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domingo, 21 de abril de 2024

OBSOLETA CRONIQUETA

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Foto de AC
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A enxada, extremidade natural dos braços, com razão e com tempo, começou a rasgar a terra com a atenção que ela merecia. 
As ervas eram um obstáculo, mas apenas pela sua delicadeza, pois cada pormenor evidenciado - a forma das folhas, a flor que se desenhava... - era constante empecilho para um cavador demasiado sensível àquilo que o rodeava. Mas, por entre tratados inaudíveis para o exterior, que apenas diziam respeito ao portador da enxada e às espécies invadidas, lá se foi criando um compromisso apaziguador de consciências. E a terra foi-se preparando, com algum trauteio, de modo a receber algumas novas espécies.
O desafio, desta vez, era aconchegar as alfaces ao calor confraternizante dum canteiro semi-selvagem, onde algumas espécies cultivadas convivessem com rosmaninhos, muito senhores dos seus domínios, em perfeita harmonia. E, sempre com outras ervas de permeio, tentou-se que as alfaces se integrassem na irmandade, qual retrato duma talvez efémera tentativa de remediar os males do mundo. Utopia na sua mais pura essência, é bom de ver, com a vantagem de se poder usufruir de cores e odores. Até porque a música de fundo estava mais que garantida, pois a passarada, por aqui, é dona por inteiro do lugar.
O Miguel, a três meses de fazer quatro anos, às vezes irrompe por aqui, sedento de conhecimentos e brincadeiras, sempre com um olhar atento por perto. Já dá atenção aos pássaros, começa a tratar as flores e as borboletas por tu, numa forma muito própria, mas com as abelhas ainda existe uma distância prudente. Tem tempo.
Perante tal cenário, e longe de Instagrams, Facebooks e outros que tais, por opção, digam-me lá uma coisa, que ninguém nos ouve: estarei fora de moda? Perdoem-me, desde já, o meu irónico sorriso. :)
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domingo, 23 de abril de 2023

FOREVER YOUNG

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Margarida Cepêda, O rei e o cavalo
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Ele costuma chegar, confiante, distribuindo abraços como se fosse a coisa mais natural do mundo. 
Ainda não fez três anos- faltam três meses - mas apodera-se da casa como se fosse sua, qual governante a quem apenas a boa disposição e a alegria sejam coisas a ter em conta. E, por entre brincadeiras sem fim, não se coíbe de beijar, ou abraçar, quando sente que é caso para isso.
- Avô, anda escondê! - solicita ele, na sua linguagem muito própria.
E eu lá vou, de coração cheio, brincando ao faz de conta com mantas a servir de tenda, com o sorriso dele a comunicar, de tão cúmplice, como se me desse a mão. Os outros, entrando no jogo, vão pintalgando o ar de expectativas, com muito açúcar, soltando a cada passo:
- Onde está o Miguel?
- Está aqui! - grita ele, esfuziante, ao fim dum certo tempo (pouco, mas para ele é muito) como se da novidade mais importante se tratasse.
O Miguel cresce a olhos vistos, rodeado de amor em todos os quadrantes, e ele retribui, retribui sempre, olhos nos olhos, confiante em tudo o que o rodeia.
- Avô, anda, vamos lá fora!
O avô, transbordando duma ternura que tem sempre retorno, até de mais, dá a mão ao novel habitante da tribo, encaminhando-o para os primeiros voos do contacto com a natureza.
- O que é isto?! - exclama ele, perante o cantarolar de um pássaro.
O Miguel, ao contrário do avô, vive num apartamento, na segurança da proximidade dos outros, mas longe dos sons naturais que enriquecem qualquer ser. Pacientemente, com muita ternura à mistura, lá lhe vou explicando o som dos pássaros, o voo de cada um deles, a azáfama das abelhas, o voo silencioso das borboletas...
O Miguel, a pouco e pouco, vai absorvendo uma nova linguagem, que não a sua, mas que tende a interiorizar. E, por mais informação que se lhe faculte, uma coisa me orgulha, profundamente: ele continua a abraçar, incondicionalmente, tudo aquilo que passe no seu filtro de gostar, tudo aquilo que o faz sentir feliz.
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sábado, 25 de fevereiro de 2023

NÃO CHORA, NÃO?!

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Margarida Cepêda, Transparente
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Após uma actividade qualquer, algures a meio da cidade, os pais do Miguel, o meu neto, e os da Diana, uma amiga de creche, resolveram ir até ao Parque Verde. Aí chegados, o escorrega foi o divertimento de eleição para as duas crianças, ambas com cerca de dois anos e meio.
A brincadeira começou, os risos soltaram-se e, para eles, parecia não haver fim à vista, com os adultos, por perto, agradados com o desenrolar. 
O tempo foi passando e, às tantas, os pais da Diana começaram a olhar para o relógio, pois tinham outro compromisso. Com todo o jeito possível, abeiraram-se da menina e disseram-lhe que tinham que ir embora. A pequena, contudo, estava a adorar a brincadeira e, vai não vai, resolveu socorrer-se do argumento mais eficaz que conhecia para a poder perpetuar: começou a chorar. Nestas alturas, já se sabe, os adultos tentam tudo para acalmar a criança, cada um tentando ser mais convincente que o outro. 
Por entre a agitação, quase ninguém reparou no Miguel que, compenetrado, olhava para o chão em busca de qualquer coisa. Às tantas pareceu satisfeito, apanhou o que queria e aproximou-se da amiga, que continuava a chorar. Depois, com ar quase solene, mas pejado de carinho, estendeu a mão, abriu-a, deixando ver uma uma pequeníssima pedra brilhante, e disse-lhe, com o encanto que só as crianças sabem ter:
- Toma, Diana. Não chora, não?!
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domingo, 5 de fevereiro de 2023

QUANDO DO ESCURO SE FAZ LUZ

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Margarida Cepêda, Violino e chantili
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Ele chegou cedo, tal como estava previamente combinado, sendo recebido com todas as mordomias por quem estava presente. Mas faltava algo.
- O avô? - questionou ele, perante a imperdoável falta do visado.
O avô, esse compincha dos sete costados, que tinha o condão de poder voltar a menino na sua presença, estivera de véspera a ver um filme, que o prendera até tarde, sem noção das horas, e só agora começava a abrir os olhos. Contudo, mal se apercebeu dos primeiros sinais do neto, levantou-se num ápice, qual adolescente no encontro com o primeiro amor e, abrindo os braços, exclamou, de forma espontânea:
- Migueeelll!!!!
O neto, dois anos e meio de gente a crescer, a cada dia que passa, não se coibiu de notar, enquanto o abraçava, em jeito de reprimenda:
- Avô! Tu gostas do escuro?
Na sua interpretação das coisas, qual luz vitoriosa sobre todas as sombras, ele tinha razão, mas deixei as explicações para mais tarde. Limitei-me a abraçá-lo, ainda mais, qual manto protector de todos os males do mundo. 
Faz-me tão bem, este menino!
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

SINAIS DE BEM FAZER, SINAIS DE BEM HAVER

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Margarida Cepêda, Frescura
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Tem pouco mais de ano e meio. É vivaço, meigo e perspicaz e, às vezes, atendendo à forma como interage com os outros, parece ter mais idade. Dispenso-me de mais pormenores, pois é meu neto, e tudo o que disser parecerá sempre exagerado.
Ontem, na creche que frequenta, o Miguel foi ter com a educadora, ocupada em dar vazão às necessidades doutra criança. Concluída a tarefa, e perante os sinais inequívocos do solicitador, foi conduzida, de forma determinada, para a estante dos brinquedos. Aparentando saber bem ao que ia, o Miguel retirou um carrinho e encaminhou-se, sem hesitações, para determinado ponto da sala, fora dos holofotes da acção, onde uma criança se mantinha em posição apática, pois revela dificuldades de locomoção. Aí chegado, e sempre sob o olhar atento da educadora, deu o brinquedo ao colega e, não satisfeito, deu-lhe um beijinho na testa.
A educadora, incrédula e comovida, não se conteve e correu para abraçar o Miguel.
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sábado, 23 de outubro de 2021

A SEMENTE

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Cavalgamos, às vezes sem aparente rumo, os desafios ímpares da vida, por demais complexos. Irrompemos, cambaleamos, às vezes caímos, para logo a seguir nos levantarmos, entoando, desejavelmente, hinos de confiança na ressaca. Continuamos a desbravar, inoculamo-nos contra as tentações do abismo, sempre sedutor, e, por entre a neblina, por vezes conseguimos divisar um vale fértil, propício a sonhos e a utopias. E voltamos a irromper, agora num investimento mais abrangente, mais tolerante. E semeamos. Porque, entretanto, algo aprendemos no caminho. 
O meu neto, o Miguel, nasceu em plena pandemia, numa altura em que, para lá das indefinições de sempre, tudo era colocado em causa. Sentindo, bem atento, a ansiedade dos pais, adquiri a convicção de que, por mais ameaçadores que sejam os cenários, a confiança e a esperança renovam-se sempre com o aparecimento dum novo ser. E, o que é reconfortante, o sorriso brota, naturalmente, fruto da força emanada duma convicção ancestral.
O Miguel, nós sabemos, irá enfrentar um mundo em contínua mudança, pleno de desafios, em que nada é garantido. Mas cá estaremos para amar, para educar, para serenar, para ajudar a apaziguar qualquer fantasma que se insinue no seu percurso. Com a premissa, condição sine qua non, da liberdade, do livre arbítrio e do bem fazer, questões que, em última instância, no momento da decisão, só a ele dizem respeito. Como se fosse uma semente em perpétuo movimento, com raízes cultoras do abraço, sempre em busca da cumplicidade, da perseverança, da justiça, da abrangência, de ser feliz com os outros... 
Vai ter um percurso fácil? Não, não é o que se divisa. Mas vai, no que depender de nós, encerrar dentro de si uma vontade intrínseca de ser uma pessoa boa, melhor a cada passo, com a certeza de que, para além da determinação, nada poderá ser alcançado sem a cumplicidade dos outros. Assim transporte ele, e os da sua geração, apesar do árduo trabalho que os aguarda, a semente mais adequada. 
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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

ELOGIO DAS COISAS SIMPLES

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Quando o neto chegou, qual momento crucial, deixou que as emoções se soltassem e, num despertar dum outro menino,  sentiu que o corpo, de forma espontânea, se embalava numa dança de sapateado quase sem nexo, mas que, pelos vistos, para o seu inconsciente à flor da pele, a respirar liberdade, fazia todo o sentido.
O Miguel, no colo do pai, deixou que os olhos se iluminassem. E, quando o progenitor o colocou no chão, encetou, também ele, o sapateado que o encantara. Para deslumbre geral.
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domingo, 26 de setembro de 2021

ARROZ DE CAMARÃO COM ABRAÇO SEM FUNDO

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Levantou-se cedo, como era habitual. Após o pequeno almoço, com um livro ao alcance do olho, deixou que a manhã se arrastasse, numa modorra aprazível, espreitando a passarada, de quando em vez, através da vidraça. Tudo estava tranquilo, o mundo parecia no seu lugar. Havia tempo para preparar o almoço.
De repente, qual trombeta de alarme, o telefone entoa a sua cantilena. Quem seria?
Não eram desgraças nem promessas do paraíso, que isto de vender uma ideia tem muito que se lhe diga. Era, muito simplesmente, o filho, a anunciar que chegariam mais cedo para o almoço, pois o Miguel, o seu neto, tinha trocado as voltas ao sono. Olhou para o relógio. Não se podia descuidar, pois o que antes lhe parecia muito passou a ser resvés Campo de Ourique.
Picou a cebola e os alhos e reservou num prato. Depois, sem mais delongas, pegou em dois tomates maduros, vindos directamente da horta, tirou-lhes a pele e passou-os pela trituradora. Voltou a reservar. A seguir, tentando manter-se organizado, pegou no tacho das grandes ocasiões e preencheu-lhe o fundo com azeite da região, acrescentando-lhe uma folha de louro. Parou um pouco para pensar. Sim, parecia que tudo estava segundo os conformes. E retomou a azáfama. Tirou os camarões do frigorífico, acenou-lhes com o olhar e, após deixar a cebola e o alho a refogar - e recordou-se que no norte se diz esturgir - começou-os a descascar, reservando as cabeças num prato. Pelo meio, e quando se certificou que o refogado estava no ponto, acrescentou-lhe o tomate triturado, em lume brando, a fim de apurar da melhor forma. Depois, concluído o descasque, deixou os moçoilos camarões a exibir a sua nudez, muniu-se duma varinha mágica, meteu as cabeças num copo e triturou-as comme il fault. Era este o verdadeiro segredo da receita.
Voltou a fazer um compasso de espera, contrariando o tempo, enquanto apelava à memória que lhe indicasse o que faltava. Não era muito.
O tomate parecia já ter apurado. Depois de colocar os moçoilos camarões no tacho, aconchegados com o caldo das deliciosas cabecinhas, devidamente coado, mediu a quantidade de arroz - vaporizado, no caso, pois previne qualquer excesso de tempo na cozedura - e acrescentou a água devida, na proporção de 1 por 3, mas já descontando a quantidade de caldo, que quem é habitué na cozinha sabe do que estou a falar.
Entretanto, e depois de colocada uma pitada de sal e dum pouco de jindungo, deu um saltinho à horta e colheu a salsa suficiente para um agradável raminho de cheiros.
Chegaram à hora, os pais puseram a mesa e ele, qual recompensa abençoada, deixou-se envolver pelos braços do Miguel. O arroz de camarão, regado com um verde Deuladeu, da casta Alvarinho, era para ser fruído como deve ser, em aprazível convívio. Mas antes, e mais que tudo, o calor daquele abraço era para ser sentido, fruído, pois não tinha correspondência em qualquer dicionário, a não ser o da alma.
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domingo, 23 de maio de 2021

DE CARA LAVADA

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Fotografia de AC
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Foi na semana passada, com mais uns trocos. Tinha chovido com alguma moderação, embora de forma persistente, como que a querer abençoar o que já estava plantado. As plantas, de cara lavada - a olho nu mais as árvores, mas creio que eram todas, principalmente as silvestres - galgaram uma nova dimensão, plenas de dignidade, como que a querer dizer que nada é perpétuo, que tudo está em movimento. Assim haja carinho, respeito, assim hajam uns pingos de água. E eu, eterno aprendiz da vida, meti mais uma vez a viola no saco, enquanto anotava, mentalmente, o simples, mas complexo, da questão. Seria assim tão linear? Hesito perante a interrogação, mas apenas por breves momentos. A complexidade coloca-se a quem não entende, não saboreia, não comunga, a quem apenas funciona com um talão, de preferência com número de contribuinte. Adiante, que a passarada já se faz notar.
As aves podem ter amainado o canto, ainda que por momentos, mas os pardais, sempre omnipresentes, mais uns melros atrevidos, com ninho nas redondezas – eu suspeito onde, mas não vou lá, pois o acontecido, há cerca de um mês, serviu-me de lição – não se coíbem, com movimentos rápidos e elegantes, de se passearem pela terra fresca, em busca duma qualquer lagarta desprevenida, obrigada a sair do submundo, por excesso de água. Lá no alto, imperiais, as aves de rapina parecem planar alheias de tudo, mas é só aparência. Elas sabem bem ao que andam, atentas ao mínimo movimento daquilo que lhes interessa.
Cá dentro, por detrás da vidraça, as coisas ganham outra configuração. Ainda tento ir lá fora para me integrar no novo cenário, mas algo me diz que há coisas, para serem verdadeiramente autênticas, que não carecem da nossa pegada. Por mais ínfima. E eu, respeitosamente, obedeço ao apelo deste pedaço de terra que me tem enfeitado os dias, qual legado para as novas gerações. E aí, se me permitem, penso imediatamente no Miguel, o meu querido neto, e em todas as crianças da sua geração. E, para adoçar a trégua, a música discorre, a gosto, alimentando a convicção.
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domingo, 31 de janeiro de 2021

DIÁRIO - 19

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Hoje, com todos os cuidados, houve visita do Miguel. Foi o suficiente para agitar a casa, em tons festivos, dando cor e substância a todos os recantos, com encantos e alguns cantos. Até eu cantei, entre múltiplas manifestações, aparentemente estranhas, que os adultos costumam adoptar com os bebés. Parecemos uns totós, mas sabe bem. 😊
A reboque também veio o Whisky, o cão arraçado de boxer, campeão de mimos e simpatias que insiste, numa manifestação muito própria, em querer brincar com um pau. De vez em quando, qual ambiente perfeitamente equilibrado, alguém lhe faz a vontade, em modo quanto baste. É claro que, com a sua presença, nunca mais ninguém viu o gato que teima em não sair daqui. Deve estar num observatório privilegiado, a ver como param as modas, à espera da melhor oportunidade para retomar o espaço que já sente seu. 
O Miguel, desta vez, não fica muito tempo, pois os pais têm que viajar para o Porto, por motivos profissionais, e não dispensam a sua presença. Enquanto puderem, e não depende só deles, querem ser pais a tempo inteiro, revezando-se no apoio, tentando conciliar o tele-trabalho de um com o trabalho presencial do outro. Por lá ficarão três dias, os necessários para dar vazão a um protocolo experimental, já bastante adiantado, com uma empresa do norte, ligada à investigação, e depois regressam à base. No fundo, e apesar das ausências, sinto-me grato por sentir, na prática deles, que é possível usufruir da qualidade de vida do interior e, em simultâneo, corresponder às exigências do mundo actual. Assim eles o queiram, assim as circunstâncias o permitam.
Aceno na despedida e, num modo muito íntimo, embora, de certa forma, egoísta, sinto que tenho tanto para lhe dizer, assim ele queira ouvir, acerca de equilíbrios, de olhares, de viagens, de afectos, da Natureza...! Ah, Miguel, meu amor, meu querido neto!
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

DIÁRIO - 8

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Num dia em que se bateram todos os máximos, no que à Covid diz respeito, refugio-me na figura do Miguel, sempre omnipresente, qual raio de luz a alegrar a minha existência. E, peço-vos, sejam clementes com as palavras que lhe dirijo, improvisadas na hora, em jeito de lengalenga, qual avô que, de tão babado, mal consegue esconder o sorriso. E isso é muito bom, podem crer. 
Um dia destes vou começar a soletrar-lhe a cantilena.
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Onde vai o Miguel
De cabelos cor de mel
Com um fio de cordel?
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Vai ao Cabo Espichel 
Munido dum farnel
Ver a onda e o batel.
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Onde está o amigão
Com sorrisos sempre à mão
Inundando o coração?
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Está no colo de sua mãe
A sentir o que é o bem
Que ela vai, mas sempre vem.
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Que é feito do menino
Sendo grande, é pequenino
E me faz fazer o pino?
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Foi fazer um soninho 
E sonhar c'um abracinho
Mãe e pai, nunca sozinho.
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Quem é o rei da brincadeira
Seja ao sol, seja à lareira
A rir de qualquer maneira?
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É o Miguel, podem crer
A sorrir e a comer
É o maior, é bom de ver.
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Não tenho visitado os blogues das pessoas que me são caras, é um facto. Está na altura de o fazer. Até já.
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sábado, 16 de janeiro de 2021

DIÁRIO - 4

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Mudam-se os tempos e, ao contrário do que o grande Camões auspiciava, não se mudam as vontades. Muda-se, quanto muito, a cosmética, tal como constatou Tomasi de Lampedusa no seu magnífico romance "O Leopardo". Recomendo profundamente.
Chegam-me notícias dum familiar que esteve em contacto com um infectado com Covid-19. Há alarme geral, com algumas pessoas - poucas, felizmente - em comoção, como se a peste negra chegasse à família. A pessoa em questão já está em quarentena, apesar de, na altura do contacto, usar máscara (tal como o infectado) e de se ter mantido a uma distância prudente. Para todos os efeitos, dentro de dois dias vai fazer o teste. Em suma: por mais que nos mentalizemos das medidas certas a tomar, a irracionalidade tem sempre campo de manobra. Com efeitos colaterais, pois é claro.
A lareira crepita. Entretanto, para amenizar a coisa, chegam-me imagens do Miguel através duma vídeo-chamada. E então, qual mezinha abençoada, tudo fica para trás. O catraio está lindo, ávido de interagir, não se escusando à prova de novos sabores, para lá do leite materno: brócolos e cenoura. É verdade que, no início, ele estranhou, mas, tal como na genial frase de Fernando Pessoa aquando do lançamento, nos primórdios, da Coca-Cola em Portugal, depois ele entranhou. E, para terminar, por hoje, nada melhor que socorrer-me de Mestre Gil (Vicente), quando escreveu em título, publicando, que "E assim se fazem as cousas". Dito isto, e procurando analisar tudo o que surgiu de sopetão, deixo o teclado em repouso.
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terça-feira, 8 de dezembro de 2020

CRÓNICA A PRETO E BRANCO, COM FORTE ASSOMO DE CORES

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AC, Gardunha vista do pequeno paraíso
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A manhã acordou escura e fria, reivindicando grossas roupas de lã, enquanto convidava, sem qualquer favor, ao recolhimento. Como a Natureza, sabemos nós, é avessa a salamaleques, é melhor dizer que, onde se estampa convite, se deve ler obrigação.
A reserva de lenha, no abrigo, assoma ao espírito, mas sem necessidade. Ainda por ali há combustível, com a lareira a laborar diariamente, para cerca de um mês. Há, no entanto, que providenciar para uma nova leva de lenha grossa, de sobro ou de azinho, que de lenha miúda, para iniciar a combustão, há muita por aqui.
O Whisky, um canídeo que é hóspede habitual, parece não sentir o frio. Clama por companhia, de pau na boca, para exibir a sua perícia escapatória, numa espécie de toca e foge, em que o desafiado tem que fazer o papel de cobaia, a fazer de conta que se esforça para o apanhar. É claro que, para seu deleite, o cão leva sempre a melhor, enquanto o oponente arfa, rendido, mas sorridente.
No terreno circundante, para além da área ajardinada, da horta de verão já só sobram couves e alho francês. Há, pois, que preparar a terra para a horta de inverno, que já não é cedo para iniciar o cultivo dos alhos, das favas e das ervilhas. Tal como os dias, diz o ditado que, no dia de Natal, os alhos já têm um bico de pardal.
A neve na Gardunha, mais escassa, contrasta com a abundância de branco na Estrela, mais a norte, mas com a certeza de que os cerejais agradecem a dádiva, tamanha, para eliminar as diversas pragas. Deleito-me, num epicentro de delícias várias, grato por usufruir dum horizonte tão gratificante.
Vou ao abrigo para abastecer a lareira de lenha e, por ente os paus, deparo-me com uma vespa em estado, parece-me, de hibernação. E, a propósito de tudo, ou de nada, assoma-me ao pensamento o tal bichinho omnipresente, que a todos condiciona. Oxalá a neve o aniquilasse, ou, no mínimo, adormecesse, mas parece que o frio tem efeito contrário. É por estas e por outras que ninguém quer o termómetro na mó de baixo nos contornos da sua vida. Por inerência, penso no Natal que se aproxima, em que um "bicho" maior deveria ser foco canalizador dum amor mais elevado. Mas, rendendo-me à evidência, condicionados pelas grilhetas, já quase todos se renderam às luzes ofuscantes dum amor menor, vendido em episódios, redimensionado, a todo o instante, pelos números duma qualquer caixa registadora. Adiante.
Chegam-me, entretanto, notícias do Miguel, num vídeo em que o meu neto evidencia, a cada dia que passa, uma vontade genuína de abraçar o mundo que, paulatinamente, se vai desenhando nos seus sentidos, ancorado, sempre, numa imensa ternura. Sorrio, de peito aberto, pois há coisas que não têm preço.
E a vida prossegue, bem apoiada em convicções tecidas em esperança, enquanto inicio o despertar da lareira com recurso a duas pinhas, apanhadas no final do verão num dos muitos pinhais das redondezas.
A paisagem pode arrefecer, mas a alma, em momento algum, pode deixar de se tentar aquecer. É do nosso desígnio.
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quarta-feira, 22 de julho de 2020

MIGUEL

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Pormenor de A Criação, de Miguel Ângelo
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Há um novo ser que desponta, rompendo as águas
um jardim que renasce, adornando a vida
a esperança a montar residência em todos aqueles  que o rodeiam.
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A vida, assim, é mesmo bela.
Bem-vindo, Miguel!
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