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sexta-feira, 20 de novembro de 2020

MENINA DO MAR

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Corria a praia, manhã após manhã, à procura nem sabia bem do quê. Por vezes, quando as ondas vinham de mansinho, levantava a saia e deixava que a água lhe acariciasse as pernas, como que a manter viva a chama de algo que sentia, mas ainda não vislumbrava. E assim se deixava andar, praia fora, qual personagem de romance a quem estava destinado um papel de realce, à espera dum qualquer sinal.
O tempo ia passando, em manhãs repetidas, e de sinais apenas a satisfação da carícia das águas, do cheiro da maresia, da arquitectura do voo das gaivotas... Mas persistia, tecendo convicções mil, acreditando que os elementos acabariam por recompensar tanta devoção, tanto crer.
Hoje, quando alguém a vê passar, os mais velhos, moldados que estão na luta pela sobrevivência, já nem ligam. Os mais novos, porém, ávidos da abertura de novos portais, a princípio estranham, mas acabam por respirar os desafios lançados no ar. E, como que conduzidos por mão invisível, sentem-se impelidos a desvendar os desígnios daquela senhora, eterna Menina do Mar. E, embora lentamente, começam a redimensionar o seu navegar.
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terça-feira, 1 de setembro de 2020

ETERNAMENTE

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Luísa Sobral, Dois namorados
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Cresceram juntos, num mundo limitado por serras e preconceitos, e começaram a olhar-se, olhos nos olhos, num maio especialmente florido e perfumado.
Quando quiseram partilhar o encanto que os unia, fecharam-se portas e janelas. E eis que, em pleno drama, alguém é impelido a partir, ela, e o outro que fica, ele, mas a prazo, e novas teias se foram tecendo na vida dos dois. 
Ela, passado um tempo, já noutro cenário, casou com outro, com filhos de permeio, mas ele nunca mais a esqueceu. E guardou-se para ela.
A roleta do tempo girou, os filhos cresceram, dando novas braçadas na vida, ela acabou por ficar viúva. Dele, nem rasto.
Um dia, num daqueles acasos manipulados pelos deuses, cruzaram-se num jardim. Ela sorriu, ele sorriu, e nunca mais se separaram daquela sensação dum maio florido, tornando-a permanente. E, para gáudio dos deuses, continuam a sorrir, com a luz própria dos predestinados. 
Os filhos dela, rendidos, acabaram por aplaudir a eternidade daquele amor.
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

MEMORANDO

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Ouvia-te, sabia que eras uma igual. Falavas como nuvem despegada, aparentemente sem rumo, mas num tom único, depurado, avesso a ruídos de fundo. Ambos sabíamos, caminheiros de muitas veredas, que na vida há muitos imponderáveis, a maioria fora do nosso controle, mas que é nisso que reside o seu âmago: querer romper, para lá das amarras, em busca da sensação de que todos contamos, amparados num calorzinho que não tolha, mas que amplie.
Procurei dar-te a mão, cúmplice, pronto para retomar a jornada.Também eu sabia que as ilhas, como essência, não nos levam a lado nenhum.
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