sábado, 15 de setembro de 2012

ADEUS, PRETINHA!

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Ela não andava bem. Ainda se tocou a rebate, mas as raízes do tumor mamário já eram demasiado fortes. E a Pretinha acabou por se apagar. 
Hoje, logo pela manhã, a enxada exercia o seu mister, compassada, activando memórias que, por si, se auto-seleccionavam na complexa combustão da razão com a emoção. A cova ia-se aprofundando, mas a facilidade inicial fora sol de pouca dura. O terreno, fiel à filosofia dum Inverno nada pluvioso, recusava-se à ideia de fundo, e estoicava-se numa coriácea resistência. É que os equilíbrios não se manuseiam de acordo com a vontade do esforçado aprendiz, são matéria sensível avessa a qualquer atalho de circunstância. Mas a causa era forte, e insistir era necessário. Por mais que doesse.
O tempo decorria, indiferente ao drama da relação da enxada com o terreno duro, e apenas uns baldes de água iam apaziguando a convivência da (im)possibilidade das coisas. As memórias, ainda em carne viva, alimentavam a convicção, e a tarefa lá se ia cumprindo. O tempo deixara de existir no desfilar de imagens da Pretinha, incondicional companheira de tantas horas. E foram tantas! Não usava turbante, aquela louca schnauzer gigante, mas era certeira na leitura de alegrias e tristezas, e para qualquer delas disponibilizava uma ternura única. Sabia seduzir, a Pretinha, socorrendo-se apenas da naturalidade das coisas. Estou aqui, conta comigo. E estava sempre.
O tocar do telemóvel desvaneceu imagens e emoções. Era da clínica, onde ela tinha passado a sua última noite de vida, e só nessa altura a ditadura do tempo se impôs. Desde que a enxada iniciara o seu ritual, o sol já tinha galgado três horas no seu galopar. Estava na hora de ir buscar a Pretinha. A terra aguardava-a.
Enquanto a enterrava – não interessa o porquê, mas tinha que ser eu, mas é duro, muito duro – alguns pensamentos, daqueles que não pedem autorização para assomar, chegavam-se à frente. Para lá do choro, momento único de expurgação, a morte, para o observador atento, é sempre uma tentativa de reconciliação com a vida. Não é ela, em si, uma forma única?
No final, flores silvestres para a Pretinha. Ela gostaria.
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

ÁRVORES E HORIZONTES

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Luiz Pinto - Encosta com árvore
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Gosto de horizontes. Gosto de árvores. Gosto de horizontes com árvores. E pessoas. E é na junção dos elementos que tudo se ganha e tudo se perde.
Diz-me o agitar das folhas que a aparente simplicidade das coisas é forjada em luta que não dispensa entranhas, temperada em tempestades e bonanças, é redescoberta constante traduzível no olhar, no andar, na forma como usamos as mãos. Mas sem garantias, sempre sem garantias, pois há algo que se perde quando as concessões se insinuam. As cores esbatem-se, os aromas esfumam-se, a palavra tende a ficar maculada. E a convicção, matéria assaz sensível, só ramifica quando tendemos a dominar o segredo de beber a naturalidade de nascentes e ocasos.
Por mais horizontes que observe, há árvores que têm o condão de motivar, de iluminar, de se tornarem eternas. Como tu.
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sábado, 25 de agosto de 2012

BALADA PARA O SOPRAR DE NOVOS VENTOS

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Van Gogh, Paisagem da colheita
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A quinta, com o passar do tempo, fora ganhando uma ambiência muito própria. Durante o dia vivia-se a constância do movimento, moldada nos elementos. A natureza tudo nos dá, mas tudo nos exige, é uma cumplicidade sem concessões, e ali havia sempre algo para fazer. Contudo, chegado o ocaso, o vislumbre da lua apaziguava o instinto físico da sobrevivência. E, de forma natural, insinuava-se a poesia, cantando-se o já feito e as pontas daquilo que os desafiava. Semeava-se apaziguando, que a esperança carece de dificuldades domáveis. Era nessas alturas que Tiago se afoitava, que as suas palavras, preservando o que de bom tinham, os transportava para o que havia para lá do horizonte, recordando-lhes que não viviam sozinhos.
Um dia, num fim de tarde, Diana regressou. O seu olhar ainda guardava rastos de inquietude, mas estava diferente de quando partira. Havia nela um entusiasmo novo, próprio de quem encontrara algo e sentia necessidade de o partilhar.
Ao jantar, feito da frugalidade do que cultivavam, Diana começou-se a soltar. E falou com alma. Reforçou a ideia que já todos tinham – a impossibilidade dum mundo sob um jugo sem regras, que apenas beneficiava uma minoria sem rosto – e começou a lançar sementes dum diferente porvir. Reclamou da necessidade da visão feminina do mundo se chegar à frente, substituindo a secular e máscula prática guerreira, e que toda e qualquer solução, para ser sustentável, teria que se basear no equilíbrio com um elemento fundamental: a terra. E disse mais. Que, para lá da necessidade de as mulheres se chegarem à frente, era uma heresia ousar falar de liberdade quando não se respeita o mais elementar da nossa origem.
Tiago ouvia, deliciado. Não pela novidade, mas pela cumplicidade que sentia. Tudo aquilo, para ele, fazia sentido. Diana precisara de sair dali para entender, mas para ele a revelação viera com a percepção da elementar arquitectura da construção de qualquer ninho. Fosse ele de pintassilgo, de melro ou de rola. E, sem se dar conta, sorria enquanto ouvia.
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sábado, 18 de agosto de 2012

PARA LÁ DO SUBSTANTIVO

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Hélio Cunha, Planaltos de cristal
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Gosto do teu sentir, gosto do teu olhar. A sua envolvência é como uma paleta, pintando telas sem parar ao ritmo de cada clique, cada vislumbre, como se de mais uma peça na solução do puzzle se tratasse. E tentas pintando, e pintas sentindo.
Das histórias sabemos que se datam, se circunscrevem no tempo. Que nome daremos, então, àquilo que começa mas que, por efeito de qualquer química, não lhe vislumbramos o fim?
Um lançar de cartas, no final do dia, apenas ajuda a adensar o mistério.
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domingo, 12 de agosto de 2012

NAVEGAÇÕES

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Margarida Cepêda, O fruto proibido e o fruto permitido
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Liberta-se um indício de cor, de palavra, de fragrância. É quanto basta para alimentar a vontade da procura, de desvendar para lá das nuvens com que adornas a tua morada.
As perguntas são inúteis - haverá sempre mais, e mais... - e as respostas, se as houver, não são para serem ditas aos quatro ventos. Chegar não é um acto único, estar é sempre um ponto de partida. E tudo recomeça.
Quando a fragrância se sobrepõe à palavra e esta, reinventada, continua a fazer sentido, então é chegada a hora de ouvir a melodia dos pássaros.
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sábado, 4 de agosto de 2012

A COR DO SONHO

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Pintura de Margarida Cepêda
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Falavas convicta
Da cor do teu sonho
Como se a alma
Movimento profundo
Fosse tela manipulável
Adaptável
Em pano de fundo
Pegavas na paleta
Objecto comum
Circunspecto
E tentavas
Num impulso inocente
Pintar o sonho
Em rosa envolvente
Como tom predominante
Duma vida deslumbrante
Mas na intimidade
Sabia-te a pouco
E rebuscavas mais cores
Para misturar odores
No equilíbrio
Da tela desejada
Tentaste com verde
Dourado e turquesa
Mas ficava a incerteza
Da falta de leveza
Do sonho sem asa
Insististe com azul
Siena, borgonha
Branco floral
Mas não descobrias
A mágica proveta
Crucial e discreta
Para almejar
O tom essencial
Ficaste sozinha
Coração na mão
E então percebeste
Que a essência do sonho
Antes da cor
Carece de alma
Na sua dimensão.
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sábado, 28 de julho de 2012

MERGULHO EM ÁGUAS DE DELICADOS AROMAS

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Pintura de Margarida Cepêda
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Sinto as tuas águas fervilhar, em constante agitação, e nada parece amainar essa necessidade de almejar praias longínquas.
Não sei como te dizer, mas areias são apenas isso, areias, é no fermentar do teu impulso que deves mergulhar.
O mesmo se passa com as montanhas. Que importa subir ao cume mais alto? Acaso não haverá sempre outra montanha ao lado? Detém-te nas veredas, na singularidade de cores e aromas. Bebe, inala, mastiga. É neles que se forja a química dos teus passos, alimento da tua alma. Se conseguires aquietar a ansiedade de domares o tempo, talvez, então, entendas a delicadeza do respirar de uma flor.
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sábado, 21 de julho de 2012

EFÉMERO

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Pintura de Margarida Cepêda
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A seara ondulava
Sensual
E as papoilas
Efémeras
Adornavam o cenário
Que embalava
O voar das borboletas
Assim eras tu
Em Maio
Na frescura dos caminhos
Radiante
Com o mundo a teus pés
Gostavas do teu brilho
E embriagavas-te
Na imagem do espelho
Que enfeitavas
Com as cores
Duma eterna primavera
Esqueceste os aromas da terra
E não viste que os deuses
Despreocupados
Em olímpico tédio
Jogavam o teu destino
Em jogo de dados
Dedilhado
Em acordes chorados
O espelho fragmentou-se
E não percebeste
A sensação de frio
Nos caminhos que te levaram
À solidão
Dum palco vazio.
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Reedição
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sábado, 14 de julho de 2012

A SUSTENTÁVEL LEVEZA DAS MANHÃS DE SÁBADO

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Fotografia de AC
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Gosto das manhãs de sábado. 
A água para o café aquece um pouco mais tarde que o costume, como que a dar espaço a que a harmonia se instale. Lá fora, imune a estéreis transcendências, a passarada dá largas à conformidade dos dias, trauteando ancestrais melodias. Por ali não há angústias de mercado, as coisas são o que sempre foram.
Saio. Nas árvores, obedecendo a sábias determinações, já se foram as cerejas. Os pêssegos e as ameixas estão quase no ponto, e as pêras, as maçãs e os figos, moldados com outro vagar, prosseguem a sua maturação. Maior é o sono de castanhas e amêndoas, que só nos matizados outonais ganharão carta de alforria. Neste desabrochar de vida não há pressas. Cores, aromas e sabores têm a sua química muito própria.
Debruço o olhar sobre as couves, os pimentos, as cebolas, a salsa, os tomates, as alfaces, as beringelas... Enquanto verifico o crescimento, pequeno milagre de todas as horas, recordo ensinamentos de avós, travestidos em memórias - olha, filho, a horta quer ver o dono todos os dias - e prossigo na comunhão. Fixo-me nas daninhas e retiro uma erva, duas, três... Parecem tantas que, no mergulhar da tarefa, o tempo deixa de contar. Mondar a horta, tal como a vida, requer paciência, tacto e uma óbvia visão de fundo: não há recompensa sem esforço. E os frutos, mais que promessa, começam a ser dádiva.
A Pretinha, uma schnauzer gigante de incondicional cumplicidade, acompanha-me no passeio. Caminha quando eu caminho, senta-se quando algo merece a minha atenção. E uma festinha naquela cabeça atenta nunca é de mais.
Um casal de andorinhas, contrariando ideias feitas - estamos em Julho, longe dos cânones de Março - insiste em fazer ninho no alpendre. Nunca é tarde para reformular, nunca é tarde para amar.
O sol começa a morder, a sombra começa a tentar. E, de bom grado, acabo por ceder.
Nas manhãs de sábado, enredado na magia das pequenas coisas, os dias domam as feras e insinuam plenitude.
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sábado, 7 de julho de 2012

DIÁLOGO COM UBÍQUO PATROCÍNIO

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Hélio Cunha, Edenbluff
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- Porque te afastas? Porque gostas de deambular por zonas sem certificação?
- Eu não me afastei, apenas fui um pouco para o lado de lá. Sabes, gosto de ver as coisas sob vários prismas, as cores dos catálogos sabem-me a pouco.
- Ouve, as pessoas trabalham tanto, que um catálogo de opiniões é preciosa ajuda. Não achas?
- Um catálogo é sempre a visão oficial de algo. Se te encostares a ele, isso significa que estás a delegar o que de mais precioso tu tens: a liberdade de pensamento.
- Mas… espera lá! Um catálogo traz-me mais tempo livre, facilita-me as opções. Ao fim e ao cabo, liberta-me.
- Liberta-te? Para quê? Para estares disponível para trabalhares cada vez mais? Para seres uma máquina produtiva? Um fazedor de opiniões apenas te condiciona, ajuda a acentuar a visão de quem o patrocina. Sabes, o trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas um meio para tentarmos concretizar sonhos, expectativas…
- O que dizes pode ser aliciante, mas preciso de trabalhar para comer.
- Tens razão, mas é com base nessa premissa que eles nos condicionam cada vez mais. Já reparaste que, através desse meio, te criam uma falsa zona de conforto, abrindo-te portas para o sentido de posse, e que, às tantas, já não queres prescindir disso? Se pensares bem, muito do que fazes nem sabes porque o fazes, mas, como toda a gente o faz, isso basta-te. A verdade é que eles condicionam as nossas reacções e comportamentos. Em suma, fazem de nós modernos escravos.
- És doido, sempre foste. Porque sorris? Que trazes aí?
- Um ramo de ervilhas-de-cheiro, que apanhei do lado de lá. São para ti. Gostas?
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