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quarta-feira, 15 de maio de 2024

ACERCA DAS SEMENTES

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AC
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Resplandecem luzes naturais que emanam duma química superior, mas abrangente, pejadas de mistérios, à mercê de mil e uma histórias de encantar, qual desafio à descoberta do segredo. 
Durante o dia, com o afluxo das plantas, eternamente desejosas de irromper, o verde novo tende a amadurecer, deixando resquícios de aromas de efémeras flores, ébrias de satisfação pelo contributo para mais uma passagem de testemunho. É quanto lhes basta. A vida perpetua-se, isso é certo, por entre tantas dúvidas, com a participação de uma infinidade de actores, todos eles ligados à corrente, em equilíbrio permanente, apesar da desfaçatez dos aprendizes de feiticeiro. Até ver.
Ontem, ao princípio da noite, tocaram à campainha. Eram uns amigos de longa data, sorridentes, que traziam consigo, como prenda, várias espécies de sementes, talvez não se dando conta de que, eles próprios, eram semente preciosa. Como só os amigos podem ser.
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terça-feira, 7 de maio de 2024

PLANTAR A ESPERANÇA

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AC, Estrelícia encabeçando manifestação de rosas de Santa Teresinha
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Apesar do frio dos últimos dias, a confirmar o instável humor do clima, as papoilas teimam em chegar-se à frente, renitentes em dar espaço a imprevisíveis formas de estar. E florescem, engalanando os campos, fazendo jus em acompanhar a sinfonia da passarada. Mas é leve a resistência, pois há algo de mais persistente. E não há resiliência que perdure a tanta adversidade, com as pétalas a render-se, uma a uma, aparentemente conformadas com o seu efémero destino.
Indiferente a tanta inclemência, já maturada pelo tempo, a estrelícia do canteiro fronteiro à casa tende em manter-se viva, quase jocosa da vulgaridade, irrompendo perante um batalhão de rosas de Santa Teresinha como se da mais natural circunstância se tratasse. E há que fazer reverência a tanta persistência, mais a mais acompanhada de uma beleza ímpar. Rendo-me à evidência, dou graças por tamanho privilégio.
Entretanto, num recanto já anteriormente preparado, insiro na terra mais três dúzias de tomateiros. A tarefa é libertadora para a alma, apesar das costas começam a desenhar uma espécie de queixume. Nada que arrefeça o ânimo para o baptismo de uma dúzia de curgetes, sedentas de mergulhar na vida, com a terra a acariciar o pouso duma nova espécie. Com o devido carinho, com a água a ter um papel primordial, vão dar-se bem, com toda a certeza.
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O conceito de tempo, por aqui, não se baseia em conceitos clássicos. Fruem-se as tarefas, mergulha-se a atenção no desfolhar duma nova flor, aprecia-se o chilrear dos pintassilgos, as surtidas esquivas dos melros... Relógio só o da luz e da sombra ou, quiçá, o do corpo a pedir repouso. A este, correspondendo ao mais elementar bom senso, faço sempre a vontade.
Para amanhã prevê-se sol, finalmente. Talvez as andorinhas apareçam para adornar este Maio de mil cores, qual Primavera de eterna esperança.
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domingo, 21 de abril de 2024

OBSOLETA CRONIQUETA

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Foto de AC
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A enxada, extremidade natural dos braços, com razão e com tempo, começou a rasgar a terra com a atenção que ela merecia. 
As ervas eram um obstáculo, mas apenas pela sua delicadeza, pois cada pormenor evidenciado - a forma das folhas, a flor que se desenhava... - era constante empecilho para um cavador demasiado sensível àquilo que o rodeava. Mas, por entre tratados inaudíveis para o exterior, que apenas diziam respeito ao portador da enxada e às espécies invadidas, lá se foi criando um compromisso apaziguador de consciências. E a terra foi-se preparando, com algum trauteio, de modo a receber algumas novas espécies.
O desafio, desta vez, era aconchegar as alfaces ao calor confraternizante dum canteiro semi-selvagem, onde algumas espécies cultivadas convivessem com rosmaninhos, muito senhores dos seus domínios, em perfeita harmonia. E, sempre com outras ervas de permeio, tentou-se que as alfaces se integrassem na irmandade, qual retrato duma talvez efémera tentativa de remediar os males do mundo. Utopia na sua mais pura essência, é bom de ver, com a vantagem de se poder usufruir de cores e odores. Até porque a música de fundo estava mais que garantida, pois a passarada, por aqui, é dona por inteiro do lugar.
O Miguel, a três meses de fazer quatro anos, às vezes irrompe por aqui, sedento de conhecimentos e brincadeiras, sempre com um olhar atento por perto. Já dá atenção aos pássaros, começa a tratar as flores e as borboletas por tu, numa forma muito própria, mas com as abelhas ainda existe uma distância prudente. Tem tempo.
Perante tal cenário, e longe de Instagrams, Facebooks e outros que tais, por opção, digam-me lá uma coisa, que ninguém nos ouve: estarei fora de moda? Perdoem-me, desde já, o meu irónico sorriso. :)
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quarta-feira, 14 de junho de 2023

PINGOS DE CHUVA EM CONTRAMÃO

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Fotos de AC
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A chuva, por estes dias, não parou de cair, iludindo a caminhada, mais que provável, para a seca, confirmando, mais uma vez, que a excepção é parte integrante da reg(r)a.
A horta, mais pragmática do que eu, agradece a bênção pluviosa para se desenvolver de forma natural, mas deixando para mim a preocupação com as ervas que, à boleia de tal escorrega, crescem desmesuradamente, nada se importando com um mero aprendiz de hortelão que, por todos os meios, tenta salvaguardar o bem-estar das suas plantas de estimação. Se as ervas agora já se insinuam, a carta de alforria irá chegar, dentro de poucos dias, quando os raios solares retomarem o seu domínio. É então que se começará a conjugar o verbo mondar.
Entretanto, aproveitando a folga da chuva, tento manter-me a par do que se passa pelo mundo, vasculhando jornais e revistas. E confirma-se uma ideia muito arreigada: tanto governantes, como oposição, apenas se preocupam com a detenção do poder, deixando para as calendas a solução dos problemas. E digladiam-se, sem fim, em busca da simpatia de potenciais eleitores. Invocando um famoso título literário, a oeste nada de novo. Felizmente, para aconchego do melhor que há em nós, existe o trabalho incansável de muitas ONG´s, mas o sentido cívico dos governados deixa muito a desejar.
Regresso à horta, aproveitando uma pausa da chuva, e reparo que a sinfonia dos pássaros também está de volta. Lá em cima, em voo planado, algumas aves de rapina povoam os ares, em voo silencioso, sempre atentas às oportunidades. Contrariando a postura das suas vizinhas mais altaneiras, as cegonhas passam num voo mais rectilíneo, com as patas bem distendidas, de modo ergonómico, em consonância com  a cabeça, no outro extremo, com destino bem delineado, sabendo bem ao que vão. As pegas rabilongas, habituais frequentadoras do espaço, afastam-se perante a minha presença. Só os pardais, muito senhores de si, teimam em se manter por perto.
Em pleno distender de sentidos, e em modo tranquilo, acabo por colher o que resta dos alperces, talvez para compota, que este foi um ano de fartura. Mas as cerejeiras, coitadas, de tão tristes, apenas se queixam de tão inesperadas pingas, que as ferem, retirando-lhes o tão esperado tempo de rainhas. São muito sensíveis, estas senhoras.
E assim vamos vivendo, por entre os pingos da chuva, quando os há, com demasiadas pessoas afectadas pelo vírus do consumo. Um dia destes, se chegarem a despertar, é muito provável que já seja tarde de mais. Nesse caso, e por mais que me resguarde, mesmo fazendo a minha parte, o meu pequeno paraíso pouco sentido fará.
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P.S. - Quando me afastava da horta, reparei que uma borboleta fazia duma couve lombarda um porto de abrigo. Voltei atrás, tentei afastá-la, não fosse ela depositar ovos que dariam lugar a lagartas, que mais tarde se alimentariam das couves, mas ela não gostou nada da interrupção, esvoaçando à minha volta com uma velocidade inusitada. Que é isto?, pensei. E lá deixei a criatura em paz, sujeita aos desígnios do seu livre arbítrio. Mas que vou passar a vigiar as couves, lá isso vou! 
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sábado, 11 de março de 2023

LAUROS, MELROS E EQUILÍBRIOS

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AC
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Foi na manhã deste sábado, mas poderia ser a qualquer hora dum dia qualquer. Aproveitando a folga dada pela chuva - deveria chover mais, era bom para todos, penso para mim, apesar de, incoerente com o pensamento,  me animar com o sol que espreita - fui lá para fora podar a sebe de lauros que contracena com os dois portões da entrada, com a noção de que já era mais que tempo, pois  estas plantas, se houver qualquer descuido, tendem a crescer desmesuradamente. Até aos 12 metros, informa-me o Google.
O trabalho, ou melhor, o prazer de andar ao ar livre, sem restrições, absorvendo as múltiplas formas de vida, de forma natural e com isenção de formatações - a cada dia que passa, e num agradável aviso pré-primaveril, o chilreio da passarada, com novas espécies migradoras à compita, está mais diversificada, as abelhas e as borboletas, numa azáfama constante, estão cada vez mais presentes, as árvores começam a dar sinais de despertar, num perpétuo ciclo em constante equilíbrio - prosseguia em bom ritmo, de alma lavada, sem questões existenciais, numa progressão de baixo para cima. Às tantas, e chegado a um patamar em que a altura dos lauros já aconselhava um corte radical, não fossem eles escarnecer do estado de crescimento dos seus pares, já devidamente podados, deparo-me com um ninho de melro. A situação não me era desconhecida e, a fim de contrariar o acontecido há dois anos, interrompo de imediato a faina, com o prazer a esfumar-se, ou antes, a ter que ser reformulado. E, apesar da sensação de templo profanado a pairar no ar, ousei ir a casa em busca da máquina fotográfica para registar o momento. Com cuidado, muito cuidado, subi três degraus do escadote e preparei-me para o registo da imagem. Mas o sentimento de culpa, essa herança judaico-cristã que nos acompanha de braço dado, com garras profundas, não me permitiu captar o momento com a atenção desejável. E, quase a medo, lá despachei o clique, com receio de que a casa alheia, sabiamente tecida, fosse rejeitada pelos seus habitantes, atendendo à sua vulnerabilidade, apesar de, desta vez, ela continuar bem camuflada.
Com a preocupação de nada, ou pouco, incomodar, e só com uma apressada tentativa, pouco de acordo com os cânones, a fotografia ficou má, é um facto, e quase me regozijo por isso, qual acto de penitência pelo meu descuido no afã da arte de bem podar. Talvez, e fico a torcer muito por isso, o casal de melros continue a sentir-se em segurança, apesar da intrusão do podador. Era sinal de que, a pouco e pouco, e apesar dos meus percalços, vou conseguindo equilibrar-me com o que me rodeia, no mundo natural, com o menor impacto possível. 
Regresso a casa, devagar, com o escadote numa mão e a tesoura e o serrote na outra, num agridoce debate de sentimentos. De repente, como se os deuses me escolhessem para diversão, oiço à distância  o delicado canto do casal de pintassilgos que, de há uns tempos a esta parte, por aqui aportou. Estaco e, quase sem me dar conta, esboço um sorriso perante tal dádiva. É o suficiente para o meu sol interior começar a brilhar, sem restrições.
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

PARA LÁ DOS CARNAVAIS

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AC
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O dia decorre cinzento, pouco apelativo, como que a ilustrar as notícias que chegam do mundo.
Contudo, quem está minimamente atento sabe que para o emissor a desgraça é que se propaga, qual fogo em terreno seco, em detrimento do gesto benigno, fazendo subir audiências. E a multidão, refém duma lógica pastoral, manipuladora do rebanho, devora a mensagem sem qualquer sentido crítico.
Como que a querer contrariar maus presságios, vislumbro lá fora, através da vidraça, um casal de pintassilgos a debicar aqui, a debicar ali, com toda a delicadeza, fora do raio de acção doutro casal, mas de melros, cuja envergadura, muito mais desenvolvida, aconselha afastamento aos pesos pluma. Os pardais, como sempre, são omnipresentes, como se fossem donos do território, e nem os gatos que por aqui deambulam os conseguem incomodar. Uma aproximação, um voo lesto, cada um sabendo ocupar o seu lugar, com os pequenos felinos a desenvolver, agora e sempre, o culto da resignação.
Saio de casa. Os pintassilgos e os melros esgueiram-se num ápice, mas os pardais, confiantes, ficam por perto. Em volta a vizinhança anda muito ocupada na lavra dos terrenos, prenúncio das sementeiras primaveris que se aproximam. À medida que lavram, num sempiterno ritual, a passarada acompanha o compasso, sempre à retaguarda, atenta a toda e qualquer lagarta colocada a descoberto, banqueteando-se sem qualquer sentimento de culpa. Isso é para os bípedes falantes.
Cinjo-me ao meu pequeno paraíso, repleto de ervas silvestres, onde as margaridas são rainhas. Reparo nas amendoeiras, cada vez mais adornadas de flores, enquanto o damasqueiro, mais dorminhoco, começa a insinuar um tom róseo, procurando imitar os marmeleiros japoneses que, mais junto da casa, há muito alegram o local. Com maior avanço seguem as nespereiras, com o fruto já na infância, aguardando por dias de mais sol para melhor se desenvolver. As outras árvores - macieiras, pereiras, cerejeiras... - sem pressa no parto, reservam-se, pacientemente, para o seu tempo de esplendor, enquanto uma ou outra ave lhes vai enfeitando, por breves momentos, os ramos nus.
Lá no alto, planando sem pressa, as aves de rapina - um ou outro milhafre, quiçá um açor, ou um bufo, talvez uma águia - aguardam pela melhor oportunidade para deitar as garras à cobiçada presa, reservando o uso do bico para quando estiverem instaladas no ninho.
Caminho, olho, absorvo. Quando, por fim, e já de alma saciada, retomo o caminho de casa, ouvir uma boa música apenas serve para complementar o efeito. Ligar a televisão é, naturalmente, a última das minhas prioridades.
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sábado, 30 de abril de 2022

BARCAÇA DO BEM SER, EMBARCAÇÃO DO BEM ESTAR

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AC, Flor de macieira
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Em finais de Abril, princípios de Maio, eu já sabia que os deuses conjuravam. Pressentias o verde novo, os pássaros, as flores e a luz, vestias uma leve blusa de algodão, colocavas um chapéu de aba larga e vinhas cá para fora, como que a querer aspirar a vida que nos envolvia.
Depois, já impregnada de múltiplos sons e odores, não resistias. Abraçavas-me longamente, como que a querer transferir para mim tudo o que sentias, e encaminhavas-me para as cadeiras, com vista privilegiada para a encosta da serra, onde as cerejeiras se despediam das últimas flores. Já sentados, com o rosmaninho por perto, nada dizias, mas davas-me a mão como se sentisses, e soubesses, que partilhávamos toda a sabedoria da simplicidade das coisas. 
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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

BUCÓLICA OUTONAL

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AC
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O dia está sorridente, com o sol, maroto, piscando o olho à minha pré-reforma, como que a dizer-me que está tudo bem, tudo irá continuar bem. É um mentiroso, mas sorrio para o presságio, tal como se uma cigana de feira me lesse a sina. E aconchego-me aos seus raios, com chapéu a prevenir, não vá o diabo tecê-las.
Lá fora já não se dá pela presença de muita passarada, entretanto emigrada. Os pardais, contudo, inquilinos de tudo o que é habitável, continuam a palrar, a debicar, a chapinhar numa ou outra poça de água de ocasião. 
As moscas tendem a esvair-se, hurrah!, as formigas começam a aninhar-se, mas as borboletas, persistentes, continuam num contínuo esvoaçar, obedecendo à melodia da luz do dia, num eterno bailado em busca do melhor local para depositarem os seus ovos. O mundo, no que lhes diz respeito, jamais findará. 
Os gatos, na ausência do cão, voltaram a instalar-se no terreno, quais donos e senhores dum território que lhes é prazenteiro. E, para dar crédito às minhas palavras, uma gata prenhe, que pelo volume do ventre deve estar prestes a fazer jus à harmonia da criação, pavoneia-se, lentamente, na calçada que circunda a casa, como se tudo estivesse no seu lugar.
Renuncio, por momentos, à minha postura de observador, tento reconciliar-me com a prática do afã do bípede supostamente inteligente. Munido duma enxada que, segundo Jorge Luís Borges, é um instrumento que prolonga o braço do ser humano, acabo de tirar da terra o último quinhão de batata-doce. Lavo-a, ponho-a ao sol para secar, mais tarde irá para a despensa. A maioria, está mais que decidido, para assar no forno.
Olho para o céu. Ainda é cedo para as aves de rapina, mas uma ou outra já cavalga o céu, à espreita da sua oportunidade. Devem estar inquietas com o preguiçar duma ou outra cria, que tarda na emancipação. E eu, perante a grandiosidade daquilo que me rodeia, renegando a condição de mais sofisticado predador, retiro-me, humildemente, para o meu abrigo.
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domingo, 26 de setembro de 2021

ARROZ DE CAMARÃO COM ABRAÇO SEM FUNDO

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Levantou-se cedo, como era habitual. Após o pequeno almoço, com um livro ao alcance do olho, deixou que a manhã se arrastasse, numa modorra aprazível, espreitando a passarada, de quando em vez, através da vidraça. Tudo estava tranquilo, o mundo parecia no seu lugar. Havia tempo para preparar o almoço.
De repente, qual trombeta de alarme, o telefone entoa a sua cantilena. Quem seria?
Não eram desgraças nem promessas do paraíso, que isto de vender uma ideia tem muito que se lhe diga. Era, muito simplesmente, o filho, a anunciar que chegariam mais cedo para o almoço, pois o Miguel, o seu neto, tinha trocado as voltas ao sono. Olhou para o relógio. Não se podia descuidar, pois o que antes lhe parecia muito passou a ser resvés Campo de Ourique.
Picou a cebola e os alhos e reservou num prato. Depois, sem mais delongas, pegou em dois tomates maduros, vindos directamente da horta, tirou-lhes a pele e passou-os pela trituradora. Voltou a reservar. A seguir, tentando manter-se organizado, pegou no tacho das grandes ocasiões e preencheu-lhe o fundo com azeite da região, acrescentando-lhe uma folha de louro. Parou um pouco para pensar. Sim, parecia que tudo estava segundo os conformes. E retomou a azáfama. Tirou os camarões do frigorífico, acenou-lhes com o olhar e, após deixar a cebola e o alho a refogar - e recordou-se que no norte se diz esturgir - começou-os a descascar, reservando as cabeças num prato. Pelo meio, e quando se certificou que o refogado estava no ponto, acrescentou-lhe o tomate triturado, em lume brando, a fim de apurar da melhor forma. Depois, concluído o descasque, deixou os moçoilos camarões a exibir a sua nudez, muniu-se duma varinha mágica, meteu as cabeças num copo e triturou-as comme il fault. Era este o verdadeiro segredo da receita.
Voltou a fazer um compasso de espera, contrariando o tempo, enquanto apelava à memória que lhe indicasse o que faltava. Não era muito.
O tomate parecia já ter apurado. Depois de colocar os moçoilos camarões no tacho, aconchegados com o caldo das deliciosas cabecinhas, devidamente coado, mediu a quantidade de arroz - vaporizado, no caso, pois previne qualquer excesso de tempo na cozedura - e acrescentou a água devida, na proporção de 1 por 3, mas já descontando a quantidade de caldo, que quem é habitué na cozinha sabe do que estou a falar.
Entretanto, e depois de colocada uma pitada de sal e dum pouco de jindungo, deu um saltinho à horta e colheu a salsa suficiente para um agradável raminho de cheiros.
Chegaram à hora, os pais puseram a mesa e ele, qual recompensa abençoada, deixou-se envolver pelos braços do Miguel. O arroz de camarão, regado com um verde Deuladeu, da casta Alvarinho, era para ser fruído como deve ser, em aprazível convívio. Mas antes, e mais que tudo, o calor daquele abraço era para ser sentido, fruído, pois não tinha correspondência em qualquer dicionário, a não ser o da alma.
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quinta-feira, 10 de junho de 2021

ROTINAS

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AC, Alperces (damascos)
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Manhã cedo. Após pequeno almoço substancial, obrigatório para quem respira e cultiva estes ares, há que fazer uma ronda obrigatória na horta, poema sempre presente, antes que o sol afaste qualquer ser vivo. Já se consomem alfaces, os alperces estão no ponto, as cerejas já se despedem, as cebolas estão bem, muito obrigado, as couves lombardas crescem que é um regalo, os tomateiros estão plenos de flor...
Por perto, na perspectiva do hortelão, e de forma muito discreta, uma lesma namora as alfaces, em busca de manjar, mas não é o fim do mundo. Muito pelo contrário. Numa horta sem químicos - tal como as fotografias no blogue, sem corantes nem aditivos - em que qualquer ser a sente como sua, há sempre lugar para todos. Em equilíbrio, note-se, que as lesmas, caracóis e outros que tais, têm muito que comer nas ervas circundantes.
O tempo vai passando e, em crescendo, o calor começa a dardejar, qual sinal para o recolhimento. Até para as formigas. Lá mais para a tarde, quando a o astro começar a ceder, a passarada voltará a fazer-se notar. E, bem mais acima, fora do alcance do olhar das potenciais presas, as aves de rapina voltarão a povoar os céus, no seu planar constante, apenas ultrapassadas, em altitude, pelo rasto efémero da passagem dos aviões. As cegonhas, bem mais circunscritas, limitar-se-ão a um voo directo, bem menos sofisticado: ninho-alimento-ninho. É quanto lhes basta. 
Entretanto, e para que conste, o rouxinol continua por aí, animando, e de que maneira, as noites quentes dum pré-anúncio estival. Nem a pandemia, pasme-se, consegue anular estes concertos, qual sonho duma noite de verão, em versão muito arredada de Shakespeare, para ouvinte privilegiado.
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sábado, 29 de maio de 2021

CRÓNICA (I)NESPERADA

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AC, Nêspera
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Já todos sabem, é um facto, de tanto o apregoar. Adoro viver aqui, entre serras, sentindo, a cada dia que nasce, o aconchego da graciosa Gardunha e da imponente Estrela. Mas nem tudo são rosas. Numa zona onde a amplitude térmica é considerável, com estios a ostentar, como se fossem chaleiras em constante laboração, temperaturas de 40º, e invernias a pedir agasalho que combatam, da melhor forma, leituras do termómetro que rondam, frequentemente, os 0º, as árvores vindas doutras latitudes têm a vida difícil nas estações extremas. Mais sorte têm as pessoas com a mesma procedência, que beneficiam dum enorme calor, sim, mas humano, mas aí a música já é outra.
Há por aqui, neste espaço que me enfeita os dias, duas nespereiras que, todos os anos, dependem dum inverno suave para glorificarem a vida com os seus frutos. Mas a geada, senhoras e senhores, a geada...! E as flores da nobre árvore, que nascem em contramão, quando o sol mais se esquiva, todos os anos são confrontadas com a inclemência dum inimigo aparentemente hostil, quase cruel, que tudo faz para que os seus delicados frutos se vergam à sua lei e não vejam a luz do dia.
Com honrosas excepções, devidamente apreciadas - há dois anos, com um Inverno suave, as nespereiras estavam repletas, e foi "um fartar, vilanagem" - este ano foi mais do mesmo, com uma única nêspera a conseguir vencer a adversidade. E ela para ali está, quase amadurecida, contemplada e admirada quanto baste, pela sua resiliência e, porque não, pela sua delicada beleza, mas, para ser deglutida, meta final do seu percurso, há que esquecer a pompa e circunstância de tão notável desiderato, não vá ela, como admiravelmente disse Mário Viegas, servindo-se das palavras de Mário-Henrique Leiria, despertar a cobiça da Velha. :) 
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Por mim, fica desde já a promessa de que, em acto solene, lhe farei as devidas honras, como convém a tão digna sobrevivente, deglutindo-a va-ga-ro-sa-men-te, com música a condizer, tentando rebuscar o tempo que nem o tempo sabe que tem. Ela merece.
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domingo, 23 de maio de 2021

DE CARA LAVADA

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Fotografia de AC
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Foi na semana passada, com mais uns trocos. Tinha chovido com alguma moderação, embora de forma persistente, como que a querer abençoar o que já estava plantado. As plantas, de cara lavada - a olho nu mais as árvores, mas creio que eram todas, principalmente as silvestres - galgaram uma nova dimensão, plenas de dignidade, como que a querer dizer que nada é perpétuo, que tudo está em movimento. Assim haja carinho, respeito, assim hajam uns pingos de água. E eu, eterno aprendiz da vida, meti mais uma vez a viola no saco, enquanto anotava, mentalmente, o simples, mas complexo, da questão. Seria assim tão linear? Hesito perante a interrogação, mas apenas por breves momentos. A complexidade coloca-se a quem não entende, não saboreia, não comunga, a quem apenas funciona com um talão, de preferência com número de contribuinte. Adiante, que a passarada já se faz notar.
As aves podem ter amainado o canto, ainda que por momentos, mas os pardais, sempre omnipresentes, mais uns melros atrevidos, com ninho nas redondezas – eu suspeito onde, mas não vou lá, pois o acontecido, há cerca de um mês, serviu-me de lição – não se coíbem, com movimentos rápidos e elegantes, de se passearem pela terra fresca, em busca duma qualquer lagarta desprevenida, obrigada a sair do submundo, por excesso de água. Lá no alto, imperiais, as aves de rapina parecem planar alheias de tudo, mas é só aparência. Elas sabem bem ao que andam, atentas ao mínimo movimento daquilo que lhes interessa.
Cá dentro, por detrás da vidraça, as coisas ganham outra configuração. Ainda tento ir lá fora para me integrar no novo cenário, mas algo me diz que há coisas, para serem verdadeiramente autênticas, que não carecem da nossa pegada. Por mais ínfima. E eu, respeitosamente, obedeço ao apelo deste pedaço de terra que me tem enfeitado os dias, qual legado para as novas gerações. E aí, se me permitem, penso imediatamente no Miguel, o meu querido neto, e em todas as crianças da sua geração. E, para adoçar a trégua, a música discorre, a gosto, alimentando a convicção.
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sexta-feira, 7 de maio de 2021

ROUXINOL

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Todos sabem do meu gosto pela Natureza, do quanto ela me enleva e motiva, ao ponto de a considerar fonte de aprendizagem permanente. E, se o cenário solar é de primordial cultivo, com os cuidados com a horta a enfeitarem os meus dias, ultimamente as noites têm merecido a minha atenção. Não, não tem a ver com a sedução da Lua e das estrelas, sempre belas e cativantes, desta vez o mote recai nuns belíssimos concertos nocturnos, em que o silêncio envolvente é condição exigida pelo solista. E, salvaguardadas as condições necessárias, que até os cães das redondezas cumprem, aos ouvintes, sejam eles quais forem, apenas resta fruir. E se o artista é de qualidade! 
Pois é, estou a falar dum rouxinol, grata descoberta da qual tenho beneficiado nas últimas noites, num silêncio quase venerador. Não sei o que o motiva, não sei para quem ele canta, mas... que importa? Apenas sei que é sublime, um verdadeiro encanto!
Quando me retiro para descansar, que os humanos não têm corpo de rouxinol, levo comigo, em total equilíbrio, a sensação dum evento mais-que-perfeito, que acaba por me suavizar os sonhos.
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quarta-feira, 28 de abril de 2021

NUVEM

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AC, Nuvem
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Dançavas, no final do dia, como se cada movimento fosse a perfeita ligação com aquilo que te rodeava. 
Para quem te observava tudo era natural, cada gesto era o prolongamento do teu respirar. E, enquanto comungavas o ar, era ver-te rodopiar, qual bailarina de mil tempos, com os segredos a escorrer em cada movimento. E a nós, comuns mortais, desde que munidos de humildade, apenas restava ver, sentir, fruir... E era tanto!
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segunda-feira, 26 de abril de 2021

ROSMANINHO FOREVER

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AC, Rosmaninho
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Quando, ao fim da tarde, aproveitando a pausa da chuva, procuras vaguear nos teus pensamentos, em cenário a condizer, há sempre algo que te leva para junto dos rosmaninhos. Não sei qual a química que desperta em ti, nesses momentos, mas isso é o que menos interessa. Sei, sim, que te sinto empolgada na subtileza das cores e dos cheiros, ao ponto do teu rosto e da tua alma se transformarem, qual dádiva de luz, num imenso abraço àquilo que te rodeia.
Quando regressas, apenas um leve sorriso, com um discreto brilho quase indecifrável, só teu, denuncia a harmonia que te habita.
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domingo, 25 de abril de 2021

QUANDO CEBOLAS RIMA (NÃO PARECE, POIS NÃO?) COM ABRIL

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AC, Plantio de cebolas
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Tem chovido abundantemente mas, por entre algumas abertas, os pés de cebola lá se plantaram. 
Depois do trabalho feito, com algum esforço, soube bem apreciar a obra, devidamente abençoada pela chuva. Momentos gratificantes.
Hoje, dia de mais um aniversário do 25 de Abril, espero bem que todos o sintam - cada um à sua maneira, pois é claro - e que ninguém se queira apropriar dele. É que, se lágrimas vierem, que sejam, no máximo, como as das cebolas, com a esperança a continuar a ter o fôlego suficiente para soprar para longe a desilusão. Embora os sonhos já estivessem melhor cuidados, todos o sabemos.
A propósito da data, permitam-me algumas palavras de há poucos anos atrás, nas quais, contra ventos e marés, quero continuar a acreditar:
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Há uma luz que refulge, sulcando as trevas
Há um gesto que renasce, fazendo o dia
Há um canto que se ouve, quase em murmúrio
Há um despontar de vozes, quase melodia.
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Aqui só para nós, e eu sei que também sabem, não é aquilo que os outros acham, é a nossa prática que faz Abril. Todos os dias.
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terça-feira, 20 de abril de 2021

O INÍCIO DA HORTA

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AC, O início da horta
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O arquitecto universal promoveu mais uma volta e tudo recomeça, como se, de alguma forma, rodeados de entrelinhas, voltássemos todos à casa partida. E eis que nova vida brota da terra, ainda em modo incipiente, é certo, mas com o destino entregue ao tempo, que tudo desenha e tudo esclarece, nem que seja para confundir ainda mais. E tu, que só gostas do produto final, tardas em entender que o importante é a viagem, aconteça o que acontecer.
Ontem chamei-te para veres o andamento da horta, ainda com algumas plantas e sementes em espera, e, surpreendentemente, mostraste interesse. As alfaces ficam a meu cargo, sou eu que vou tomar conta delas, disseste. Eu sorri, juro que também senti os deuses fazerem o mesmo. Há lá coisa mais linda de se ouvir, depois de tanto porfiar!?
Mesmo em frente, a duas léguas de distância, os cerejais avançam até meia encosta da Gardunha. Logo a seguir, num verde novo que começa a povoar a paisagem, os castinçais despertam do seu torpor, conferindo majestade ao lado mais silvestre da serra.  Nunca me canso de olhar.
De repente lembro-me que os gurus da meteorologia prevêem chuva para amanhã. Há, pois, que preparar a terra para as curgetes, para as abóboras e para os melões, com as cebolas, os pimentos, os pepinos, as beringelas e as ervas aromáticas em lista de espera. Depois, se se concretizar a chuva, há que fruir o cheiro da terra molhada e, porque não, apreciar o cenário através da vidraça, com música a condizer. Em modo suave. Talvez, quem sabe, ainda sobre tempo para visitar os blogues amigos.
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terça-feira, 30 de março de 2021

O NINHO DE MELRO: UM GESTO, UMA CONSEQUÊNCIA

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AC, Ninho de melro
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Viver no campo é bom, é mesmo muito bom, mas desiluda-se quem pense que tudo é descanso e contemplação. As tarefas acumulam-se, de dia para dia e, por mais que se faça, parece que pouco ou nada se fez. Há pois, que desligar da vida lá fora - o das pessoas apressadas - aprender a relativizar as coisas, dar-lhes a importância que realmente têm. Só assim se alcança a satisfação, o equilíbrio.
Andava eu, esta manhã, a tentar domar o crescimento desmesurado dum arbusto, próximo duma das janelas da casa, satisfeito por, ao fim de dois dias, a vacina que levara contra o Covid não apresentava quaisquer reacções adversas. Desbastava aqui, podava ali, sempre com preocupação geométrica, quando, de repente, se me insinua um ninho de melro. Deslumbrei-me, primeiro, com a delicadeza dos ovos, mas horrorizei-me, depois, qual sensação de crime cometido. É que, ao podar os ramos que protegiam o ninho, provavelmente ele irá ser rejeitado pelo casal de melros, sujeito que ficou à investida de qualquer predador. Preocupado, tentei camuflar aquele centro de vida com dois pequenos ramos, mas dificilmente isso resultará. A não ser que...
Vou ficar atento, vou acreditar. Talvez, quem sabe, os melros me surpreendam, como tantas vezes a Natureza o faz. Mas, até lá, fica uma sensação de culpa que teima em não desaparecer.
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domingo, 28 de março de 2021

COM QUANTAS ÁRVORES SE TECE O HORIZONTE?

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AC
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Uma árvore, o horizonte, muito espaço para a divagação. 
Por mais que os dias passem, nunca me canso do cenário, de tentar descortinar segredos, de me projectar para lá dos montes, de forjar receitas de encantamentos mil. E, enquanto o astro vai rodando, desfiando partículas para bom entendedor, meia palavra é apenas o rastilho para ousar, sabendo-se à partida que, no nosso vocabulário, o da percepção, é debalde a ousadia de tentar furar a mais dura rocha com um simples dedo. 
Deixamos dedadas enquanto tentamos, meros esgares de desespero, de incapacidade, tudo muito ao de leve, quase imperceptível, qual boi a olhar para um palácio. Mas tentamos, tentamos sempre, a honra está em nunca deixar de tentar. E é nessa vontade indomável de tentar ir em frente, por mais que a alma desassossegue, que talvez um dia consigamos espreitar, provavelmente de muito longe, novos patamares que nos conduzam a uma nova forma de estar, de percepcionarmos a verdadeira arquitectura daquilo de que somos formados.
É por isso que, bem rodeado de afectos, nunca me canso da cumplicidade da árvore dos segredos, bem projectada no horizonte. Nessas alturas, se desassossegos houver, eles vêm sentar-se a meu lado, afáveis, como se tudo em volta fizesse sentido.
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sábado, 13 de março de 2021

PUDESSE EU...

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Pudesse eu sentir-te, para lá dos diáfanos fios
Pudesse eu ver-te, para lá da luz que se esgueira
Pudesse eu fundir-me em ti, para lá do tempo que escorre...
Talvez, então, 
Com a libertação do sorriso,
O furor dos relâmpagos amainasse.
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