sábado, 15 de fevereiro de 2014

A FOLHA AMARROTADA

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Desenho de Luiza Maciel Nogueira
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Li, algures na blogosfera, algo acerca duma folha amachucada. A partilha deu nisto.
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Tempo de escola. Os dias têm sido de intenso trabalho, pois não existe melhor forma de cimentar aprendizagens. E nós, como qualquer profissional que se preze, primamos nessa intenção: incentivamos, exigimos, insistimos...
A hora do recreio, para eles, é de libertação, pois existe por ali muita energia contida a necessitar de se libertar. Só que a chuva, persistente, não tem ajudado, e o tempo de intervalo acaba por se desenrolar dentro da sala de aula, onde os constrangimentos, para quem se pretende soltar, são vários. E os conflitos tornam-se mais frequentes, às vezes quase sem se saber porquê, preocupando quem tem o dever de educar.
Ontem à tarde, quando lhes distribuí uma folha branca, a maior parte pensou, com agrado, que iriam desenhar. E estranharam, é claro, quando lhes disse para amarrotarem a folha. Perante o olhar interrogativo e expectante, repeti o convite. E mais: podiam amarrotá-la, mas com uma condição, não a podiam rasgar. 
Olhavam uns para os outros, ainda incrédulos com tal convite, mas o som do amarrotar das folhas começou a fazer-se ouvir. Timidamente, no início, mas lá os convenci que aquilo era mesmo a sério. E incentivei-os ainda mais. Se quisessem, até podiam pisar a folha, mas sempre com a condição de não a rasgar. 
Alguns começaram a soltar-se, amarrotando com prazer. E riam. Às tantas, soltas as amarras, o som do amarrotar dominou a sala, mas nem todos se atreveram a pisar a folha, apenas três ou quatro o fizeram.
Passada a euforia, disse-lhes para tentarem colocar a folha como lhes tinha sido entregue. Sem a rasgarem, reforcei.
Desdobraram, alisaram, mas as folhas nunca ficavam direitas. Voltaram a tentar. E, por mais que se esforçassem, a folha ficava sempre engelhada. Foi então que lhes disse que a folha era como uma pessoa, podia muito bem ser um deles. Silêncio na sala. E disse-lhes mais. Quando magoamos alguém, quando ofendemos, quando gozamos, essa pessoa fica amachucada, cheia de marcas, tal como a folha que tinham à sua frente. Podíamos tentar remediar a situação, mas as coisas nunca mais seriam as mesmas, as marcas ficavam para sempre.
O silêncio era agora maior. Um ou outro ainda titubeou, mas eles começavam a interiorizar. E perceberam.
No final, perante a questão do que fazer com as folhas, disse-lhes que tínhamos que as aproveitar, pois a vida tem que continuar. E, mais que nunca, o seu semblante foi de aprovação.
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sábado, 8 de fevereiro de 2014

EU, TU E O OUTRO

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Hélio Cunha, A Montanha Mágica
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Interiorizou a urgência da demanda. Vasculhou, incansavelmente, pedra atrás de pedra, em busca dos novos deuses. Nem por um momento lhe ocorreu olhar para dentro de si, para dentro dos outros.
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sábado, 1 de fevereiro de 2014

CONFIGURAÇÕES EM TELA ESTELAR

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Van Gogh, Noite Estrelada
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Quando, à noite, me refugio dos caprichos do vento, as estrelas ainda reflectem as promessas do teu olhar. Cedo à tentação e descubro-te ali, quando sorrias da minha esforçada forma de cozinhar, para te impressionar, vejo-te mais além, quando, ao crepúsculo, as ondas nos vinham acariciar os pés...
As noites continuam frias, mas os dias já anunciam o despertar das mimosas. Enquanto esperas pelo ecoar dos meus passos, eu anseio pelo florescer das cerejeiras, pelo delicado aroma da flor dos pessegueiros.
Quando a harmonia se instalar, talvez as estrelas propaguem a conjugação do nosso olhar...
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sábado, 25 de janeiro de 2014

TORGANDO

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Nasceu na severidade do granito, a acreditar na honra, temperado na discreta tonalidade da urze.
A alma, movida a inquietude, era tão grande que mudou de lugar. E quis saber, indagar, questionar.
Depressa percebeu que, na severidade dos muros, tudo era pequeno, no espaço e nas intenções. Nas areias movediças da vida ressentiu-se da omissão do  espelho dos olhos, da ausência da simplicidade de respirar. Para manter a dignidade à tona esbracejou, gritou, recusou pactuar. Até ao fim.
Ciclicamente regressava à urze, ao simbolismo da força das raízes da torga. Desistir, nunca, a força da terra-mãe nunca o abandonou. E, entre o cá e o lá, foi forjando convicções, alimentando afectos, por mais raros, preciosidade em paisagens humanas inspiradas em cata-ventos.
Vi-o passar. Era dos que deixava rasto. As portas que se fechavam, apesar das ferroadas, apenas inchavam o peito de dignidade.
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sábado, 18 de janeiro de 2014

(RE)ENCONTROS

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Hélio Cunha, O Reencontro dos Amantes
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Elevas-te nas palavras, invocas químicas sem rasto na memória, o teu eco inunda a aurora de desenhos, alados nas intenções, muitas pontas por (des)atar.
Oiço-te, nem sempre entendo. Mas também há dias, forjados na tua imensidão, em que dás guarida ao que te envolve. É quando te deslumbras no brilho das estrelas, quando te deixas inundar pelo perfume das violetas. Nessas alturas, quando dás voz ao silêncio, tudo parece fazer sentido.
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sábado, 11 de janeiro de 2014

COMETA

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Hélio Cunha, Porta do Infinito
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Eterna crisálida, suor nos esporos, navega na vertigem, asas renovadas em cada inspirar. Alheia a portos e abrigos, não sabe para onde vai, apenas sente, a cada volteio de asa, que desenha mais um ponto na carta do universo.
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sábado, 4 de janeiro de 2014

MELODIA

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Margarida Cepêda, Semente
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Olhas, deslumbrada, para o voo dos pássaros, mergulhas na geografia tecida nas subtilezas do que se respira, do que se é.
Não voas, mas sentes. E soltas o riso e o choro, enquanto as mãos aquecem no desvendar de outras mãos.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O ETERNO CONJUGAR DO VERBO

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Presépio, em telha mourisca, de Francisco Paulo
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O homem carregou no acelerador do velho Fiat Uno, lata amolgada carcomida pela ferrugem, mas os gemidos da mulher, no banco de trás, diziam-lhe que não iriam chegar a tempo ao hospital. A hora aproximava-se, e o desespero levou-o a virar no primeiro desvio, recurso último de quem não sabe o que fazer. O velho carro, a dar o que não podia, entrou numa rua escura, esburacada, pejada de armazéns abandonados. A cadência dos gemidos acentuou-se, accionando o chiar dos travões. Era agora.
Enquanto o homem, desesperado, tentava tirar a mulher do velho Fiat, das imediações começa a irromper vida. Rostos barbudos, de cabelo em desalinho, caminham para o epicentro. Enquanto ajudam o casal, sente-se o ranger dum enorme portão a rodar. Um movimento inusitado começa a insinuar-se na zona.  
Estendem dois cobertores no chão, entre duas enormes pilhas de paletes, e acomodam a mulher. Ao lado, movido a urgência, alguém acende um fogão de campismo e põe água a aquecer. Vindos do exterior, dois bidões, prenhes de madeira seca a alimentar as chamas, começam a aconchegar o improvisado abrigo.
Quando se ouve o primeiro choro, nascem lágrimas para temperar o júbilo. De repente, qual quadro há muito esquecido, o enorme armazém torna-se pequeno para tanto rosto barbudo, de olhar intenso, como se algo novo, quase indefinível, despertasse dentro deles.
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Um Renovado Natal para todos!
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domingo, 15 de dezembro de 2013

EM BUSCA DO SUBSTANTIVO

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Hélio Cunha, Acqua
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Crescer é tentar perceber o perto e o longe, expandir horizontes, sentir a vida como se a grandiloquência nos tocasse.
Assim tu foste, doce cerejeira, mas insatisfeita com os limites do teu fruto.
Tentaste ser figueira, mas achaste o sabor muito selectivo. Talvez amendoeira, cogitaste, mas, perante o esperar e o desfrutar, esperavam-te mil e um trabalhos até chegares à sua essência. Entre o ser e o não ser, quase te perdeste, os cenários pareciam quase sempre definitivos. Não adormecias bem.
Deambulando por sabores e aromas naufragados, descobriste que cada fruto tem a sua forma, o seu aroma, o seu próprio sabor. E, finalmente, começaste a investir em algo único, no que de mais subtil e puro há em ti. Quase sem te dares conta, ao despir roupa alheia, acabaste por descobrir a tua nudez.
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domingo, 8 de dezembro de 2013

COGUMELAR EQUILÍBRIOS

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A manhã estava fria, branca de geada, a convidar para mais um tempinho na cama. Um salto, o café a escaldar, e ala, que os companheiros de evasão aguardavam.
Não havia vento, ou, como dizia o poeta, "nem uma agulha bulia, nos pinheiros do caminho", mas não era hora de neve. De frio, sim, de deitar fumo pela boca, mas não se conhece melhor aquecedor que o convívio. E o pinhal recebeu-nos de forma tranquila, afável, abrindo portas à simplicidade da procura.
A caruma, adereço indispensável ao nosso vasculhar, dificultava na justa medida, a suficiente para alimentar o júbilo da descoberta. Olha um míscaro*, é amarelo, exultava o parceiro da esquerda. O da direita olhava, de soslaio, mas depressa lhe cabia em sorte a descoberta de dois ou três, mas dos brancos.
E entre pinheiros, a cogumelar, se passou a manhã, em busca de algo bem definido. Não havia subterfúgios, o pinhal e os pesquisadores davam apenas o que tinham de si: no espaço, a disponibilidade; na ocasião, a oportunidade; no envolvimento, a comunhão de viver.
A natureza, sempre a natureza, a regular a respiração dos homens.
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*míscaro - variedade de cogumelo silvestre
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