terça-feira, 7 de julho de 2015

PASSARINHO

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Fotografia de AC
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Passarinho, passarinho, que fazes fora do ninho?
Para ter a alma forte, tenho que me fazer ao caminho.
Passarinho, passarinho, não tens medo de ficar sozinho?
A tremer ficava eu, se ficasse dentro do ninho.
Passarinho, passarinho, para onde queres voar?
Não sei onde o voo me leva, apenas quero passarinhar.
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domingo, 28 de junho de 2015

PAISAGEM COM CEREJAS AO FUNDO

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Subia a encosta, sem bordão, à mercê do que lhe oferecia o caminho, mudando, a cada passo, de indumentária. Aqui o verde escuro dos pinheiros, mais além o verde vivo dos castanheiros, em harmonioso enlace com a alternança alquímica de fetos e carvalhos. Para trás ficava o piscar de olho das cerejeiras, eterno canto de sereia para qualquer viajante. E quantos se deixavam prender! Mas continuava, a percepção das coisas assim o exigia.
Às vezes, quando chegava ao cume, parecia que tudo se encaixava. O mundo, visto dali, parecia um enorme puzzle com as peças no devido lugar. Bastava saber olhar. Outras, vá lá saber-se o porquê, tudo parecia desarrumado, em convulsão, sem fio condutor. Era quando precisava de mais tempo, de apaziguar alguma cicatriz mais renitente. Iniciava, então, o ritual. Olhava em volta, à procura do melhor ângulo, e escolhia um local para se sentar, normalmente talhado em granito. Depois olhava, à distância, à espera que fosse tomado pela envolvência. Quando se dava conta, depois de imerso na imensidão, o tempo sorria. Dele e para ele.
Na descida, e já sem canto de sereia, o sabor das cerejas era doce e reconfortante brisa.
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sábado, 13 de junho de 2015

DAS RARAS AURAS

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Olho para ti, deslumbrado, eterno poema de pássaros com ninhos em permanente construção.
O teu olhar, forjado em inquieta vivacidade, não se compadece com lamentos, aprendeu que a luz caminha sempre de braço dado com a sombra. Tal como as poldras na travessia do rio, vais deixando um ânimo aqui, outro mais além, sementeira de afectos irrigadora do que de melhor há nos outros.
Olho para ti, deslumbrado, e deixo que, por momentos, minh'alma se aquiete. Vás para onde fores, a luz e a sombra, conjugadas num perfeito equilíbrio, far-te-ão sempre justiça.
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Poldras - Pedras dispostas de modo a permitirem atravessar correntes de água a pé enxuto. 
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quarta-feira, 10 de junho de 2015

FILOSOFICES EM DIA DE CAMÕES

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Alguns correm, outros navegam, muitos nem uma coisa nem outra. O desejável ponto comum, se o houver, é que cada um, no meio de tantos, saiba qual o seu lugar. Mesmo com as promoções do Pingo Doce e do Continente.
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domingo, 7 de junho de 2015

(IN)CERTEZAS

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AC, Nascente
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Lá em baixo, em pleno turbilhão, moldam-se cabeças, mestres de cerimónia decidem o que comer, o que vestir, o que não ouvir, o que dizer.
Cá em cima a água corre, molda a pedra, nada a parece deter. Mas basta a chuva folgar para tudo, aparentemente, se reconverter. Mas só até voltar a chover. Então tudo se recompõe, tudo se harmoniza, só os homens teimam em não ver, em inventar sem sentir.
Nas andanças da percepção, um pé lá, outro cá.
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sábado, 30 de maio de 2015

LINEARIDADES

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AC, Gardunha
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Entre o passo dado, e o não dado, haverá sempre uma fronteira. Obsessiva, para quem teimar em olhar para trás. Reformulada, para quem dobrar a próxima curva.
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sábado, 23 de maio de 2015

BANHO DE LAMA COM ERUPÇÕES DE VERDE

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Pintura de Carlos dos Reis
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Esbracejara, chafurdara, mas aprendera a nadar naquele lago de lama.
Passava por ilhas, muitas ilhas, todas cercadas de muros, a bradar a sua independência. Evitou-as. Continuou a nadar, contornando as jangadas carcomidas, vestígios de adormecidas ousadias, até chegar à margem pedregosa.
Sentou-se, voltado para aquele mundo em convulsão. Enquanto recobrava o fôlego, ofegante, começou a pensar em pontes. Mas não, não era por aí, os muros apenas cairiam de podres.
Subiu, a custo, a íngreme escadaria, até atingir o exterior. Após curta pausa, começou a contornar a muralha de cor indefinida, procurando uma brecha. A ânsia pouco deixava ver, as paredes pareciam inexpugnáveis.
Parou. Concentrou-se na brisa, na imperceptível ondulação dos musgos, na indecifrável linguagem das pedras, até sentir o que realmente era: um minúsculo ser sem bússola, com uma pequena sacola de memórias a tiracolo.
Voltou, pouco a pouco, as costas à muralha. À sua frente, contornando a erupção do fraguedo, uma floresta com toda a espécie de árvores prolongava-se até à linha do horizonte. Abriu os braços, encheu o peito de ar e sentiu o irresistível apelo. 
Enquanto caminhava, lentamente, por entre o arvoredo, imbuindo-se de aromas e cores, intuiu que as andrajosas vestes iam ficando, uma a uma, para trás, até se sentir completamente nu.

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domingo, 17 de maio de 2015

CARPE DIEM

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Fotografia de AC
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Todos os dias, depois de jantar, gosto de ir até às traseiras da casa, onde se esboça o caminho para a horta, para as árvores de fruto e para a imensidão de plantas silvestres, estrategicamente deixadas a salvo de humanas investidas. Aí, longe das luzes, as estrelas ficam mais perto, mais sensíveis, quase se adivinha o seu sussurro. Momentos serenos, quase levitantes, tentativa de abraço com a compreensão das coisas, longe do titubear devastador dos homens, que teimam em não cultivar memórias, apenas argumentam com as que lhes convêm. Assim se lapidam as questões, grandes ou pequenas, do milagre de cada dia.
Na manhã seguinte, no enquadramento do canto da passarada, assumem-se as cores, cada aroma parece ter um rosto. Carpe diem, dizem, como se as coisas se esfumassem, rapidamente, por entre os dedos. Carpe diem, digo, sentindo a alma, inebriada, ciente do seu lugar na harmonia das coisas.
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sábado, 9 de maio de 2015

TELA

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AC, Pinhal com Estrela ao fundo
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Caminhava, devagar, por entre os pinheiros, decifrando silêncios plenos de vida. A ligeira brisa, sedutora, ajudava a acentuar os aromas e os cantos da passarada, dando ainda mais cor à tela que, quase sem se dar conta, ia pintando interiormente. Lembrou-se da pequena Mira, capaz de, por trás de cada pinheiro, imaginar um duende. Sorriu. Ainda tinham tanto que contar um ao outro...!
Uma pinha, obedecendo às leis da gravidade, caiu a dois palmos, fazendo-o estacar. Olhou para baixo, para a pinha, olhou para cima, para o pinheiro. Tranquilamente. Ali era simples visita, o anfitrião era o pinhal. Como se de mesura se tratasse, apanhou a pinha, meteu-a na mochila e continuou a caminhar, retomando as pinceladas da tela.
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domingo, 3 de maio de 2015

MAIO

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Gardunha, fotografia de AC
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O tempo, sempre o tempo, não se compadece com palavras, apenas regista factos, e vai enumerando, aparentemente sem bocejar, ciclos e contra-ciclos. O Maio dos homens que brotou de Abril parece esfumar-se, cada vez mais, em armadilhas várias, o calcanhar de Aquiles duma sólida construção parece eterna metáfora. Só a Natureza, indiferente a grandezas e misérias humanas, se mantém, intacta, a emitir os mesmos sinais, o mesmo convite...
Maio, maduro Maio, poiso selectivo de aromas e cores em estado puro, activador de anseios, alavanca de esperança. Quase sem se dar conta, nele se embala o desejo de tudo abraçar, desenham-se as promessas de todas as partidas... Maio, génese de utopia.
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Gardunha, fotografia de AC
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