sábado, 18 de março de 2017

MANHÃS DE SÁBADO

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Pessegueiro, Fotografia de AC
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Após uma intensa semana de trabalho na escola - em que, apesar do empenho, tentar levar a bom porto uma nau que alguns persistem em comandar à distância, no conforto dos gabinetes, esquecendo realidades díspares, não é pêra nada doce - as manhãs de sábado são sempre momento de reencontro com o que de melhor habita em nós. Hoje, porém, tal era o cansaço, não houve azáfama obreira, numa eterna tentativa de harmonizar o mundo que nos rodeia à medida da nossa respiração. Não, hoje as mãos não mexeram na terra, houve apenas disponibilidade para curtas andanças para observar o andamento da horta de inverno - alhos, favas, ervilhas, este ano com a novidade de dois chuchuzeiros - e para assistir aos progressos da floração das árvores.
Olho, ao longe, e tudo parece parado. Tranquilidade é coisa que por aqui não falta, de tal forma que até os riscos dos aviões no céu se fazem notar. Lembram-me viagens, novos destinos, alimentam-me a vontade de tudo conhecer. Desenham-se algumas metrópoles, mas o pensamento, obstinado, persiste em transportar-me até aos Andes, ao reino do condor, aliciando-me com a perspectiva de caminhar nos cumes. É apenas um simulacro, eu sei, sempre me atraíram os espaços mais ou menos livres, em que, facilmente, somos confrontados com a nossa essência. E já poucos restam.
Os gatos, guardando a distância necessária para albergarem estatuto independente, já não interferem com a horta. Procuram, aqui e ali, um ratito do campo ou um pássaro desprevenido, mas não parecem muito empenhados. Os cães da vizinhança resguardam-se, silenciosamente, do sol, como que sentindo que não é a hora deles. As borboletas, pelo contrário, esvoaçam com vivacidade, poisando, amiúde, para depositar os ovos numa qualquer planta. A passarada, após o matinal concerto, recolheu, sensatamente, a refúgio seguro. Apenas os pardais, numa azáfama constante, não se coíbem de debicar aqui, debicar ali, enquanto uma ou outra andorinha persiste na construção do ninho.
Manhãs de sábado, eterno depósito abastecedor do meu respirar.
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terça-feira, 14 de março de 2017

PRIMAVERA

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 DamasqueiroFotografia de AC
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Éramos jovens potros
Imunes ao receio
E a primavera de Vivaldi
Em harmonia vibrante
Era o primoroso retrato
Do nosso entusiasmo
No galopar sem freio.
A seara ondulava, sensual
E viajávamos no sonho
Embalados no rumor da aragem
Que escrevia
Nas folhas dos freixos
Sinfonias à nossa passagem.
A paixão das cigarras
Morava dentro de nós
E a linha do horizonte
Meta por conquistar
Era a tela
Dos planos traçados
Dum mundo por desbravar.
Adormecia nos teus braços
Em nocturno de Chopin
Terna e doce vassalagem
E só o romper da aurora
Rebate do mundo lá fora
Quebrava o feitiço da viagem.
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Pereira, Fotografia de AC
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Reedição
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sábado, 11 de março de 2017

MUROS E QUINTAIS, SERVIÇO DE MESA COM AVENTAIS

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Fotografia de AC
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Todos os dias, apesar da pressa em satisfazer compromissos, cada vez mais sobrecarregados na exigência dos outros, há algo à flor da pele que argumenta, que questiona, que reivindica, afastando para lá a ideia do acenar submisso do autómato.
Vivemos num tempo de transição. Esbatem-se, cada vez mais, os ideais humanistas, em que o progresso deveria estar ao serviço do homem. No horizonte, assomando cada vez mais às claras, insinua-se um mundo controlado, vigiado, em que cada manifestação individual, ou social, é escrutinada ao mais ínfimo pormenor. As pessoas recebem cada vez mais brinquedos, acompanhados dum diploma de modernidade, enquanto que, em paragens "sem interesse estrutural", há quem clame por água, por pão, por um qualquer lugar onde não se oiça o sibilar das balas. No fundo, dão eles a entender, deveríamos estar contentes por vivermos para cá do muro.
Vivo, por opção, num local em que todos os dias se ouve o cantar da passarada, se vêem as plantas a crescer, se observam as estrelas no firmamento, convidando a viagens para lá de nós. E sinto-me grato por isso. Mas não, por mais que me cantem loas aos ouvidos, não vivo num mundo à parte. Gosto muito do sítio onde vivo, mas não posso esquecer, nunca, que sou parte integrante dum complexo sistema em que os verdadeiros poderes, cada vez mais na sombra e, a cada dia, mais fortes e subtis, vão muito para lá do cantinho de cada um. Estamos todos no mesmo saco, à mercê de cinzentos desígnios, mas há quem teime em dourar, a todo o custo, a pílula da existência.
Todos os dias, quando me levanto, encho a alma com o canto da passarada, mas nunca me esqueço, mesmo que em modo suave, do mundo em que vivo. Com os afectos a tiracolo, sempre.
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sábado, 4 de março de 2017

OS CONSTRUTORES DE LENDAS

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Pintura de Sergei Aparin
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Não sabiam bem por que o faziam, apenas sentiam que tinham que o fazer. Eram herdeiros de mil lutas, de iguais persistências, em prol de algo que vinha do mais profundo de si. Às tantas, perante tantas pedras no caminho, duvidavam, mas acabavam por prosseguir, deixando, em cada sítio, esboços de coisas diferentes, mapas de inquietudes, incompreensíveis para quem se habituara à segurança de cada coisa no seu lugar. E prosseguiam, prosseguiam sempre, indiferentes aos olhares, aos gestos. Sentiam, há muito, a bússola que os guiava, que os impelia, a estrela que, nos seus sonhos, lhes soprava a palavra liberdade.
Quando chegaram àquele vale, longe da agitação e da cobiça, sentiram que podiam ficar. Não havia colunas, nem torres, nem palácios, apenas algumas ruínas. Era um local simples, tranquilo, desprezado pelos outros, fora do corrupio habitual em que todos se querem ver, em que todos se sentem vivos porque os outros também lá estão. Talvez, ali, conseguissem momentos de pausa, mesmo que curtos, em que pudessem respirar, profundamente, tudo o que os norteava.
Jonas, que liderava o grupo, sabia que não os deixariam ficar ali muito tempo, mas não partilhou, com os outros, os seus receios. Era apenas uma pausa, mais uma, apesar de procederem como se o melhor fosse possível. Talvez fosse desta, pensavam eles. Mas Jonas, lá no fundo, sabia que estavam demasiado habituados a olhar para as estrelas, a tê-las por companhia.
Repararam o essencial das paredes, taparam fendas, deram sentido aos telhados. Escolheram os melhores locais para cultivar, semearam, limparam o terreno circundante. Nos tempos de repouso, em que todos se olhavam, havia sempre alguém que trauteava canções antigas, quem perscrutasse o futuro, quem dançasse, quem contasse histórias...
Começavam a habituar-se, coisa rara, mas um dia chegou um jipe com homens de uniforme. Receberam-nos com o melhor que tinham, tentaram conversar, mas os rostos dos visitantes, fechados, nunca destoaram da farda. Fizeram perguntas, pediram documentos, escrevinharam num livro. À despedida, impassíveis, deixaram a sentença: tinham que partir.
No dia seguinte, bem cedo, despediram-se do vale e empreenderam nova marcha. Um ou outro do grupo ainda olhou para trás, mas por pouco tempo. A herança era pesada, mas teimavam em procurar, sem saber bem onde, um local onde a palavra liberdade fizesse todo o sentido. E, embora em tom de lamento, cantavam, dentro de si nunca deixavam de cantar.
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A MINHA AMENDOEIRA

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Fotografia de AC
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O sol, hoje, parece andar arredio, como que a lembrar aos participantes dos desfiles de carnaval que nem tudo depende da nossa vontade, exigindo alma até almeida aos adeptos de parcas roupas. Hemisfério norte oblige. As árvores, contudo, imunes aos humores de quem decide, parecem já ter nascido de sobreaviso: resplandecem perante a euforia solar, resguardam-se quando as nuvens, em concreta afirmação, se assumem como parceiro a ter em conta.
A minha amendoeira, feliz, vai registando a eterna luta dos elementos. Jovem, plena de viço, pouca importância lhes parece dar. O mundo que conhece, o circundante, presta-lhe vassalagem, sente que tudo parece ao seu alcance. E cresce, vigorosa, plena de flores, enfeitiçando as abelhas das redondezas.
Por perto, em descanso activo na pausa escolar, vou cavando aqui, fazendo um enxerto ali, plantando (um hibisco, desta vez) ali. A amendoeira, ciosa do seu papel de porteira dos assomos primaveris, teima em piscar-me o olho. E só quando, já de máquina fotográfica em riste, lhe devolvo o piscar, é que ela me concede tréguas.
A manhã, por entre naturais divagações, passa num ápice. É tempo de pausa, de banho, de uma boa refeição. No portão, em tom caloroso, o primeiro convidado já se faz sentir.
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sábado, 25 de fevereiro de 2017

GRAAL DA SENHORA DOS CAMINHANTES

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Pintura de Vladimir Kush
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Era tão grande o coração
tamanha a ilusão
que tão grande envolvimento
lhe moldava
cegamente
o pensamento.
Mas, que importava?
Quanto mais caminhava
mais se envolvia
em busca do segredo do abraço
que domasse o andar do compasso
que fizesse iludir o tempo.
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sábado, 18 de fevereiro de 2017

CLARIDADE

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Fotografia de Júlia Tigeleiro
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Há dias em que, quando a claridade chega, teimas em te enfeitar, vestindo as roupas mais claras. 
Dizes, com invejável serenidade, que cada hora tem os seus rituais, que a harmonia se alimenta de estados, de vontades, de comunhões. Se recebes claridade tens que, em humilde postura, ser elo transmissor, que a reflectir para tudo o que te envolve, te rodeia, para a diversidade do mundo que, até ao momento, conseguiste abranger. 
Ainda argumento, em exercício simulado, só para te ouvir, que a luz poderá ter mil leituras, com postos de recepção diferentes, mas tu, leitora atenta da forma e da tonalidade das nuvens, limitas-te a sorrir, persistindo em transmitir a claridade que te envolve. É assim que sentes a vida, é assim que a tentas abraçar. 
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ACERCA DA LEVEZA DA NEVE, EM MODO CONFORTÁVEL

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Fotografia de AC
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quando cai neve
nada prescreve
nada se deve
tudo parece leve
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quando neva
nada me leva
tudo me enleva
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Fotografia de AC
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TEAR

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Fotografia de AC
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Gosto do teu sorriso, sempre gostei. Lembras-te quando, em delicioso jogo de permanente descoberta, teimavas em escondê-lo, dissimuladamente, para eu o adivinhar? Era no tempo em que apenas tinhas olhos para o brilho das rosas, inebriada pelo seu perfume, deixando na sombra uma infinidade de pequenos sinais. 
Agora, quando sorris, o toque é mais discreto e profundo. Aprendeste que o dia não é só feito de alvores e ocasos, que é nesse intervalo que muito se conjuga da consistência dos passos, nem sempre embalados pelo canto das aves. Caminhaste tanto que, quando olhas para as coisas, o sorriso, mesmo em esboço, é bordado pelos mais finos teares de compreensão da vida.
Hoje, eterno cúmplice de mil estradas, já não espero pelo teu sorriso. Sei que, para lá dos humores do tempo, acabaremos por nos encontrar em qualquer parte do dia.
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sábado, 4 de fevereiro de 2017

RASTEJAR, ALEGREMENTE, NA AUSÊNCIA DA SEMENTE

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Fotografia de AC
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A semana foi intensa, com as exigências do trabalho a ofuscar qualquer olhar circundante, possível passaporte para amenizar a ditadura da obsessão produtiva. 
A escola, meu local de realização profissional, está a tornar-se, cada vez mais, epicentro único do percurso educacional, relegando a família para segundo plano. Por melhores que sejam as intenções, a verdade é que a maioria dos alunos deste país - há excepções, todos sabemos - apenas convive com os pais ao deitar e ao levantar e, quase sempre, com uma disponibilidade deficitária: à noite estão todos cansados, de manhã é o desagradável despertador a ditar leis, dando o sinal de partida para nova correria. Nas escolas, assumindo múltiplas facetas (professor, pai, psicólogo, enfermeiro, confidente...) os professores - alguns, é certo, mas creio que parte significativa - fazem o que podem, tentando que a compreensão da estrutura da vida faça sentido; lá fora os pais esforçam-se por cumprir as exigências, cada vez mais musculadas, dos horários de trabalho, moldando-se à luta pela sobrevivência, ao mesmo tempo que aconchegam, por mais discreta, a esperança dum amanhã mais desanuviador; os políticos fazem contas às metas, analisando obscuros mapas e gélidas grelhas, procurando ir ao encontro das exigências do verdadeiro poder, que se esconde na sombra, sob um imposto denominador comum: o obscurecer da essência humana; a maioria dos meios de comunicação social, adaptados ao papel de modernos necrófagos, teimam em explorar a miséria das pessoas; discute-se, na Assembleia da República, o incómodo tema da eutanásia, mas os argumentos são mais calorosos que esclarecidos; as alegrias e tristezas da tribo refugiam-se, cada vez mais, em obscuros futebóis, verdadeiro muro das lamentações...
Curiosamente, ou talvez não, e atendendo à efervescência do Facebook, toda a gente parece contente, radiante, a vida parece um mar de rosas. É preciso, acima de tudo, parecer, enquanto, paralelamente, os radicalismos se insinuam, cada vez mais, para lá das sombras.
Lá fora, enquanto escrevo, a chuva não cessa. Já ousei desafiá-la para ver a horta, devidamente protegido, embora não consiga passar por entre os pingos. As ervilhas, os alhos e as favas estão sorridentes, os tempos correm-lhes de feição. E, na mais pura candura, começam a exibir um verde claro, vivo, próprio de quem se quer criar. Sinto a energia positiva a invadir-me, rasgando o meu sorriso. Estava em défice, confesso.
Procuro uma fotografia para ilustrar o texto, mas a semana, amordaçante, não foi propícia à captura de novos olhares. Recorro ao ficheiro e detenho-me numa recente: a entrada da toca dum rastejante. Bem vistas as coisas, talvez os tempos estejam propícios a isso.
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