segunda-feira, 9 de abril de 2012

INTERROGAÇÕES EM NOITE DE LUA CHEIA

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Tela de Margarida Cepêda
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Dúvidas, inquietações, receios. Para quê tentar construir pontes? Para quê escrever? A resposta é dúbia, pouco clara, mas há sempre algo a impelir a gravidade da ampulheta. Talvez seja a desejável incapacidade de abraçar uma verdade feita, talvez seja a necessidade de dizer que tudo estará sempre por dizer. Será um gesto? Um despoletar de palavras? Por mais que diga nunca será o suficiente, o ritmo das coisas exige  que não haja paragens. Então, será o quê? O canto dos pássaros?  A sinfonia do ciclo lunar? A força das marés? Desses nós temos algumas certezas, só não sabemos da inconstância dos homens. E eles, mais que ninguém, obrigam-nos a exercícios do tudo ou nada.
Quando tudo parece à deriva, eis a dependência dum gesto arrebatador, a procura dum sinal de esperança. Quem resiste a este eterno faz de conta?
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sábado, 31 de março de 2012

CONVERSAS EM SOL MENOR

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António Tapadinhas, Rhapsody in blue
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Porque te preocupas tanto em entender? O teu olhar recusa paredes, o alcance do voo da águia para ti é coisa pouca. Dizes que há sempre um novo horizonte para lá da montanha mais próxima, mas no fundo não é essa a viagem que almejas. Queres abraçar o mundo e condensá-lo nas tuas mãos, ao abrigo do resgate de ventos e marés.
É isso que pensas?
Sim, é como se quisesses levar para o teu abrigo todos os livros do mundo. Esqueces, no entanto, que só por si eles nada são.
Sim, eu sei. Eles carecem de entendimento e trabalho, muito trabalho. E isso só é possível em onda gigante, devastadora na partilha, em que o segredo almejado seja partilha colectiva.
Mas tu não querias escrever o poema definitivo?
Isso não existe, aprendi que o definitivo é feito de pequenas coisas. Ultimamente alegram-me os pequenos poemas, o canto da simplicidade.
Sabes, gosto de te ouvir, mas sinto que viver é muito mais que isso, ultrapassa as pequenas e as grandes coisas. Haverá entendimento para isto?
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sábado, 24 de março de 2012

RESPIRARES DA LUA NOVA - 2

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Pablo Picasso, O poeta
Pegou num monte de sapatos, observou-os com atenção e separou os que lhe pareciam em melhor estado. A alguns ainda se aproveitava a base, mas não durariam muito. Cada vez mais se socorria dos pneus de automóvel, em grande abundância nas redondezas, resquícios de emblemas da era dos combustíveis fósseis. Havia ali material para muito tempo.
O maior proveito via-se nas partes laterais. Os saltos, mais sujeitos ao desgaste, eram a parte que exigia maior atenção, mas ainda havia em stock muitos exemplares de salto alto, que agora já ninguém usava. A vida prática que levavam abolira por completo o supérfluo, e os saltos arranha-céus eram agora manancial para muitos outros mais adequados ao andar.
A princípio custara-lhe a entrar na morfologia do calçado, nada condizente com o antigo teclar, mas ganhou-lhe o jeito em pouco tempo. No acampamento, com o passar das luas, todos foram ganhando consciência do fundamental, e uns sapatos robustos e resistentes satisfaziam qualquer um. Mas não a ele. Tinha alma de artista, diziam, e sentia necessidade de pôr a sua marca naquilo que fazia. 
Quando lhe sobrava algum tempo começou a tentar dar vida aos sapatos. Aprendeu a gravar figuras no couro, a amaciá-lo, mas poucos ligavam aos seus devaneios, preocupados que estavam com a sobrevivência.
Ana, perfeitamente integrada no espírito do acampamento, só recorria ao sapateiro quando os sapatos que trazia já se revelavam inúteis. Chegado o momento, um acto banal tornou-se a porta de entrada na alma do artesão. Quando viu uns sapatos, mesmo à sua medida, com uma flor gravada no rosto, não hesitou: calçou-os e mirou-os como coisa preciosa. Na luta pelo sentido das coisas, aprendera por ali que muitas são as formas de fazer poesia.
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sábado, 17 de março de 2012

INSTANTÂNEO

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António Tapadinhas, Vénus
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As palavras, por vezes, são carícias a seduzir a pele, incêndios pré-nupciais anunciadores do semear da terra.
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sábado, 10 de março de 2012

PISCAR DE OLHO EM MANHÃ PRIMAVERIL

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António Tapadinhas, Sagração da Primavera
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Falas-me de superação, da contínua vertigem em navegar ondas que insinuam promessas. Não gostas que te soprem receitas, alimento de memórias circunscritas, e dizes que, na hora da chegada, as respostas devem abraçar-nos de forma discreta, apaziguadora, como que a medir os alicerces da nossa construção. Referes ainda, acalorada, que temos que transportar as raízes no bolso e ousar cavalgar as nuvens, sentir o vento na face, exercício depurativo do verdadeiro sentido das palavras. E que há umas tantas - os teus olhos dizem amor - que gostarias de capturar.
Sorrio. Uma ligeira brisa vai baloiçando, suavemente, um dente-de-leão. Queria-te dizer que as convicções, por vezes, são mais frágeis que uma flor, mas o teu entusiasmo é contagiante.
Gostaria tanto que tivesses razão!
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sábado, 3 de março de 2012

ACERCA DA ÁGUA DAS NASCENTES

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Margarida Cepêda, À porta do reino dos afectos
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Não, hoje não me fales de pássaros nem de horizontes. O frio iludiu-me a guarda e começou a desenhar, bem cá dentro, espirais numa sinfonia quase perfeita. Não gosto do gelo, mas ele canta duma forma que seduz. Deixa-me, hoje preciso de silêncio.
O gelo não passa de água, e isso é bom, mas é vida em constante espera. Se te deixares embalar por essa melodia, talvez embarques numa viagem sem retorno. Sabes, aguardar pode confundir-se, às vezes, com as flores da esperança, mas estas carecem de constante alimento. Porque teimas em aguardar?
Não sei, há momentos em que sinto um imenso frio cá dentro. Diz-me, conheces alguma lareira que aqueça a alma?
Anda cá, deixa-me dar-te um abraço. Às vezes és tão tonto...!
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sábado, 25 de fevereiro de 2012

MERGULHO EM PRAIA NÃO VIGIADA

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Pintura de Margarida Cepêda
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Cansaste-te dos muros de betão, e algo te impeliu a mergulhar nas profundezas da memória em busca do fio condutor.
Ignoraste as trombetas anunciadoras do brilho, pois do efémero já tu sabias, e ousaste penetrar nos segredos da caixa da dor. A tua segurança, forjada no cinzento dos dias, debateu-se, mas sentias que, para nela entrares em pleno, terias que abraçar os fantasmas do medo. E, nesse acto único, gritaste aos quatro ventos os contornos das brumas da fera, um grito que se transformou em sopro.
Quando regressaste, ainda combalida, sabias que as tuas vestes nunca mais seriam as mesmas. A tua nudez estava agora bem presente.
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sábado, 18 de fevereiro de 2012

RESPIRARES DA LUA NOVA - 1

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Aldeia da Luz, Alentejo
Pegou na bilha de água turva, acenou aos guardas e rumou ao acampamento. Sentia-se suja, a carecer de um banho, mas as antigas rotinas eram agora um  luxo. Umas gotas no rosto, outro tanto nos sovacos, e já estava no limite. O líquido, em constante escassez, era demasiado precioso para gastos supérfluos. Até os legumes, cuidadosamente cultivados nos terrenos contíguos, dependiam do gota-a-gota em garrafas de plástico, engenho forjado no esgravatar do apelo da boca. Poupava-se água, ganhava-se esperança.
A nascente que lhes fornecia o precioso líquido era o grande bem do grupo, mas também o seu lado mais vulnerável. Atraía toda a espécie de pessoas, bonecos errantes em busca de sobrevivência. Uns tentavam integrar-se, sabedores que eram da importância de se ligarem a objectivos comuns, mas outros, autênticos predadores, apenas desejavam a sua posse. Ter aquela fonte significava poder, e alguns tudo faziam para a ter. Estava-lhes nos genes. Era por isso que a nascente estava tão bem guardada, era o núcleo essencial da preservação do grupo.
Ana, antes da grande hecatombe, gastava os seus dias a leccionar numa universidade da capital, mas há muito que o prazer do trabalho se esgotara na rotina bafienta dos seus pares. A vida escapara-se-lhes por entre os dedos das mãos, mas teimavam em fazer de conta que eram o centro das coisas. E ganharam mofo. Entre o sair e o ficar, aconteceu o colapso que muitos previam. E viera ali parar, nem sabia bem como, a um local onde tudo se fazia para que houvesse uma nova oportunidade. Era por isso que, apesar da escassez, nunca faltava a água no canteiro, com um variado leque de flores, situado mesmo no centro do acampamento. E, em certas noites, quando o breu da lua nova irrompia, o som do saxofone dum músico poeta ajudava a atenuar os receios. Todos por ali sabiam que, por vezes, o ânimo carecia mais de alimento que o estômago.
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sábado, 11 de fevereiro de 2012

SEMENTE

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Margarida Cepêda, Semente
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As mães são conchas e mistério, elas apertam os filhos como rios sem margens no diafragma do Tempo, as mães têm braços que agarram por dentro o Amor com magnética nitidez. As mães são o regresso do mundo.
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Gisela Rosa, O Anel do Tempo,  A Matriz dos Sonhos
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Quando chegava o verão
Sentavas-te
À tardinha
Debaixo da figueira
Onde a brisa
Suave
Anunciava
O rumor das cotovias
Então pegavas
Delicada
Na minha mão
E contavas
Baixinho
Era uma vez um potrinho
Que adormecia
Feliz
A ouvir
As histórias do vento...
Sentia-te perto
E o tempo
Adormecido
No cantar do ribeiro
Parava
Enlevado
Para nos ver
Assim eram os dias
No tranquilo paraíso
Em que desenhavas
Minuciosa
O crescer das minhas asas
E eu sentia
Maravilhado
O vigor do teu voar.
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sábado, 4 de fevereiro de 2012

APELOS, HORIZONTES E OUTRAS COISAS QUE TAIS

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António Tapadinhas, A Cidade do Sol
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A tua alma sempre foi enorme, nem tu sabias da sua dimensão. De tal forma que, apesar dos receios, ela extravasava, insinuava-se para lá do teu pequeno mundo inicial. Sentias o seu respirar, é verdade, mas as histórias da lareira adormeciam esse apelo, qual feitiço tecido em tapetes de segurança. Apesar dos sinais, muitas vezes à flor da pele, ias resistindo.
Um dia partiste, mas uma parte de ti ficou. E, apesar das lutas interiores, alimentadas pelas promessas de novos horizontes, o teu ecrã teimava em filtrar cenários, confundindo amarras com liberdade.
Esbracejaste, socaste no ar, ressacaste. E começaste, com o que te restava, a ler a tua alma.
Ainda falas da lareira, mas já percebeste que a ternura não se confunde com a liberdade. Poderão ser complementares, mas vivem em dimensões diferentes, e a liberdade, por mais desejada, exige um preço para lá das vontades.
Quando começaste a subir a montanha, a beber das suas entranhas, sentiste que algo mudara em ti. Lembrarás sempre, com ternura, as histórias da lareira, mas a partir daqui tudo dependerá do vigor do teu voo. Seja lá o que isso for.
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