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terça-feira, 6 de abril de 2021

CONVERSA IMPROVÁVEL COM UMA CEREJEIRA

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AC, Cerejeira com um niquinho de Estrela ao fundo
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Tudo se prepara para a festa da renovação, tudo se começa a engalanar, com um aroma muito próprio, muito fresco, a perfumar o ar.
Tu, contudo, nem pareces a mesma de há uma semana atrás. Vais sorrindo, mas a cada dia que passa pareces mais contrafeita, como se algo de grave se passasse. Que se passa?
Olho para ti, reparo no viço das flores a desaparecer e então entendo a cusquice das duas andorinhas que, em dois fios do beiral, logo pela manhã, antes de iniciarem a azáfama costumeira, se deliciavam a falar daquilo que te envenenava a alma. Dá Deus cerejas a quem não tem dentes, pareciam concluir elas, com desdém. 
As andorinhas sabem da vida delas, tu sabes da tua, mas não evito pensar que tu gostarias que o apogeu das flores se mantivesse, que continuasses a ser admirada, que o palco a que te guindaram, por momentos, fosse eterno. 
Nem sei que te diga, não vá magoar-te. Fazes-me lembrar uma pessoa amiga que corre, desesperadamente, em busca das últimas novidades para se manter jovem - ela fala-me de algas, de massagens de pedras, eu sei lá... - e eu, enquanto a oiço, não deixo de sorrir. Ela não gosta que o faça, ainda não entendeu que as coisas, muito para lá de se possuírem, têm, acima de tudo, que se sentir. E, aqui para nós, diz-me lá: para além do decrépito da tua flor, não sentes algo de maior a eclodir dentro de ti? Repara bem, os frutos, as deliciosas cerejas que, daqui a um mês e meio, motivarão a cobiça de muitos, começam a despontar donde antes emergia a tua vaidade. Pensa e aguarda. Vais ver que, aquando rubras e bem docinhas, ninguém vai conseguir despegar o olhar de ti e dos teus frutos, derretido em cobiça. Num palco sem limites, essa será a tua verdadeira representação deste ciclo. E, podes crer, desde que bem cuidada, outros se seguirão, pela certa.
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sábado, 16 de junho de 2018

INSPIRA, EXPIRA, INSPIRA...

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Fotografia de AC
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Manhã de sábado, de pretensa tranquilidade.
Toca a campainha. Não é o vizinho, não é o carteiro, não é um familiar. Apenas alguém, assumido portador da verdade, a querer conversar, como se a fé se vendesse porta a porta.
Retine o telefone. Não é o vizinho, não é um amigo. Apenas alguém, com entoação estudada, preocupado com a minha qualidade de vida.
Ligo o televisor. Verdade, verdadinha, todos os canais defendem, com maior ou menor subterfúgio, uma verdade: a de quem mais lhes paga, mas sempre em meu abono.
Vou lá para fora. Calço as botas, ponho o chapéu e irrompo pelo vasto terreno. Cruzo-me com pereiras, macieiras, nespereiras, cerejeiras. Olho para estas com um carinho especial, ou não fossem elas, no seu esplendor, fruto da enxertia de quem pouco ou nada sabe destas coisas, mas a quem sobra ousadia. Estão apetitosas, as cerejas!
Continuo de encontro às nespereiras, macieiras, oliveiras e amendoeiras, prossigo por rosmaninhos, papoilas, giestas, eu sei lá que mais. Isto para não falar de gafanhotos e formigas, borboletas e abelhas, de toda a espécie de plantas silvestres. Por mais que olhe, nada se me afigura querer chegar-se à frente, cada ser cinge-se ao seu lugar. 
A pausa, sempre a necessária pausa, com a visão a distender-se, lentamente, com ligação directa à alma. E, vá lá saber-se o porquê, às tantas dou por mim a tentar acompanhar, desajeitadamente, o concerto dum pintassilgo.
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P.S. - Domingo, cerca das 18 horas. 
Acabei há pouco de as colher. Vai uma? :)
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sábado, 17 de junho de 2017

CEREJAS

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Fotografia de AC
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São elegantes, aveludadas, saborosas, com o tamanho certo para se deglutirem, epicuramente, sem vontade de parar. São viciantes, no seu sabor único, despoletando emoções difíceis de definir, como se cada uma transportasse, dentro de si, a sensualidade dum corpo à medida, envolvente, filtrado em mil promessas.
Durante um mês, mês e meio, a cereja foi rainha, congregando todo o género de atenções e mimos, qual oásis ao estender da mão.
Já se despedem, contudo, as cerejas, abrindo portas aos exageros do estio. Como qualquer ser único, gostam dum tempo só para si.
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