida, como que a dizer que tudo conta, sente-se o respirar do silêncio. Às tantas, apesar de apenas em esboço, insinua-se a dúvida: se eu estou, por que é que tu não estás?
Sim, eu sei que caminhar, muitas vezes, é descobrirmo-nos na solidão. Mas, podes crer, é nessa caminhada que se forja a cumplicidade mais pura. É disso que todos precisamos, é isso que todos nós procuramos. Apesar de, cada vez menos imunes a ruídos, continuarmos obcecados em ser donos de um qualquer quintal. Tudo por que queremos uma recompensa imediata, por mais ilusória.
Talvez, um dia, nos encontremos.
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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

APRENDIZ

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AC, Bosque de coníferas (Serra da Estrela)
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Os passos eram lentos, cautelosos, próprios de quem está fora do seu ambiente, como se, a qualquer momento, algo pudesse acontecer que perturbasse o momento. Havia vida, muita vida, pressentia, mas quase em contenção, como se aguardasse o próximo gesto do invasor para determinar as suas intenções. Parecia que o desmoronar do equilíbrio dependia dum gesto menos conseguido, dum respirar fora de contexto, do desabar duma intenção ainda por concretizar. 
Achou melhor parar. Os minutos foram passando e, naquilo que julgava silêncio, algo se começou a insinuar: pequenos sons, leves como o cair duma folha, como o voo dum qualquer insecto, como a delicada carícia da brisa... Começou a sentir, lentamente, que fazia parte do que o rodeava, que era apenas mais um ser a palpitar. 
Os músculos começaram a relaxar. O som da queda das folhas tornou-se mais nítido; não muito longe o movimento da água entoava a sua eterna sinfonia; um ou outro pássaro começava a dar sinal de vida. Respirou fundo, em acto libertador, enquanto se fixava na arquitectura das folhas, delicado tecido de discretos seres sempre presentes, sempre a nosso lado, que teimamos em manipular, não lhes dando carta de alforria.
Sentou-se numa pedra. Tirou a máquina fotográfica da mochila e, já totalmente integrado, começou a fotografar, como se quisesse semear, dentro de si, as sensações que as árvores lhe transmitiam.
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AC, Bosque de faias (Serra da Estrela)
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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

OS CASTANHEIROS DO POÇO DO INFERNO

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AC, Trilho na Serra da Estrela (zona do Poço do Inferno)
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A solicitação chegara, inesperada, via correio electrónico. A resposta, perante tão apelativo desafio, só podia ser uma.
O ponto de encontro ficara marcado para Manteigas, uma espécie de presépio em pleno vale glaciar do Zêzere, onde se acertaram os últimos pormenores.
Chegados à zona do Poço do Inferno, não muito longe da vila, o primeiro impacto, já adoçado no percurso de acesso, foi de plena aceitação. A vegetação envolvia-nos de tal forma que, por momentos, nem sabia bem como chegara ali, a um vislumbre de portal que nos transportava, quase sem darmos conta, à percepção e à transcendência. Talvez fosse a determinação em me levantar cedo, talvez fosse o filtro, cada vez mais apurado, de investir nas coisas aparentemente simples, em que a arquitectura verde, de tão harmoniosa, convida, de forma irrecusável, à libertação das amarras da alma. Fosse como fosse, mal ali cheguei senti que valia a pena, que estava em casa, na casa que deveria ser de todos nós. Um privilégio esverdeado, mesclado, aqui e ali, por belas e delicadas pinceladas, obedecendo ao sortilégio das primeiras tonalidades outonais.
O percurso, adornado, maioritariamente, por castanheiros, com uma ou outra faia ou um pinheiro a intrometer-se, parecia preparado para os deuses. O chão, atapetado quanto baste pelas folhas precursoras do mergulho em espiral, abafava os passos dos caminhantes, imprimindo-lhes um som peculiar, mas aconchegante. Os sorrisos de satisfação instalavam-se naturalmente, como se cirandar por esta parte da Estrela fosse receita miraculosa.
O tempo passava, sem ninguém dar conta, com os sentidos cada vez mais ligados à arquitectura de troncos e folhas, musicados por um ou outro chilreio, só distraídos com o piscar de olho das castanhas que, numa quase ousadia, espreitavam dos ouriços que enfeitavam o caminho. Ante a promessa duma boa jeropiga no final do percurso, algumas foram mesmo parar à mochila.
Mais abaixo, já perto da zona onde a ribeira de Leandres e o rio Zêzere se abraçam, surge a primeira pausa. Das mochilas saltam acepipes, soltam-se as palavras, a apreciação da jeropiga é consensual: envolvente, matreira, convidativa a mais um trago. Vindos das proximidades, dois cachorros Serra da Estrela, de rabito a dar a dar, chegam-se por perto, despertando carícias e sorrisos. Mesmo ao lado, em discreta sinfonia ancestral, a água da ribeira faz-se ouvir. Ainda faltava fazer a Rota das Faias, a caminho do Covão da Ponte, mas o dia já estava ganho.
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ACERCA DA LEVEZA DA NEVE, EM MODO CONFORTÁVEL

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Fotografia de AC
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quando cai neve
nada prescreve
nada se deve
tudo parece leve
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quando neva
nada me leva
tudo me enleva
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Fotografia de AC
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terça-feira, 25 de outubro de 2016

PAISAGEM

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Fotografia de AC
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A paisagem, com o vento ausente e a parca luz duma réstia de sol, quase parecia parada. Até o ténue ruído do tractor, à distância, a preparar, provavelmente, a terra para a sementeira de trigo, parecia fazer parte da quietude. Mais próximo, em cadência lenta, um cão emitia um ou outro latido, um quase exercício de desfastio perante a calma instalada, enquanto um rebanho, em serena comunhão com as ervas, saciava, tranquilamente, o natural apetite.
Mais à frente, acedendo ao convite do declive, porta aberta para o mais profundo do vale, as águas do rio,  fonte de toda a vida circundante, acentuavam o sentido de aparente apatia. Tudo parecia parado, embalado no adorno de ancestrais memórias. Apenas um bando de pintarroxos, estranhando a intrusão, ousou romper  o véu da calma instalada, esvoaçando para lugar mais seguro.
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terça-feira, 18 de outubro de 2016

ESBOÇO, MAL AMANHADO, DA CANÇÃO DA PERSISTÊNCIA

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Fotografia de AC
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Refulgem os dias de outono, como que dando o melhor de si no anúncio da demanda perdida, mas tu persistes. Alcançaste, com o teu esforço, o patamar dos que querem perdurar, mas, chegado aqui, continuas a ter dúvidas, não sabes bem o que fazer. Ouves, no soprar dos ventos ressequidos, que as memórias se perpetuam na dimensão do percurso feito, nos gestos que motivam outras visões, outras atitudes, mas o teu instinto não adere, queres ir mais para lá do fado das ideias feitas. Continuas insatisfeito, o que conseguiste sabe-te a pouco. Continua, num olhar cada vez mais selectivo, a seduzir-te a ideia de chegar além, de desmitificar o que está ali, de abençoar o que está aqui.
Estás em contra-mão, sabe-lo bem, mas há muito que, para ti, isso deixou de ser problema. Continuas a querer perceber, antes de mais, continuas a querer ser, antes de tudo. Contigo, quando voares, não haverá fanfarras, contigo apenas se sentirão, ao de leve, os acordes da canção da vida.
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sábado, 15 de outubro de 2016

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA BELA ADORMECIDA

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AC, Mulher adormecida
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Tinha adormecido, resignada, nos primórdios, não sabia bem em prol de quê. Lembrava-se, isso sim, do rumor do tempo que, apesar de cadenciado, se comprazia a confundir os outros, deixando, ao de leve, aqui e ali, pequenos sinais, quantas vezes maquilhados de travessuras, accionando a tecla da importância de cada um. E eles, ufanos pela escolha, apressavam-se a elaborar tratados, cultos, de cariz determinante, como se fossem os eleitos para a preservação das coordenadas do verdadeiro cenário.
Aprendera, com o tempo, que tudo se conjuga no infinito, a pressa apenas fazia sentido como antónimo da vida. Por vezes sentia-se tentada, é verdade, em deixar uma dica aqui, outra ali, mas até isso aprendera a controlar. Facilitar, assim lhe segredava o tempo, nada augurava de bom.
Continuava a dormir, mas de forma cada vez mais solta, mais apaziguada. Sabia, como que tatuagem em sentido crescente, cada vez mais entranhada na pele, que há rumos que não dependem só de nós. Cabe aos outros, enfrentando os medos, tecer a melhor forma de os pintar, de os esculpir, de os movimentar.
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sábado, 30 de julho de 2016

EPIFANIA

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Fotografia de AC
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A luz esgueirava-se, por entre as árvores, cedendo o palco às cigarras, quando tu chegaste, devagar, do lado do canteiro das alfazemas. O brilho dos teus olhos, destilando aromas de verão, era convite ao mergulho, e eu, inebriado, não sabia se era rio, se era lago, ou se era mar...
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sábado, 9 de maio de 2015

TELA

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AC, Pinhal com Estrela ao fundo
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Caminhava, devagar, por entre os pinheiros, decifrando silêncios plenos de vida. A ligeira brisa, sedutora, ajudava a acentuar os aromas e os cantos da passarada, dando ainda mais cor à tela que, quase sem se dar conta, ia pintando interiormente. Lembrou-se da pequena Mira, capaz de, por trás de cada pinheiro, imaginar um duende. Sorriu. Ainda tinham tanto que contar um ao outro...!
Uma pinha, obedecendo às leis da gravidade, caiu a dois palmos, fazendo-o estacar. Olhou para baixo, para a pinha, olhou para cima, para o pinheiro. Tranquilamente. Ali era simples visita, o anfitrião era o pinhal. Como se de mesura se tratasse, apanhou a pinha, meteu-a na mochila e continuou a caminhar, retomando as pinceladas da tela.
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sábado, 28 de fevereiro de 2015

A CONSTRUTORA DE MEMÓRIAS

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Margarida Cepêda, Solo mineral para violino
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Fora educada no esforço, na abnegação, a recompensa acabaria por dar à costa. Lutou, desesperou das cunhas dos outros, mas insistiu, insistiu sempre. Nunca se dava por vencida. Pouco a pouco, contra ventos e marés, fora marcando pontos, o sucesso, qual tela em permanente ebulição, começara a ganhar contornos.
O transpor das metas, no início, era pura adrenalina, mas, às tantas, deu-se conta do labirinto. Uma meta nunca era um final, era sempre um início. De outra corrida, de outra meta. E assim se consumiam os dias.
Num dia de chuva, em luta contra o destino, deixou para trás a aura de sucesso, que lhe ofuscava a noção do tempo, e lançou-se à estrada. Na bagagem, para além de "Memórias de Adriano", que nunca acabara de ler, transportava a memória do verdejante vale onde passava, em pequena, as férias com os avós. Não se sentia completamente segura da sua opção, mas agir estava-lhe no sangue. E, no mais fundo de si, acreditava. 
A certa altura deixou a auto-estrada e embrenhou-se na velha estrada nacional, agora quase sem trânsito, memória serpenteante da sua meninice. Abrandou a marcha, abriu o vidro e, enquanto conduzia, deixou-se absorver pela afável presença de pinheiros, carvalhos e castanheiros. Quando chegou ao alto da Portela, porta fronteiriça do mágico vale, parou o carro. Saiu, devagar, dando lastro a um acto cerimonial que a transcendia, e  deixou que olhos e alma se irmanassem, em perfeita sintonia, perdendo-se no deleite da redescoberta. Ao fundo, eterno gigante adormecido talhado em granito, a Estrela enquadrava uma enorme tela sarapintada de árvores, casario e terrenos de cultivo. Começou a procurar a velha casa de granito, que mandara recuperar, não muito longe do rio que recolhia as águas das duas serras. Lá estava ela, minúsculo ponto que iria ser o epicentro da sua vida. À esquerda, aproveitando um ligeiro declive apontado ao sol, iria plantar vinha. À direita, perto do ribeiro que ia desembocar, um pouco mais à frente, no grande rio, parecia ser o local certo para as estufas de framboesas e mirtilos. E ainda havia planos para um olival, para além duma pequena horta...
Regressou ao carro e começou a descer em direcção ao vale. Os castinçais davam agora lugar a milhares e milhares de cerejeiras, prenhes dum delicado branco que em breve iria pintar a encosta. Uma ou outra mimosa, já em flor, dava-lhe as boas-vindas. 
Era impossível não sorrir. Em território de gratas memórias, a apelar à renovação, as de Adriano, pelos vistos, teriam que continuar a aguardar.
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

BRECHAS

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Fotografia de AC
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O frio, cenário de eterno conflito entre inibição e conservação, tolhe o movimento das asas da borboleta, surgida não se sabe de onde, aproveitando, talvez, uma brecha nos humores dissonantes da natureza. A manhã, bem agasalhada, já vai bem alta, mas o sol que rompe, ainda que com laivos de timidez, é mais que suficiente para atear a volúpia da vida. Um poisar aqui, outro mais além, mas sem a desenvoltura dos gloriosos dias de verão.
A brisa, vinda dos lados da Estrela, não aconselha grandes devaneios. E a borboleta, apesar das brechas, fiel às fiáveis leis da criação, recolhe o seu voo, para parte incerta, para fenecer ou, quem sabe, à espera que o milagre se perpetue em novos laivos de luz.
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sábado, 10 de dezembro de 2011

ECOS

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Fotografia de AC
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A grande montanha parece logo ali, à distância de um gesto, mas o seu piscar de olho é ilusão para os apressados.
Apesar das cautelas, o caminho inicia-se com o bolso repleto de verbos, na confiança do seu aconchego, mas poucos são os que ganham vida com o jorrar do silêncio dos pinheiros. O local tem vida própria, exige do intruso que se dispa, se liberte das marcas doutro linguajar. A brisa, habituada a tais aromas, sussurra ao de leve a importância de saber ouvir, de deixar de lado as encruzilhadas do ruído. E o canto da rola é garante da comunhão com o lugar.
Só tu, refém dum tempo em contratempo, pareces não entender a leveza etérea do meu sorriso.
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