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sábado, 23 de outubro de 2021

A SEMENTE

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Cavalgamos, às vezes sem aparente rumo, os desafios ímpares da vida, por demais complexos. Irrompemos, cambaleamos, às vezes caímos, para logo a seguir nos levantarmos, entoando, desejavelmente, hinos de confiança na ressaca. Continuamos a desbravar, inoculamo-nos contra as tentações do abismo, sempre sedutor, e, por entre a neblina, por vezes conseguimos divisar um vale fértil, propício a sonhos e a utopias. E voltamos a irromper, agora num investimento mais abrangente, mais tolerante. E semeamos. Porque, entretanto, algo aprendemos no caminho. 
O meu neto, o Miguel, nasceu em plena pandemia, numa altura em que, para lá das indefinições de sempre, tudo era colocado em causa. Sentindo, bem atento, a ansiedade dos pais, adquiri a convicção de que, por mais ameaçadores que sejam os cenários, a confiança e a esperança renovam-se sempre com o aparecimento dum novo ser. E, o que é reconfortante, o sorriso brota, naturalmente, fruto da força emanada duma convicção ancestral.
O Miguel, nós sabemos, irá enfrentar um mundo em contínua mudança, pleno de desafios, em que nada é garantido. Mas cá estaremos para amar, para educar, para serenar, para ajudar a apaziguar qualquer fantasma que se insinue no seu percurso. Com a premissa, condição sine qua non, da liberdade, do livre arbítrio e do bem fazer, questões que, em última instância, no momento da decisão, só a ele dizem respeito. Como se fosse uma semente em perpétuo movimento, com raízes cultoras do abraço, sempre em busca da cumplicidade, da perseverança, da justiça, da abrangência, de ser feliz com os outros... 
Vai ter um percurso fácil? Não, não é o que se divisa. Mas vai, no que depender de nós, encerrar dentro de si uma vontade intrínseca de ser uma pessoa boa, melhor a cada passo, com a certeza de que, para além da determinação, nada poderá ser alcançado sem a cumplicidade dos outros. Assim transporte ele, e os da sua geração, apesar do árduo trabalho que os aguarda, a semente mais adequada. 
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sábado, 6 de janeiro de 2018

LEVES ROTINAS, PROFUNDOS SENTIRES

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Luís Portugal, Uma semente
(A gravação não é das melhores, mas o timbre de quem sente o que canta está lá. E é destas coisas que eu gosto, fora dos corredores de quem decide e faz opinião)
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Havia um vislumbre de esperança para cá da encumeada, como se, de repente, fazendo negaças ao nevoeiro, algo permitisse que a terra sorrisse para a semente. Talvez fossem meras tréguas, talvez ilusão, mas era quanto bastava. Ansiava-se, acima de tudo, por um sinal, dum raio que golpeasse o marasmo, dum qualquer movimento que mantivesse a chama viva.
De fora chegavam alertas, como se a angústia tivesse a mesma forma e conteúdo em qualquer lugar. Mas, apesar de agitados, os mensageiros não se mexiam. Lá no fundo aguardavam por algo redentor, como que apeados de qualquer decisão. Entregavam o seu desígnio à mercê do que viam, mas não entendiam.
Continuo, convicto, a acariciar a terra, num ritual que me alheia do passar do tempo. De vez em quando surge a pausa, o olhar em volta. Na zona inculta, mais além, os rosmaninhos, apesar dos resquícios da murcha flor, mantêm-se vivos, embora sem viço, como que ganhando ânimo para o desejado esplendor; a poupa, cliente habitual, sempre sensível ao mínimo movimento, teima em debicar onde parece que nada há; os pardais, sinónimo de omnipresença, parecem alheios a qualquer movimentação, fadados que estão para se sentirem livres em qualquer lugar; lá em cima, em atalaia permanente, uma ou outra ave de rapina, em elegante planar, tenta descortinar algo que valha a pena um mergulho.
Às tantas retiro-me, devagar, como se cada passo transportasse algo de precioso. Decorridos uns metros, poucos, insinua-se o ritual: volto-me, apoio-me na enxada e olho, satisfeito, para a terra remexida. Agradeço, mentalmente, a harmonia concedida e, sempre devagar, dirijo-me para casa. Estava na hora do banho, duma boa refeição, dum bom vinho. Depois, quem sabe, talvez a lareira me seduzisse para folhear um livro, ao som duma música calma.
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