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sábado, 7 de novembro de 2015

PRESSAS

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Hélio Cunha,Táxi
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Caminhava, apressado, contornando as pessoas com a ligeireza própria dum desesperado. Estava atrasado, mais uma vez, lutando contra relógios, guarda-chuvas, buzinas, semáforos, polícias, carros, vendedores ambulantes, turistas, pombos... tudo quanto lhe aparecesse pela frente. 
Não era sina, era apenas a consequência de tudo querer, quase sem regra, como se o mundo se fosse desintegrar a qualquer momento. Levava demasiado a peito a ideia de falência do sistema, esperança era palavra ofuscada do seu vocabulário. E corria, corria muito, em prol de se satisfazer, às tantas nem sabia bem do quê. Apenas queria viver, tentar viver tudo num instante, com urgência, mas sem procura, sem filtragem, sem aprendizagem...
Corria, interpelava, clamava por um táxi. Com tanto frenesim, nem descortinava que era ele que, rapidamente, se começava a desintegrar.
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terça-feira, 25 de agosto de 2015

CANTILENA DE FIM DE TARDE

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Hélio Cunha, A Roda
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No Verão, à tardinha, quando a luz sorria, suavemente, com o aproximar da sombra, insinuava-se a hora do apaziguamento.
No desenhar da cantilena transparecia a vontade de crescer, do olhar envolvente emanava o discreto anseio de proteger. Alimentada por um fogo que ainda não dominavas, só tu, no final, alheia ao despreocupado ecoar dos risos, teimavas em matutar no milagre da maturação dos frutos.
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quinta-feira, 23 de julho de 2015

OS MENINOS, A BOLA E O CÃO

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Hélio Cunha, Trois petits enfants et leur chien
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A bola
Que rebola
Ficou farta de rebolar
Num momento
Sente o vento
E começa a desafiar
O vento passa
Lá vai a bola
Quem a vai encontrar
Não sou eu
Não és tu
Quem nos vem ajudar
Lá vai o cão
A ladrar
As voltas que ele sabe dar
Volta o cão
Sem ladrar
A bola volta a rolar.
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domingo, 14 de dezembro de 2014

RABISCOS DE NOVOS NATAIS

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Hélio Cunha, Em Nome do Filho
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Todos os dias se levantava à mesma hora. Deixava-se envolver pelo jacto de água fria, fazia a barba, preparava um café instantâneo e comia uma fatia de pão barrada com planta. Depois, cuidadosamente, pegava nos anúncios de jornal, já devidamente sublinhados, e mergulhava no purgatório, quantas vezes inferno, do lado negro da vida.
O seu currículo era ele próprio, o parco dinheiro não era NOS nem MEO, era seu. Medido ao cêntimo, diga-se, habituado que estava ao senhor Negaleva. Mas insistia.
Por mais que se esforçasse, por mais que sorrisse, a filosofia Negaleva parecia a verdade suprema, tatuada nos mil rostos da urbe, sonâmbulos sem qualquer causa, a não ser a sobrevivência. E, quase sem se dar conta, começou a soçobrar, a render-se a evidências, prescritas em receitas, por quem vive para lá do muro. A culpa era sua, diziam, e começava a acreditar.
Num fim de tarde, já quase sem fôlego, refugiou-se nas escadas dum qualquer centro comercial. Não via nada, não ouvia, apenas lhe batia à porta o desespero, a vontade de desistir. Ainda tentou esbracejar, invocando as palavras de Torga...
De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não, nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.
A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.
...mas a dor era demasiado funda, a dignidade esvaía-se.
De repente, rompendo as densas camadas de nevoeiro que o envolviam, uma voz delicada, despida de artifícios, fez-se ouvir:
- Mãe, aquele senhor parece perdido. Não vês?
As palavras podem ter múltiplas facetas, mil e um rostos, mas naquele momento, para ele, eram as palavras certas. Levantou-se, sorriu para o miúdo e piscou-lhe o olho. Depois, com gestos cuidados, sacudiu o pó das calças, ajeitou o casaco e seguiu. Tal como dizia o poeta, a honra era lutar, mesmo com pouca esperança de vencer.
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sábado, 1 de novembro de 2014

ACERCA DO DEPURAR DAS TEIAS

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 Hélio Cunha, Antemanhã


Há um círculo onde te resguardas, tecido na linguagem das letras, quase sempre no breu, com ténue vislumbre dum raio solar.
Há um silêncio que perdura nos livros que guardas, fogo latente até à eternidade.
Há algo em ti, por mais que labirintes, que me leva a chamar-te amigo.
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domingo, 12 de outubro de 2014

A CADEIRA

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Hélio Cunha, O anjo e a musa diante das ruínas da Europa
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Mantivera-se sempre à distância. Quando, por fim, se abeirou do cais, os barcos já enfunavam as velas, os porões prenhes de esperança. Não participara nos debates, não vira a construção das naus, não partilhara cuidados e sorrisos. Perdera o bilhete para a viagem.
Aguardou, clamoroso, de braço dado com o tempo, por sinais vindos do horizonte. Em vão. No cais, já carcomido pela ausência de sonhos, até as gaivotas pareciam reféns da velha tela perdida no sótão. Apenas a cadeira denotava algum brilho, apurado pela quente familiaridade do roçar das calças.
Quando vieram os turistas, entre algaraviares vários, ainda permitiu duas ou três fotos, mas há muito que perdera o rasto da alma. Por bom preço, acabou por vender a cadeira.
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domingo, 29 de junho de 2014

SUSTENTÁVEL LEVEZA

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Hélio Cunha, Vestígios de Um Mar Inexistente
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Sentias o fogo latente, o corpo a reclamar. A chama, incandescente, conduzia-te os sonhos, o peito era escudo onde tudo resvalava. Sentias a poesia na descoberta da noite infinita, na magia do despertar da aurora, na terra onde tudo continuava por lavrar. Intuíste novas palavras, novas linguagens.
Quando aprendeste a pousar, suavemente, no aroma das alfazemas, já sabias que tudo continuava por fazer. Mas passaste a sentir, quase sem te dares conta, o sereno sinal que da alma emana.
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sábado, 3 de maio de 2014

UMBIGUICES

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Hélio Cunha, Hiroxima, meu amor
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Socorrias-te dos oráculos, mas eles apenas te segredavam o que querias ouvir.
Improvisavas danças ao luar, tentavas descodificar as nuvens, mas a plateia apenas aplaudia, comedida, até justificar o convite e a ceia.
Lançavas as cartas, tentavas ver para lá do espelho, sobressaltavas-te com o despertar dum gato preto. Querias entender, ter tudo ao alcance da mão. Desesperavas.
Hoje, quando acordaste, quiseste ajustar contas com o mundo. Hoje, como sempre, esqueceste-te de olhar para lá de ti. E, inacreditavelmente, a vida continuava.
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sábado, 29 de março de 2014

NOME SEM NOME

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Hélio Cunha, Memórias do Absoluto
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Deram-te um nome, número identificador dum qualquer exterior. Lá dentro, contudo, no mais recôndito de ti, habita algo único, que te caracteriza, que verdadeiramente te identifica. Isso é a tua força, aquilo que tu és, substância sem nome de que nem sempre te dás conta.
Cultiva-a, dá-lhe brilho. Na tua ânsia de respirar, tenta dar forma a esse nome sem nome.
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sábado, 8 de fevereiro de 2014

EU, TU E O OUTRO

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Hélio Cunha, A Montanha Mágica
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Interiorizou a urgência da demanda. Vasculhou, incansavelmente, pedra atrás de pedra, em busca dos novos deuses. Nem por um momento lhe ocorreu olhar para dentro de si, para dentro dos outros.
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sábado, 18 de janeiro de 2014

(RE)ENCONTROS

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Hélio Cunha, O Reencontro dos Amantes
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Elevas-te nas palavras, invocas químicas sem rasto na memória, o teu eco inunda a aurora de desenhos, alados nas intenções, muitas pontas por (des)atar.
Oiço-te, nem sempre entendo. Mas também há dias, forjados na tua imensidão, em que dás guarida ao que te envolve. É quando te deslumbras no brilho das estrelas, quando te deixas inundar pelo perfume das violetas. Nessas alturas, quando dás voz ao silêncio, tudo parece fazer sentido.
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sábado, 11 de janeiro de 2014

COMETA

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Hélio Cunha, Porta do Infinito
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Eterna crisálida, suor nos esporos, navega na vertigem, asas renovadas em cada inspirar. Alheia a portos e abrigos, não sabe para onde vai, apenas sente, a cada volteio de asa, que desenha mais um ponto na carta do universo.
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domingo, 15 de dezembro de 2013

EM BUSCA DO SUBSTANTIVO

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Hélio Cunha, Acqua
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Crescer é tentar perceber o perto e o longe, expandir horizontes, sentir a vida como se a grandiloquência nos tocasse.
Assim tu foste, doce cerejeira, mas insatisfeita com os limites do teu fruto.
Tentaste ser figueira, mas achaste o sabor muito selectivo. Talvez amendoeira, cogitaste, mas, perante o esperar e o desfrutar, esperavam-te mil e um trabalhos até chegares à sua essência. Entre o ser e o não ser, quase te perdeste, os cenários pareciam quase sempre definitivos. Não adormecias bem.
Deambulando por sabores e aromas naufragados, descobriste que cada fruto tem a sua forma, o seu aroma, o seu próprio sabor. E, finalmente, começaste a investir em algo único, no que de mais subtil e puro há em ti. Quase sem te dares conta, ao despir roupa alheia, acabaste por descobrir a tua nudez.
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sábado, 23 de novembro de 2013

APOLOGIA DAS LOAS ÀS MANHÃS DE SÁBADO

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Hélio Cunha, A Fonte da Juventude
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Um levantar tranquilo, em lentos passos, o relógio no mais fundo do baú.
O café bem quente, o olhar nas tonalidades da serra, através da vidraça, mescla de verdes, dourados e castanhos de pinheiros, carvalhos, cerejeiras e castanheiros. A alma começa a encher.
A horta recebe a primeira visita. Não há lagartas à vista, couves e repolhos prosseguem o seu lento crescimento, lado a lado com alfaces e morangueiros.
Mais além, em zona não cultivada, a lenha, cortada no início do Verão e espalhada pelo chão, espera por cuidados. Apela-se à vontade, às luvas e ao carrinho de mão. A pilha de lenha, no abrigo, vai crescendo. Nada mais conta, apenas a satisfação de fazer o que deve ser feito.
No final da manhã, vestidas por completo as vestes da harmonia, escolhe-se a música certa, chave mestra dos mais íntimos recantos, acende-se a lareira e arquitecta-se o almoço.
O eco da diatribe dos homens, hoje, fica à entrada do portão. Num mundo em constante mudança, as manhãs de sábado, em contacto com a natureza, continuam a entoar loas à vida.
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sábado, 9 de novembro de 2013

OS NOVOS DEUSES DA LUA

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Hélio Cunha, A lua do caçador
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Queima-se a dignidade, semeia-se o infortúnio. Da colheita augura-se a fúria, o desespero, correrias de vai e vem entre pés descalços e botas cardadas.
No final, purga feita, apenas se cultivam marionetas. Os novos deuses não carecem de mais. 
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sábado, 2 de novembro de 2013

A ETERNA QUESTÃO DE OUSAR

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Hélio Cunha, Pescadores de pérolas
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Há homens que trazem o mundo nos olhos. Ouvem-se, ouvem o vizinho, ouvem as árvores, conjugando tudo no mesmo respirar.
Há homens que, sendo o que são, se ultrapassam. São seres que acreditam, que lutam, que tudo abarcam no infinito.
Há homens, por aí, que ousam ser o que são, forjam o seu destino na imensidão da sua alma. Só nós, eternos temerosos, permanecemos em contínua sonolência.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PEQUENAS NOTAS, CLÁSSICOS EXCERTOS

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Hélio Cunha, Águia voando ao encontro da sua flecha
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Não estava preparado para a solidão da descoberta. Sucumbiu às lembranças, pausou, inverteu a rota.
Regressou, de sorriso ténue, de fartura apenas uma mala de desassossegos. Quando entrou, não precisou de falar, num abrigo há sempre alguém para lavar as feridas. 
Pouco mudou, a não ser o reforço do alimento. És importante, és especial, e surge a força para mais um dia, o alento para o dobrar da esquina.
Vestiu uma camisa lavada. Aconchegou-se, pintou novas telas, desesperou com a eterna tonalidade escorregadia.
Surgem novos impulsos. Voltar é sempre uma forma de partir, mas com mais penas nas asas. No fundo pouco mudou, o pouco é sempre muito. Até as penas caírem.
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terça-feira, 15 de outubro de 2013

A INDELÉVEL MARCA DE SER

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Hélio Cunha, Os Frutos Prateados da Lua
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O teu olhar, ávido de respostas, segrega alquimias únicas, forjadas em eternas dúvidas, e só tu pareces não dar conta.
Há um rasto de ti - discreto, muito discreto - a que não dás importância, mas que marca quem por ti passa. Pode ser um gesto, a forma de dizer não, o sorriso enfeitado com o teu jeito de olhar o mundo...
Só tu pareces não dar conta, mas enquanto caminhas, plena de dignidade, até os cardos se parecem engalanar com a sua melhor roupagem.
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terça-feira, 8 de outubro de 2013

SINFONIA

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Hélio Cunha, A Terra Inteira
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Quando me pressentias, à tardinha, para lá dos salgueiros, descias, de mansinho, o caminho que ia dar ao ribeiro, enquanto semeavas o aroma das violetas.
Dizias-me, ao ouvido, que a tua respiração se calava para ouvir os meus passos, respondia-te que a minha pele respirava todas as letras do teu nome. E no brilho dos olhos acreditávamos, entre murmúrios comungávamos...
Quando me pressentias, à tardinha, para lá dos salgueiros, era tempo de a ternura se soltar.
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domingo, 29 de setembro de 2013

EQUAÇÕES HARMÓNICAS ENTRE O IR E O VOLTAR

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Hélio Cunha, Memórias do absoluto
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Regressas, por momentos, a paisagens há muito adormecidas dentro de ti. 
Deslumbras-te na harmonia da água com as pedras, dos pinheiros com os carvalhos, da urze com o medronheiro. O velho, eterno resguardar de memórias, parece-te novo no rigor suave das linhas simples, que te convidam ao devaneio. E efabulas, arquitectas, parece-te viável o reformular da filosofia dos homens. Reconcilias-te com a vida.
Quando partes, não te falo da validade do brilho renovado dos teus olhos. Digo-te apenas para vires mais vezes.
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