quinta-feira, 10 de junho de 2021

ROTINAS

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AC, Alperces (damascos)
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Manhã cedo. Após pequeno almoço substancial, obrigatório para quem respira e cultiva estes ares, há que fazer uma ronda obrigatória na horta, poema sempre presente, antes que o sol afaste qualquer ser vivo. Já se consomem alfaces, os alperces estão no ponto, as cerejas já se despedem, as cebolas estão bem, muito obrigado, as couves lombardas crescem que é um regalo, os tomateiros estão plenos de flor...
Por perto, na perspectiva do hortelão, e de forma muito discreta, uma lesma namora as alfaces, em busca de manjar, mas não é o fim do mundo. Muito pelo contrário. Numa horta sem químicos - tal como as fotografias no blogue, sem corantes nem aditivos - em que qualquer ser a sente como sua, há sempre lugar para todos. Em equilíbrio, note-se, que as lesmas, caracóis e outros que tais, têm muito que comer nas ervas circundantes.
O tempo vai passando e, em crescendo, o calor começa a dardejar, qual sinal para o recolhimento. Até para as formigas. Lá mais para a tarde, quando a o astro começar a ceder, a passarada voltará a fazer-se notar. E, bem mais acima, fora do alcance do olhar das potenciais presas, as aves de rapina voltarão a povoar os céus, no seu planar constante, apenas ultrapassadas, em altitude, pelo rasto efémero da passagem dos aviões. As cegonhas, bem mais circunscritas, limitar-se-ão a um voo directo, bem menos sofisticado: ninho-alimento-ninho. É quanto lhes basta. 
Entretanto, e para que conste, o rouxinol continua por aí, animando, e de que maneira, as noites quentes dum pré-anúncio estival. Nem a pandemia, pasme-se, consegue anular estes concertos, qual sonho duma noite de verão, em versão muito arredada de Shakespeare, para ouvinte privilegiado.
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13 comentários:

  1. Muito bem. Nada como ter uma horta cheia de tudo o que nos é útil diariamente! :)
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    Já me cruzei num tempo orvalhado
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    Um excelente(feriado) dia de Portugal
    Beijos

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  2. Bela foto. Cuidar da nossa hortinha, imagino eu, ser divino. Adoro o cantar do rouxinol.
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    Tenha um dia (feriado em Portugal) muito feliz
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    Pensamentos e Devaneios Poéticos
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  3. Que delícia de texto...Adorei e achei o máximo a lesma namorando a alface...Só tu mesmo! perfeito e elas devem mesmo ficar só na espera,rs...Muito bom! abração, chica

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  4. Haha, já ia perguntar pelo rouxinol. Há alguns dias, olhando desde a varanda, observava o lago e, à distância, o "centro do poder político" em Brasília. Foi aí que uma ideia me ocorreu: se eu não soubesse que a pandemia anda rugindo lá fora, nada, mas nada mesmo, me feria pensar nela, apenas considerando os passarinhos que continuam a cantar, a nova ninhada de corujas, o céu tão azul como sempre, as garças e o martim-pescador à procura de peixes. Eles não sabem nada sobre COVID. Sorte deles, estão felizes, como devem andar os mais seres vivos mundo afora, como os que estão aí, ao seu redor.

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  5. Pode-se ouvir daqui a música deste concerto. Nada ficou de fora. Acordes perfeitos na horta... É um privilégio ler-te!
    Um abraço, caro AC

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  6. Rotinas sadias, cheias de cor, poesia e substância.
    O rouxinol fez aí morada, para seu e nosso deleite :)

    Um beijinho

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  7. Um lugar aprazível que dispõe de belezas que só a natureza pode oferecer. Estive por aí e a tudo observei. Obrigada!
    Um abraço

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  8. E o ninho que os passarinhos estão a construir na minha varanda está cada vez maior.
    Um abraço, bfds

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  9. Nem vou dizer nada, fico por aqui a ouvir o rouxinol. Shiiiiiiiiiiiiiu


    Boa tarde, sô AC

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  10. Senti-me em tua casa como se tivesses a falar/passear comigo...e soube-me tão bem porque adoro hortas/pássaros e natureza circundante. Para inferno já basta onde moro...quantos despejados de Lisboa vieram parar aqui já para não falar em apartamentos alugados a uma família e juntam-se mais duas ou três porque admiro e muito a solidariedade.

    Foi um enorme prazer vir aqui e desejo-ta um bom fim de semana extensível aos teus e sobretudo ao Miguel pois claro:)))

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  11. Essa encantadora horta tinha de ter um rouxinol. Eu tinha um melro no quintal, mas deixou-me. Nem imaginas as saudades que sinto à hora do café. Era, realmente, um privilégio.
    Gosto de saber como vai a tua horta, suco a suco. Até me apetece fazer um assalto aos alperces. :)

    Beijinhos, AC.

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  12. Tua horta sem rouxinol
    Como diz Teresa Almeida
    Se parece a uma Eneida
    De Virgílio que em prol
    Da saúde, pões num rol
    O que precisas plantar
    Para colher. No pomar
    Tens teu fruto.
    E senhora absoluto
    Colhes teus peixes do mar.

    Bon appetit! Abraço fraterno. Laerte.

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  13. Posso imaginar como é viver assim, a fazer do campo o lugar de um maravilhamento diário. A horta, os frutos, os legumes, os bichos, tudo natural e simples, como simples são todas as coisas que valem a pena. Ouve-se também por aqui o rouxinol. Que gosto ler o que escreve.
    Cuide-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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