sábado, 26 de novembro de 2011

OXIGENAÇÃO

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Fotografia de al-Farrob
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Desmontou da bicicleta no cruzamento que dá acesso à Pedra d'Hera, no caminho rural que liga o Souto da Casa a Alcongosta, e prendeu-a com o cadeado no tronco carcomido dum velho castanheiro. Olhou em volta e, por momentos, deixou que a vista se espraiasse na tonalidade outonal dos cerejais que se espalhavam pelo vale do Alcambar, verdadeira sinfonia pinturesca em tons cambiados de verde, amarelo, castanho, laranja... Resistiu à tentação de se perder naquela beleza e iniciou a marcha que a levaria ao Picoto, local privilegiado onde costumava sentir uma serenidade que estava longe de encontrar na cidade.
À medida que subia apercebeu-se que as surribas feitas pelos plantadores de cerejeiras continuavam a trepar a serra com uma avidez feroz, pondo a nu as fragilidades da política ambiental para aquela zona, se é que realmente havia alguma. Aquilo doía-lhe profundamente, pois a mancha de castanheiros e de carvalhos, que caracterizavam a Gardunha, estava a desaparecer a olhos vistos, com o silêncio cúmplice duma opinião pública que nunca se assumiu como tal.
Tentou alhear-se do problema, pois estava ali com outros intuitos, e alargou o olhar. Em volta, para seu deleite, e impregnando a paisagem de uma dignidade nostálgica, os castinçais começavam a mudar de cor, com uma policromia que tocaria a mais indiferente das criaturas. Inês começou a sentir o efeito da atmosfera envolvente e, a pouco e pouco, foi apaziguando os seus pequenos demónios interiores. Nem a carcaça duma velha máquina de lavar, a cinco metros do caminho, lhe conseguiu desfazer aquela sensação reconfortante. Os diabinhos do seu descontentamento ainda deitaram a cabeça de fora, tentando explorar a pouca fé que lhe restava na espécie humana, lembrando-lhe a notícia sobre os detritos perigosos que alguém, com certeza com as mãos muito bem untadas, andava a depositar na Serra dos Candeeiros. Mas Inês estava a entrar no seu território, e ali era-lhe relativamente fácil resistir a negativismos. Continuou a subir, sentindo-se cada vez mais ligada à paisagem.
Quando chegou ao Picoto, o seu refúgio de eleição, trepou os rochedos e instalou-se no cume. À sua frente tinha a majestosa Estrela, o enorme gigante adormecido, e entre as duas serras espalhavam-se os promissores campos da Cova da Beira, iludidos durante décadas com a promessa de um regadio que já usava bengala carunchosa. Assomando dos lados de Belmonte, vindo duma Estrela generosa em recursos hídricos, o Zêzere era um arremedo do rio cheio de vida de há uma trintena. Vítima de uma mistura explosiva - ignorância, incompetência e ganância - em poucos anos transformara-se num rio moribundo, suscitando nas populações ribeirinhas a nostalgia dos refrescantes banhos estivais e de frutuosas pescarias que patrocinavam animadas tertúlias. Reparou, sem surpresa, que o casario entre o Fundão e a Covilhã era cada vez mais intenso, trazendo à liça da memória as previsões daqueles que auguram, a médio prazo, a formação de uma pequena metrópole.
Inês recostou-se sobre um grande bloco de granito e deixou-se invadir pela quietude do local. Quando ali estava os pequenos dramas da sua vida relativizavam-se, como se tudo fosse ínfimo perante a transcendência da vida. Acabara há pouco tempo a relação com o Fernando, e precisava de oxigenar o cérebro. O antigo companheiro, que tanto prometera nos tempos de enamoramento, fora uma desilusão. No final, quando tudo se resumia a nada, Fernando refugiara-se no sofá da sala, base da sua central de zapping. Pôr-lhe as malas à porta, mais que o corolário de uma relação falhada, fora o sinal de que continuava a lutar contra a resignação, que não desistia de encontrar o seu lugar no mundo.
O espírito do local invadia agora Inês na sua plenitude. Deixou que a alma absorvesse aquela amálgama de tranquilidade, sentindo um equilíbrio interior que a fazia estar de bem com o mundo, e deixou que a noção de tempo se fosse esvaindo, a pouco e pouco, até desaparecer por completo.
Enquanto descia, liberta dos seus diabinhos, foi enchendo a pequena mochila de castanhas. Juntamente com uma boa jeropiga, seriam um excelente pretexto para, ao serão, juntar meia dúzia de amigos. A felicidade, estava cada vez mais convicta disso, também passa pelo usufruto dos pequenos prazeres da vida.
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reedição
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sábado, 19 de novembro de 2011

AMARRAS

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Serra do Gerês - Subida no nevoeiro (desconheço o autor)
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Pegas na revista, máquina sedutora premiada na venda de paisagens a sorriso. Entras, pagas, sais, durante uns dias fazes por sentir que desbravas novos horizontes. Tentas prolongar o efeito, esperando dos que te ouvem, na ressaca, um assentimento tácito, mas nem tens tempo de entender o bocejo. O relógio, implacável no garante da manutenção do edifício, emite o sinal de sempre. Transpiras ao som de música repetitiva, monocórdica, o teu passaporte para a próxima montra de evasão. Dormes, corres, comes, os ponteiros são o teu guia. E a promessa do sorriso, à distância de um ano, é almofada onde adormeces os anseios de que já mal te lembras. Dormes, corres, comes. Dás graças por te sentires a salvo na margem certificada e agradeces. Nem por um momento te ocorre rasgar as amarras e ousar arriscar a subida no nevoeiro. Nunca saberás que as mais belas flores se forjam na luta contra o medo.
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sábado, 12 de novembro de 2011

A GARGALHADA DO MELRO-AZUL

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José Pio, Serra da Gardunha
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Nas encostas da Gardunha as folhas vão-se despedindo, lentamente, dos carvalhos e dos castanheiros, atapetando os passos em busca da linguagem do silêncio. Piso-as, agora mais expostas que nunca, quase com receio de as magoar na sua dignidade final. Mas tudo parece tranquilo no seu destino, até o ruído do esmagar das folhas aparenta fazer parte da harmonia envolvente, um quase agradecimento pelo acelerar da passagem a matéria orgânica que sustentará outros crescimentos. A grandeza adormecida das penedias da Estrela, mesmo em frente, é testemunha tranquila do equilíbrio das coisas. A natureza, porém, é livro sempre aberto, lembrando-nos constantemente que tudo é efémero. Não muito longe, a aconselhar prudência, sente-se o fossar dum javali, e a tensão do perigo altera as tonalidades do silêncio. A sensação do todo, aliada da quietude da alma, esvai-se no instinto de sobrevivência, e o bom senso aconselha a retirada. Do alto de um pinheiro, em nota de epílogo, irrompe a presença dum melro-azul, em canto com sabor a gargalhada.
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sábado, 5 de novembro de 2011

MEMÓRIAS DA CHUVA

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Dizes-me que a vida não tem sempre o mesmo tiquetaquear, embora se decore, por vezes, de lembranças e memórias. Apenas às vezes, salientas, pois ela não se circunscreve ao olhar saudoso de alguém sentado num rochedo debruçado sobre o mar. As memórias ajudam, mas como porto de abrigo de afectos desencontrados, nunca como cemitério de ilusões perdidas. Afinal, rematas, o despertar de uma flor, principalmente em local adverso, não abre as mais ínfimas portas da esperança?
A esperança tece-se de muitas formas, replico, e nenhuma é melhor que a outra. Sabes, só aspira à esperança quem vê o horizonte sombrio e não se conforma. Por vezes até os pássaros parecem ter esquecido o seu cantar, mas isso só acontece quando apenas nos concentramos no nosso lamento.
Gostas da chuva a cair-te no rosto, não gostas?, concluis, em sorriso esmeralda.
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sábado, 29 de outubro de 2011

NUVENS - II

.Margarida Cepêda, Pedestal de Solidão e Luz
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Sim, eu sei quanto é reconfortante a ideia do alastrar da terra segura enquanto complemento às nuvens. Nestas navegamos com o sonho por lastro, nela plantamos as conquistas resultantes do enfrentar dos medos.
Precisamos de nuvens, precisamos de terra. Sem amarras nem fronteiras. Então, com as pontes da solidão a tiracolo, talvez o cavalgar das nuvens seja o mais nobre dos destinos.
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sábado, 22 de outubro de 2011

ETERNA CONSTRUÇÃO

.Hélio Cunha, As diversas formas da matéria
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As tuas palavras ganham vida em contornos, esboços de abraço em construção poética, música forjada em nuvens imunes ao ruído. O choro é, em simultâneo, sal e mel, a solidão tem a dualidade fotográfica do positivo negativo. Mas não te basta, não nos basta, queremos respirar por inteiro. Rebobinamos memórias, recordamos babel, o labor da formiga, a beleza fria da estátua. E, dentro da incerteza, uma convicção é possível: queremos calor, queremos horizontes sem muros.
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QUINTAL DA SAUDADE

.Hélio Cunha, Bodas de Sombra
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Uma nova arrumação das palavras, após sugestão da Isabel Fidalgo, do Frutos de Mim e Mar.
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Há sol
muito sol
mas os olhares
teimam em fixar-se
na sombra.
Respiram-se memórias
algumas delas bolorentas
mas não se descobre
o segredo da seiva renovadora.
O meu país
é um sonho permanentemente adiado
tecido em oportunidades perdidas
consumidas em balofas vaidades.
Há sol
muito sol
mas a tristeza
mora no coração das pessoas.
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O meu país teima em ser o quintal da saudade
embalado em lendas de manhãs de nevoeiro.
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sábado, 15 de outubro de 2011

MURMÚRIOS

.Paul Klee, Jardim de rosas
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Chamei-te. Queria partilhar contigo o voo das borboletas. Cansado de esperar que viesses, segui o rumo alado, efémera quimera de fim de tarde. No regresso, já feito lua, senti o perfume das rosas que levava ao teu quintal. Foi então que percebi a promessa do teu voo, enquanto murmuravas as palavras que encantavam a noite.
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Reedição
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sábado, 8 de outubro de 2011

ACERCA DA CUMPLICIDADE

.Hélio Cunha, Illuminata
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Questionam-te acerca da partilha, e tu sabes qual a resposta a dar. Afinal, pormaior inatacável, tens o sustentáculo da leitura dos clássicos, é-te fácil encantar a plateia. Mas não basta. Os clássicos fornecem-te pistas, testemunhos, mas há algo que, para fazer parte do teu edifício, terás que ser tu a trilhar, a descobrir a química apropriada. Olho-te nos olhos e sinto que não te libertas para lá das palavras. Falta-te a chama, o brilho da convicção profunda. E essa só é possível nos andarilhos, naqueles que ousam partir em busca das suas convicções. Muitas vezes, é certo, elas esfumam-se nas pedras do caminho, mas se souberes de que matéria é tecida a coragem irás descobrir que a reformulação é condição dos humildes. Talvez seja, vá lá saber-se, a altura em que descubras que o equilíbrio é sempre coisa ínfima e que, quanto mais souberes, mais estreito ele se torna. Mas a partir daqui já estás noutro patamar. E, apesar de nalguns momentos se insinuar o fel, cada cumplicidade que conseguires almejar terá o sabor da terra do leite e do mel.
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sábado, 1 de outubro de 2011

ECLIPSE

.Hélio Cunha, Eclipse
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Sente-se a inquietação que devasta o respirar de vales e montanhas, perturbando buscas de equilíbrio há muito escritas no livro dos assentos. Socorro-me das memórias do vento, e este sopra-me, como se houvesse forma definitiva, que a verdade vem sempre à tona d'água. Revisitam-me as histórias de serão, onde se cultivava o respeito pelas eólicas barbas brancas, mas as águas são mais de mil, tornando labiríntico o canto da conformidade. Na ágora, cujo respirar ecoa muito para lá das colinas, vigora a apreensão. Sentem-se movimentos de barata tonta, incapazes de lidar com a desdita, mas há quem, munido de sete chaves, aproveite para aprovisionar o bunker. Adivinha-se o apelo da rua, legítimo fôlego dos despojados. Implodido o pombal, mais não resta à pomba que enfrentar as garras do gavião e redescobrir-se em permanente partilha.
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