quarta-feira, 4 de abril de 2018

CICLOS

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Fotografia de AC
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Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas, como se tudo o que de mau acontecesse fosse questão intrínseca. Éramos encorajados a bater no peito, mea culpa, concentrando energias em elevado torpor, na esperança dum qualquer milagre à imagem de santas vidas. Éramos encorajados à redenção, deixando para segundo plano as injustiças do mundo. 
As amarras, contudo, apesar da severidade dos guardas, eram ténues perante o apelo natural do que se respirava lá fora. 
Um espreitar, um ousar, um pular. No início, qual vestir de pele dum recém-nascido, o impacto era violento, abissal: tudo fugia às regras, no comer e no rir, tudo parecia áspera terra, longe das linhas delineadas num qualquer gabinete avesso à luz. Depois, retiradas as névoas confessionais, o que nos rodeava - as pedras, as ervas, os rios, os pássaros, a água, as estrelas… - parecia ter uma linguagem própria, irmanada numa linguagem maior, muito maior, plena de harmonia. Tudo parecia saber, sem alardes, o seu exacto lugar. Insinuava-se uma outra configuração, apelava-se a um entendimento em que cada ser tentava construir a sua própria tela, contributo individual para uma interpretação maior. 
Mas nem todos. A maioria, escancarando as portas ao medo, tendia a estabelecer limites por tudo e por nada, impregnando a vida de rituais. Era a sua forma de se defenderem do que não entendiam. Nunca tinham saído do cativeiro, era nele que dormiam bem. E assim criaram a normalidade, plena de intolerâncias…
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Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas, como se tudo o que de mau acontecesse fosse questão intrínseca. Éramos encorajados a bater no peito, mea culpa, concentrando energias em elevado torpor, na esperança dum qualquer milagre à imagem de santas vidas. Éramos encorajados à redenção, deixando para segundo plano as injustiças do mundo. 
As amarras, contudo, apesar da severidade dos guardas, eram ténues perante o apelo natural do que se respirava lá fora. 
Um espreitar, um ousar, um pular. No início, qual vestir de pele dum recém-nascido, o impacto era violento, abissal: tudo fugia às regras, no comer e no rir, tudo parecia áspera terra, longe das linhas delineadas num qualquer gabinete avesso à luz. Depois, retiradas as névoas confessionais, o que nos rodeava - as pedras, as ervas, os rios, os pássaros, a água, as estrelas… - parecia ter uma linguagem própria, irmanada numa linguagem maior, muito maior, plena de harmonia. Tudo parecia saber, sem alardes, o seu exacto lugar. Insinuava-se uma outra configuração, apelava-se a um entendimento em que cada ser tentava construir a sua própria tela, contributo individual para uma interpretação maior. 
Mas nem todos. A maioria, escancarando as portas ao medo, tendia a estabelecer limites por tudo e por nada, impregnando a vida de rituais. Era a sua forma de se defenderem do que não entendiam. Nunca tinham saído do cativeiro, era nele que dormiam bem. E assim criaram a normalidade, plena de intolerâncias…
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Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas...
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14 comentários:

  1. O tempo foi o eterno redutor do pensamento e da atitude humana.
    Gostei de ler. Obrigada.

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  2. É...sempre presente... Assim como a água evapora e retorna como chuva!

    Sempre é mágico ler-te!

    Beijos! =)

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  3. A ruptura com tudo o que é estabelecido e aceito tem seu preço. Nem todos podem ou estão dispostos a pagar.

    Falo da foto: os ciclos são movidos a vapor? :-)))

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  4. Quando a linguagem é de harmonia, será sempre muito maior!

    Belíssimo.

    Beijinho meu amigo AC

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  5. E assim se vão formando, de geração em geração, os ciclos do tempo;
    que se vão repetindo, repetindo...repetindo...

    Um abraço, e boa semana, A.C.

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  6. Repetições em loop, mas cada vez um pouco diferente da anterior. Algumas melhorias e outras tantas piorias. E lá vamos andando.. .

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  7. "As amarras, contudo, apesar da severidade dos guardas, eram ténues perante o apelo natural do que se respirava lá fora."

    Não poderia estar mais de acordo e há que ser GRANDE e seguir o apelo natural. Os que se mantêm pequeninos...azar deles!

    Gostei imenso e a foto está genial.

    Beijos e bom fim de semana

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  8. Meu caro Agostinhamigo

    O calendário, o relógio seja o de sol seja o actual, a ampulheta, a clepsídra são inexoráveis porque o tempo não pra nem na poesia. Mas, como sempre gostei da tua prosa.

    Infelizmente venho dizer-te que este é o último comentário que aqui faço e digo infelizmente porque creio ser um dos mais velhos comentadores do teu blogue.

    Mas há muito que não comentas na nossa Travessa que penso que já deixou de ser tua. Por isso deixo-te um sincero abraço de despedida
    Henrique

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  9. Sempre é tempo de abrir-se ao novo, ao desconhecido, ao imponderável... Você bem demonstra, com muita propriedade, que os olhos vendados ao outro e à vida geram a intolerância. Muito bom seu texto, possibilita uma série de reflexões. Abraços, uma boa semana.

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  10. Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir, não é?
    Aquele abraço, boa semana

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  11. Um texto cheio de verdade para reflectir. "E assim criaram a normalidade, plena de intolerâncias…" Esta frase deixou-me a pensar como somos vítimas das nossas decisões, dos nossos medos, da nossa falta de coragem. E gostei do eco do texto a terminar: "Havia um tempo, sempre presente, em que as maravilhas estavam fechadas..."
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  12. E há ciclos... que se repetem... ininterruptamente... ainda permanecemos no da normalidade... plena de intolerâncias...
    Mais um texto formidável, repleto de motivos para reflectir!...
    Beijinho
    Ana

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  13. Tanto, neste texto! Como já teu apanágio!
    E este interior, o nosso interior, esquecido e fechado, pela sua natural geografia (não tanto física, mais humana), a parir consciências lúcidas...
    Tocou-me... Escrevi, há pouco tempo, um conto, quase grito, quase redenção...
    Bjinho

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